Death Note e seus personagens não me pertencem.

Obrigada pelos comentários e por estarem aqui novamente.

Espero que se divirtam!

Boa leitura!

Promessas

Capítulo 7

NEAR - New York

O TEMPO, IMPLACÁVEL, passou. Eu não sei dizer se foi depressa ou lento demais. Tudo o que eu tenho são infinitas noites solitárias. E, quando abro os olhos, já se passaram três anos. Eu não sei dizer... Não sei dizer. Não sou capaz de calcular a passagem do tempo. Apenas sei que a saudade não diminuiu um minuto sequer. Nem ao menos, um mísero minuto.

Eu tenho vivido à sombra das minhas lembranças. Ainda que eu saiba que estamos apenas jogando, Mello, eu ainda assim, não sou capaz de dominar a minha saudade. O meu lado humano que eu disfarço tão bem.

Três anos.

Aquela noite, aquela triste noite, em que eu chorei a morte de L e a sua partida, ficou pra trás. Enterrada pelo tempo. Oculta na névoa da memória. Daquele dia, eu me lembro de absolutamente tudo. Daquela semana, daqueles dois meses em que passamos juntos.

Mello, eu me lembro de tudo que diz respeito você. Eu não me esqueci de nenhum momento. Nenhum.

Tudo o que eu tenho... É tudo o que eu tenho. As lembranças, o tempo e a terrível solidão.

Aqui, nesse prédio frio, espaçoso, vazio, estou eu perdendo-me nas minhas lembranças. Sem calor humano. Sem cheiro de chocolate. Sem o som de risos. Do choro de alguma criança. Do sino da capela que nos acordava cedo todas as manhãs. Aqui nesse lugar insípido, o número 1, definha noite após noite.

Agarro-me àquelas lembranças com tal desespero que fadigo-me durante as noites de insônia. Durante as madrugadas, eu me encharco das nossas lembranças, Mello.

As madrugadas hoje são frias. Mas houve um tempo na minha vida, em que você dormia comigo, Mello. Dormíamos, abraçados. Exaustos das atividades diárias, das investigações. Dos estudos. Nós apenas dormíamos, como as crianças que éramos. Tão inocentes, as vezes. Tão pervertidos nas outras.

Eu sinto saudade daquela perversão.

Eu sempre me encaixei tão bem nos teus braços, Mello. Como se um tivesse a medida do outro. E você sempre me ensinava alguma coisa. A maior delas foi o seu silêncio. Eu sorrio ao pensar assim. Logo eu. Logo eu que sempre fui indiferente a tudo e a todos. Logo eu que era evitado por todas as crianças por ser estranho, indiferente, silencioso. E, foi você, quem me ensinou a verdadeira nuance do silêncio.

E, acho que você já sabia. Acho que já tinha previsto que nos separaríamos um dia... Não sei ao certo. Mas você me ensinou o quanto o seu silêncio diz coisas. Como consolo e lenitivo, eu sinto aquele mesmo silêncio, hoje, aqui. Aquele seu silêncio. Único.

Você vociferou a vida inteira. Mas, a sua essência estava no silêncio. Naquele silêncio em que ficávamos no quarto. Eu mirava os seus olhos. Havia uma intensidade que eu nunca pude nomear. Você perdia-se em pensamentos e tudo o que eu queria era saber o que o fazia pensar e meditar. Eu queria poder entender o que deixava a sua expressão tão linda e complicada, Mello. Você sempre me lançava um sorriso meigo quando percebia que eu o estava olhando. Você me embalava. E, seus olhos azuis me perfuravam. Atravessavam o meu peito como uma espada afiada. E, eu desmontava diante do seu olhar profundo. Era tudo o que eu precisava: poder te olhar nos olhos.

Mello.

Minha vida toda se concentrou no Mello. Erámos muito pequenos quando nos conhecemos. E nunca nos dávamos bem. Sempre queríamos as mesmas coisas. Sempre. Um brinquedo, um espaço pra brincar, um lugar pra sentar. Mas eu sempre fui o mais fraco. E sempre perdia. Então exausto, decidi deixar Mello pra trás. Afastei-me dos lugares comuns. De um dia pro outro desistir de ir à sala de brinquedos. E me isolei. Eu fugi daquela dor. Daquela briga. Eu achava bonito ele brigando comigo. Mas sempre doía. Sempre. Os tapas e chutes que ele deferia em mim marcaram a minha infância, mas havia outra dor, que eu não compreendia. E eu fugi. Eu não podia levantar a mão contra ele. Então, criei um muro ao meu redor.

Isolei-me de todos. Isso foi incrivelmente fácil. Eu me espantei ao ver que não sentia falta de estar com todas aquelas crianças. Foi estranho. Eu deveria ter uns oito anos e já estava cansado das pessoas.

Menos dele.

Eu tinha me rendido. Era algo inexplicável. Naquela época eu não sabia o que era. Só sabia que eu tinha que deixá-lo. É claro que ele não se contentou ao ver que eu tinha desistido dele. Sim, porque deixar pra trás todos aquele brinquedos inúteis pelo qual passávamos as manhãs disputando, era também deixá-lo pra trás. Mas ele foi atrás de mim. E riu ao me ver sozinho numa sala pouco habitada. Ele perguntou o que eu estava fazendo ali.

"Fugindo". Foi o que pensei. Contudo, mantive-me quieto. A curiosidade dele era visível.

-Near, o que você está fazendo aqui?

Ele novamente me perguntou aos berros. Eu tremi. E ignorei.

Foi a primeira vez que o ignorei.

Senti seu sangue ferver nas veias. Mas foi diferente de tudo o que tinhámos vivido até ali. Seu sangue ferveu de ódio. Não ousei olhá-lo. Era estranho. Passávamos horas entre tapas e disputas e corridas infantis e ali, estávamos nós, aos extremos. Jovens demais... Mas já estávamos muito longe. Não tinha volta.

Senti um frio passar por minha espinha quando ele se aproximou furtivamente. Ele notou que eu não ia voltar àquela nossa vida. Os brinquedos que estavam ao meu redor eram velhos. Aquele tipo de brinquedo usado e antigo que sempre fica no fundo do baú e que nunca chama atenção. Mas era o que eu tinha. E, o que eu queria. Queria brinquedos velhos para que ele não visse pegar. Para que ele não se aproximasse e me olhasse com aqueles imensos olhos azuis. Para que ele se mantivesse longe o bastante para que eu não sentisse o seu perfume.

Então, pela primeira vez, ele chutou os meus brinquedos.

Eu tremi.

Ele virou as costas e num 'Hunf' saiu da sala velha e vazia na qual eu me encrontrava.

Mas ele voltou no outro dia. E no outro. E no outro... Eu eu estava mais do que rendido aos seus gestos. Reconhecia ao longe o barulho dos passos dele. Estudei-o. E tudo o que descobri dele é: intensidade. Mello é intenso em todas as suas nuances. Não havia nada nele que não ardesse poderosamente. Eu sorria trêmulo ao ver que até mesmo morder uma barra de chocolates era algo intenso. Os dentes brancos circundavam o cacau e partia, quase que insanamente.

Intenso.

Aquela intensidade que eu aprendi a temer e amar. Aquela intensidade que fez ser quem hoje sou. A cada ação minha que o irritava, eu repetia, ele explodia, eu tremia, e continuava com o meu jogo. Tudo pra chamar sua atenção. E ele vinha. Me odiando intensamente por eu ser o número um. E, eu sempre era o número um, porque ele sempre vinha atrás de mim quando eu ganhava dele. E, quando isso ocorria, ele aparecia, completamente transtornado, transbordando seu ódio. Expandindo pela sala. Me atingindo. Esfregando na minha cara o quanto ele me odiava. Mas ele permanecia ali. Comigo. E, eu era o número um e sempre seria. Por que isso o mantinha perto. Intensamente insano, mas perto.

Eu fui crescendo e ele também. O corpo dele... Eu reconhecia cada mudança no seu corpo. A voz mudando, ficando grave. O rosto com o aspecto maduro. E ele vinha me afrontar, com suas palavras ofensivas. E eu o desafiava com o meu silêncio ensurdecedor, que era como um tiro pra ele. Um tiro no ego.

Mello me fez ser quem sou. E, eu o fiz ser como ele é.

Erámos crianças, comuns, queríamos brincar, mas a nossa brincadeira se tornou perigosa.

Cada um encontrou um escape, apenas para nos manter unidos. Nossas disputas dissimuladas. As palavras exageradas dele. A minha indiferença. Entretanto, o nosso teatro só servia para nos mantes próximos. Continuávamos tendo um o outro. Um se intrometendo na vida do outro. As ações dele me mudavam. Assim como eu interferia na vida dele.

Mas ele sempre foi o mais forte. Sempre. Ele não tinha medo de me olhar.

Já eu, nem erguia meus olhos.

Aquele par de olhos azuis insanos que me consomiam... Não, jamais olhá-los.

E o tempo passou.

E eu morri e revivi inúmeras vezes. Mas por fora estava tudo bem. Sempre. E isso o irritava. Isso maculava sua imagem. Porque todos sabíamos quando ele não estava bem.

Enquanto Mello era abundante em deixar suas emoções aflorarem, eu as esmagava.

Enquanto ele corria pra Matt e gritava e chutava, eu entrava no quarto, sentava na minha cama e enrolava uma mecha do meu cabelo.

Céus, e cada dia estava mais difícil. As ações dele estavam cada vez mais profundas. Os meus tremores mais intensos. O meu coração sempre disparando dentro do peito. Eu tinha que pôr um fim naquilo. Porque Mello estava se tornando um monstro dentro de mim. Dominador. Poderoso. Eu não conseguia mais controlar.

Ele cresceu poderosamente, aprofundando suas raízes na minha mente e eu corria. Tentava enfrentá-lo, mas ele sempre me vencia. Ele sempre esmagava as minhas resistências. Mas ele não sabia. Continuava a vida ingênuamente, buscando meios pra me atingir. Mal ele sabia o quanto ele desequilibrava o meu mundo.

Mas isso também acontecia com ele. Nós dois. Um moldando o outro no silêncio.

Até que eu percebi o que sentia. Eu me lembro do exato momento em que percebi o que sentia por Mello. Eu ri da minha cara de idiota. Eu o amava.

Sim eu ri com esse pensamento ultrapassado e brega. Eu senti nojo dessa palavra. Estava tão vulgarizada e barata que eu não permetia usá-la. Então tentei substituir. Mas não há palavra equivalente. Sorri novamente no meio do meu quarto escuro e frio. Ridículo. Eu devia ter uns treze anos quando isso se fez claro na minha mente.

Mello.

Ele não era a minha outra metade. Ele é inteiro. Como eu. Ele é. Ele é Mello.

E isso me preencheu inteiramente. No dia seguinte, lá estava ele, caminhando pelos corredores. Me odiando. Me ofendendo. Me ridicularizando. E eu o amando. Eu sabia que chegaria o dia em que nos separaríamos, isso me assustava. Mas o que fazer? Eu o observava silenciosamente. Das janelas eu o observava caminhando imponente entre as outras crianças. Eu o obervava ri e jogar a cabeça pro lado. Eu filmava o movimento dele de jogar a franja pra trás. Eu não parava de olhá-lo. Mas também sou forte. E, esmagava cada vez mais o ódio dele. Fazendo-o me odiar ainda mais. Eu fazia questão de ser superior à ele. Eu, esmagava-o com a minha perpicaz e sagacidade. Ele, me esmagava com aquele olhar que eu lutava pra não encarar.

Mello. Intenso. Extremo. Abundante.

E, três anos já se passaram, Mello. Três anos sem você aqui. Três anos que olho a sua foto. Três anos que eu fecho os olhos e me concentro pra fazer ecoar em minha mente o som doce de sua voz...

...

MELLO - Los Angeles

A ESCADA DE FERRO não tinha nada de especial, mas meus olhos estão pregados à ela. Mas eu não estou prestando a atenção. Jogado nesse sofá velho e cheirando a mofo estou eu. Estou quieto. Estou em silêncio. Que caminho árduo. Que estrada difícil tenho eu trilhado até aqui. Já passei por tantos lugares. Já dormi em tantas camas. Já peguei tanta chuva... Tenho sido como uma folha seca. Como uma folha de outono, voando ao vento. Sem rumo. Sem casa. Sem volta.

Desde que desembarquei nos Estados Unidos há três anos, migrei de uma gangue à outra. Passei por coisas bem sujas e me senti enojado. L teria me repreendido por eu ter sujado as minhas mãos. Entretanto, eu não tinha muitas opções, mas tinha uma meta: pegar o assassino de L. Pegar Kira.

Essa é uma brincadeira perigosa. Muito mais do que um daqueles velhos jogos com o Near. Que jogo difícil esse... Esse é o nosso maior jogo. Se perdermos, morremos.

Deixo um suspiro cortar o ar. Como é difícil ser forte. Sim, mantive-me forte durante todos esses anos. Forte pra resistir a tentação de procurá-lo. De matar o meu desejo. A minha saudade. A falta latente e dolorosa que você me faz.

Três anos. Eu sinto o tempo atingindo a minha mente. O meu corpo. O meu rosto marcado com olheiras. Com os serviços da máfia. Saí de Nova York, e hoje me encontro em Los Angeles. Os caminhos e atalhos que a vida se propos a me dar eu peguei todos. Caminhos que eu sinceramente não tive muitas escolhas. E, eu também me deixei levar. Eu só tenho que capturar Kira. Os meios não importam.

Quando deixei o Lar Wammy's não imaginei que demoraríamos tanto pra capturar Kira. Eu não tinha muita noção da vida real. Demorou muito até eu conseguir um grupo que fosse bom e influente a ponto de eu poder pôr em prática meus planos. Mas, acho que essa organização mafiosa que eu me juntei há poucos meses vai me dar o suporte que eu preciso. Eles são poderosos e influentes. E, o chefe da organização parece simpatizar comigo. Ele está bem surpreso com as minhas deduções e idéias. Acho que é possível usá-los. Sim, só preciso esperar ele criar confiança o suficiente em mim. E, enfim, eu vou poder voltar pra você.

Mello jogou a cabeça pra trás, apoiando-a no encosto do sofá. Fechou os olhos. E lembrou, em detalhes, de uma situação inusitada entre ele e Near...

""Numa noite particularmente fria, Mello estava estudando em seu quarto. Dali há pouco ele ia ao quarto de Near, como faziam todas as noites. Estava concentrado resolvendo contas físicas quando de repente a porta do quarto se abre num rompante.

O loiro leva um susto com aquela invasão abrupta. Olha boquiaberto e lá está Near, olhando-o com uma expressão completamente desconhecida, mas extremamente intensa.

-Mello! Venha rápido! - falou Near com voz um tanto ofegante.

-O que houve? - o chocólatra assustou-se ainda mais ao perceber o tom de urgência na voz do menino.

-Não há tempo para explicações - falou Near entrando no quarto e pegando Mello pelo pulso. - Venha.

Near arrastou Mello para fora do quarto, levando-o pelos corredores silenciosos do casarão. Os pés de Near quase corriam. A mão apertava forte o pulso de Mello. O olhar estava sério e um pouco angustiado.

-O que houve? Aconteceu alguma coisa? Near! Você está me preocupando. - Mello estava realmente preocupado. Só podia ser uma coisa muito urgente pra fazer Near agir daquela forma. Mello nunca o vira assim, tão enérgico. Near estava com pressa. - Near...? O que houve?

-Venha rápido, e não faça perguntas. - a voz de Near saiu um tanto ríspida e o assombro de Mello só aumentou.

Desceram os lances de escadas do casarão praticamente saltando os degraus de mármore. Near segurava-se no corrimão com a mão esquerda, enquanto a direita puxava Mello com força e determinação. Mello matutava o que poderia estar acontecendo. Alguém morreu? Onde é o incêndio? Pra que aquela pressa? Por que ele não estava explicando? O que estava acontecendo? Por que aquele olhar? Por que está apertando tanto o meu pulso? O que é tão forte a ponto de fazê-lo agir assim?

-Near... - Mello chamou mais uma vez. Ele não achava nada que pudesse explicar o comportamento do menino.

-Shhh... Já estamos chegando. - falou Near ainda andando silenciosamente com passos rápidos pelo corredor do terceiro andar.

-Já estamos chegando? Onde? - o loiro perguntou, mas não teve resposta. Near o levou à escada e desceram mais um lance. O segundo andar ficava assustador àquela hora. O corredor comprido estava num completo breu, exceto pela luz fraca da noite que adentrava pelos janelões laterais.

Near puxou Mello mais um pouco, abriu uma porta e jogou o loiro lá dentro. Entrou também e fechou a porta, rodando a chave. Ambos normalizavam a respiração lentamente. Mello encarou Near com profunda curiosidade.

Near afastou-se levemente, tinha um rosto sério. Estava pensando profundamente sobre alguma coisa. Acendeu uma vela. E só assim Mello percebeu que estavam na biblioteca. Viu Near caminhar com seus passos habituais. Sentou em cima de uma das mesas de carvalho pra estudo e abriu um botão da camisa branca.

-Faça amor comigo aqui Mello... Faça amor comigo nessa biblioteca... - a voz aveludada de Near pareceu surreal ao loiro, que continuou parado olhando a figura pálida desabotoar a camiseta.

Piscou uma vez pra ver se não estava sonhando. Mello sorriu e a preocuação sumiu no ar. Aproximou-se de Near com um sorriso malicioso e divertido e beijou-lhe a boca.

-Já começou a ter feitiches Near? - perguntou lascívo ao pé do ouvido do garoto de cabelos brancos, encaixando-se entre suas pernas. Beijou-lhe e terminou de desabotoar a blusa, espalmando as mãos no peito branco de Near. Acariciou seu corpo, deslizou a mão pelo abdomen. Acariciou o sexo do menino. - Repita... - falou Mello ao pé do ouvido de Near. - Repita o que você acabou de dizer.

-Hun... - gemeu Near baixinho. - Faça amor comigo aqui Mello... Por favor... Faça amor comigo nessa biblioteca... Mello...""

O chocólatra abriu os olhos e tudo o que viu foi o teto úmido do esconderijo da organização. A lembrança ficou pra trás, nas entranhas do passado.

Near...

Levantou-se de súbito. Sua mente era consumida dia após dia por aquele menino que ele próprio deixou pra trás. Que ele, numa decisão precipitada, deixou chorando na janela do orfanato.

NEAR NEAR NEAR NEAR NEAR NEAR NEAR NEAR

Três anos.

O corpo de Mello sucumbia ao desejo. A masturbação era-lhe insuficiente. Sentia-se pior. Completamente vazio. Um prazer tão rápido... Tão fugaz... Tão sem propósito. Depois de conhecer o corpo de Near... Depois de senti-lo. De tocá-lo... Não tinha como esquecê-lo. Aquela pele branca, doce. Aquele cheiro natural que emanava por todos os poros...

Três anos de solidão. Três anos difíceis. Três anos que seus pés trilharam os mais ordinários caminhos.

Todas as noites desde àquele dia fatídico Mello lembrara de Near. Reviveu inúmeras vezes os momentos dos dois. Não havia dia em que não se lembrasse de Near. Mas hoje, estava infinitamente pior.

Hoje é um dia especial.

Mello caminhou de um lado pro outro na sala angustiado. Os homens estavam ali também, trabalhando arduamente numa entrega de droga para o México. Os capangas. Mas tudo bem. Ele não se importava.

Estava angustiado. Não podia deixar passar. Esse ano não. De novo não. Mordeu a barra de chocolate que mantinha presa entre os dedos. O que fazer?

"Eu posso quebrar as minhas próprias regras. Droga! EU POSSO QUEBRAR AS MINHAS PRÓPRIAS REGRAS!!" Berrava em pensamentos.

Que dia pesado. O coração de Mello estava angustiado. Raramente ele ficava assim. Mesmo nos momentos de extrema solidão e saudade, ele sempre conseguia convencer a si mesmo que estava tudo bem, que breve tudo acabaria. Mas hoje ele não podia mentir pra si mesmo.

Hoje é um dia especial.

Pegou a jaqueta que estava jogada no sofá e dirigiu-se para a porta.

-Ei Mello, vai sair? Não se esqueça que temos essa entrega hoje. - um homem que digitava compulsivamente gritou para o loiro.

-Sim, eu estarei de volta no horário marcado.

Saiu do esconderijo cruzando com carros velhos e sucatas. Fechou os olhos. Precisava caminhar um pouco. E decidir o que fazer. Mas ele já tinha se decidido. Não deixaria passar. Esse ano não. Esse dia especial não ia passar em branco novamente.

Hoje é aniversário de Nate River.

...

GEVANNI REPASSAVA AS informações. Near mantinha-se quieto e parecia não ouvir. Estava particularmente interessado no seu celular. Manteve-o por perto durante todo o dia, fazendo com que Rester, Lidner e Gevanni trocassem olhares intrigados. NINGUÉM tem o celular de Near além deles próprios. O diretor do FBI deu a Near no primeiro dia, e até hoje, o aparelho nunca tocou. É um aparelho praticamente inútil já que Near não saí da central. Mas hoje, o celular esteve ali, marcando presença, ao lado de Near.

A noite já começava a cair sobre a cidade quando o celular tocou.

Um toque...

Os três se entreolharam abismados. Near, maravilhosamente, continuou com sua expressão impassível, ainda olhando a pilha de dados.

Dois toques...

O barulho parecia mais alto do que realmente era, de tão alarmante o fato de ter alguém ligando pro Near. Melhor, de ter alguém, além deles, que sabia o número de Near.

Terceiro toque...

Near lentamente segurou o aparelho. Levou-o ao ouvido. Fechou os olhos.

E, para o espanto dos presentes, ficou em profundo silêncio.

No outro lado da linha, o silêncio também reinava. O coração de Near batia absurdamente acelerado.

"Mello."

Deleitou-se no seu silêncio. Captando a respiração um tanto excitada de Mello.

Silêncio.

Ambos em silêncio. Buscando a satisfação só de saber quem estava no outro lado da linha.

Silêncio.

"Mello."

Eles não precisavam de palavras. Não existe palavras àquele momento. Mesmo que tentassem, seria inútil.

Silêncio.

Os olhos ainda estavam fechados. Um sentimento de leveza começou a se expandir no interior de Near. O sentimento inenarrável espalhou-se por todo o seu corpo.

"Mello."

Era Mello quem estava no outro lado da linha. Era ele. O único.

"Obrigado."

Pouco mais de um minuto se passou. E continuaram em silêncio.

Até que, como uma dança, ambos desligaram o telefone no mesmo instante.

Near deixou o celular no chão, levantou-se e ninguém mais o viu naquele dia.

...

MELLO PAROU DE CAMINHAR, ficando imóvel no meio de uma praça silênciosa. O sol se punha lentamente e um manto escuro já cobria uma parte do céu. O coração batia abusrdamente acelerado. Segurava o celular como se fosse uma arma mortífera. Perigosa. Olhou o único número que tinha cadastrado em sua agenda.

N

Ficou parado por incontáveis minutos se encorajando a ligar. Até que apertou o "verdinho" e o celular começou a chamar.

Primeiro toque...

Mello engoliu em seco.

Segundo toque...

O coração parou de bater. De certeza. O coração de Mello estava parado.

Terceiro toque...

Mello sentiu dor. Um sentimento deveras poderoso o consumia.

Silêncio.

O celular tinha sido atendido.

Silêncio.

Mello sorriu pesaroso e seu peito estufou-se de ar. Era sufocante. Saber que Near estava do outro lado da linha.

"Near."

Aquela quietude. Entre ele e Near. Near, no outro lado do país. No outro lado da linha.

"Near."

Os sentimentos de ambos cruzavam através daquela linha móvel. O sentimento de Near chegava claramente até Mello. E, o loiro também enviava seus sentimentos. No silêncio. Naquele momento bom e angustiante, em que todas as saudades acumuladas se multiplicaram. Momento de silêncio, em que as palavras não resolvem.

"Feliz aniversário, Nate."

Mello apertava os olhos com força, saboreando a presença de Near. Um tempo indeterminado passou. E lá do outro lado, uma respiração calma e controlada era sutilmente percebida. A respiração de seu pequeno Near. O loiro fechou os olhos com força e desligou o aparelho junto com o menino de cabelos brancos.

Mello precisou de alguns instantes para se recuperar. Parecia que um manto de melancolia e saudade o cobrira. Um sentimento envolvente. Um sentimento que fê-lo suspirar várias vezes. Mas, um sentimento bom, um pouco triste, mas incrivelmente bom.

Abriu os olhos lentamente, o céu de enxofre de Los Angeles só servia pra aumentar a sensação de imensidão.

Ele não podia deixar passar essa data. Durante todos os seus três últimos aniversários Mello tinha recebido uma caixa de bombom de um certo N de aniversário.

Near não só sabia aonde era o seu 'esconderijo', como tinha a ousadia de mandar bombons no dia do aniversário de Mello!

Somente mesmo o seu Near pra fazer uma coisa dessas. Mello quase teve um infarto de contentamento quando um homem de terno e gravatas veio-lhe entregar uma caixa ultra-secreta de um remetente misterioso. Quando o homem foi embora e Mello abriu a entrega, riu. Uma caixa de bombons suíços e um cartão com uma única letra N.

Como não amá-lo? Como?

E o tempo continuou passando...

MATT- kantou

MATT ABRIU OS OLHOS lentamente. Seu braço esquerdo estava dormente. Dormira em péssima posição. Na verdade capotara exausto. Tinha tido mais trabalho do que pôde imaginar. Olhou a bagunça ao seu redor. Coçou a cabeça. Emaranhados de fios se espalhavam pelo aposento. Notebookes estavam distribuidos por todos os cantos. Pilhas e mais pilhas de cds e fitas cassete estavam jogadas pelo chão. Uma bagunça absurda.

Levantou-se devagar e resolveu tomar um banho. O que vira antes de cair no sono tinha sido deveras assustador e ao mesmo tempo, extremamente emocionante. A água quente descia curvelínea pelo corpo saudável do ruivo. Jogou a cabeça pra trás deixando a água atingir seu rosto. Suspirou. Um suspiro trancado durante horas, meses. Anos.

O seu trabalho tinha chegado ao fim. Ele estava exausto. Assombrado. E nostálgico.

Há quatro anos estava trabalhando nisso. Desde que vira a foto de L ao lado daquele jovem misterioso, ele tinha se dedicado nessa busca desesperada. Queria desvendar aquele mistério. Queria pegar Kira. Queria voltar ao Lar Wammy's e vê Roger. Queria cumprir a promessa que fizera a Ray. Queria rever Near. Abraçar Mello. E, principalmente, encontrar-se com Gevanni. Claro que eles se falavam todos os dias pelo telefone. Todos os dias. Matt não podia imaginar um dia sem falar com o menino de cabelos negros. Sempre se falavam. Entretanto essas conversas telefônicas não diminuiam a saudade.

Gevanni, Gevanni, Gevanni. Matt murmurava pelo lugar abandonado o nome de Gevanni. É tão sonoro. Tão bonito. G-E-V-A-NN-I. Matt gostava muito desse nome.

Quando desembarcou em Kantou, há quatro anos, Matt refez os passos de L. Descobrira a universidade que L entrara com o nome de Hideki Ryuga e depois disso, a investigação ficou muito mais fácil. Descobriu que o jovem misterioso ao lado de L era Yagami Raito. O suposto jovem a quem L estava apaixonado. E, o suspeito número 1 de ser Kira. Descobrira sobre Amane Misa, suspeita de ser o segundo Kira. Descobrira sobre o prédio de 23 andares que L mandara construir a fim de fazer o quartel general da investigação, e que, no momento, Matt estava morando.

Investigara e descobrira muitas coisas. Mas, o mais árduo dos trabalhos, foi resgatar as imagens da câmera de vigilância do quartel general. Esse trabalho foi fatigante. Além de resgatar todas as imagens que haviam sido editadas, teve que pô-las em ordem, para, só depois, assisti-las. Dezenas de horas chatas vendo um bando de homens investigando o caso Kira. Mas, houve momentos extremamente fortes e chocantes naquelas fitas. Momentos que Matt jamais vai poder se esquecer.

Ele viu tudo.

Tudo o que aconteceu durante os meses de investigação. Tudo durante o "algemamento" de L e Raito. E, o pior de tudo, viu o momento da morte de Watari e L.

Matt vômitou como nunca fez na vida ao ver aquela cena fatídica que tinha interferido no seu destino. Viu Watari cair da cadeira inconsciente e, segundos depois, L despencar da sua cadeira, morrendo 40 segundos depois, nos braços de Yagami Raito.

A morte de L. Cena trágica. Ele viu. O luto instalou-se em seu semblante. Um buraco gigantesco em sua alma. A morte de L.

Que dor profunda sentira ao vê-lo morrer. Ao saber que seu coração parava. Morria, lentamente, nos braços de seu assassino. De seu amante.

Matt chorou.

Matt jamais vai se esquecer da voz de L chamando, quase inocentemente, "Raito-kun..."

Era angustiante. Revoltante. Era lindo. E trágico.

Ele jamais vai conseguir esquecer tais cenas. A morte de L. A morte de Watari. Tudo...

Graças àquelas imagens, ele pôde conhecer um pouco mais sobre L. Pôde matar um pouco da saudade que sentia por ele e Watari. E, o mais importante: descobrira quem era Kira.

Quando Matt pensou que já tinha visto tudo o que havia, L o surpreendera. O detetive era realmente impressionante.

Depois do longo trabalho, na última fita de filmagem, tinha uma gravação de L dirigida diretamente à ele. Matt pensou estar tendo uma alucinação quando L apareceu na tela e chamou o seu nome:

-Matt-kun! - o rosto tranquilo e sério de L na tela era surreal. Matt encolheu-se na poltrona pensando estar louco. - Se você estiver vendo isso quer dizer que eu já estou morto. - L pôs o polegar na boca .- E já deve fazer algum tempo. - mergulhou o indicador no glacê de uma fatia generosa de bolo de morango. - Lhe dei um trabalhão danado, não é mesmo, Matt-kun? Eu sinto muito. Imagino o quão exaustivo e trabalhoso foi o caminho que você percorreu até aqui. Eu realmente sinto muito. Mas, você era o único que podia chegar aqui. Near não tem esse tipo de talento e Mello não tem paciência. Já você, tem em abundância. Afinal de contas, você é e foi o amigo de Mello desde sempre. - L ficou em silêncio, como se estivesse calculando os movimentos de Matt do outro lado da tela. - Não fique chocado, Matt-kun, todos morremos um dia. Bem, voltando, se você chegou até aqui isso quer dizer que as minhas deduções mais uma vez estavam corretas: eu sabia que ele ia mandar deletar todas as imagens. MAS, eu também sabia que você chegaria até aqui. Acredito que você saiba que ele é Kira. Infelizmente eu ainda não consegui provas concretas o bastante para pô-lo atrás das grades. - L coçou um pé no outro. - Eu tenho um pedido pra te fazer, Mail Jeevas, mas primeiro... - L virou-se e chamou em voz alta. - Watari, venha cá falar com o seu favorito. - Matt esta à beira de um infarto. O homem de cabelos e bigodes brancos apareceu na tela, sentando-se ao lado de L no sofá azul. Com voz gentil de sempre falou com o ruivo - Matt, como você está, meu filho? Tenha cuidado nessa investigação. Vença-os para que a justiça prevaleça! Ryuuzaki é tão cruel, não é mesmo? Estamos, praticamente, nos preparando para a morte - sorriu e com isso Watari se levantou e Matt pôde ouvir uma porta se fechando. L ficou em silêncio. Olhando pra algum lugar. Pensando. A imagem de L, no outro lado da tela, de tão intenso tornava-se frágil e vulnerável fazendo o coração de Matt estilhaçar-se. Lentamente, como que despertando de um sonho, L ergueu os olhos e encarou Matt. - ... Não o mate. - alguns segundos se passam e L permanece imóvel olhando-o. Até que se levanta, desliga a câmera e tudo volta a ficar escuro.

Matt ficou em estado de choque por tempo indeterminado. Olhando os chuviscos na tela. O som irritante ecoando pelo lugar deserto.

Matt reviu essa gravação inúmeras vezes. L realmente o amava. Depois de tudo que Matt vira, não teve dúvidas. L realmente amava Yagami Raito. O ruivo viu tudo. Tudo. E, mesmo morrendo pelas mãos dele, L ainda zela pela vida de seu assassino.

-L... que amor é esse? Você está pedindo pra eu poupar a vida do seu assassino... Quer amor é esse? Que amor é esse, L...?

O ruivo ainda se sentia uma criança diante de L. E, depois daquela gravação, sentia-se ainda menor. Não conseguia compreender o sentimento de L. Ele estava aceitando morrer... Estava disposto a entregar sua vida à Kira?

Só Matt viu. Só ele presenciou os momentos de L e Raito. As brigas e desconfianças. A tensão entre eles. Depois, o beijo. As noites... As palavras ditas no escuro. O medo. A angustia de um amor tão ordinário. As lágrimas de Raito enquanto L não estava por perto. A angustia que se abateu no semblante de L semanas antes de sua morte. Ele já sabia... L...

Matt se via num beco sem saída. Estava fora de cogitação deixar Kira vivo...

-Mas esse foi um pedido... O pedido mais difícil que me fizeram L...E tinha que ser você né? - Matt falava sozinho de baixo do chuveiro. - Vai ser difícil convencer o Mello, L... Você sabe... Terei que revelar o seu segredo...

Durante os anos de solidão, Matt adiquirira o hábito de falar sozinho.

-Yare, yare... está na hora de eu voltar e nos unirmos novamente.

Com isso, saiu do banheiro com a toalha branca amarrada na cintura e pegou o celular.

...

O QUARTEL GENERAL DA SPK estava agitado. Lidner e Rester anunciavam suas descobertas naquele dia quando o celular de Gevanni tocou.

Near deu uma olhada de soslaio. Era Matt. Ele sabia.

Matt ligava pra Gevanni todos os dias. Near sentia um pouco de inveja dessa relação. Ele e Mello não se falaram nenhuma vez, não se viram nem por um instante. Não ouviram a voz um do outro. Já Matt, ligava todos os dias pra Gevanni e se falavam por bastante tempo.

Near observou Gevanni sair da sala e atender o celular. Mas, depois de algum tempo voltou e passou o celular para Near, que ficara um tanto surpreso. Matt sempre ligava, mas nunca pediu pra falar com ele. Aquele fato era novo.

-Neaaaaaaaaaaaaaar!! - a voz cheia de energia chegou ao ouvido de Near como música.

Matt continuava o mesmo.

-Matt!! Que bom falar contigo!! - Near estranhou o próprio entusiasmo. Mas não podia negar o quanto gostava do ruivo e o quanto sentira falta dele durante esses anos.

-É ótimo falar contigo também. Gevanni me fala todos os dias sobre você. - Matt disse com sua voz gentil e empolgada.

-Já eu, fiquei sem notícias suas. - falou Near.

Matt riu no outro lado da linha.

-Posso imaginar. Você não é muito de perguntar. E, Gevanni é discreto demais pra comentar qualquer coisa fora do campo profissional. Posso imaginar vocês dois numa sala. Deve ser entediante: um mudo e outro calado.

Near riu. Matt tinha esse poder de fazê-lo sorrir. De fazê-lo leve. De alegrá-lo. Depois ficou em silêncio.

-Matt, pra você está falando comigo, deve ser algo importante.

-Sim. - respondeu o ruivo. - Estou retornando. Chegarei nos Estados Unidos daqui dois dias. Dia 11 de novembro. Meu vôo vai chegar umas 21 horas em Los Angeles. Podemos nos encontrar?

Near ficou em silêncio. Estava aliviado por ouvir isso.

-Near, não temos mais o que esperar. É chegada a hora.

-Sim... Eu estava esperando por isso... - Near desabafou.

-Ah... Eu também... Mal posso esperar.

...

TENHO O CADERNO EM minhas mãos. Enfim, aqui está ele.

-Eu cheguei primeiro que você, Near...

Mello estava sentado no seu jeito imperativo com o caderno no colo. Death Note. Tinha um shinigami parado em sua frente. Era real. Era concreto. Demorou, mas enfim, ele tinha chegado à primeira meta. Se alguém lhe contasse ele não acreditaria. Mas, ali estava. Um shinigami e um caderno que mata pessoas.

Deu um suspiro cansado.

"Sim... Eu cheguei primeiro... Agora tenho que dá um fim nessa história. Quatro anos é muito tempo pra viver longe daquele 'repugnante'."

...

NEAR E GEVANNI PEGARAM um avião para Los Angeles e improvisaram um pseudo-quartel-general num hotel. Matt estaria ali na próxima noite. Exatamente 11 de novembro. Near quase ria da visivel ansiedade de seu subordinado, que não parava de olhar o relógio. A cada cinco minutos uma olhada, um suspiro.

Instalaram as câmeras de vigilância, monitorando o 'esconderijo' de Mello e outras áreas de importância. Mas, o mais importante pra Near, era o esconderijo. Sentia-se mais próximo de Mello, mesmo não tendo o visto nenhuma vez.

Não era somente Gevanni quem estava contando as horas. Ele também. Near estava ansioso pra ver Matt e sabia que Matt voltando, Mello também voltaria. Breve estariam novamente juntos.

A noite estava estrelada. O inverno na Califórnia estava ameno. O tempo estava agradável. A noite estava tranquila.

Nenhum dos dois conseguiu trabalhar. Gevanni tentara inúmeras vezes se concentrar na investigação, mas sua mente vagava de ansiedade à espera de Matt.

-Gevanni... - a voz de Near o trouxe de seu devaneio. - Gevanni... saía desse computador. Não adianta se esforçar. Nesse estado você não conseguirá produzir nada.

-Eu sinto muito Near. - desculpou-se Gevanni completamente corado. - Eu apenas me distrai um pouco. Já lhe passo as informações.

-Gevanni... - a voz de Near saiu mais branda do que Gevanni conhecia. - Hoje não... - Near levantou-se do chão e foi pra sacada do hotel. - Hoje largue essa investigação. Relaxe. Sei que você está ansioso pela chegada de Matt. - Near sentou-se no sofá da sacada e olhou o céu. - Está uma bela noite.

Gevanni estava envergonhado por Near ter falado aquelas coisas constrangedoras. Ficou parado olhando a tela do computador. Era a primeira vez em quatro anos que eles falavam de coisas que não estavam relacionadas com a investigação.

-Gevanni... Estou angustiado.

Os olhos do agente se abriram espantados. Near estava estranho hoje.

-O que está te angustiando, Near?

-A morte.

Realmente, Near estava muito estranho.

Gevanni foi se sentar ao lado de Near. Depois de um tempo quebrou o silêncio:

-Enquanto há vida, há esperança.

Near ficou em silêncio.

"Sim... ainda há vida. Mello está vivo. Matt está vivo."

-Posso perguntar uma coisa?

-Sim. - Near respondeu.

-Por que você não o procurou durante todos esses anos? - a voz de Gevanni era baixa e agradável. A pergunta foi simples e direta. Mas atingiu em cheio o peito de Near. - Isso só trouxe sofrimento pra você e pra ele.

O menino gênio ficou em silêncio por algum tempo e depois respondeu:

-Eu e Mello somos diferentes de você e Matt... Esse é o nosso jeito de amar...

A noite foi mais longa do que o normal e o dia passou arrastado, como se o sol, ou a terra, ou os ponteiros de todos os relógios se recusassem a trabalhar. Mas, enfim, o manto negro da noite cobriu a cidade de Los Angeles. Onze de novembro.

Gevanni saíra pra buscar Matt no aeroporto e Near não esperaria por eles tão cedo, afinal de contas, quatro anos... Eles tinham que.. Matar a saudade...

Near suspirou.

Estava tarde. Near estava sozinho no quarto olhando a tela do esconderijo de Mello quando, de repente, algo lhe chamou a atenção. Um carro desconhecido entrou no ferro velho e homens se esgueiraram pelas sombras. Near deu um zoom. Não conseguia ver direito o rosto dos homens, estavam todos usando capacetes. Estavam armados. Ou era a políca, numa tentativa de desmantelar a máfia, ou uma guangue rival. Um nó se formou na gargante de Near quando ele viu que se tratava de uma emboscada.

Os homens se moveram e logo invadiram o esconderijo. Near ficou estático olhando a tela sem saber o que estava acontecendo de baixo daquele teto em que Mello estava refugiado. Até que, para assombro de Near, houve uma explosão.

A chamas encheram as telas dos computadores da central. O terror se apossou de seu coração. Pegou as chaves da moto de Gevanni, pegou o capacete e correu pra fora do quarto. Enquanto descia as escadas, fez uma ligação.

-Gevanni! Aconteceu alguma coisa. Vá para o esconderijo de Mello. Estou indo pra lá também.

-Entendi!

Na verdade ele não entendeu nada, mas obedeceu.

A moto costurava em alta velocidade os carros numa das principais avenidas de Los Angeles. O vento atingia seu corpo fazendo com que suas roupas claras esvoaçassem. A alta velocidade da moto só era menor do que as batidas do coração do motoqueiro.

"Idiota! Não ouse morrer!"

A distância até o esconderijo era relativamente pequena. Near a poderia alcançar em cinco minutos. Mas hoje, o caminho parecia eterno. Near acelerou ainda mais a moto, pegando uma atalho por cima da calçada e assustando alguns pedestres.

Avistou a fumaça causada pela explosão. Ainda não estava densa, mas já estava muito escura. Inacreditavelmente, ele acelerou ainda mais e alcançou o lugar.

A pior cena que ele presenciou na vida.

As labaredas lambiam as paredes violentamente. Pôde ver um carro (o mesmo que invadira o lugar) ganhando velocidade e saindo em disparada pela outra extremidade que dava acesso ao local.

Os carros velhos que ocultavam o prédio em condiçoes precárias, tiveram seus vidros estilhaçados devido a alta temperatura causada pela explosão.

Near olhou tudo por um mísero segundo, mas sua mente foi capaz de captar todos os detalhas do momento mais angustiante da sua vida.

Saltou da moto ainda em movimentoe e correu com passos ligeiros a uma escada que estava prestes a desabar. Subiu os degraus de dois em dois já sentindo o calor atingindo-lhe o corpo. A escada de ferro absurdamente aquecida sob seus pés balançou e Near correu ainda mais rápido, pra não despencar junto com a escada.

Chutou a porta em chamas e jogou-se dentro do incêndio...

A fumaça imediatamente invadiu seus pulmões. O calor tornou-se insuportável. Com os olhos semi-cerrados deu uma rápida olhada no ambiente, avistanto alguns corpos caídos pelo chão.

Seu coração quase parou.

-Mello!

A fumaça espessa cobriu-lhe a visão por um momento. Tossiu e sentiu seus olhos arderem. Manteve-os abertos e procurou pelo chão o corpo de Mello.

Graças a Deus, ele não estava ali, morto, no chão. O calor continuava a sufocar o seu corpo, mas ele não tinha tempo pra isso. Avistou uma segunda escada. Uma escada de madeira, que estava sendo consumida pelo fogo e desabaria a qualquer momento.

Correu pra ela e, enquanto subia, os degraus iam desabando de baixo de seus pés. Subiu e alcançou o segundo andar. O calor ali era ainda mais intenso. Um pedaço do telhado despencou à centímetros de seu corpo, fazendo-o correr.

-Mello!

Correu por corredores em chamas, buscando-o. Mas temendo o que veria.

-Melloo!!

Mais um corredor. Mais chamas. Mais calor insuportável.

-Mellooooooo!! - gritou. Aquela voz poderosa que saiu dele, tinha sido um grito de sua alma aterrorizada com aquela situação. Apavorada com o que possa ter acontecido a Mello.

Seguiu seus instintos (que ele nem sabia que tinha), e encaminhou-se para o fundo do prédio. Chutou a porta e o viu. Um misto de alívio e pavor passaram por seu corpo.

Correu ao seu encontro. Ajoelhou-se ao lado do corpo ferido estendido no chão. Levantou o rosto de Mello e lentamente retirou a máscara que cobria o rosto do loiro.

O lindo rosto de Mello.

Near reparou imediatamente que um dos materiais do qual a máscara fora feita, derreteu com o calor da explosão e CRUELMENTE colara no rosto de Mello.

-Mello...

Near pôs os dedos na artéria do chocólatra.

Estava vivo!

Lentamente. Muito lentamente, um brilho azul foi se destacando no lugar caótico.

-Você demorou...

O tom de voz baixo era divertido. Numa situação daquelas e ainda assim, irônico e sarcástico.

Near deu uma risada nervosa. Pegou o celular, ligou pra Gevanni novamente e levantou-se trazendo o corpo de Mello consigo.

"A explosão, que eu mesmo causei, atingiu meu corpo machucando-o instantaneamente. O

impacto lançou meu corpo ao chão. Eu cai, como um peso morto, incapaz de me mover. A

dor lacinante pulsando em meu sangue vermelho, quente, grosso, correndo desesperado pelas minhas

veias e artérias. Sangue escorrendo pelo meu corpo. A dor. O calor. A ardência. Algo no lado

esquerdo do meu rosto é o que mais dói.Preciso sair daqui. 'Corpo mexa-se! Pernas

movam-se! Braços...' Tento manter acordado. Eu não posso desmaiar... Tenho

que me manter consciente..."

"Em meio a dor sinto mãos frias envolvendo meu corpo. Faço esforço pra abrir os olhos,

mas isso dói. Esforço-me um pouco mais, abrindo-os. Um rosto preocupado

fita-me com grandes olhos cinzentos marejados de lágrimas. Ele é

alguém muito importante pra mim. Acho que o estava esperando.

-Você demorou...- com um esforço descomunal consegui falar.

O menino à minha frente solta um riso nervoso. Há quanto tempo não via

aquele rosto? Muito tempo. Sim. De fato eu o estava esperando. Agora

sim, posso desmaiar. Ou morrer.

Apago.

Sinto meu corpo balançando bruscamente. Abro os olhos sentindo novamente

aquela dor incômoda. Meu corpo todo dói. O par de olhos cinzentos

continuam a me olhar. Que expressão intensa! Sinto que estou em seus braços. O balanço

brusco continua. Aonde estou? Franzo o cenho, mas esse movimento

também machuca. Esse balanço está me machucando. Aonde estou? Algo no lado esquerdo

do meu rosto está ardendo. Dói. Caralho, essa porra está doendo pra diabos! Viro os

olhos e avisto um ruivo no volante. Então estou num carro...

Aquele cabelo ruivo em conheço...

Apago.

Vou submergindo de uma névoa densa. Ouço vozes baixas ao meu redor. A claridade

chega-me aos olhos. Um senhor aproxima seu rosto do meu colocando uma lanterna

nos meus olhos quase me deixando cego. Ele me fala alguma coisa, mas

eu não consigo entender. "Sabe quem você é?"Ah, sim, é isso que ele está

me perguntando; Se eu sei quem sou? Acho que sim. Ele se vira e fala alguma coisa pra

alguém, mas eu já não consigo ouvi-lo. O garoto de olhos cinzentos inclina a cabeça sobre

mim com uma expressão aflita. Então realmente, ele está aqui. É engraçado,

nesse ângulo a luz da lâmpada contorna a sua silhueta. Parece uma aura. Se eu não o

conhecesse, diria que era um anjo. Ou será se eu realmente morri? Não. Ele é real. Suas

mãos apertam as minhas levemente. Seu corpo se aproximou do meu. Acho

ele está sentado na minha cama. Tento chamá-lo. Eu gosto muito do nome dele.

"Near"

Apago.

Um teto branco cobre todo o meu campo de visão. Um lustre elegante pende

do forro de gesso. Estou num hospital? Por que tem um lustre tão bonito assim num

hospital? Retomo a consciência lentamente, e barulhos chegam aos

meus ouvidos. Mar? Parece o barulho de mar... Devo estar surtando.

Aonde estou afinal? Tento me inclinar e com muito esforço consigo me erguer um

pouco na cama. Não, definitivamente, não estou num hospital. O quarto é arejado, claro, praiano.

Só agora percebo que não estou sozinho na cama. Ele está aqui comigo. Está dormindo.

Ao meu lado, segurando a minha mão. "Near" Lindo, como sempre. A minha vista pesa, mas eu

quero olhá-lo mais um pouco. Quero saber aonde estou.Tem uma varanda com as portas

abertas e eu posso avistar o mar. Nossa,aonde eu estou? Meu corpo está todo

dolorido. Tem uma faixa no meu rosto. Sinto-me cansado e deito-me novamente.

Apago."

...

-NÃO HÁ COM QUE SE preocupar. Ele sofreu graves queimaduras. Inclusive de primeiro grau. Mas, ele vai viver. Não se preocupem em relação a isso. Deixem-o descansando. Tudo ficará bem. - disse o dr. Brian. Um senhor gentil que foi colega de Watari durante a juventude. O médico fora chamado as presas para tratar de Mello.

Matt e Near trocaram um olhar de alívio.

-Mas as marcas serão pra sempre... - falou Matt.

-Ele pode fazer uma cirurigia plástica. - o homem, já idoso, disse com voz calma e tranquilizadora.

-Ah... Mas com certeza ele não vai querer fazer. - Near diz. - Aquela cicatriz é como um troféu pra ele...

O médico não entendeu o que Near queria dizer com aquilo, mas decidiu não perguntar. Afinal de contas, os herdeiros de seu velho amigo Watari eram um tanto estranhos...

...

NEAR PERMANECIA SENTADO em uma poltrona ao lado da cama de Mello. O loiro estava dormindo há horas devido as feridas e os remédios fortes que tomara pra aliviar a dor. Olhava Mello ali, deitado, dormindo, ferido... O que teria acontecido se Near não chegasse naquele exato momento? Quando deixaram o esconderijo, o teto desabou por completo. Mello estaria morto. Near deu um suspiro. "Seu sangue de um vermelho vivo, escorrendo em abundância contrastando com minha pele alva, manchando a palidez do meu corpo. Seu sangue. Simplesmente seu sangue em minhas roupas. Manchando muito mais do que tecidos. Manchou fundo. Seu sangue, Mello, espalhando centenas de gotículas em minha alma, também pálida. Maculando o meu ser com sua dor. Eu não sei como juntei forças pra erguer e sustentar o seu peso. Não sei. Contudo, meus braços circundaram seu corpo ferido e eu o levei pra longe daquele inferno flamejante. Trouxe-o devolta à mim. Bem perto."

...

-ATÉ QUE ENFIM VOCÊ acordou! - exclamou Matt.

Na verdade Mello ainda não tinha acordado. Abriu os olhos focalizando um rosto sorridente à sua frente.

-Matt... Há quanto tempo, meu amigo! - falou Mello com voz de doente.

-Quatro anos, pra ser exato! - disse Matt com voz divertida.

-Muito tempo, não é mesmo? - perguntou o loiro.

-Muito... Quatro anos longos demais.

-Sim...

Matt ajudou Mello a sentar na cama. Ficaram em silêncio. Mello virou o rosto e Near estava ali. Estava parado na porta da varanda, de costas pra eles, olhando o mar. Os braços cruzados diante do peito, o cabelo esvoaçando pela brisa marítima. O rosto sem expressão. As roupas claras de um verdadeiro anjo.

"Lindo."

Mello ficou olhando a figura de Near. Mas, o menino de cabelos brancos continuava olhando a praia, ignorando-o.

-Que lugar é esse? - indagou Mello.

-Na verdade é sua casa. - falou Matt acendendo um cigarro.

-Minha casa? - perguntou Mello.

-Sim. Herança de L. A sua herança está sob os cuidados de Near. Já que você não foi localizado no dia da posse. Então, ele tem administrado seus bens. Na verdade, Near tem administrado os meus também. Ele tem cuidado de tudo.

-Minha casa... - Mello estava surpreso. - Eu jamais podia imaginar..

-Ora Mello, deixe disso! - disse Matt. - Pra quem você acha que L e Watari ia deixar suas coisas além de seus sucessores? Não se espante, há mais coisas ainda que eles nos deixaram. Essa casa era usado por L nos verões. Eu dei uma olhada e tem um monte de coisas. Incluindo fotos nossas quando éramos pequenos.

-Sério?

-Sim! - Matt sorria .- Acho que L gostava muito de nós. Há muitas coisas nossas pelas casas que nos deixaram.

Mello estava boquiaberto. Era emocionante ouvir o que estava ouvindo. L. A pessoa que mais admirava na vida.

-Fotos nossas...?

-Sim... depois eu te mostro... - falou Matt jogando as cinzas do cigarro num cinzero improvisado. - Nós erámos muito fofos! - Matt sorria.

Ficaram em silêncio. Mello olhou o quarto em que estava. Um quarto arejado, pintado de um azul clarinho. Os móveis e decoração eram típicos do litoral, com muito requinte e bom gosto. A cama que estava deitado, de casal, enorme, de ferro, era revestida de um lençol de cetim branco. Mas, o quarto se resumia, principalmente em janelas. Tinha sido constuído com o intuito de aproveitar todos os raios do sol. As janelas ocupavam três das quatos paredes. O lugar aconhegante e romântico cheirava a mar. Tinha sal no ar. A brisa que invadia o quarto era renovadora. Que lugar delicioso para se estar! Fixou o olhar em Near, mas o garoto continuava impassível, ereto, ignorando-o. De certa forma, era excitante.

Depois de algum tempo Mello perguntou à Matt:

-Aonde você esteve esse tempo todo?

-No Japão. Estive investigando o caso Kira sob a visão de L. Tenho muitas coisas a lhes dizer. Mas, vamos esperar você se recuperar totalmente para iniciarmos essa conversa. Agora podemos unir forças. Acredito que nós três temos informações mais do que suficientes...

-Você está dizendo para nos unirmos? - perguntou Mello.

-Sim... - respondeu o ruivo.

-Matt, nada vai mudar. Eu vou continuar trabalhando sozinho. - falou Mello com voz dura.

Near não acreditou no que estava ouvindo. O idiota do Mello ainda não queria se unir a ele e a Matt? Near sentiu raiva. Como pode Mello ser tão infantil?

Com raiva disfarçada, virou-se e sem dizer nada saiu do quarto.

Mello viu Near sair sem dizer nada. Olhou pra Matt confuso.

-O que deu nele? - perguntou o loiro.

Matt ficou em silêncio. Depois de algum tempo disse:

-Você realmente não sabe?

-Não sei. - disse Mello.

-Mello... Até quando você pretende continuar com isso? Não vê o quanto isso tem trazido sofrimento pro Near? Não vê o quanto isso tem feito você sofrer durante esses quatros anos?

-Matt! Eu não posso fazer isso! Não vou ficar sob as ordens de Near!

O ruivo se levantou.

-Quem aqui falou em ficar sob ordens do Near? Unirmos forças, foi o que eu falei. Nós três juntos, como um só. Acho que você é capaz de entender isso.

Mello ficou quieto.

-Então, acredito que você realmente não se importa com o Near. Você não parou nenhum segundo para entender a situação dele. Você só pensou em si durante todo esse tempo. - A voz de Matt era aveludada, mas dura.

-Matt...

-Mello, veja o que você está fazendo... Acho que o Near não merece isso. Acho que você não merece isso. Pense um pouco. O tempo de lutarmos sozinhos já passou. Agora é hora de nos unirmos... Sinto que, se não fizermos isso, morreremos. Eu, você, Near... Estaremos expostos. Nós avançamos muito na investigação. Kira está em nosso encalço. - Matt parou e acendeu outro cigarro. - Mas, além disso, e o mais importante, é que não há mais motivos para estarmos sozinhos.

-Mas eu não quero fazer parte de uma organização que o Near é o líder. - falou Mello em voz baixa. - Durante anos competimos isso. Parece humilhação.

-Mello... você não estará se unindo ao sucessor de L. Não estará se unindo à pessoa que roubou o seu posto de número um. Você estará se unindo a pessoa que você ama. Tenha isso em mente. Near é essa pessoa. Honre o que vocês sentem um pelo outro. Eu estarei me unindo. Mas, principalmente, porque Gevanni está lá. Eu não vejo mais razão para deixá-lo sozinho. Não vejo razão pra ficar sozinho. Veja e entenda o porque das coisas... Matt lançou um olhar de irmão-mais-velho pra Mello. - Pense no que você está fazendo... - com isso também saiu do quarto.

Mello ficou sozinho ouvindo o eco das palavras de Matt. Não somente deixou de se unir a Near, como também o abandonou. Não o procurou. Seu orgulho não deixou que se rendesse. Sentiu falta de Near. Uma terrível saudade. Queria estar com ele. Mello amava Near, mas era orgulhoso. Tinha medo de que se se unisse a Near, estaria se humilhando diante do número um.

"Número um... Foi eu que pediu pra ele jamais deixar de ser o número um. Ele me prometeu. E cumpriu a sua promessa... Mas eu não cumpri a minha. O abandonei. A minha causa era justa, mas infatil. Near... Eu nunca olhei pro seu lado. Você, Near, é um homem de palavra. Já eu, quebrei a nossa promessa... E um preço alto tenho pago por isso... Esses quatro anos de solidão por quebrar a nossa promessa..."

Mello fechou os olhos. Ainda não estava recuperado, sentiu-se cansado. E adormeceu.

...

NEAR SAIU DO QUARTO de Mello sentindo-se frustado. Mello ainda mantinha o mesmo pensamento há quatro anos.

"Idiota."

Rumou pela mansão que L deixara de herança pra Mello. Estava fatigado. Muitas coisas estavam acontecendo. Kira estava cada vez mais ousado. O segundo L... Um incompetente, que Near desconfiava de ser Kira.

E além de tudo, o cabeça dura do Mello. Teimoso. Infantil. Idiota.

"Por que tenho que está apaixonado por um cara tão cabeça dura?"

Sentou numa sala qualquer e começou montar um quebra-cabeça gigante que Gevanni lhe trouxera.

Ficou ali durante horas seguidas. Montando o brinquedo não percebeu que as horas passaram. Quando concluíu a brincadeira olhou o relógio. Duas horas da manhã.

Levantou-se e com seus passos lentos caminhou pela casa escura. Gevanni e Matt ocupavam um quarto grande no primeiro andar. Near estava num quarto de solteiro no segundo andar. E Mello, no quarto que fora de L, também no segundo andar. Nem juntos eles estavam. Near deu uma risada amarga. Mello, Mello, Mello... As coisas entre eles eram sempre complicadas...

Subia as escadas e parou diante da porta de Mello. Suspirou. Mello estava tomando remédios fortes pra aliviar a dor, então, com certeza, estaria dormindo. Near girou a maçaneta e entrou.

O quarto estava numa penumbra agradável. O cheiro de Mello já estava impregnado no lugar. Near andou silencioso pelo aposento. Sentou na poltrona ao lado da cama de Mello e pegou em sua mão. Olhou o rosto da pessoa que mais amava na vida. Um corativo grosseiro cobria boa parte do rosto do loiro. Uma marca que ficaria ali para sempre.

Com os olhos fechados, o cabelo e seus fios dourados estavam espalhados pelo travesseiro, e mesmo com aquelas queimaduras e hematomas, Mello parecia um anjo.

-Mello... - Near começou a falar baixinho. Desabafaria. Mello estava dormindo, então ele falaria tudo o que estava entalado. - Mello... Quatro anos se passaram e tudo o que eu escuto de ti é 'eu vou continuar trabalhando sozinho'... O que foi isso Mello?... Por que tanta teimosia?... Você não tem idéia do quanto a sua ausência me afligiu. Sentia-me morrendo dia após dia... Desesperado... Perdido.. Preocupado... Quais caminhos você andou, meu querido Mello?... Eu não acredito em Deus, mas eu orei todos os dias para que Ele te protegesse... Mello... Eu estou angutiado... Sinto a morte nos rondar. Sinto uma presença fúnebre. Sinto o cheiro de morte. Sinto o gosto amargo de um pressentimento que não consigo dissipar. Eu temo que alguma coisa aconteça. Você é sempre tão impulsivo pelos seus ideais que tenho medo que alguma coisa aconteça contigo. - Near deu um suspiro longo. Um manto cinzento de apreensão cobria-lhe o coração. Estava terrivelmente angustiado. - Mello... Não se vá mais uma vez... Por favor, não me abandone novamente... - Silenciou. - Mello, querido, o que vai ser de mim se alguma coisa acontecer contigo? O que vai ser de mim?... - Near sentiu um nó na garganta.

Abaixou a cabeça e fechou os olhos. Tinha muito mais pra falar, mas por hora, sentia-se aliviado. Permaneceu em silêncio, segurando a mão dele. Aquela pele e aquele toque que sentira tanta falta!

Até que, pra seu espanto, ouviu a voz de Mello.

-Eu sinto muito, Near...

Near abriu os olhos espantado.

"Mello estava acordado?" pensou. Não queria que Mello ouvisse tais coisas! Ele deveria estar dormindo! Merda.

Ficaram em silêncio.

-Desculpe por ter feito você passar por tantas coisas... Perdão...

Mais uma vez ficaram quietos. O barulho do oceano Pacífico entrava pelas janelas abertas.

-Eu senti muito a sua falta. - falou Mello.

-Não pareceu. - respondeu Near com voz seca.

Mello sorriu.

-Near...

-Mello! Se você for me dizer que não vai ficar, nem fale nada. - disse Near largando a mão de Mello e se levantando. - Eu não suportarei ouvir isso mais uma vez.

-Mas...

-Chega. - Near começou a se encaminhar para a porta. - Se essa é sua decisão, então acredito que essa é nossa despedida definitiva, Mello... Pois sinto que você vai morrer. - Near parou com a mão na maçaneta. Ficou em silêncio. - Eu lamento por isso... Porque juntos poderíamos nos equiparar a L. Juntos, poderíamos superar L. - com isso, saiu do quarto.

A última frase de Near atingiu Mello em cheio. Como se uma lufada de vento impetuoso o atingisse. Arrepeiou-se por completo e seu coração falhou uma batida. Ele já tinha se decidido permanecer com Near antes mesmo de Near entrar naquele quarto e falar aquelas coisas. Agora, depois de ouví-las, sentiu-se ainda mais terrível. Como fora idiota em ficar longe de Near durante todo esse tempo! Como fora estúpido!

-Porque juntos poderíamos nos equiparar a L. Juntos, poderíamos superar L. - Mello repetiu. A frase poderosa ressoou em sua mente. - Juntos... Juntos... Juntos poderíamos superar L.

Mello sorriu sozinho na penumbra do quarto.

-Near, você não precisava dizer todas essas coisas pra me convencer... - falou - Mas como foi bom ouvir você dizer isso...

O sol adentrava o quarto quando Mello acordou. Estava muito melhor. Não mais sentia aquela fraqueza e todas aquelas dores terríveis. Sentou-se na cama. Sim, estava muito melhor.

Saiu do quarto e caminhou pela casa silenciosa. Um pássaro cantou alguma coisa. Sim, a vida girando. Correndo. Andou pela casa desconhecida e encontrou a cozinha. Matt estava lá.

-Já está melhor pra sair da cama?

-Sim. - respondeu Mello. - Sinto-me bem melhor.

-Então sente-se. Vou preparar um café pra nós.

Matt se levantou e começou a preparar alguma coisa. Mello ficou observando o amigo ruivo.

-Você não mudou nada. - disse.

-Você acha? Acho que eu emagreci um pouco e estou com olheiras. A minha pele está mais seca e meu cabelo ficou um pouco oleoso. - Matt diz em tom divertido.

Mello riu.

-Realmente Matt, você não mudou nada.

Silêncio.

-Essa casa está tão silenciosa. Aonde está o Near? - pergunta o chocólatra.

Matt parou o que estava fazendo.

-Ele e Gevanni voltaram para New York hoje cedo. - respondeu Matt. - Eu estarei me juntando a eles assim que você estiver completamente recuperado.

Mello ficou quieto.

-Sinceramente, eu não entendo vocês. - Mello recostou-se na cadeira. - Vocês dois me falaram para eu me unir, mas nenhum dos dois esperou por minha resposta.

-O que você está querendo dizer? - indagou o ruivo.

-Estou querendo dizer que eu ficarei ao lado de Near. Não mais o deixarei. Aquele pirralho maldito voltou pra New York sem ao menos ouvir a minha resposta. Como o odeio!

Matt largou a xícara no chão.

-Sério? - exclamou. - Fico feliz que você tenha tomado essa decisão!

...

O PRÉDIO DA SPK parecia ainda mais vazio do que sempre fora. Rever o loiro tinha só aumentado as saudades. Tinha aberto uma cratera no interior de Near. O menino gênio estava ainda mais apaixonado pelo loiro, e aquele idiota agia daquela forma... O pressentimento continuava. Aquela sensação estranha no ar. Aquela calmaria que antecipava a tempestade. Near suspirou angustiado. Deveria ter um jeito pra tudo acabar bem... Ele tinha que encontrar um jeito...

-Near! - o comandante Rester exclamou.

Near virou o rosto pra ver o que estava acontecendo. Nas telas das câmeras de vigilância da central a imagem de Mello era registrada. Logo atrás, vinha um ruivo.

-É Mello! Está vivo?! - Lidner também exclamou.

-E quem é aquele cara com ele? - indagou Rester. - Near o que fazemos?

-Deixe-os entrar.

Near permaneceu parado aonde estava. De costas para a entrada. Sentado no chão.

As portas se abriram e Mello entrou com seu jeito imponente.

-Bem vindo, Mello. - disse.

-Hei pirralho, nunca mais vire as costas sem ouvir a minha resposta! - falou com voz grave.

Near abaixou a cabeça pra ocultar um sorriso.

Lidner e Rester trocaram um olhar intrigado. Matt já estava sentado ao lado de Gevanni, que olhou pra Near e diz:

-Bem... Agora sim, vamos acabar com esse caso de uma vez...

XXX

Concluído o sétimo capítulo!

Ai ai... Estou gostando tanto de escrever essa história! Estou ficando triste porque estamos já no penúltimo capítulo... :(

Amo o Mello, Near e o Matt!

Como são lindos!

Bem, obrigada por terem lido!

Voltem no próximo!

Reviews! Não custa nada!

Onegai!