Capítulo Três


O COMANDANTE AUBREY NÃO era homem de se manter preso dentro de casa, era homem que precisava sentir o vento bater suave na face, sentir a imensidão de cheiros que emanavam dos arredores do cais. Por isso, resolveu andar pelas ruas de Portsmouth. Ciente de que teria de responder a dezenas de perguntas sobre um assunto que ele abominava naquele momento: o enfrentamento contra os franceses que quase acabara com os sophies. Resoluto em não pretender respondê-las, Jack vestiu um velho e pesado casacão, meteu na cabeça um chapéu farroupilha e desceu a colina que levava à cidade. Já escurecia, o que ajudou a confundir a visão dos que o conheciam, e Jack Aubrey chegou sem ser notado a uma taberna. Sentou aos fundos, sem tirar qualquer peça das vestes ou o chapéu, e pediu uma bebida.

Como podia ser? Como podia Gussie não estar exaltada com um reencontro como o deles? Sim, ela ficara surpresa ao vê-lo no baile dado pelo duque, mas o passar dos dias, das semanas, lhe mostrou que não passavam de meros conhecidos agora. Ela nem ao menos o procurara ou tentara entrar em contato. E Jack não conseguia se conformar com a história que Gussie relatara. Não acreditava que ela estivera livre do casamento e eles poderiam ter tido alguma chance. Mas a óbvia razão não parecia, porém, entrar nos pensamentos de Jack: seu casamento. Ele só conseguia fixar-se no motivo que os levara ao profundo afastamento, a interrupção das correspondências que trocaram por tanto tempo. E fora ela quem parara de responder. Fora ela.

Jack bebeu até não se agüentar de pé. Dormiu na viela calçada de pedras, logo adiante da taverna, onde o proprietário e um funcionário o jogaram, como se jogasse um saco de batatas. O alvoroço da movimentada cidade despertou Jack horas depois. Meio zonzo, ele tentou se localizar, mas a visão embaçada e uma reviravolta em seu estômago fizeram com que ele caísse de joelhos e vomitasse. Depois, ele se sentou, encostando as costas e a cabeça na parede fria, respirou fundo e fechou os olhos, limpando a boca com a manga do casaco, descobriu estava num beco, logo atrás do armazém do jovem Thomas Giggers, de quem comprara uma propriedade. Esperou algum tempo e tentou se por de pé, o que fez com muita dificuldade, e tomou o caminho que o levaria ao cais. Esbarrou em uma e outra pessoa, mas elas nem queriam saber dele, se afastavam repugnadas, tapando o nariz com lenços ou com a mão. Alcançou as docas e se abrigou debaixo delas, aonde a água somente chegaria junto da maré alta. Estirou-se no chão de qualquer jeito e pegou no sono.

Era noite quando Jack acordou. Ao seu lado viu dois homens conversando, havia uma fogueira próxima, mas Jack não permaneceu ali para responder ao convite deles para se aquecer, tornou a uma taverna qualquer e sentou novamente ao fundo, pedindo por uma bebida. Uma bela mulher o atendeu, os seios fartos quase escapavam pelo bojo do vestido e Jack, não conseguindo desviar os olhos daquelas belezas, não pôde ver a mulher torcer o nariz para seu cheiro e aparência. Ele bebeu até cair desacordado, mas dessa vez não parou na sarjeta, cambaleou até a praia, recostou-se num tronco seco e fitou as ondas, que mais pareciam grandes caranguejos tentando alcançá-lo.

Jack acordou com um gosto amargo na boca, não distinguia manhã da tarde, havia tempos que não se embriagava daquela forma eloqüente, mas não se sentia disposto a levantar e caminhar para o presente que o aguardava. E como ainda se lembrava do motivo pelo qual dera início a bebedeira, tornou a uma taberna para beber. Esta ficava do lado mais baixo de Portsmouth, onde não conhecia nenhum'alma. Era dia ainda quando já não enxergava um palmo a sua frente. Sabia que estava sentado a mesa porque sentia o dorso da cadeira e os braços dela a lhe prender o corpo, e sentia o tampo da mesa prensando seu estômago; enxergava os copos e as garrafas a centímetros de seus olhos, mas não distinguia se estavam cheias ou vazias. Não podia identificar cheiro algum também e ouvia tantas vozes distorcidas que supunha estar debaixo d'água, porque o som lhe chegava grave e ininteligível aos ouvidos.

...

No escritório do almirante, vozes se alteravam.

— Por Deus, senhora Aubrey, ele não pode ter ido muito longe. Talvez ele... talvez... - o almirante Kipling não quis terminar a frase com receio pela reação que viria da esposa do comandante. - Talvez ele esteja aborrecido com a má sorte e se meteu em alguma de suas propriedades.

— Não. Não está em nenhuma delas, nem mesmo no chalé onde está hospedada a cond... a senhora Jankins, mãe de seu melhor amigo - consertou Sophia, enrubescendo.

— Senhora, pondere bem. Não houve desentendimento algum entre vocês?

— Não, senhor. Jack chegou cedo, tomou banho e tornou a sair.

— Vamos fazer o seguinte: daremos tempo ao tempo e se ele não aparecer no fim de semana, alertaremos a todos os oficiais...

— E se Jack estiver em perigo? E se nesse tempo em que aguardamos, ele estiver a beira da morte?

— Que mente fértil, senhora - exclamou o almirante. - Mas me responda, quem é que iria querer molestar nosso Jack? Pense bem, ele está em casa, entre amigos. E eu posso assegurar que ele deve estar apenas esquecendo as mágoas...

— O senhor quer dizer nos braços de outra? - a senhora Aubrey perguntou com as mãos na cintura.

— Se a senhora me dá licença - disse Kipling impaciente -, tenho uma reunião com alguns oficiais.

Sophia saiu desgostosa e sem muita fé no que o almirante lhe dissera. Se não fosse por sua dama de companhia, a senhora Aubrey teria iniciado por conta própria uma busca pelo marido.

...

Jake Jankins recebeu o convite da condessa com um jovial sorriso e grande alegria, prometendo a ela hospedar-se no chalé assim que retornasse de sua próxima missão.

— Um grande homem, não acha, querida? - indagou Janet Jankings à amiga, pouco depois de se despedir do filho.

— Um belo rapaz - a condessa retificou a frase. Janet sorriu com candura e apertou a mão da amiga. - Ora, cale-se! Não era exatamente o que você queria ouvir, mulher? - Janet soltou uma sonora gargalhada e tornou a apertar a mão da amiga. Divertidas, pediram mais chá à criada e beberam a uma noite melhor, como a do grande jantar que seria dado ao almirante Kipling por conta de seu sexagésimo sexto ano de vida, e as festas do almirante, organizadas pela senhora Hartcher, como de costume, eram exuberantes e imperdíveis.

Alguém à porta as interrompeu e a serviçal anunciou:

— A senhora Aubrey, excelência.

— Sua Graça - disse Sophia numa reverência, entrando sem cerimônia. - Senhora Jankins.

— Senhora Aubrey - cumprimentaram as duas amigas.

— A que devo a honra da visita? - indagou a condessa.

Por um instante Sophia hesitou, meias palavras para um bom entendedor bastariam para resolver tal assunto, criariam, todavia, muita inimizade, o que causaria a Jack tamanho desagrado que talvez ele jamais a quisesse ver em sua frente novamente.

— Gostaria, Sua Graça, de saber se a senhora, ou a senhora Jankins aqui, poderiam me informar se viram meu marido nos últimos dias.

— Ora, o vimos na última quarta, no...

— E depois disso? - Sophia interrompeu a frase da condessa. - Ontem? Hoje?

Janet ergueu a sobrancelha para a condessa, que entreabriu os lábios e só então se deu conta do que passava na cabeça da jovem mulher.

— Por que a senhora acredita que tenhamos visto o comandante por esses dias? Mal saímos do chalé.

— Jack é amigo do comandante Jankins... - Sophia explicou - o que elas já sabiam.

— E o comandante Jankins partiu faz três dias de Portsmouth. Logo depois que a escolta aportou.

Sophia balançou a cabeça, fazendo-se de desentendida, e girou o corpo, observando tudo ao seu redor com muita curiosidade.

— A senhora deseja mais alguma coisa? - perguntou a condessa.

— Sua Graça - Sophia voltou-se e fitou a mulher -, a senhora não me oferece uma xícara de chá?

— A hora do chá já se passou há muito, minha cara. Convidá-la-ei uma próxima vez, quando eu estiver menos ocupada.

Sophia fitou as xícaras de chá ainda cheias e depois prendeu os olhos na porta lateral, que levava ao corredor de acesso ao andar superior.

— Sua Graça se importa se eu conversar um pouco com seus criados?

— É claro que eu me importo, porque eles não têm nada a dizer-lhe.

— Somente gostaria de saber se por acaso não fazem idéia de onde está meu marido.

— E porque eles saberiam lhe responder isso?

— Ora, os serviçais andam pra cá e para lá durante todo o dia...

— Meus criados não perambulam por aí, senhora. Temos entregadores próprios do comércio...

— Sua Graça tem certeza de que não saem? - Sophia alfinetou ingenuamente.

— Esteja à vontade para procurar seu marido nesta casa, senhora - a condessa foi direta. - Depois, trate de desaparecer com seu rabinho entre as pernas, porque não irá encontrar Jack Aubrey sob este teto. - E terminada a frase, a condessa sentou e puxou uma conversa completamente diferente com Janet, dando atenção alguma a jovem.

Sophia Aubrey saiu apreensiva do chalé. Fora tolice tentar enfrentar a condessa e desconfiar que Jack estivesse lá, mas o ciúme que sentia daquela mulher quase lhe devastava a alma. Voltou para casa observando todos os cantos das ruas, vielas e becos, talvez encontrasse Jack sentado em alguma calçada, embriagado, ou então, caído desacordado e ferido. Mas não. Não o encontrou e nem mesmo a esperança do talvez encontrá-lo em casa pôde ser saboreada: os serviçais estavam à porta, esperando por ela com más notícias: nenhum deles havia encontrado seu senhor.

Sophia mandou dois de seus serviçais até o cais para descobrir se Jack alugara alguma embarcação e partira para recuperar o dinheiro perdido. Porém, não havia alma viva que o tivesse visto e as preocupações da Sophia passaram somente a aumentar. Jack jamais se comportara daquela forma, jamais. Tudo deveria estar ligado, com toda a certeza, à condessa de Norwich. Só poderia ser dela a responsabilidade de tudo o que acontecia, porque antes de ela aparecer, seu Jack nunca agira tão estranhamente.

Sentada na cama, Sophia admirava o belo uniforme posto cuidadosamente sobre o encosto da cadeira, lavado e impecavelmente passado, esperando para ser usado. Sentia tanto orgulho de Jack, seu capitão, seu marido. Mas não havia nada o que fazer. Ela tentara de tudo um pouco para encontrá-lo e já havia um grande número de pessoas sabendo do sumiço de Jack, o que levaria a uma soma ainda maior de pessoas até que a segunda-feira chegasse. Sophia tinha esperanças que alguma alma dessas encontrasse seu marido. Ela rogava por isso.

Era madrugada de sábado. A condessa de Norwich parou na calçada para esperar pela carruagem, mas dispensou-a para dar um passeio naquela noite agradável na qual a lua cheia resplandecia. A carruagem iria aguardar a condessa logo ao sopé da colina e levá-la para casa logo que o passeio terminasse. A condessa se afastou das ruas movimentadas e chegou à praia, onde descalçou os sapatos e as meias para sentir a areia macia e fria massagear a sola de seus pés. A noite estava silenciosa e um punhado de pessoas andava devagar, todas juntas, rumando pelo cais com destino a um bote, que posteriormente levou-as até um navio mercante. O som do mar era fascinantemente relaxante e a condessa poderia se quisesse passar o resto de seus dias ali fitando o infinito. Entretanto, foi tirada de suas reflexões por dois oficiais portuários, logo adiante, que tentavam prender um grupo de arruaceiros e bêbados. Eles conseguiram apenas fazer a apreensão de um deles, os outros, sóbrios o bastante para fugirem, nem quiseram socorrer o colega de bandalheira.

Trôpegos por conta do prisioneiro, os dois oficiais deixaram o prisioneiro cair por duas vezes antes de avistarem a condessa. Ao se aproximarem dela e reconhecerem-na, alertaram-na:

— Sua Graça não deveria andar à uma hora dessas sem qualquer companhia. É muito perigoso.

— Perigoso? - respondeu ela com ironia. - Não vejo ninguém além de vocês e alguns beberrões.

— Mesmo assim Sua Graça deveria nos acompanhar...

— Minha carruagem está logo ali adiante - ela apontou para a colina, de onde era observada por dois outros homens.

— Como quiser, Sua Graça - falou o oficial, e depois de despedir-se dela com uma mesura, agarrou o braço do prisioneiro e tentou alçá-lo.

Mas, então, o chapéu surrado que o bêbado usava foi ao chão, sendo pisoteado sem atenção, e longos cabelos louros escorreram sobre o rosto do homem que os oficiais seguravam.

— Esperem! - exclamou a condessa ajoelhando-se na areia fofa. Ela afastou os cabelos do rosto do bêbado e ergueu o rosto dele com as duas mãos. - Jack?

O bêbado grunhiu e seus olhos se entreabriram sem nada figurar.

— Sua Graça conhece este... este... arruaceiro?

A condessa ergueu os olhos até o oficial bem vestido e depois voltou a ficar o fedorento bêbado.

— Sim, eu o conheço. É um de meus serviçais.

— Ele está sendo preso por embriaguez...

— Será que não poderíamos esquecer isso se meus rapazes ali em cima o levassem para casa?

— Sua Graça...

— Por favor - pediu ela estendendo ao oficial uma sacola com moedas.

Os dois oficiais se entreolharam e depois baixaram os olhos.

— Há tempos que a esposa dele - e apontou para o bêbado largado ao chão - tenta deixá-lo sóbrio. E ele até estava conseguindo... Por favor. Aceitem e deixe-me levá-lo para casa.

— Mas só porque não há mais ninguém por aqui, Sua Graça. Porque esse arruaceiro merece a forca - um dos oficiais rosnou.

A condessa não sabia o que pensar e como agir senão daquela forma. Era ruim ser um pobre coitado desconhecido a ser enforcado, mas se a verdadeira identidade daquele homem fosse revelada, a vergonha e a desonra seriam piores do que a morte. A condessa abanou ligeiramente para os serviçais na colina e eles correram até ela, ajudando-a a carregar o imundo homem para dentro da carruagem. Não havia pensamentos bons que pudessem aliviar o cheiro horrível que exalava de Jack, mas a condessa escondia as náuseas atrás do lenço branco e rendado.

Chegaram ao chalé e enquanto os serviçais carregavam o bêbado para dentro, a condessa pediu que preparassem o quarto de banho. Ela não tinha intenção alguma de explicar o que estava acontecendo, mesmo porque não era da conta de nenhum de seus empregados, mas sentiu-se melhor contando a eles quem era o homem, enquanto eles o despiam e o banhavam.

— Senhora - chamou um dos serviçais -, o comandante já está na cama.

— Obrigada - ela sorriu com ternura. - espero que o sigilo...

— Não é preciso que a senhora peça uma segunda vez, senhora. Se não precisa mais de nós...

— Mas é claro, mas é claro. Vão se limpar e descansem. Podem tirar o dia de folga amanhã, todos vocês. Eu cuidarei do comandante, não se preocupem. E quando ele estiver melhor, levá-lo-ei para casa. - O serviçal meneou a cabeça, curvando-se, e deixou a sala sem dar as costas à condessa. Ela caminhou até o quarto no final do corredor e espiou porta adentro. Hesitou em entrar, pensando que se o fizesse talvez Jack acordasse, mas ele nem mesmo se deu conta de que fora despido, banhado e colocado na cama, então, a condessa se aproximou, as mãos unidas, mas irrequietas, fitou a silhueta do rosto de Jack sendo iluminada pelas velas e sentou suavemente sobre a cama, alisando o cobertor sobre os pés dele. Que grande absurdo ele estava tentando fazer? Embebedar-se e deixar-se prender? Será que uma nau tão irrelevante quanto a Sophie valia correr aquele risco todo? Sim, perder uma embarcação não era boa coisa, contudo, a tal chalupa estava sendo consertada. Levaria algum tempo até que pudesse tornar ao mar, claro. Mas era preciso apenas esperar algumas semanas.