Capítulo Cinco


MESMO QUE ESPERASSE OUVI-LOS, Jack não soube de qualquer falatório sobre a ousadia de um medíocre homem para com a condessa de Norwich. Em seu íntimo, relutava a vontade de vê-los (a condessa e Jake Jankins) mal falados e a agonia só em pensar que pudessem maldizer sua estimada Gussie. Sentia uma fúria incontrolável ao relembrar a cena e junto dela, fisgadas agudas no peito, que quase o faziam parar de respirar. Parou atrás da porta do jardim de inverno, a esposa e um punhado de mulheres conversavam e tomavam chá, mas não houve comentários sobre Jake e a condessa. Talvez devesse recriminar-se por tais pensamentos, mas tudo o que se passava em sua cabeça era a porcaria do navio que não possuía. Resolveu ir outra vez ao Almirantado. Poderia conversar com seu superior, poderia implorar por qualquer coisa, já não importava mais, ele precisava sair da terra e se perder em rum e grogue em alto mar.

A apresentação no teatro, naquela noite, deixou Jack um pouco mais calmo. Um grupo de violinistas tocou um minueto excelente, que o transportou para dentro da música, e Jack somente pôde ser percebido porque seu pé esquerdo, insistentemente, seguia o compasso. No entanto, a confraternização na casa do oficial-comandante Hartcher revolveu os sentimentos que cochilavam no peito de Jack. A execução nada medíocre do piano no concerto n° 5 em E-Flat maior, op. 73, de Beethoven, prendeu a atenção completa do salão. E assim que terminou, a condessa de Norwich foi aplaudida de pé. Não havia como não ir cumprimentá-la, era uma necessidade. Não. Na verdade era como um dever, e as pessoas se acotovelavam para poderem chegar perto da pianista, ansiando, talvez, receber atenção especial. Vendo o tumulto, a Sra. Hartcher ergueu os braços e balançou as mãos, pedindo calma, pois a apresentação ainda não acabara. A condessa cumprimentou algumas pessoas e rumou para o outro lado do salão, entre apertos de mãos exagerados e muitos elogios. Ela se deteve, porém, somente quando uma mão forte e grande estendeu-se em sua direção.

— Esplêndido, senhora! - Jack Aubrey exclamou.

— Obrigada, comandante. Fico lisonjeada - e suas bochechas coraram. - Sra. Aubrey - cumprimentou em seguida.

— Muito bem executado mesmo - Jack reiterou. - Você não acha, Dr. Maturin?

— Com toda a certeza. São pessoas como a senhora que nos fazem esquecer o quanto a vida é insignificante.

— Não foi minha intenção, caro doutor...

— Não, não, não leve a mal. Foi apenas uma colocação quase que celestial. A senhora deveria tocar para os anjos e não para pobres mortais como nós.

— Tenho certeza - a condessa deu uma piscadela para Maturin - que os anjos iriam ficar importunados com minha presença, já que é deles o poder de encantar e vislumbrar.

— Sra. Aubrey. Comandante Aubrey. Dr. Maturin. Minha cara condessa - Jake Jankins entrou na roda, tomando a mão da condessa e beijando-a com suavidade -, tocou divinamente.

— Era o que estávamos falando - sorriu Maturin, percebendo que os olhos de Jack turvaram, fitou-os por alguns instantes até entender por completo porque o amigo agira tão estranhamente no último mês.

— A senhora me dá a honra? - pediu Jankins numa breve mesura. Ela sorriu encantada, todos puderam notar, aceitando o convite sem pestanejar.

E a noite se tornou um martírio para Jack, que não fez outra coisa senão beber. Beber em demasiado, e falar pelos cotovelos, envergonhando a mulher e os presentes como a muito não fizera.

— Pelo amor de Deus, Jack - Sophia quase gritou, depois de arrastar o marido para trás do caramanchão no jardim. - Pare de beber ou irá arruinar a pouca reputação que lhe resta.

— Ora, deixe disso, querida. Só estou me divertindo.

— Justamente por tal motivo, trouxe você para cá.

— Então vamos aproveitar o ar fresco - disse ele, enlaçando a esposa com certa dificuldade. - Que tal uma amostra de seu amor por mim?

— Aqui?! Você está louco?! Não merece nem um beijo na bochecha, Jack. Vamos embora, por favor! - pediu ela, com receio. Mas antes que Jack pudesse responder, duas pessoas apareceram na varanda, dirigindo-se para o caramanchão.

— Minha cara condessa, não fuja - era Jake Jankins.

— Não estou fugindo, oras - ela zombou dele -, estou apenas querendo me refrescar, e descalçar esses sapatos horríveis - ela empurrou-os com os pés, eram um magnífico par de sapatos francesas, da moda. - Horríveis.

Os dois se fitaram por instantes e Jake virou-se para o peitoril da mureta.

— A senhora brinca com meus sentimentos... e quanto mais o faz, tanto mais sou seu.

A condessa tocou suavemente a mão de Jake, fazendo-o virar-se quase que instantaneamente para ela a fim de continuar sentindo o toque suave, só que bem mais de perto.

— Eu, prontamente, abri meu coração para a senhora. Que mais posso fazer para que a senhora entenda que o que quero é muito mais do que um simples e breve romance?

— O senhor é um tanto...

— Sim, eu sou - ele a interrompeu, sem que pudesse saber o final da frase dela. - Eu sou mesmo um qualquer! Sou um mero comandante, nem mesmo tenho berço distinto ou uma fortuna para poder lhe dar... mas o que está aqui - ele bateu no peito com força - é o suficiente como prova de que...

— Jake, por favor - ela pediu silêncio, olhando para a porta, esperando não encontrar alguma pessoa à espreita.

— Eu irei honrá-la, Augusta, irei - disse, tomando novamente a mão dela, só que desta vez, não a soltou, trouxe-a para perto do peito, fazendo com que a condessa desse um passo na direção dele. Então, num frenesi, Jake caminhou contra ela e a encurralou contra a parede, as mãos apoiadas na parede, os braços esticados em ambos os lados do corpo dela, impedindo-a de fugir daquele contato ousado.

A condessa tinha perdido o fôlego e não sabia se ficava estupefata ou irritada. Aproveitando a margem de hesitação, Jake a beijou, comprimindo-a contra a parede, como se nada mais existisse naquele lugar para que ele pudesse agir tão vergonhosamente.

— Perdoe-me... sou ousado, eu sei, mas a senhora me tira de meu eixo - murmurou pouco depois.

— Jake... é melhor... é melhor... - a condessa não tinha forças para findar a frase, sentia que aquele beijo passara dos limites de um breve caso que pudesse vir a acontecer.

— A senhora permitiu que eu freqüentasse sua casa, me concedeu regalias, consentiu que eu a conduzisse à ópera e outros eventos... talvez não quisesse nada em troca... mas meu amor é tão limpo e puro. Quero dá-lo unicamente à senhora! Contudo, a senhora me ignora... me esnoba...

— Jake...

— Saiba que não haverá necessidade para tanto daqui a um mês. Eu a honrarei, tenha a certeza. Serei um almirante muito em breve!

Um ganido baixo fez com que olhassem para os lados.

— Ah, Jake, muito pelo contrário - afirmou sorrindo e tocando o peito dele com as duas mãos. Jankins era um homem alto e muito belo. - Eu estive, esse tempo todo, provocando-o...

— Quanta maldade - murmurou rindo para ela.

— Acreditei que você agisse comigo da mesma forma que agia com qualquer outra mulher... e eu não sou, como pôde e ainda pode perceber pela boca de tantos homens, uma mulher de fácil acesso.

— Eu sei disso mais do que qualquer outro homem, e tenho tanto respeito por uma mulher como a senhora... - disse Jake beijando-a levemente nos lábios. Mas repentinamente se afastaram: um chiado pareceu vir de detrás do caramanchão.

...

Se não tivesse sido afetado pelo sereno, Jack ainda estaria plantado atrás do caramanchão, suas mãos, no entanto, o teriam atravessado e agarrado o pescoço do emplumado Jake Jankins, estrangulando-o em segundos. Na manhã de segunda, antes de partir para Brighton, enviou uma carta à condessa, através de seu imediato. O recebimento da missão foi muito mais veloz do que Jack pensaram, e dois dias depois, estava em Portsmouth, segurando firmemente a resposta da condessa entre os dedos, protegendo-os da chuva dentro do bolso da capa. Depois de passar no almirantado e ter entregado os relatórios, Jack enfiou-se nos fundos de uma taverna e abriu o envelope lacrado à resina rubra, com o brasão de Norwich.

Caro Comandante Aubrey,

Ficarei lisonjeada com sua visita no próximo domingo, já que não irei à igreja por motivo de doença.

Não se preocupe, no entanto, pois me recupero bem. Poderemos, outrossim, conversar e esclarecer

alguns fatos e desarranjos aos quais o senhor, com toda certeza, pode dar fim.

Condessa de Norwich.

Apesar de ter muito que fazer ao mar e da afirmação de Jankins sobre a promoção latejar em seu cérebro com insistência, Jack não conseguia pensar em outra coisa senão na condessa, e aquele encontro esclareceria todas as suas dúvidas, quisesse Gussie ou não. Assim, no domingo pela manhã, depois de deixar a esposa e a sogra na porta da igreja, Jack rumou para a casa da condessa.

— Que bom que pôde vir - a condessa falou, oferecendo o melhor lugar no sofá a Jack.

— E por que não poderia?

— Ora, o senhor é...

— Gussie, por favor, não há razão para sermos tão formais - ele disse com suavidade, com tanta suavidade que até soou estranho.

Ela desviou o olhar e ficou sem palavras.

— É uma alegria poder vê-la. Até agora não tivemos uma boa conversa. Fui inconveniente... e impertinente... Mas deve me perdoar.

Sem palavras e sem ação. A confissão de Jack baixara a guarda da condessa e ela estendeu a mão indicando uma cadeira de respaldo alto.

— Fale-me sobre sua vida - ela pediu sem esperar que Jack pensasse melhor sobre o que acabara de jorrar de sua boca.

— Não há muito que dizer. A vida no mar é sempre uma rotina.

— Aposto que não. E as emboscadas? E todo o contingente se atropelando para que a artilharia funcione corretamente. E a adrenalina?

Jack riu alto, tinha voltado a ser um menino naquele instante.

— E as aventuras em lugares nunca antes desbravados, ou o temor de enfrentar um inimigo desconhecido e infalível?

— Vejo que ouviu falar muito sobre mim. Mas lhe afirmo, Gussie, tudo muito bonito... a vida no mar, no entanto, não é nada agradável quando compartilhada com um bando de homens mal encarados e fedorentos.

— Você não me convence, Jack. Eu o conheço. Você sempre quis isso para sua vida. Bem me lembro...

— Você me conhecia, Gussie - ele corrigiu a frase. - Assim como pensei que eu a conhecesse. Porém, somos duas pessoas desconhecidas compartilhando um passado distante.

— Foi a vida que você escolheu.

— É verdade - ele murmurou, olhando para as botas lustradas.

— Gostaria de conhecer sua embarcação.

— É muito pouco o que tenho. Eu ficaria envergonhado em mostrá-la.

— Ora, e por quê?

— Porque não condiz com uma condessa...

— E desde quando uma embarcação - ela iniciou a frase, mas terminou-a rindo. Ela conhecia a situação de Jack, sabia de seu pedido por um navio melhor, sobre uma promoção. O belo homem no uniforme impecável, de cabelos lavados e escovados para trás, longos e louros, a barba recém feita, mostrando asseio, e as botas engraxadas poderiam indicar que ele era muito mais almirante do que qualquer um que exercia tal comando.

— É muito bom vê-la, Gussie - repetiu depois do gole de chá.

— Senti sua falta - ela disse sorrindo, uma confissão ainda maior que a dele. - Pelo menos os anos foram gentis com você.

Ele não acreditava, agora, que tivessem sido.

— Permite que eu sente ao seu lado? - ela pediu sorrindo.

— Mas é claro! - exclamou surpreso e arreganhando um magnífico sorriso.

Permaneceram em silêncio por algum tempo, fitando as próprias mãos, ambas com os dedos entrelaçados, até que a condessa quebrou a barreira:

— Talvez eu possa lhe oferecer algo de que goste bastante.

— O chá está bom o suficiente - respondeu arrancando uma sonora e feliz gargalhada dela. Era como nos velhos tempos, nos tempos de juventude, quando qualquer coisa que ele dissesse a fizesse sorrir. - O que foi? - perguntou sem entender.

— Jack - disse a condessa, tocando de leve na mão dele, e no mesmo instante Jack corou -, eu sei o quanto você anseia por um bom navio, ou pelo menos um que seja melhor do que o que você tem.

— Oh - exclamou baixinho. - Na verdade, não é o navio que importa muito, Gussie, é o posto, que me foi tirado por um pirralho. Um grande amigo, admito, mas um fedelho que não faz nem metade do que um de meus marujos faz! - ele bradou; a condessa quase pôde ver o sangue circulando nas veias do pescoço dele.

— Aposto que não tardará a conseguir tal posto ou um melhor.

— Somente espero que nenhum ou nem outro demore muito mais.

— Você continua o mesmo, aqui dentro - e ela apertou sobre uma medalha no peito dele, com o dedo indicador -, querido Jack!

A mão de Jack correu sem hesitar para se fechar com suavidade sobre a dela. Os dois cruzaram olhares e Gussie sorriu.

— E você? Continua a mesma?

Ela libertou-se dele e pôs-se de pé, indo atiçar o fogo na lareira.

— O que faz com Jankins? Ele não é homem para uma condessa - disse abruptamente.

— E quem seria? Você? - ela reverteu a afronta.

— Vejo que os boatos têm certo fundamento.

— Como é? O que quer dizer com isso? - a palavra megera surgiu nos pensamentos dela.

— Bem se vê porque Jankins conseguiu subir de posto.

Os olhos da condessa enegreceram.

— A mãe dele é sua grande amiga. E ele? É um grande amigo seu? Ou é coisa pior?

A condessa não pensou duas vezes, largou uma bofetada na face redonda de Jack, que nem ao menos se moveu do lugar, mas a marca dos dedos permaneceria por algum tempo em seu rosto.

— Cuidado com o que fala sobre mim! Não sou uma qualquer. E já que chegamos a esse nível, falarei de um assunto, no qual eu não teria tocado, se não fosse pela sua atitude: trate de cuidar melhor de sua esposa, ela pode fazer inimigos facilmente com a língua de trapo que tem.

A condessa girou nos tornozelos e deixou o aposento.