Capítulo Seis


TERIA FEITO ALGUMA DIFERENÇA se tivesse se entendido com ela? Não, porque ela continuaria em comum acordo com o pirralho do Jankins. Fora um erro tocar naquele assunto, mas sabia, agora, o quanto ela apreciava o jovem amigo. Estava saturado daquele tema que sua mente martelava sem cessar. Pretendia esquecê-lo depois que embarcasse para o mar. Quem sabe se permanecesse longe tempo suficiente do porto de Portsmouth, esquecesse. Entretanto, ao encontrar Jake Jankins, extremamente risonho e abobado, na entrada do almirantado, Jack findou com qualquer um daqueles pensamentos e a intolerância foi a única que lhe restou.

— Não acredita, meu caro Jack, quão feliz fico em vê-lo - Jake correu a segurar as mãos do amigo, sacudindo-as entusiasmado. - Bendito o dia em que você me apresentou a Augusta.

Jack rilhou os dentes e suas narinas se dilataram.

— Suponho que entraram em acordo...

— Oh, não! Ainda não! - acrescentou com uma débil felicidade, era até cômica. - Mas não tardarei a propor. Eu a quero! Jesus do Céu, como a quero!

— Que sejam felizes - disse Jack contrafeito e desviando de Jake, entrou na ante-sala do Almirantado. O almirante já o aguardava com as ordens e recomendações em mãos.

Não havia destino pior: acabara de aceitar um comando conjugado, se podia denominá-lo assim. Bem, o denominava já que havia três naus de guerra escoltando um grupo de embarcações mercantes. O comboio seguiria até o estreito e encontraria os mercantes, escoltando-os até águas inglesas depois disso. De um lado, Le Royale, comandada por Hadlock Forman. Até aí, nada mal. A segunda nau, Relic, era o problema: teria Jake Jankins a tiracolo durante dois meses inteiros.

O que Jack pensara ser desagradável se tornou infernal: ter de compartilhar constantes jantares em companhia de Jankins, terminados em um único e cansativo assunto, o qual ele abominava agora: a condessa de Norwich. Era muito impróprio para Jack, no entanto, Hadlock não parecia desagradado e até se entusiasmava com Jankins. Impertinente era a última coisa que Jack queria ser, especialmente diante de Hadlock, um homem mais do que honrado e influente, que acabara de se mudar para Portsmouth, então, saía quase espumando dos jantares, indo se esconder em sua cabine, metido debaixo dos cobertores.

— Às vezes eu me admiro com você, Jack. Está mais do que afundado nessa paixão pela condessa e ainda se permite que o afoguem por...

— Já lhe expliquei, Stephen, mas você parece um parvo que não compreende palavra alguma!

— E nem quero, Jack, você conhece meu parecer, não acredito em seu envolvimento com a condessa... além do mais, conheço Sophia e a amo muito para vê-la magoada por uma aventura com uma mulher que nada pode lhe oferecer. - Jack encarou Stephen com o orgulho ferido. - Não faça essa cara, pelo amor de Deus. Eu sei muito bem o que você pensa. Não acredita que tenho estado todo esse tempo com você e não o tenha conhecido? Escute: Sophia o ama muitíssimo. Pense bem, você deseja humilhá-la ou maltratá-la? - Jack emudeceu tendo a certeza de que as palavras do amigo eram mais do que certas.

Que maldito círculo vicioso! Que maldita viagem!

Em Portsmouth, não havia que existir felicidade maior.

— Minha querida Augusta, não sabe o quanto isso tudo me agrada.

— Você se empolga, amiga, e ainda nem resolvi o que fazer.

— Esqueça os preconceitos! Jake nem é tão mais novo assim! E ele, como almirante, pode fazer jus ao seu nome, querida!

— Oh, Janet...

— Não se preocupe. Deixe o tempo correr, ele resolverá os pormenores. Apenas aguarde e se mantenha firme.

Sentaram-se à beira do costado, o vento forte e cálido, vindo do oceano, preanunciava um verão acalorado por uma primavera florida. E nos dois meses que se passaram, Janet e a condessa reafirmaram o laço quase fraterno que há tempos fora quebrado pela distância.

Abril chegou com uma primavera primorosa, cheia de encantos e muitas novidades trazidas do mar. Aquela primeira sexta-feira era simplesmente a noite mais agradável que Portsmouth já tivera, e depois da ópera, os casais se dirigiram caminhando para a recepção na casa do almirante Kipling.

— Radiante como de costume, Augusta - Kipling a recebia com muito gosto.

— Sempre selecionando as melhores palavras - ela apertou a mão dele de leve, sorridente. - O senhor está formoso.

— Ora, quer acabar com o coração deste pobre velho? - ele brincou, mas as pessoas que estavam ao redor, maliciosas, entenderam que o lorde tinha realmente uma queda pela condessa.

Ela riu e passou por ele, seguindo pelo centro do salão.

— Já falou com ele? - Janet se aproximou da condessa, balançando o copo de champanhe.

— Chegaram? Nem ao menos fui avisada!

— Talvez ele queira lhe fazer uma surpresa nesta noite divina.

— Certamente - sorriu a condessa.

Com o passar das horas, porém, só havia visto e cumprimentado o comandante Forman e naquele exato momento vira a sua frente Jack Aubrey, a quem evitara, cuidadosamente, encontrar, mas em seu íntimo, aquele encontro não planejado a deixara mais do que feliz.

— Sua graça - cumprimentou Jack, o copo de bebida era seu único acompanhante.

— Comandante Aubrey, como está? - perguntou, examinando-o de cima a baixo. - Feliz por tornar a casa, suponho.

— Sim - respondeu inseguro, e ela percebeu. - No entanto, não permanecerei por muito tempo. Os negócios andam muito bem - Jack tentou disfarçar a incerteza.

— Oh, que pena - ela exclamou quase inaudível. - Gostaria de poder convidá-lo para um jantar, como um pedido de desculpas. - Ele arregalou os olhos. - Não me olhe assim. Entenda, você sempre foi uma pessoa importante para mim e picuinhas não deveriam nos abalar - ela tocou de leve o antebraço de Jack, que ficou sem palavras. - Quem sabe possamos conversar em algum dos lugares que você freqüenta, para não afastá-lo de seus afazeres náuticos...

— Ora, Gussie - ele finalmente tomou a palavra de forma concisa e vigorosa -, jamais a convidaria a ir até eles, não seriam condizentes com sua pessoa. Mas poderia convidá-la para a ópera, no meio da semana. Um novo grupo está na cidade. Estaremos apenas eu e Stephen, já que Sophia irá passar algum tempo com minha sogra - disse entusiasmado com a idéia.

A condessa pareceu desconfortável, mas concordou com o convite, melhorando-o:

— Por que vocês dois não vêm assistir a peça em meu camarote, então?

Na quarta à noite, antes mesmo que o teatro lotasse, Jack Aubrey e Stephen Maturin já haviam sentado ao lado da condessa no camarote de número um, à esquerda do grande palco, o mais concorrido, o mais desejado, porque a vista era formidável e quem nele estivesse poderia ser visto por todo o resto do recinto. A condessa foi muito cortês, tanto com ele quanto com Stephen, não parecendo a mesma mulher que encontrara dias atrás. Pensara nela durante todo o dia, imaginando o que ela ansiava com tal encontro, Jack criou mil suposições. Entretanto, ele não esperaria jamais pelo que estava por vir, não àquela altura de sua vida. A apresentação no teatro deixou Jack muito mais calmo e estar com dois grandes amigos, mesmo que em silêncio, ajudava. O cheiro de Gussie e a visão privilegiada do pescoço liso e branco dela o estavam levando a um patamar acima do que deveria estar: fantasiando ao invés de apreciar a divina apresentação dos sopranos. Então Gussie virou o rosto para ele e sorriu, os longos cílios dela pestanejaram lentamente e o sabor da juventude correu por sua garganta como o melhor conhaque francês.

— Jack, você não está prestando a atenção? - ela o chamou para a realidade num tom suave, tão bem conhecido, mas há muito esquecido. - Ou não gostou do primeiro ato?

— Ah, sim, sim. Maravilhoso! - e ele se pôs de pé a aplaudir.

A condessa pôde ver o doutor encontrar graça no amigo e balançar a cabeça, Stephen, no entanto, estava de pé, e já fitava alguém na platéia, alheio ao que a condessa pudesse estar pensando dele. A porta do camarote se abriu e uma cabeça espiou para dentro.

— Deseja algo, sua graça? - era um serviçal do teatro.

— Um refresco talvez - ela respondeu olhando para os dois acompanhantes.

— Pode deixar que eu pego - Stephen disse meneando a cabeça e seguindo o serviçal.

A condessa voltou a se sentar, cruzando as mãos sobre o vestido. Jack a acompanhou, mas sentado quase na ponta da cadeira, fascinado com o perfume e com a visão.

— Gussie - chamou-a e ela imediatamente virou o rosto para ele. - Perdoe-me pelo outro dia.

— Esqueça o acontecido, meu querido. Não fui totalmente honesta com você - ela baixou os olhos. - Eu vim a Portsmouth com um único propósito e acabei ficando por tempo demais... sem resolvê-lo.

— Sou o motivo, não sou?

Ela sorriu, arqueou o corpo para trás, virando-se parcialmente, e tocou a mão dele.

— Não é o momento nem o local apropriados para conversarmos - ela garantiu convicta. - Deixemos para domingo, na capela da minha casa, se você puder.

— Claro que poderei - ele respondeu com veemência e conseguiu se aproximar ainda mais dela.

Sua respiração caiu sobre o ombro da condessa fazendo-a se arrepiar, então, seus dedos correram pela nuca de Gussie e envolveram-lhe o pescoço. Jack pôde ouvir o som quase descompassado do coração dela e o seu próprio rufou dentro do peito, criando uma fúria indômita de desejo, o que o fez se aproximar e roubar-lhe um duradouro beijo.

A porta do camarote se abriu. Gussie ajeitou-se na cadeira, fitando a multidão adiante, enquanto Jack ajeitava a casaca cobre o colo, tentando a todo custo esconder de Stephen o quão inflamado estava. Num primeiro momento, um constrangimento silencioso assolou os três até que se ajeitassem nos assentos, mas a condessa, categórica, quebrou o gelo ao perguntar a Stephen quem era a dama com quem ele conversava no andar inferior. Stephen respondeu ser apenas uma conhecida que não via havia muito tempo, desde sua infância, e a condessa pareceu satisfeita com a resposta, o que fez todos tornarem a apreciar o segundo ato. Volta e meia, Jack se perdia nos fiapos de cabelo que caíam pela nuca de Gussie, mas logo depois voltava a prestar atenção ao palco.

O domingo chegou voando e com ele uma notificação: O capitão-de-mar-e-guerra Jack Aubrey estava auferindo o comando de um vaso de guerra que chegaria a Portsmouth naquela manhã. Era tudo o que Jack queria, tudo que ele precisava... mas não naquela manhã, por Deus, não naquela manhã. Por mais incomodado que estivesse em não comparecer ao compromisso com Gussie, ele foi obrigado a permanecer no Almirantado, para aguardar o almirante chefe com as novas honras e ordens. Pediu a Killick, marujo de alta confiança, que fosse até a casa da condessa e lhe entregasse o bilhete:

Cara Condessa,

Por conta de força maior, terei de faltar ao nosso encontro. Algo muito importante surgiu e é de suma importância que eu me apresente ao Almirantado. Imploro que remarquemos para esta tarde, ou talvez um jantar, quem sabe. A senhora poderia enviar-me a resposta por Killick Conservado, meu adjunto fidedigno?

Sempre seu, J.A.

— Ela não enviou resposta? - repetiu Jack pela terceira vez, fitando Killick com um quase desespero no olhar.

— Não! - o marinheiro revirou os olhos, irritado e impaciente, mas Jack sabia que ele não havia lhe dito toda a verdade. - Não me olhe assim, capitão. Como é que um pobre coitado como eu vai saber o que se passa pela cabeça de uma mulher? Especialmente de uma condessa? É certo que ela tinha companhia quando lhe entreguei o envelope e talvez por isso mesmo não o tenha respondido...

— Companhia? Quem...

— O insignificante Jake Jankins - Killick bufou, colocando as mãos na cintura. - Ela apenas sorriu e agradeceu. - Jack nada mais disse, balançou a mão, indicando a Killick que saísse e sentou sobre seu baú. Sua mente não descansou naquela noite, muito menos na semana que se seguiu. Ele não conseguia falar com Gussie e todas as mensagens que enviava a ela não retornavam com resposta. Estava quase agonizando quando, na tarde quinta-feira, o mestre de bordo anunciou que Gussie pedia permissão para subir a bordo. No convés de proa de seu navio, fitaram-se por instantes, com a marujada toda envolta trabalhando - mas de ouvidos atentos aos acontecimentos.

— Eu lhe trouxe isso, para dar sorte - ela estendeu a mão aberta e Jack reconheceu o objeto de metal sobre ela. Tomou-o com delicadeza e sorriu ao observá-lo bem de perto. Fora o último presente que dera a Gussie, há muitos anos atrás.

— Então é mais apropriado que ele fique com a senhora, já que nesses anos todos, eu não sofri risco de vida algum. Foi a senhora quem me deu sorte ao guardá-lo.

— Gostaria de lhe oferecer algo que pudesse...

— Vamos até minha cabine, o Dr. Maturin está lá - Jack a interrompeu, estendendo a mão em direção a porta de vidros quadriculados. Era um pretexto para saírem da vista de todos. Ela baixou os olhos, ergueu um pouco o vestido com as mãos e baixando a cabeça, passou pela porta, adentrando os camarotes dos oficiais. Os marujos nunca tinham visto de perto uma condessa, muito menos uma tão alta e de beleza tão rara.

Jack fechou a porta atrás de si e sorriu para Gussie.

— Eu iria zarpar de Portsmouth com o coração partido se não pudesse falar com você antes de...

— Jack, querido, eu gostaria de lhe dizer muitas coisas e tirar a limpo tantas outras... mas já não faz diferença, elas passaram e nós dois estamos completamente diferentes, em mundo distintos. - Ele fechou o cenho, sem apreciar o rumo que a conversa tomava. - Nossa amizade significa muito para mim, por isso vim a Portsmouth quando soube que era aqui que você morava. Cheguei com certo propósito, porque até então eu não tinha consciência de que você havia se casado. - A condessa sorriu e se sentou na cadeira da escrivaninha dele, passando os dedos de leve sobre os mapas náuticos. - Nada que eu viesse a fazer, então, poderia nos colocar juntos nesta vida...

— Gussie...

— Por favor - ela pediu com a voz embargando. - Eu comprei a embarcação espanhola e singrei os mares em busca de você, logo depois que o conde morreu. Não teria mantido o luto nem por um instante mais se tivesse encontrado um sinal seu. E quando cheguei aqui, quando descobri que você era bem sucedido, meu coração quase explodiu. Mas ele também murchou quando seu contador disse que sua esposa poderia assinar a autorização para o aluguel de um imóvel. Não. Não diga nada. Eu admito, a culpa é totalmente minha, mea maxima culpa.

Jack se aproximou da escrivaninha, abriu uma das gavetas e tirou de dentro um pequeno saco de couro e o entregou à condessa. Ela o abriu e tirou de dentro um cordão de prata com uma medalhinha com a imagem de uma santa. Os olhos marejados de Gussie fixaram-se nos de Jack.

— Eu roubei de você naquela tarde de verão, na colina, quando seu pai nos chamou para o chá da tarde...

— E guardou durante todo esse tempo - ela murmurou apertando a medalhinha na mão. Ele balançou a cabeça afirmando, enquanto sua mão pousava sobre o ombro dela. Jack a sentiu tremer.

Gussie se pôs de pé, mas Jack impediu que ela desse outro passo. Suas respirações eram audíveis agora, o coração descompassado dela fez com que as bochechas ruborizassem e as palavras não saíssem. Jack tentou beijá-la, mas ela se esquivou, afastando-se dele com as mãos apoiados na jaqueta azul onde medalhas deixavam-na ainda mais imponente. Ele não se deu por vencido, segurou-a pelos braços e forçou outra aproximação, novamente Gussie escapou. E quando seus olhos se encontraram, Jack viu que havia um misto de terror e desapontamento cintilando nos de Gussie. Lentamente, soltou os braços dela e lhe deus as costas, baixando a cabeça e fechando os olhos. Ele ouviu a respiração dela antes de a porta se fechar, pouco depois, passos agitados no convés, e então, silêncio. Com ímpeto, agarrou a escrivaninha e a virou de ponta cabeça de uma vez só. O estrondo fez com que Killick e Stephen entrassem no camarote assustados. Mas os dois nada disseram após terem visto os olhos vermelhos e inundados de seu capitão; deixaram-no sozinho e tornaram a seus afazeres, em qualquer lugar do navio.