Forget your name and yesterday
Put out your hand
I'll do the same
Now were going to another land
Will you show me the way
Time has gone
It has gone far away
Far away¹
O MAR, A IMENSIDÃO, nada num navio era fácil, nada no oceano vinha de mãos beijadas, e poderia haver dias, ou meses, difíceis, em que qualquer homem da terra desistiria na mais simples das dificuldades, mas Jack Aubrey, em um navio, era majestade, era comandante supremo, era adorado e venerado, obedecido sem que precisasse, para isso, ser tirano. O mar e Jack Aubrey eram semelhantes. E o mar era o que Jack mais buscava naquele momento, na verdade, o buscava desde sua chegada a Portsmouth há dois meses.
— Por que, diabos, tenho que receber essa mulher aqui? - Jack quis saber, logo depois de receber as ordens do mensageiro, um rapaz de cabelos alaranjados e cheio de sardas, que o encarou com respeito mais amedrontado por não saber responder tal pergunta.
— Deixe isso para lá - Stephen envolveu o amigo com o braço e o puxou para a mesa de jantar. Sentaram-se e permaneceram quietos, ouvindo os relatos intercalados de Sophia e da Sra. Williams sobre as coisas rotineiras de uma casa.
Era tarde quando Jack e Stephen finalmente ficaram sozinhos, mas eles não permaneceram na casa grande, sentaram-se, apertados, no barracão onde Jack montara seu telescópio e abriram uma garrafa de vinho que Stephen trouxera da Espanha.
— Eu vou lhe dizer por que tem que receber a mulher em sua casa, meu caro amigo - Stephen falou subitamente, quando o silêncio parecia reinar absoluto. - A Srta. Hathaway é filha do almirante Hathaway, o condecorado...
— Eu sei muito bem quem é ele. Hathaway é uma lenda na marinha... sinto apenas por prever que essa mulher seja uma dessas pomposas e amorais...
— Bem, meu caro, isso você deverá tolerar ao máximo, já que o almirante é um homem de grande influência sobre o comércio, em especial, sobre a Companhia das Índias. Um homem com tamanha autoridade tem apoio geral do país. E precisamos de homens como Hathaway. Por tal iremos buscá-lo. Se Deus assim quiser, meu caro, o almirante Hathaway será o novo almirante chefe de Portsmouth, o que vai ser uma boa coisa, especialmente para o homem que transportar a filha e os pertences dele até Ascensão.
Jack fez uma careta e fechou os olhos.
— Sim, sim, a moça. Bem, você já deve estar ciente que Hathaway deve uma soma considerável... Eu sei, eu sei. Foi uma rixa antiga entre Hathaway e Cunnigan e o segundo acabou vencendo porque a arma de Hathaway não disparou, e este, vendo que não se sairia bem, pulou sobre Cunnigan e começaram uma briga. Enfim, Hathaway foi preso, um grande mal entendido, é o que eu acho. Por isso precisamos tirar ele de lá são e salvo, sem luta, porque Cunnigan seria capaz de enforcá-lo.
— Aposto que Cunnigan também seja um homem muito influente.
— E é, pelos locais, por isso não podemos contrariá-los, devemos pagar o resgate e pronto. A filha de Hathaway faz questão de ir à Ascensão e isso é indiscutível, não vamos conseguir persuadir quem quer que seja a contraria tal decisão.
— Admiro muito o homem, mas nunca o conheci, logo, não posso lhe dar maiores informações sobre ele.
— Não se preocupe com isso, meu caro. Sei de tudo que preciso e você também saberá. Terá muito tempo com o almirante e será um homem mais do que privilegiado.
— Isso, sem sombra de dúvidas, é uma ótima notícia. Eu bem que preciso de um pouco mais de prestígio e dinheiro, ha, ha! - Jack soltou uma alta e deliciosa gargalhada e foi acompanhado por Stephen.
Na noite em que receberia a filha do almirante Hathaway Jack foi obrigado - pelo código dos marinheiros que não permitia negar nada a um superior - a permanecer no mar, pois recebera um convite do almirante chefe para jantar a bordo de seu navio, nele estavam também lorde Kipling e outros três comandantes e um almirante recém nomeado, Jake Jankins. Jack respirou fundo, sorriu cumprimentando todos e sentou-se ao lado de lorde Kipling, logo à ponta da mesa.
Em Ashgrove Cottage, uma charrete elegante parou diante da entrada e uma jovem mulher desembarcou com a ajuda do cocheiro. Stephen foi o primeiro a recebê-la, estendendo a mão e fazendo uma pequena vênia.
— Comandante Aubrey - a mulher cumprimentou, mas Stephen a interrompeu.
— Perdoe-me, senhorita, mas sou o Dr. Maturin, amigo da família e cirurgião da Surprise. Venho em nome do comandante. Ele pede desculpas, foi obrigado a permanecer em seu navio.
A mulher sorriu e então estendeu a mão para Sophia.
— Senhora Aubrey? - ela questionou hesitante.
— É um prazer, Srta. Hathaway. Um grande prazer. Tenho a certeza de que meu marido desejaria muito conhecer a filha do homem que tanto ele admira.
— Meu pai é um grande exemplo para a Marinha Real - ela disse encabulada.
Entraram e sentaram-se na saleta de estar.
— Fico feliz por poder me receber. Gostaria que o comandante estivesse aqui para eu lhe explicar as reais condições. Sei muito bem que poderia mandar um representante, mas não quero isso. Eu preciso ver meu pai, tenho pressentimentos muito estranhos. Tenho esses... sonhos - ela fitou Stephen. - Perdoe-me, doutor, o senhor é um homem da ciência e talvez não entenda de intuição.
— Eu a entendo perfeitamente, senhorita - ele respondeu sorrindo. Oferecendo a ela uma pequena taça de licor para abrir o apetite.
— Bem, de qualquer forma, se o senhor é grande amigo do comandante, vai poder explicar a ele minha situação. - Ela virou a tacinha de licor. - Não quis parecer esnobe ou intrometida quando fiz meu pedido oficial ao almirante chefe de Londres. É um grande amigo de meu pai e foi quem cuidou de mim quando vim à Inglaterra.
— Eu ia justamente lhe pedir... - Sophia, em sua timidez, soou tão ingênua e adorável, que fez a Srta. Hathaway sorrir. - Seu sotaque é tão diferente do nosso, e também dos escoceses e irlandeses.
— Foram os anos na América com toda certeza – disse, novamente bicando o licor -, a vida por lá não é tão formal, não quando não se está em companhia de ingleses - e sorriu.
— Ora, Srta. Hathaway, o que seria dos ingleses sem a formalidade? - brincou Stephen. Ela sorriu e bebericou um pouco mais.
Sophia ainda se desculpou duas vezes pelo marido, mas fez todo o possível - e obteve sucesso - em agradar a visita. Georgine era uma mulher extrovertida e despojada, Sophia puramente a adorou. Stephen ficou perplexo com os relatos de Georgine, que não foram muitos, contudo, entendia agora o porquê do almirante querer a filha ao lado dele e não do outro lado do oceano. Na América, Georgine estudara em Harvard, a primeira universidade do Novo Mundo; mas para isso ela precisou vestir-se como um rapaz, o que não foi muito difícil, sua altura a ajudou muito no disfarce, já que era uma mulher muito mais alta do que muitos homens, tinha um metro e setenta e sete de altura, e sendo filha de um comandante que tinha afinidade com a família real, bastou um empurrão. Estudou medicina e direito, além de letras e aos 22 anos era fluente e seis línguas. Georgine parecia se sentir orgulhosa ao contar a história, apesar do olhar aterrorizado de Sophia, e disse também não ter se arrependido porque depois pôde cuidar da mãe, cuja saúde deteriorava dia após dia. Virginia era seu nome, fora uma mulher encantadora, mas a tuberculose juntamente com uma rara doença a deixaram de cama durante os últimos anos de sua vida.
Talvez tivesse sido aquele o motivo que impulsionara a filha a burlar a lei dos homens, a estudar, pensou Stephen, e não deixou de se admirar e se orgulhar dela, mas também tinha o conhecimento de que às mulheres inteligentes não precedia destino agradável. Seguramente ele se afeiçoara a idéia de ter a bordo da Surprise alguém de igual nível. Alguém afável com quem compartilhar seus conhecimentos.
Uma forte chuva impediu que Georgine Hathaway tornasse à hospedaria e Sophia não mediu esforços - quando viu que o interesse de Stephen pela visita era grande - em fazê-la permanecer aquela noite e talvez na tarde seguinte. Foi o que aconteceu.
— Preciso tirar o chapéu para a senhorita, não imaginei que seus artigos fossem tão intensos.
— Pena serem tão intensos e tão pouco divulgados, mas se eu não fosse filha de meu pai, nem ao menos teria isso - ela balançou o folhetim. Era uma amostra do que ela escrevia, do que escrevera. - Na América era diferente, eu tinha certo prestígio. Os velhos professores e alguns doutores, amigos íntimos de meu pai, me protegiam e me ajudavam. Embora muitos quisessem encontrar alguma desculpa e punições para a "loucura" que cometi, eles se curvaram e ampararam minha condição. Talvez porque fosse uma nova nação, não que a mulher tivesse privilégios, mas eu tinha certas regalias já que falava a língua dos índios.
— Estou impressionado. Realmente impressionado.
— Ora, Dr. Maturin, aposto que o senhor também é um poliglota. Aposto que fala tão bem o espanhol, o francês, o latim, ou o alemão quanto eu. Talvez até melhor, já que é um marinheiro tão experiente e viajado.
— A senhorita se engana quanto ao marinheiro experiente. Não passo de um leigo quando estou em um navio. Convés é uma palavra que entendo bem, mas todo o resto me custa entrar na cabeça - e ele riu, fazendo a rir também. - Há quanto tempo a senhorita está no país?
— Desde 1803, dois anos apenas.
— Ora, mas... a senhorita é muito nova... como foi que estudou tanto...
— Eu entrei em Harvard com 15 anos, o que me ajudou foram as línguas... e as mentiras, claro - ela riu, porém, repentinamente, silenciou. E quando tornou a falar, tinha uma expressão triste e a voz baixa. - Perdoe-me se sou enfadonha. Precisava ser sincera com o senhor antes que soubesse por outro alguém das minhas condições.
— Suas condições, senhorita? Fala como se fosse uma mórbida insensatez o que fez.
— E não foi? Muitos me abominam e me desprezam, e somente são gentis comigo por causa de meu pai.
— A senhorita não está feliz na Inglaterra, pelo que vejo.
— Estaria mais feliz em Massachusetts, com toda a certeza.
Era difícil admitir a derrota, mas Stephen entendia bem o que ela queria dizer, em Massachusetts ela tinha um consultório, criara amizade com muitas pessoas e se especializara em partos, porque em geral, homens eram proibidos de entrar no aposento quando uma mulher estava em labor. Georgine também estudara com os índios as plantas nativas e conhecia uma infinidade de remédios naturais, sendo consultada até mesmo pelos cirurgiões da marinha que por lá aportavam. E agora, ali na Inglaterra, era difícil ser tão inteligente e ter que suprimir, reprimir tal dádiva. E tinha todo o outro lado da moeda: a Srta. Hathaway era bela, polida e educada, era provável que mil pretendentes a tivessem cortejado, mas por ser quem e o que era, os homens se afastavam, amedrontados. Não sentiu, contudo, pena dela, nem deixou tal sentimento o corromper. Ela era uma mulher fascinante e deu graças novamente por poder tê-la a bordo. Estava louco para falar com Jack.
Já em Ashgroove Cottage, Jack recebia as boas novas:
— É uma mulher adorável - concordou Sophia apertando o braço de Stephen. - Oh, Jack, é realmente uma pena você não ter podido conhecê-la, ficaria encantado! Ela ensina latim e francês em Londres, preferencialmente para moças, mas atente meninos também. Quem sabe poderíamos deixar nossos filhos aos cuidados dela...
— Tudo bem, mais calma, hein? - Jack pediu gargalhando e beijando a mão de Sophia. - Preciso falar com Stephen agora, meu bem, nos dá licença?
Os dois homens saíram para o jardim dos fundos da casa, rumando ao improvisado observatório.
— Pela sua cara também simpatizou com a moça.
— Ela é um encanto, como disse Sophia. Até melhor, terei companhia, na Surprise, de outro biólogo.
— Ela... entende... disso? - Jack pareceu abobado.
— E se entende, meu amigo. E entende de muitas outras coisas como latim e espanhol...
Jack estava surpreso com o entusiasmo de Stephen.
— Bem, se você a aprovou, não me resta dar uma chance a ela, não é mesmo?
— Você não ira se arrepender.
— Duvido disso, meu caro, mas vou lhe dar o benefício da dúvida.
Os dois soltaram altas gargalhadas e puseram-se a conversar sobre as estratégias em terra, o que não seria nada fácil, já que o governante de Ascensão não era um homem sensato, ele poderia assumir que estavam lá para reivindicar a ilha e Jack não queria problemas maiores do que já possuía.
¹Far Away - Scorpions
