Capítulo Dez
SE OS VENTOS CONTINUASSEM fortes, chegariam a Ascensão dali a cinco dias, mas o tempo tinha mudado e uma suave brisa não permitia mais do que três nós. Jack estava insatisfeito, mas pelo menos seu gosto pela música tinha voltado e agora ele e Stephen tocavam Boccherini para uma espectadora sorridente.
— Vela à vista! - berrou o homem no cesto da gávea. - Ó do convés, vela vista a estibordo!
Jack largou o violino sobre a mesa e correu para cima, os longos e loiros cabelos amarrados escondidos sob o chapéu lhe davam um ar austero e soberbo, mas ele entendia muito bem de seu ofício e não havia ninguém melhor do que ele para enfrentar a Baptiste, que se movia lentamente, ao longe, mas parecia mais rápida do que a Surprise.
— Preparar os canhões! Sr. Smith, tocar todos a seus postos. Sr. Pullings, acorde todo o pessoal.
— Sim, senhor - respondeu Pullings, mas hesitou. - Senhor...
— O que foi, Tom? - quis saber Jack.
Mas Pullings não respondeu, meneou a cabeça e correu para os conveses de baixo.
— A coisa vai ficar feia, senhorita. Aconselho que fique em seu camarote e espere a batalha findar - Jack disse sorrindo e saiu sem esperar resposta, queria logo agarrar a Baptiste e liquidar seu capitão.
Lutar em mar calmo era sentença de morte, não havia como pôr o leme a barlavento, para deixar a proa se aproximar da linha do vento, ou então desviar, de propósito, a proa do rumo que vinham seguindo, para surpreender o inimigo. Somente se poderia atirar, e era atirar com fúria e pontaria para que o lado oposto não pudesse saber o que aconteceu e muito menos responder com poder de fogo superior. Era preciso ser preciso e rápido, estrategicamente destrutivo. E Jack sorriu com aquele pensamento, conhecia os surprises e a habilidade que tinham com canhões. Restava apenas rezar para que os baptistes não fossem igualmente bons.
O navio francês foi o primeiro a lançar fogo. Tinham um canhão de cano longo que fazia as balas zunirem por sobre as cabeças inglesas, mas a cada bala francesa, um urro ufanista vinha dos ingleses. Bem próximo agora, o Baptiste avançava com canhoneadas que mais e mais partiam cabos, velas e mastros, mas nada podia fazer a Surprise, a não ser esperar o momento certo. E este veio quando os dois navios emparelharam. Mesmo antes de ouvirem a voz do comandante francês dar a ordem para bombardear, os surprises fizeram seus canhões cantarem. arrebentando primeiramente os canhões inferiores do inimigo. A segunda salva, lançada em pouco mais de um minuto, calou a maioria dos canhões superiores, e a terceira destroçou o convéns. Então os ingleses rugiram e jogaram-se contra o Baptiste, com suas espadas, sabres, machadinhas e pistolas empunhadas.
— Água a seis pés no poço, comandante! - era o carpinteiro preocupado, o lenço passava na testa, mas sem conseguir secar todo suor que nela escorria.
— Qual é a conta do açougueiro? - quis saber Jack, olhando para dentro do vão enorme que uma bala de canhão fizera no tombadilho e que dava luz direta à mesa de operações do doutor. Maturin balançou a cabeça, irritado, e voltou a costurar o rosto de um marujo.
O tumulto da pós-batalha era quase mais mórbido do que a batalha em si, porque o choro desiludido, o pedido de ajuda e o grito de desespero poderiam deixar o mais forte homem tão impressionado que o transformaria num menino largado ao desamparo. Mas apesar de seus olhos estarem marejados e nada acostumados com os sons de uma batalha, a Srta. Hathaway continuava a auxiliar o doutor sem reclamações. Quando todos os suprises feridos foram atendidos, era noite, porém, a leve brisa não conseguiu espantar o fedor do sangue sendo lavado nos conveses. Os marceneiros e carpinteiros, auxiliados pelos marujos em serviço, colocavam ordem na Suprise. A água no poço fora contida e o buraco no casco tinha sido remendado. Se tudo desse certo, iriam poder consertá-lo definitivamente em Ascensão.
— Sr. Babbington, por favor, vá até a enfermaria e peça para a Srta. Hathaway vir até aqui, se ela não estiver ocupada.
Babbington respondeu com um miado e pouco depois voltou escoltando uma estranha Srta. Hathaway, que apesar das vestes ensangüentadas, sorriu ao bater na madeira da porta e cumprimentar o comandante. Jack, ao contrário, perdeu o sorriso que tinha nos lábios, e com uma expressão preocupada pediu:
— O que, em nome de Deus, aconteceu-lhe, senhorita?
— Bem, meu caro comandante, cuidar dos feridos não é um trabalho tão fácil quanto presumi que pudesse ser...
— Eu a entendo - murmurou Jack ao se lembrar de uma das cirurgias feitas por Stephen, na qual quase desmaiara.
— Gostaria de pedir gentilmente ao senhor por roupas apropriadas para tal serviço. Camisas, calções... talvez um avental. Porque se continuar desse jeito, quando chegarmos a Ascensão não terei um vestido sequer para usar.
— Calções e camisas, claro, claro - repetiu batendo a mão na testa. - KILLICK! - urrou.
— Sim, comandante - respondeu Killick num sussurro, logo ao lado de Jack.
— Oh - murmurou Jack ao se dar conta que o despenseiro estava quase colado a ele. E baixando a voz, pediu: - Arrume calções e camisas para a senhorita.
Killick arregalou os olhos, não acreditando que seu comandante aceitaria àqueles pedidos.
— Para ela usar? Onde já se viu disso? Uma mulher usando roupas de homem? - bufou indignado. - E eu tenho que providenciar tudo. Onde vamos parar? Que tempos são esses?
— Ora, Sr. Killick, se ver uma mulher em trajes masculinos o incomoda mais do que ver homens retalhados e em frangalhos, então acredito que devo continuar usando meus vestidos - rosnou a Srta. Hathaway em tom muito sério, fazendo os olhos de Killick percorrerem pelo camarote, cheios de vergonha. Quando Jack finalmente encontrara uma frase apropriada para a situação, a Srta. Hathaway já havia se retirado do aposento.
À noite, a Srta. Hathaway pôde ouvir os oficiais jantando e comemorando a vitória, no entanto, aquilo a deixou muito irritada e contrariada: como era possível, com tal montante de mortos e feridos, os oficiais comemorarem? Ela não conseguia abafar com o travesseiro as gargalhadas e piadinhas deles (algumas muito sem graça e outras um tanto ofensivas). Sem condições de permanecer ouvindo-as, subiu para o convés em suas roupas de dormir mesmo, mas enrolada no cobertor, e sentou-se sob a murada de boreste, onde fechou os olhos para melhor ouvir o belo e único som que lhe chegava aos ouvidos: o marulhar das ondas no casco da Surprise. Um crepitar diferente fez com que ela abrisse os olhos e vislumbrasse uma figura sorridente.
— Não acreditei encontrar mais ninguém por aqui - disse Georgine. Stephen sorriu e apontou com a cabeça para os vultos logo adiante, vultos escondidos que mantinham o navio em sua rota. - Pensei que você estivesse com os oficiais no camarote do comandante.
— Esses jantares são um tanto maçantes para civis, especialmente depois de uma batalha como a que experimentamos.
— Hum. Então fiz bem em recusar ao convite.
— Não é o que o comandante acha.
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— Srta. Hathaway, jantaremos às 6 horas em meu camarote para festejarmos a vitória.
— Comandante, se não for grande petulância gostaria de declinar de seu pedido. Sinto-me tão exausta e suja. Como eu poderia comparecer a um evento social tão desleixada?
— A senhorita não deve se preocupar, Killick poderá arranjar toda água doce que precisar...
— Não, não, meu caro comandante. Não me sinto à vontade gastando sua preciosa água. Se fosse dia eu talvez tomasse um bom banho de mar, mas à noite e com este vento... não me atrevo. O senhor me dá licença?
Jack não respondeu, apenas abriu caminho para que ela passasse.
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— Não tive a intenção de ser rude - ela disse quase horrorizada, os grandes olhos negros brilhavam para Stephen.
— Não é necessário que se explique. Eu a entendo muitíssimo bem.
— Por favor, não pense mal de mim, Stephen, só não me encontro em estado de espírito...
— Eu entendo, minha cara. Mas tenha a certeza de que você será obrigada a remediar a situação. O comandante é um homem que gosta muito dessas cordialidades da marinha.
Na noite seguinte, o comandante recebeu Georgine para jantar junto aos demais oficiais da Surprise. Eles pareciam um bando de tontos sorridentes e bêbados, distantes de tudo, presentes apenas para os assuntos do mar.
— Caro comandante - ela falou logo depois de cumprimentar a todos -, sei que o senhor é um homem ocupadíssimo e igualmente requisitado, por tal não se ofendeu com minha recusa, não é mesmo? Eu sinceramente não teria sido boa companhia e pelo que vejo, o senhor não perdeu nada com minha ausência - ela apontou discretamente para os demais oficiais. - O senhor tem um formidável grupo...
— Ora, senhorita - Jack a surpreendeu com um enorme sorriso -, uma mulher como a senhorita, tão polida, estudada e letrada, é sempre a melhor das companhias para homens como nós.
— Falando assim o senhor me deixa com peso na consciência.
Naquele momento Killick entrou na sala trazendo o jantar, e ficou provada e comprovada que a bondade e a generosidade naquela mulher eram natas.
— Sr. Killick - ela disse em baixo tom, tocando o antebraço dele -, acredito que lhe devo um pedido de desculpas. - O velho marujo arregalou os olhos. - Não foi minha intenção ser dura e rude. Meu humor não estava no seu melhor dia...
Killick abriu uma nesga de sorriso, mas pareceu que ele sentia dores profundas, o que fez Jack soltar uma divertida e estrondosa gargalhada. Na mesma noite o comandante acompanhou a Srta. Hathaway até o camarote a fim de não permitir que nenhum dos oficiais bêbados a importunassem. Contudo, foi ele que se sentiu estranhamente importunado - ou seria espantado? - com o beijo de boa noite que recebeu dela em uma das bochechas.
Na manhã do dia seguinte, o vento tinha cessado novamente e o sol escaldava.
— Vamos dar um mergulho, comandante? - foi Georgine quem o chamou, ela vestia um dos calções e a camisa que Killick havia lhe dado, a gola desabotoada mostrava traços de seus seios fartos. Jack sorriu e respondeu que não era uma boa hora. A mulher olhou em volta e viu que um grupo de oficiais a olhava com gosto, então se dirigiu a eles e ofereceu um banho em sua companhia. Eles aceitaram sem pestanejar. E antes de mergulhar, Georgine fitou o comandante com um olhar sedutor, soltou os cabelos e pulou para dentro do mar.
— Um bichinho perigoso, não acha? - Jack olhou para o lado e fez uma careta para Stephen, que não conteve a gargalhada.
Ao meio-dia surgiu o vento norte, direto na popa, forte, furioso e a marujada pulou de um lado a outro fazendo a Surprise zunir sobre a água diretamente a Ascensão. Mais uma noite o camarote onde os oficiais jantavam se transformou em festa. Até mesmo a Srta. Hathaway bebia. Bebia e se interessava mais e mais pelo comandante, o homem que num primeiro momento foi aspirante a marido, lá em Portsmouth, diante da vitrine de uma botica. A madrugada entrou com mais força nas velas da Surprise e os oficiais brindavam ao vento. Quando finalmente a Srta. Hathaway se pôs de pé para se retirar, os oficiais resolveram descansar, e ela e o comandante permaneceram sozinhos no estreito corredor diante da porta do camarote dela, que não era confortável.
— Espero que tenha gostado do jantar. Gostaria de ter providenciado um de seus pratos favoritos, mas é muito difícil quando o estoque...
— Comandante, certamente jantaremos em um lugar mais apropriado, onde eu possa lhe numerar meus... pratos... favoritos - ela falou pausadamente, desequilibrando-se propositalmente num dos balanços do navio e apoiando-se em Jack para não cair. - Perdoe-me, acho que o vinho me pegou.
Jack sorriu, afastou um fiapo de cabelos que desceu pela testa dela e sem esperar, recebeu um beijo e mãos em volta de seu corpo. Ao contrário do que Georgine temia, Jack não se esquivou da demonstração de afeto e, sim, puxou-a mais para perto de seu corpo. Com um chute, ele abriu a porta do aposento dela e entraram ainda aos beijos. Ela abriu o paletó do uniforme e depois a camisa e suas mãos encontraram a pele quente dele. Jack sorriu ainda mais e afastou o rosto de Georgine, com as mãos nos cabelos negros, por um instante queria vê-la sorrir também; queria ver a expressão no rosto dela... E viu. Viu isso e muito mais, então, voltou a beijá-la e percorrer-lhe o corpo com mãos afoitas e carinhosas. Entretanto, quando ela falou: Comandante, o senhor será gentil?, Jack acordou. Acordou como se tudo não passasse de um sonho.
— É melhor a senhorita... é melhor eu tornar a minha cabine - gaguejou afastando-a de si e lhe dando as costas, mas ela o segurou, tentando beijá-lo novamente. Jack bruscamente se apartou, zangado e incrédulo.
Imensamente magoada e envergonhada, Georgine fugiu das vistas do comandante, indo se esconder na enfermaria, onde surpreendeu três marujos se embebedando. A principio, eles se esquivaram e intentaram sair, mas ela se sentou e pegou uma das garrafas, virando-a e sorvendo o líquido como se fosse água.
— Você! Passe-me a sua garrafa! - ela ordenou e o marujo obedeceu, sentando-se ao lado dela. Os outros tornaram a se sentar e foram se embebedando junto da senhorita.
Stephen entrou na enfermaria, pegando os quatro de surpresa, mas eles já estavam tão embriagados que nem mesmo se o comandante aparecesse teriam tido outra vontade que não a de convidá-lo a beber. Stephen tentou levar Georgine de volta ao camarote, mas ela foi relutante e agressiva, uma persuasão eficiente na concepção do doutor. Assim, ele resolveu que cuidaria daquela ressaca no dia seguinte. Foi exatamente o que fez, além de carregar Georgine inconsciente até o camarote antes que o dia raiasse e outros marujos a vissem naquele estado lastimável. Somente no dia subsequente foi que Georgine melhorou do estômago, mas a cabeça continuava parecendo um gigantesco sino que badalava incansável. Ela continuava indignada e insatisfeita por conta da rejeição do comandante da Surprise, e Babbington, ao convidar a Srta. Hathaway, em nome do comandante, para o chá da tarde, descobriu da pior forma o quão amarga uma mulher podia ser. Stephen foi testemunha.
— Faça o favor, Sr. Babbington, de voltar à presença de seu comandante e dizer a ele que essa história de bêbado não se lembrar do que fez ou DEIXOU de fazer eu não aceitarei. Diga também que não estou em condições de acompanhá-lo no chá e também no jantar ou em qualquer outra atividade que ele propuser.
— Babbington, espere! - interveio Stephen e saiu com o oficial até o convés. - É melhor me deixar falar com o comandante. Esqueça o que a senhorita lhe disse, seria melhor para ela, para você e para o comandante, está bem?
O jovem oficial fitou Stephen por alguns instantes, imaginando se o pedido do doutor não seria uma traição ao seu comandante, mas depois de pouco ponderar, sorriu e obedeceu porque sabia que o doutor e o comandante eram muito amigos e certamente jamais um iria querer o mal do outro.
