Capítulo Onze


Surprise, Ascensão, 22 de outubro de 1804.

Entramos na ilha sob os olhares intimidadores dos ilhéus. Não houve luta nem mesmo desentendimento. O doutor Maturin e eu encontramo-nos com o almirante Cunnigan, que nos recebeu com pompas e cordialidade. Sinceramente, esperei pelo contrário, mas vejo agora que o almirante é um homem de palavra e respeito. Aceitou o resgate se elevar o valor, coisa que muito se vê nos dias de hoje; hospedou-nos em sua propriedade e teve a gentileza de fornecer-nos todas provisões necessárias para nosso retorno à Inglaterra. Permaneceremos em Ascensão apenas por dois dias, para o completo conserto do casco avariado da Surprise, em seguida, sem delongas, partiremos.

Cmte. Jack Aubrey.

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O almirante Hathaway era um homem a frente de seu tempo, quem o via pela primeira vez, depois de sua soltura, diria que não passava de um almofadinha arrogante, mas ele estava felicíssimo por poder tornar à Inglaterra nos braços da filha, embora estivesse muito preocupado com a volta, porque em Ascensão, apesar de ser prisioneiro, tinha ouvido que os franceses armaram um esquadra para dominar aquelas águas. E era uma esquadra formidável, composta por navios de primeira e segunda linha, recém saídos dos estaleiros, impecavelmente armados com o que havia de melhor e mais moderno na artilharia. Os oficiais e tripulação, diziam, eram as mais habilitadas de que já se ouvira falar, não havia nau inglesa, nem mesmo a HMS Victory, do tão onipotente Lorde Nelson seria páreo para a organizada esquadra. Mas para os Surprises o que acontecia era que os franceses maricas ainda não haviam enfrentado uma embarcação inglesa de porte, de valor, de habilidade como a de Lorde Nelson, se tivessem, não ousariam blasfemar contra tão honrado cavalheiro.

Em Madeira, sete outras naus de guerra se juntaram à Surprise e a transformaram num pequeno barquinho que aspirava ser o que jamais poderia: um grande navio de guerra. Embora fosse conhecido por suas façanhas e adorado por muitos dos tripulantes das outras embarcações inglesas, seus oficiais superiores o consideravam um mero capitão que jamais se tornaria almirante.

Mas aconteceu que, também em Madeira, o correio marítimo deixara uma correspondência oficial do almirantado de Plymouth, assinada pelo próprio conde de Cornwall, com instruções particulares ao comandante Jack Aubrey, agora Comodoro da esquadra, para que se demorasse algum tempo em Madeira e aguardasse pela "magnífica" esquadra francesa e a arrastasse a emboscada nas proximidades de La Corunha, onde galeões de comandante Olivares D'Ávila esperavam resgatar seu maior tesouro saqueado: a virtude de sua futura princesa.

Jack recebeu congratulações de dois ou três oficiais que eram verdadeiras, de coração. As outras foram dadas da boca para fora, com olhares de través e narizes empinados. Mas nada o satisfez mais do que as canhoneadas com as quais a marujada de todas as embarcações o recebeu depois da nomeação. Com a animação da nomeação, Jack esquecera completamente do ocorrido na Surprise, mesmo porque havia ficado entre Georgine e ele, mas a mulher não estava mais a bordo, pedira ao pai que arrumasse outra embarcação "mais adequada" as suas regalias. Jack somente descobriu que os Hathaway haviam se acomodado em outro navio no jantar que o almirante Robertson oferecera em sua homenagem e em sua mais nova embarcação: a HMS Agamemnon, uma nau de terceira linha, de 64 peças de artilharia, amorosamente chamada de Eggs and Bacon. O almirante Hathaway se desculpou por não ter lhe dado satisfações, mas justificou-se bem ao dizer que não era assunto relevante a um comodoro preocupar-se com civis, parabenizou-o uma vez mais e disse que o almirante Jankins o tinha recebido muito bem.

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Agamemnon, La Corunha, 05 de dezembro de 1804.

Cara Sophia,

Ouvi dizer que quando se tem grande poder nas mãos tudo caminha com perfeição: os homens respeitam e obedecem cegamente seus superiores. Devo discordar de quem escreveu esta premissa. Tenho encontrado grandes barreiras em meu caminho. Por que se preocupam tanto estes homens? Será que não enxergam que não serei comodoro por muito mais tempo? Respeito seus aforismos e experiências anteriores, muitos deles são mais marinheiros do que eu jamais poderei ser, mas se este cargo me foi dado é porque devo ter algum valor, não acha, querida? Bem, o relato da batalha me foge ao pensamento agora, existem outras inquietações em minha mente que imploram a mim algo que não posso oferecer. No entanto, levo comigo a velha Surprise, à qual comando tornarei com toda certeza. Você poderá ler nos jornais, dentro de alguns dias, até mesmo antes de receber esta carta, sobre como se deu a batalha. Perdoe-me por ser tão enfadonho e não estar empolgado com algo que deveria ser o centro de minhas atenções. No entanto, estou feliz. Feliz porque não tardará agora para nos reencontrarmos e aguardo isso com extremo anseio. A falta que você me faz não há como entender e muito menos comparar com qualquer outra falta que eu já tenha sentido: fome, sede, frio.

Sempre seu, Jack Aubrey.