Capítulo Treze
SONETO DA HORA FINAL
Vinícius de Moraes
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Será assim, amiga! Um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto de repente
O beijo leve de uma aragem fria.
Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei, também, com nostalgia.
E partiremos tontos de poesia
Para a porta de treva aberta em frente.
Ao transpor as fronteiras do Segredo
Tu calma me dirás: Não tenhas medo,
E eu calmo te direi: Sê forte.
E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.
COM O MÊS DE DEZEMBRO chegou a esquadra comandada pelo comodoro Aubrey, chegaram as festas, as condecorações e chegou Jake Jankins acompanhado pela filha do almirante Hathaway, a bela e cheia de talentos Gigi. Jack Aubrey mal esperou receber os elogios e cumprimentos e pulou do deck para a estrada pensando na carta que escrevera quando no porto de La Corunha, a bordo da Agamemnon, em cinco de dezembro último. Escrevera a Sophia, mas não era diretamente a ela tais palavras. Alugou um cavalo e tocou em disparada para a casa da colina. Era evidente quem tinha um anseio, o anseio de encontrar a condessa. Chegando lá, porém, deparou-se apenas com alguns derradeiros serviçais que se aprontavam para a partida a Portchester, mais especificamente ao castelo do duque de Fareham. Tardaria a chegar ao castelo se fosse a cavalo, mas seria tarde demais esperar o dia seguinte. Carecia ser agora, carecia ser naquele dia. Então partiu, o cavalo ofegante não parou um segundo sequer, nem ao menos tentou, parecia estar ciente de que o objetivo de seu cavaleiro necessitava ser atingido em menor tempo possível.
Na saída da estrada para Portchester a carruagem do duque estagnou quando a condessa viu Jake Jankins de braço dado a uma jovem mulher. Jake estancou e não soube bem o que fazer quando a condessa de Norwich veio em sua direção. Mas sorriu e tocou a mão de Gigi para tomar confiança, e quando a condessa parou diante deles, cumprimentou-a com gosto e solicitude. Não foi com gosto e solicitude, porém, que recebeu a mão espalmada da nobre na face esquerda, e não foi com gosto e solicitude que percebeu a lágrima que dos olhos dela rolou. O duque em pessoa estava ao lado deles, um segundo depois, e tomando a condessa pelo braço, guiou-a até sua carruagem para retomarem o caminho do castelo. Nenhum dos dois nobres se manifestou ao ocorrido, nem a condessa em tom de arrependimento, nem o duque em tom de repreensão, embora pensassem em se pronunciar talvez quando chegassem ao castelo. Não foi o que aconteceu. Mudos, esperaram que os criados lhes servissem e cada qual foi para seu aposento.
Dois, três ou talvez quatro foram os cavalos que entraram trotando pelos terrenos. O último, no entanto, adentrou cavalgando a madrugada, sobressaltando quem ainda estava de pé. O soar das batidas na maciça porta acordou tantos outros e fez dois serviçais ficarem mal-humorados por terem de abrir a porta e anunciarem uma presença distinta apesar das horas já bastante tardes.
— Sua graça, com sua licença - uma serviçal adentrou a saleta onde a condessa estava a ler. A nobre ergueu os olhos avermelhados e recebeu a mulher: - O comandante...
— Por favor - ela estendeu a mão, impedindo a continuação da frase -, diga que isso não são horas de ver alguém. Não. Diga que não estou. Melhor! Diga que eu morri!
A empregada arregalou os olhos, fez uma vênia e se retirou. A condessa soltou-se no sofá, voltando a fitar a enorme lareira, com a impressão de que não deveria ter mandando Jake Jankins partir sem tê-la visto. Já tinha sido suficientemente grosseira na rua, naquela tarde, não era preciso ser agora também.
— Eu entendo que não queira receber ninguém, mas eu mereço sua atenção!
Num salto, a condessa se virou para a porta e ao ver que era Jack Aubrey a sua frente, correu a abraçá-lo. Espantado e hesitante em retribuir ao pedido de carinho, sem saber exatamente o que fazer, Jack apenas tocou os ombros dela, mas o choro abafado em sua farda fez a dor da mulher entrar em seu peito como se fora atravessado por uma espada. Então envolveu-a com os braços num forte e poderoso abraço. Quando finalmente ela se afastou, soltou-a por completo e ouviu-a murmurar com voz grave e sofrida:
— Você estava coberto de razão, Jack. Eu fui uma grande tola!
— Você só confiou demais em seu coração...
— Não. Eu quis me afastar dele.
— Se afastar de quem?
Augusta levantou os olhos para Jack e o encarou. Passados alguns segundos tocou o rosto dele com as pontas dos dedos e então o beijou. Jack a afastou, segurando-a pelos ombros e a encarou com seriedade.
— Eu já estou condenada - explicou. - Deixei que você partisse de mim e o perdi.
— Não, não me perdeu de todo - respondeu Jack sorrindo e com o peito inflado. - Mas jamais poderia ser seu por completo.
— Basta-me estar ciente de que não perdi meu espaço dentro de seu coração - ela recostou o rosto sobre o peito dele e sentiu mãos envolverem seu corpo.
O frenesi do momento não permitiu que ambos pensassem nas implicações daquele ato. Era insensato, era pecado e tudo mais que alguém pudesse adjetivar, Jack, porém, não queria saber como o denominariam daquele dia em diante, queria manter apenas sua amada Gussie nos braços e apertá-la, tocá-la e beijá-la, saciando seu desejo a muito asilado. Ela cheirava tão bem, a pele macia roçando a sua enchia-lhe o peito de amor, os gemidos quase mudos, quiçá envergonhados, o tiravam do eixo e somente desejava poder esquecer que se dessem fim àquele delicioso momento, teria de voltar à vidinha sem sal que tinha. Meteu-se nela com mais vontade e a sentiu tremer. Beijou fervorosamente, segurando o rosto dela entre suas mãos, e assim que ela abriu os olhos, ele sorriu mais do que feliz. Gussie o mirava ainda ofegante, com os grandes olhos redondos e as bochechas rosadas, o que fez Jack sorrir ainda mais e beijá-la com suave carícia. Porém, ao se afastar, percebeu uma lágrima descendo pela face direita dela, escorrendo até chegar a seu polegar.
