Gravity of Love - Capítulo II


Se tinha algo que Böck havia aprendido durante aquele triste, frio e estressante dia trabalhando nas ruas de Viena e trancado no departamento era que prender "algumas" pessoas não era nada. Nem em seus interrogatórios monótonos, eles conseguiram uma prova que fosse do tráfico de mulheres e crianças que ocorria não apenas na capital, mas também em outras grandes cidades da Áustria e do mundo.

Cansado, com frio e com uma enorme vontade de cair na cama, tomando uma gigantesca xícara de chocolate quente, Christian voltou para casa pensando se sua vizinha do 12A lhe faria esta gentileza. Se havia sido indelicado ao deixá–la sozinha na cama pela manhã? Sim. Seu caráter acusava–o covardemente pelo ato tão canalha daquele mesmo dia, apenas desgastando–o ainda mais.

E qual não foi sua surpresa ao chegar em casa e ver a única pessoa com quem deveria estar, parada à sua porta? Sentiu como se todo o cansaço tivesse desaparecido, apenas por estar perto de alguém que o fazia tão bem. E fazia tanto tempo que ele não se sentia assim por uma mulher...

– Olá. – ela desencostou da porta, a voz calma aplacando o ritmo acelerado do coração – Achei que não voltaria mais. E você esqueceu isso – ela mostrou o chaveiro–isqueiro com as chaves do apartamento 12B – Você deixou cair no chão da sala, Sofia estava brincando com ele.

– Obrigado. Eu nem sabia que o tinha esquecido. – Böck olhou o chaveiro em sua mão, colocando–o na porta e sentindo–se um covarde por não tocar no assunto ocorrido entre eles. – Você... Quer entrar?

– Não. Preciso acordar cedo amanhã.

– Er... Anna – o rapaz esperou que sua vizinha se virasse novamente, embora desta vez ele tentasse sustentar o olhar – Nos veremos de novo?

– Acho que sim. Gostei de você, gatinho.

–––––

Como combinaram, duas vezes por semana (sempre às terças e quintas) Anna e Christian se encontravam na lavanderia do prédio. Enquanto as máquinas deixavam as roupas limpas, os dois vizinhos matavam o tempo conversando sobre os mais diversos assuntos.

Deste modo, eles estreitavam os laços que desenvolveram naquela manhã fria. E mesmo que ele não tivesse quase roupas para lavar, Christian sempre encontrava algo que precisasse de um banho. Certa vez teve que pedir um edredom emprestado já que lavou todos os seus cobertores e estes não secaram.

O problema foi resolvido quando Anna o convidou para dormir em sua casa, até que os cobertores estivessem secos. E naquela noite em que os dois dividiram a cama mais uma vez, ela se permitiu contar um pouquinho mais sobre sua vida antes de chegar à Viena.

– Eu tinha uma família em Paris, Chri, mas preferi fugir. Tudo o que fiz foi por mim mesma. E quando tive a chance de me casar e cair fora da Holanda, não me importei em ser com alguém tão mais velho.

– Então você só se casou porque foi conveniente? – o rapaz apoiou a cabeça no braço direito, mirando a jovem de cima.

– É. – Anna pensou um pouco antes de continuar. Decidiu que era melhor contar algumas coisas do que Christian descobrir tudo sozinho – Amsterdã não é como os outros pensam. Eu saí do meu país pra encarar um mundo completamente violento e nada justo com aqueles que não tem família. Por isso Viena é tão perfeita para mim... Aqui eu não vejo metade das coisas que vi lá.

– E por metade das coisas você quer dizer...

– Esquece isso, Böck. Passou. Minha infância ficou lá trás. – a moça puxou o cobertor mais perto de seus ombros, dando às costas ao rapaz que a tratava sempre tão carinhosamente. Anna sentiu sua cintura ser amavelmente enlaçada, num conforto que ela nunca havia experimentado em sua vida toda. Deitada nos braços do amante, ela deixou fluir livremente ao menos um pouco de sua dor e raiva pelos dias tenebrosos de seu passado e pelas pessoas que nele estavam envolvidas.

–––––

Böck preferiu ignorar as coisas que constantemente rodeavam seus pensamentos naqueles dias depois da confissão de Anna, forçando–o a se perguntar o quê teria acontecido a ela em Amsterdã. Mas seria apenas uma questão de tempo descobrir, ela acabaria lhe contando quando tivesse confiança suficiente nele. Ela contaria, não é? Bom, mas caso ela não o contasse, ele tinha maneiras simples e eficazes para descobrir.

Por ser um policial, investigar a vida de alguém lhe era fácil, bastava ter os contatos certos e conhecer quem poderia lhe ajudar. E ele sequer precisou ir longe para descobrir algumas coisas mais, uma vez que surpreendeu sua vizinha conversando com um estranho no estacionamento.

Escondido atrás da pilastra, Böck se concentrava em ouvir a discussão que se desenrolava a alguns pouquíssimos metros de distância. Ele com certeza a teria defendido do homem alto e loiro que insistentemente a ameaçava, se já não o conhecesse. Ele não precisava ler lábios para saber que aquilo era uma ameaça, principalmente quando o homem a segurou fortemente pelo braço, deixando–o roxo em segundos.

Atordoada, Anna subiu rapidamente as escadas, ignorando o vizinho em seu encalço. Pálida e tremendo levemente, ela destrancou a porta e adentrou o apartamento, rezando para que Böck não estivesse mais atrás dela. Em vão. Ele já havia batido a porta de raiva, segurando–se para não explodir com quem não deveria.

– O quê ele queria com você? – o rapaz rugiu, seguindo–a até o sofá próximo, num parco controle sobre si mesmo.

– Nada. – Anna deixou sair apenas um fio de voz, ainda fraca demais para encarar o rapaz que lhe era sempre tão gentil e educado.

– O quê ele queria com você?

– Nada.

– O quê ele queria com você, Anna? – Böck a segurou firme pelos braços, jogando–a até com força contra a parede.

– Nada! – ela gritou, empurrando–o o mais forte que conseguia, mas raramente ela tinha forças em momentos de pânico. E aquele era um momento de pânico.

– Você sabe quem é ele? Sabe o quanto me custou prender aquele filho da puta e tentar arrancar algo dele? Você sabe, Anna? – ele continuava a gritar, cada vez mais alto, como se isso a fizesse entender o que estava acontecendo ali.

Baixando os olhos numa condenação visível, Anna não encontrava palavras para descrever o quanto se sentia horrível. Sabia de tudo o que se passava, Christian havia lhe contado cada detalhe da operação em que estavam trabalhando, cada ínfimo detalhe para ajudar a prender os bandidos que haviam destruído milhares de lares por todo o globo, tirando de casa suas meninas e jogando–as no mundo frio e nojento da prostituição.

Incomodado com a falta de reação da moça, Böck começou a ligar os fatos. Tudo o que ela havia lhe contado agora lhe fazia tanto sentido! Era tão claro! Como ele tinha sido tão idiota em não perceber sua maneira de lidar com as coisas, sempre tão independente e madura. Sempre tão segura de si.

– Você não fugiu de casa e se perdeu. – sua voz fria como gelo a dava a sensação de que seria abandonada naquele instante, assim que ele terminasse sua sentença de morte – Você não se perdeu porque... Não lhe passou pela cabeça me contar isso? Você em algum momento pensou que poderia me ajudar se eu soubesse de tudo, Anna?

– Lhe contar o quê, Christian? Que eu já dormi com mais da metade de Amsterdã? – ela gritou, agarrando a barra do vestido como se isso a impedisse de voar em cima do detetive – Lhe contar que fui arrancada da casa dos meus avós aos 12, pra vender meu corpo num país que eu sequer conhecia? Ou deveria lhe contar que ao invés de ser seqüestrada, eu fui vendida para o Van der Holf?

Se antes Böck estava furioso e se sentindo traído, agora seu semblante se encontrava confuso e perdido. Como em algum momento ela havia lhe confessado seu passado, e isto o estava incomodando mais do que as suposições que ele havia feito? O máximo que havia conseguido presumir era que ela havia namorado Köning antes de vir para a Áustria e só.

– Está feliz em saber? Está feliz em saber que aquele verme sádico me vendia aos seus piores clientes para me ver sofrer? – ela mudou a expressão colérica e ameaçadora, para uma máscara frívola e irônica que jamais pertenceria à moça doce e caprichosa com quem ele jantava há algumas poucas semanas passadas – Então, detetive? Talvez você queira um pouco mais de detalhes, não é? Talvez você esteja interessado em saber quanto prazer o masoquismo nos proporciona, não?

E antes que ela conseguisse dar continuidade ao seu teatro dos horrores, Böck a segurou forte contra o peito, murmurando desculpas desconexas, forçando–a a encarar toda a discussão e a que ponto os dois amantes haviam se entregado, gritando acusações e desaforos em palavras desmedidas.

Ainda agarrado à sua boneca de porcelana, Christian se recusava a acreditar que a prova tão sonhada de sua investigação e seu passaporte para a promoção estavam tão dolorosamente próximos a si. Usaria a confissão de qualquer pessoa para prender Van der Holf, mas jamais afligiria a Anna tal perigo.


Vamos lá, falta pouquinho para o fim...
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Bjoks!