Gravity of Love – Capítulo 3


Com um copo meio cheio de vodka na mão esquerda, Böck observava a amante dormir em sua cama. Sentado próximo à janela, ele era capaz de ver os primeiros raios de sol despontarem no horizonte. Era a terceira noite que perdia o sono, ainda se afogando nas palavras gritadas durante a briga.

Era sua obrigação prender Van der Holf e, no entanto, o caminho que ele escolhera era o oposto ao que deveria tomar. De sua vida oca como policial apenas restava o borrão branco e preto da solidão que sentia, e Anna já tomava cada negro pedacinho de seu coração, enchendo–o de luz, emoção e... Dor.

Tanta dor! Dor por ela, por si próprio... Um aperto no coração que ele não conseguia explicar e, que mesmo com a presença dela, não era aplacado pelo carinho e amor que compartilhavam. E somado a isso, ainda tinha a preocupação por Van der Holf estar em Viena, cercando Anna, observando–a... E a ele também de certo modo. Suas mãos atadas por uma armadilha do Destino que ele sequer julgou ameaçá–lo: seu coração.

Caminhando pelos vastos campos do pensamento, o rapaz teve sua atenção capturada por um par de calmos olhos cor de mel, fixos em algum ponto do teto. Se em sua mente rondavam preocupação e dúvida, o rosto de Anna era capaz de expressar um misto de medo, ódio e desprezo que ele rezava por não ser contra si próprio.

E não era.

As lágrimas escorrendo pelas bochechas macias lhe diziam que não era ele o responsável pela dor que emanava da jovem mulher. E naquele instante, Christian entendeu o que realmente a maldade fazia aos corações humanos. Talvez apenas naquele momento Böck fosse capaz de amar Anna por completo, entregando sua alma àquela menina desconhecida que havia tomado sua vida.

Sua súbita vontade de tomá–la nos braços a assustou, fazendo–a notar sua presença no quarto. Em menos de três passos, Christian encontrou a cama, puxando Anna para seus braços sem que estivesse completamente sentado sobre as grossas cobertas. Emocionado, ele beijou–lhe os cabelos e as faces, sentindo–se um idiota por deixar as lágrimas brotarem em seus olhos também.

Dividido entre a vontade e o desespero, Böck puxou–a para seu colo, obrigando–a a circundar sua cintura com as pernas e beijando–lhe a boca com voracidade. Absorto no perfume de jasmim que emanava daquela pele, ele se saciava num êxtase que ia muito além de luxúria ou paixão.

De todas as vezes que haviam feito amor, nenhuma se igualava à loucura que tomava o corpo dos amantes naquela manhã. Era uma ligação que ia além do físico e do carnal, transcendendo as expectativas para uma transa comum. Cada contato de pele com pele, cada choque entre os dois corpos, causava sensações diversas em ambos, estreitando o carinho e amor um pelo outro e entrelaçando suas almas em uma só apenas, até atingirem o auge de sua excitação, desmanchando–se em deliciosas ondas prazer.

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Deitados um de frente para o outro sobre as cobertas, suados e cansados e com as pernas ainda enroscadas, Christian acariciava a bochecha rosada da menina à sua frente, pensando no quanto havia procurado alguém que o completasse assim, porém sem obter sucesso.

A respiração ainda irregular de Anna a forçava a manter–se quieta, embora preferisse conversar a cair no mundo dos sonhos. Era tão difícil descrever o que sentia naquele momento, tão difícil explicar o que acontecia em seu coração. Apenas tinha certeza de que havia encontrado em Böck o amor que tanto procurara nas outras pessoas. E todo este amor lhe dava vontade de saber mais sobre ele, conhecer cada pedacinho de seu coração, sua mente e sua vida.

– Porque decidiu ser policial? – ela sussurrou quando decidiu que não seria interrompida por sua própria respiração entrecortada.

– Acho que foi porque percebi que havia pessoas más no mundo. – Christian respondeu igualmente baixo, preservando o momento de quietude entre os dois amantes – Há muito tempo atrás, minha mãe estava entrando em uma loja e um homem a abordou perguntando as horas. Nos minutos seguintes, eles tomaram a loja e usaram minha mãe como refém. Quando a libertaram, ela já estava baleada. Os policiais prenderam os assaltantes, mas ainda assim ela morreu.

– E você achou que estando lá poderia ter impedido?

– Eu achei que ninguém mais deveria passar por isso, muito menos uma criança. Eu achei que seria um motivo nobre, dar a minha vida para proteger as pessoas e o mundo em que vivemos. – ele fez uma pausa, tirando os fios de cabelo que ainda grudavam no rosto de Anna – Mas e os seus pais? Você nunca disse nada sobre eles.

– Eles morreram em um acidente de carro, voltando de Bruxelas. Um ônibus perdeu o controle e jogou nosso carro contra uma ribanceira. Eles estavam presos nas ferragens e eu consegui sair para pedir ajuda, mas o carro explodiu logo depois. Às vezes acho que teria sido melhor morrer com eles.

– Não diga isso. Como eu estaria aqui, hoje, sem você? Eu te amo, Anna. Acho que já demorei demais para lhe dizer isso.

– Ama? – ela se questionou baixinho, achando difícil de compreender aquela simples frase – Então acho que eu também te amo, Chri...

– Me diga Anna... Qual é o seu maior sonho? – Böck acariciou os cabelos da moça, deslizando os dedos pela bochecha macia e corada, que ele não sabia ser de prazer ou calor.

– Há duas coisas que eu sempre desejei. Uma eu já tenho, a encontrei numa manhã fria enquanto tentava ir trabalhar. – Anna lhe deu um sorriso sincero, puro e sonhador como ele pouco havia visto. Era a primeira vez que o policial a via sonhar tão livremente, tão inocentemente.

– E a outra, o quê seria?

– Ser mãe. Sentir um bebezinho crescendo aqui dentro – ela alisou o ventre reto, num afeto sonhado, mas não sentido – Acho que é... o que me falta ainda conseguir.

Christian puxou a mão pequena que acariciava e protegia o ventre vão, trazendo–a até seus lábios. O rapaz beijou demoradamente a pele clara, aproveitando o momento em que tomava a mais importante decisão de sua vida. – Eu prometo, Anna, que quando isso tudo acabar e Van der Holf estiver preso, eu me caso com você e lhe dou o filho que tanto deseja. E ninguém mais poderá lhe tirar isso, eu juro.

À moça deitada na cama, só restou chorar. De alívio, alegria, amor. Ela nunca soube ao certo quais sentimentos a tomavam naquele instante, mas eram fortes o suficiente para espantarem as tristezas e lhe dar forças para planejar uma nova vida ao lado de Böck.

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Sentado em sua mesa, Böck estudava o novo caso que lhe havia sido entregue. Algo sobre corridas de racha nas madrugadas, enquanto Viena dormia. Tentava a todo custo esquecer as preocupações para com Van der Holf, uma vez que a Agência Internacional estava disposta a pegá–lo sem o envolvimento da polícia vienense. Um grande alívio, visto que não teria mais que trabalhar no caso.

Enquanto distraía sua mente equipando seu carro para o disfarce, Christian pensava em como convencer Anna a largar sua vida na bela cidade e se isolar do mundo por alguns meses. Não que ele a quisesse longe, pelo contrário, mas ele mesmo sabia que se as investigações continuassem por mais algumas semanas naquela cidade, sua namorada corria sérios riscos de ser envolvida.

Nem ele mesmo sabia como havia entrado naquele caso de tráfico de mulheres. Certo dia havia sido chamado por seu chefe e desde então estava na cola do tal cafetão que agia nos mais distintos bairros do mundo. Ele apenas não podia imaginar que de uma forma ou de outra estaria envolvido nisso. Se não fosse por seu trabalho, seria por Anna.

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Consciente de seu atraso para o jantar, Böck tinha passado em uma ótima floricultura, ali próximo ao distrito policial e comprado o maior bouquet de tulipas que conseguia carregar. Estava feliz por finalmente encontrá–la após um longo e enfadonho dia trancado numa oficina mecânica.

O sorriso de alegria foi sendo substituído aos poucos pelo desespero, à medida que o policial se aproximava do apartamento onde a jovem residia. Suas pernas tremeram e a sensação ruim que o acompanhou ao longo do dia mais uma vez se fez presente, desta vez confirmada pelo trinco arrombado e pela desordem da sala. A bagunça na cozinha vinha seguida de uma razoável quantia de sangue e uma das facas mais afiadas de Anna largada ao chão.

Ela reagiu.

Esquecendo–se das flores que trazia nos braços, Böck procurou um bilhete que fosse da amada ou de seu detentor. Achou–o sobre a mesa, junto à corrente prateada e ao pingente de cristal que ela sempre carregava no pescoço. Ótimo, ele pensou. Agora ela estaria sendo refém daquele crápula e ele nem mesmo poderia avisar a Interpol a respeito disso.

Abandonando o lar como estava e deixando as flores em algum lugar que ele não sabia onde, Christian estava decidido a salvar Anna de seu destino mais do que cruel. Certamente Van der Holf era mais forte que ele, isso já tinha sido comprovado nas fotos que viu, e com certeza teria algum bando escoltando–o. Era incrível a facilidade em encontrar pessoas dispostas a colaborar com as forças do mal!

Mas isso não seria um obstáculo, o rapaz pouco se importava por estar sozinho ou por enfrentar Kurt–Half Van der Holf. O que mantinha sua mente segura de seus planos era a esperança de Anna estar bem embora soubesse que ela estava sofrendo. Aquele não era o tipo de vilão que deixava de torturar seus reféns por pena de seus rostinhos bonitos.

Böck nunca dirigiu tão rápido e de modo tão imprudente como naquele momento. Cruzou Viena em menos de 50 minutos, pegando a rodovia que levava ao interior do país. Seguindo as instruções deixadas no bilhete, ele deveria pegar a próxima saída e ser conduzido a uma pequena área rural, aos redores da capital austríaca. Os Alpes ao fundo obrigavam–no a pensar o quanto seria lindo passar um verão por aquelas montanhas, acompanhado de Anna.

As placas que deixaram de existir ao longo do caminho, mostravam ao rapaz que estava próximo do local de encontro, de modo que já poderia ver o velho armazém abandonado ao fundo dos vinhedos. Não era tão longe de Viena como pensava, nem tampouco em um local inóspito, mas a escuridão da noite sem estrelas fazia daquela paisagem um lugar triste. Como visto, era um lugar bastante agradável até, se não lhe causasse arrepios estar lá para resgatar a amada de um tirano.

Parando o carro próximo à entrada, Böck desceu, enfiou as chaves no bolso e destravou a arma, deixando–a pronta para atirar se fosse preciso. Desconfiado, com uma das mãos segurando o revólver por debaixo do paletó, ele abriu vagarosamente o enorme portão de correr. Olhou ao redor e nos montes de feno acima de sua cabeça, procurando atiradores escondidos, mas não encontrou ninguém. Apenas Van der Holf há alguns metros de distância e o onipresente Köning assediando sua vítima.

Deixando a arma ainda presa ao coldre, Böck se fez presente, adentrando de vez o barracão. O sorriso irônico e perverso do cafetão lhe causou náuseas, mas era treinado para não se deixar abater por estas sensações inúteis que turvavam o pensamento numa hora crítica. Caminhando lentamente, o policial estava disposto a negociar com o bandido para salvar a mocinha.

Heróico, não? Ele mesmo o achava, mas estava longe de ser um grande negociador, era apenas um simples detetive do Departamento de Crimes Juvenis, envolvido sem querer numa trama horripilante de seqüestro, extorsão e prostituição. E justo agora, quando estava para largar o caso, ele era convocado pelo próprio Van der Holf para "atuar" nas negociações. Estaria desempregado se alguém descobrisse isso.

Foda–se!, pensou procurando os olhos desamparados da amante.

Sentada em uma cadeira suja de madeira, Anna estava atada pelos pulsos em suas costas, sendo impedida de fugir pela companhia de Köning. Um pano sujo e velho a impedia de falar, mas não era necessário, seus olhos falavam por si. A tristeza que Christian vira neles alguns dias antes, era apenas uma gota do oceano que transbordava das íris quase caramelo, de tão claras.

Embora quisesse puxá–la para seus braços, ele permaneceu imóvel, esperando que Van der Holf desse as cartas do jogo, só depois poderia arquitetar um plano de fuga. Ele podia não ser da Agência Internacional, mas era uma das mentes mais brilhantes da polícia de Viena.

– Vejam só! O mocinho veio buscar a amada! – Van der Holf, um homem alto, corpulento, cabelos e olhos escuros, e um rosto ameaçador bateu palmas teatralmente. Ele certamente não apreciava aquela atitude do policial – Teria sido melhor você deixá–la morrer aqui. Foi estúpido em vir me encontrar sozinho, garoto. Você devia ter ficado em casa, esperando que a polícia de verdade encontrasse o corpo dessa vagabunda.

Por mais que a atitude de Van der Holf o incomodasse, Böck preferia não cuspir as palavras que estavam presas em sua garganta. Com certeza ele e Anna seriam mortos com requintes de crueldade extrema se o fizesse. Suspirando, ele pensava nas palavras antes de prometer aquilo não poderia cumprir. Talvez se deixasse Van der Holf fugir com Köning, pudesse tirar Anna de lá sem maiores danos.

– Solte–a, Van der Holf, ela não tem que ficar. Eu posso lhe garantir que saia da cidade e até do país sem ser preso. Mas não deixarei você fugir se machucá–la. – Böck deu mais alguns passos dentro do galpão, seguindo Köning com o olhar.

– Desista, garoto! Ela aqui – Köning levantou Anna da cadeira, colocando–a de costas contra seu peito – Não vai sair ilesa. – o rapaz muito alto, magro e agora de cabeça raspada alisou grosseiramente as pernas da jovem por debaixo do vestido, fazendo–a chorar.

– Quieto, Dietrich! – Kurt–Half franziu o cenho, desaprovando a mente por vezes irracional de Köning – A questão, Sr. Böck, é que ela ainda me pertence. O velho Strobl a pagou para o casamento, não para deixá–la livre.

– Ela não lhe pertence! – Christian estava começando a se irritar pela atitude sempre tão superior do cafetão – Ela é livre e você não tem esse direito!

– Ah, aí é que você se engana, meu rapaz. Eu tenho sim. Eu a comprei, e por um preço muito alto, para ser sincero. Ela é a minha melhor puta. – alisando displicente a bengala negra, com leves detalhes esqueléticos e um crânio de cristal sobre a ponta, Van der Holf caminhava pelo chão de terra batida, sem sentir–se ameaçado pelo projeto de policial que desejava libertar a moça.

Embora Van der Holf amasse seu lacaio mais do que devesse, ele mesmo por vezes não suportava a falta de bom senso de Köning. Sua mania absurda por subjugar a seus desejos quem lhe desse vontade, no momento em que lhe desse vontade era irritante. E o que mais irritava Kurt era Dietrich procurar outras mulheres para satisfazer suas perversões ao invés de procurá–lo, a ele, que o tinha como amante há tantos anos já.

Böck podia estar preocupado com Anna, mas o ciúme de Van der Holf não passou despercebido ao detetive. Se ele estava lá para proteger Anna, Kurt estava para proteger Köning. É, as coisas iam além da sua imaginação.

– Diga–me, Van der Holf, deve ter sido difícil para você deixar prender Dietrich, não é? – Christian sorriu malicioso, pegando de surpresa o cafetão. Seu segredo não era mais tão segredo assim... – Porque não fazemos uma troca? Você foge com Köning e eu fico com Anna. Você sabe que a Interpol está vigiando seu amante, é só uma questão de tempo até serem pegos juntos. Pense bem, é uma troca justa.

– Não me faça rir, garoto! – o cafetão fuzilou o policial, embora considerasse mesmo a idéia de fugir com Dietrich para algum país da América Latina. O ciúme sempre falara mais alto no relacionamento dos dois e o ciúme de Kurt por Anna chegava a ser absurdo. Köning tinha um prazer sádico por molestá–la em sua frente, e a aparente frieza de Böck com relação a isso o incomodava mais do que o habitual. – Acha mesmo que eu caio nessa de "pode ir"? Eu não sou idiota, ao contrário de você, detetive.

– Eu não estou mentindo. Deixe–a ir, e você pode fugir com Köning. – Christian encostou um ombro na parede de madeira descascada, pedindo mentalmente que o cafetão aceitasse sua proposta. – É isso o que precisa para sair de Viena e eu não vou lhe impedir. Deixe Anna livre e você e Köning também estarão livres.

– E como eu posso ter certeza de que não está mentindo? Você não irá atrás de mim, mas os outros...

Böck deu de ombros, pouco se importando se a Interpol iria ou não atrás do mafioso. Tudo o que ele desejava era que Anna estivesse livre e então Van der Holf também estaria livre de seu ciúme doentio. Mas as coisas nem sempre são fáceis como queremos, esperamos ou planejamos que seriam. Se Van der Holf ainda tivesse voz ativa naquele relacionamento (e uma arma também) não seria tão fácil para Köning impor suas vontades sobre as pessoas.

Mesmo que Böck estivesse preparado para um confronto, ele já havia largado a arma no coldre, apenas esperando que a persuasão fosse suficiente. Ele nunca usava o revólver, a menos que fosse estritamente necessário e ele rezava para Kurt aceitar sua oferta antes que Dietrich colocasse tudo a perder.

– Está bem. – Kurt, com apenas um movimento de cabeça, ordenou ao amante que libertasse Anna. Contrariado, Köning soltou–a das amarras e tirou–lhe a mordaça imunda que a impedia de falar. Temerosa por estar livre tão facilmente, a menina arriscou alguns passos em direção ao namorado.

E ainda que o tempo se estendesse por uma eternidade, antes que Böck ou Van der Holf pudessem agir, antes mesmo que ela pudesse correr para os braços carinhosos que sempre a acolhiam, Anna sentiu uma dor imensa nas costas. A visão ficou turva, suas pernas fraquejaram e ela não pôde evitar cair.

Christian apenas compreendeu a situação quando viu Köning ainda de pé, com a arma estendida e os olhos vidrados de prazer. Naquele minuto ele não conseguiu mais conter o ódio que sentia dentro do coração, deixando que alguma vez na vida, seu amor falasse mais alto do que seu dever como policial.

Ele não teve dó quando disparou três vezes contra o peito do rapaz que acertara Anna, ele não teve dó quando Van der Holf implorou por sua vida, procurando de alguma maneira salvar o amante que sempre esteve ao seu lado, desde a mais tenra infância. Böck apenas corria para sustentar a jovem em seus braços.

Sentado de joelhos no chão, apoiando as costas dela contra seu braço esquerdo, Böck tentava não se deixar levar pelo desespero da situação. Alisando os cabelos castanhos da menina, ele se perguntava por que ela não teria a chance de ter uma nova vida, agora que Köning e Van der Holf estavam fora de seu caminho?

Era justo que ele se obrigasse a viver sozinho novamente?

Christian não pôde segurar quando as lágrimas embaçaram seus olhos e escorreram por sua face, caindo nas bochechas pálidas da jovem que se esforçava para lhe dizer algo. Ele já a havia visto chorar diversas vezes, mas desta vez ela tinha em seus olhos um brilho diferente, não apenas de dor, amor ou afeto, ela se sentia, de algum modo e por algum motivo, aliviada.

– Shhh. Não se esforce. – ele murmurou tentando preservá–la pelos poucos minutos que ainda podia. – Vai ficar tudo bem, eu sei que vai.

– Chri.... Eu não quero que você chore, por favor. Eu não quero que se lembre de mim com tristeza. Eu estou bem porque eu tive você. – Anna jogou o corpo para frente, tossindo todo o sangue que preenchia seus pulmões e a impediam de respirar – Eu te amo, muito. Mas você não pode mudar meu destino.

– Anna, não! Você não vai...

– Sim, eu vou. Mesmo que você não queira. – a jovem estendeu o braço, tocando com as pontas dos dedos o rosto que havia amado desde o primeiro instante em que o viu – Eu quero que você cuide da Sofia pra mim, está bem? Ela gostará de ficar com você, e assim você sempre terá um pedacinho meu, oakay?

Christian se recusava a acreditar nas palavras que dolorosamente saíam da mulher que mais amava. Anna estaria sempre consigo, em seu coração, mas não suportaria viver sem o corpo ardente e delicado ao seu lado na cama e seus olhos carinhosos sempre lhe observando pela manhã. Ele na verdade ser recusava a acreditar que a vida de sua amante estava presa por um fino e invisível fio, o qual poderia se romper a qualquer instante.

Sem se importar com o gosto metálico de sangue na boca da garota, Böck lhe deu o maior beijo que lhe foi permitido, sussurrando contra os lábios queridos o quanto a amava e continuaria amando pelo resto de seus dias...

–––––

Com um suspiro resignado, ele adentrou o apartamento semi–destruído. Procurou com os olhos a gatinha que se escarranchava sobre um porta–retrato quebrado, como se assim pudesse estar próxima à sua dona. Pegando–a no colo e sustentando–a sobre as pernas, Böck sentou–se no sofá, afagando os pêlos longos e macios de Sofia.

– Ela deveria estar aqui, não é? – o rapaz sussurrou esperando uma resposta do animal, que apenas miou tristemente e enrolou o rabo em sua mão, ronronando por mais carinho – Ela deveria estar cuidando de você, não eu. – outro suspiro fez Christian começar a chorar novamente, molhando os pêlos brancos da gata que o tentava consolar.

Ele não tinha escolha naquele momento, as lágrimas foram tudo o que lhe restara da amante que ele havia deixado, pálida e fria naquele necrotério. Atordoado e enjoado como há muito ele não se sentia, Christian encolheu–se de qualquer modo sobre o sofá, tentando esquecer o dia turbulento e o funeral que presidiria sozinho, apenas para ele mesmo e Sofia.

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Os cemitérios de Viena podiam ser lindos e pacíficos, mas naquela manhã nublada de outono a única coisa que Böck conseguia ver neles eram os túmulos de tantas pessoas que abandonavam seus companheiros, assim como Anna fazia consigo naquele instante. Ele era um herói da policia austríaca, mas havia recusado todas as homenagens. Prender Van der Holf não era nada perto do preço que pagava por isso.

Ele sabia que daquele dia em diante sua vida voltaria a ser vazia e sem sentido. Viveria seus dias da mesma maneira que antes: acordaria antes das sete, tomaria uma forte xícara de café e trabalharia combatendo o crime por um longo e enfadonho dia, esperando o momento de voltar para sua casa e cair na cama, pensando em como conseguia passar desapercebido pelo mundo que o cercava.

Agora pelo menos tinha Sofia para lhe confortar e lhe dar carinho nas noites de tempestade, pensou sem saber se estava triste ou amargurado com as curvas nebulosas de seu destino.

E somente quando viu cobrirem de terra o caixão de sua amada foi que ele percebeu o buraco que tomava o lado esquerdo de seu peito. Um buraco inexplicável, dolorosamente quieto. Do mesmo modo como Anna havia trazido vida a seu coração, naquele instante seu coração havia sido arrancado de si e estava enterrado junto à moça com quem ele um dia sonhara ter filhos e se casar. Os sonhos e planos que fizeram numa jura de amor estavam todos ali, espalhados ao vento frio e cortante que lhe sussurrava murmúrios e lamentos lúgubres.

Christian soltou os lírios que trazia em suas mãos sobre a lápide fria, acostumando–se à nova sensação de abandono. As lágrimas que ele havia chorado não eram suficientes para expressar a dor que sentia, portanto não lhe fazia sentindo algum chorar. A sensação de solitude era agradavelmente coberta pela manta morna de algumas lembranças que lhe serviriam para esquecer este amor.

Mas Anna era aquela que o completava e ela jamais seria apagada de sua mente ou de seu coração.

E por mais doloroso que fosse Christian ainda vivia e precisava cumprir sua promessa. Ele continuou seus dias vazios e desagradavelmente longos em trabalhos que não lhe davam nenhum prazer, mas que impediam sua mente de sofrer mais com a perda de Anna. Tudo ao seu redor lhe lembrava ela, até a foto dos dois abraçados ele retirou de sua carteira, na tentativa de esquecê–la.

Então Christian decidiu que seria melhor tentar recomeçar em outro departamento, pois em cada olhar de seus colegas, ele se perguntava porque Anna morrera e não qualquer um daqueles idiotas com quem trabalhava. Ele cansou de se perguntar, enfim.

Ele não tinha respostas para as perguntas em sua cabeça e talvez não desejasse as respostas para elas. A dor que o suprimia era aos poucos substituída pela saudade e pelo conformismo que assola a todos os que perdem um grande amor. Aos poucos, ele voltava a ser o jovem educado, sincero e bem–humorado que todos conheciam, mas somente alguns eram capazes de ver a tristeza que passara a morar em seus belos olhos azuis translúcidos e que ficava ali, como uma cicatriz no joelho esfolado de uma criança.

Talvez um dia essa tristeza acabasse... Talvez.


Bem.. Depois de tantos meses sem escrever, eu venho para publicar a Gravity e mais do que isso, para agradecer as minhas amigas da comu Heinz Weixelbraun do orkut, que me inspiraram a voltar a escrever.

Em nome da nossa paixão coletiva pelo personagem Christian Böck elas me inspiraram a escrever uma nova história e ir além, terminando-a com vontade. Me fizeram recuperar minha inspiração e minha paixão pela escrita quando tantos outros amigos não se importaram com isso.

Obrigada de verdade, minhas amigas! Obrigada Kety, Naty, Heidy!

Bjoks! E espero voltar logo com mais fanfics!
Ah! E já sabem.. Se gostaram, cliquem no botão verdinho, please!
ByeBye! ^^