Primeiro dia ignorado 2: Você vai comer isso?

Qual a diferença entre parecer esquisito e ser completamente trouxa? Nenhuma. Você vai chegar a essa mesma conclusão depois que eu contar o que aconteceu no almoço...

Almoço é a coisa mais banal que existe no mundo. Almoço num colégio já começa a parecer estranho, agora, almoço num colégio com a sua prima "princesa Mirian" é o fim dos tempos...

- Então Lili Star, já encontrou algum gatinho? – Frase acompanhada de risinhos extremamente tímidos das bonecas biônicas que se sentaram na mesma mesa em que eu tentava comer um cachorro-quente.

- Gatos? Cachorros talvez agora, gatos?

- Ora, deixa de ser engraçadinha... Olhe a sua volta, sinta a maravilhosa brisa fresca vinda da presença celestial dos garotos do terceiro ano... – Frase acompanhada agora de suspiros e gemidos...

O cachorro-quente perdia a graça a cada palavra que saia da boca da minha prima – Jesus Cristo estuda aqui? Se sim, minha mãe tem razão... Eu nunca vou sentir a presença celestial dEle nem que esbarre em mim... – E então, senhoras e senhores, eu descobri o ponto fraco de Mirian! Depois da frase que soltei, ela me olhou com uma cara de poucos amigos e começou a comer um sanduíche que titia Carmem havia preparado. Segunda nota deste diário: FALE BESTEIRAS ATÉ ELA FICAR VERMELHA E DESISTIR DE CONVERSAR. FUNCIONA!

Após o incidente celestial que tivemos, as bonecas biônicas começaram a conversar normalmente junto com a "princesa Mirian" enquanto eu desfrutava do meu, já sem gosto, cachorro-quente. Marie, uma das biônicas, contou que na casa dela, toda a comida que eles faziam era doada a um centro de caridade na periferia da cidade – pensei que eu já estivesse na periferia... Vivendo e aprendendo... – o que arrancou mais suspiros das outras. Aquilo era tão intediante que resolvi ligar o modo piloto automático e sumir mentalmente dali. Sim diário, eu consigo fazer isso. Eu usei muito esse modo quando minha mãe começava algum sermão ou coisa do gênero.

Primeiro, algumas lembranças invadiram minha cabeça. Eram os rostos pálidos de Karl e Rebecca que costumavam habitar esse espaço tão inexplorado da minha mente. Eles eram, além de meus melhores amigos, componentes da minha banda e sempre estavam comigo em todas as situações – boas ou ruins. Em seguida, apareciam na minha cabeça imagens do meu antigo colégio, dos colegas bagunceiros e a turma do fundão. Era uma época tão boa que, se minha teoria de céu estivesse certa – teoria essa que depois eu conto quais seus princípios -, queria que aquele momento se estendesse ao infinito.

Eu estava tão concentrada naquilo que nem percebi que as imagens haviam mudado. Quando me dei conta, não era Karl, muito menos Rebecca que estavam presentes na minha mente. Certo chumaço de cabelo começou a aparecer lentamente e de repente, Elvis Presley tomara conta de tudo! Posso garantir que esperei alguma canção famosa vinda dele, mas, depois de sair do transe que eu estava, percebi que não era exatamente o "rei do rock" na minha cabeça, mas sim, o garoto do topete do "rei do rock". Ele estava me olhando com aquele olhar 43 que faria qualquer garota desmaiar aos seus pés. Não é o meu caso, lógico. Fiquei encarando-o por alguns segundos e, para minha surpresa, ele começou a se aproximar de mim. Como? Não faço a menor idéia... Aliás, mais uma pergunta para a lista de mistérios do senhor Elvis cover... Comecei a me preocupar com a situação... Como ele ousa invadir meu estado de meditação máxima dessa forma? À medida que ele se aproximava, seus olhos mudavam de cor – do castanho escuro ao claro, do claro ao róseo, do róseo ao vermelho púrpura – e eu cada vez mais hipnotizada por aquilo. O combate por poder já estava acabado. Eu não conseguia desviar o olhar daqueles olhos profundos até que... Sim, fui tirada instantaneamente do transe.

- Hum... Então quer dizer que o gatinho que tirou minha priminha Lili Star é o senhor Edward?

Olhei horrorizada para ela. Que é esse tal de Edward?

- Que Edward, sua louca...

- Não adianta disfarçar... Todo mundo viu você olhando para o Edward... Só faltou babar...

- Mas eu nem sei quem é esse tal de Edwar... – Travei no meio da frase. Uma das minhas perguntas foi vergonhosamente respondida pela minha prima... O nome do topetudo era Edward... – Eu... er... Nem estava olhando para aquele retardado...

- Sei... Mas olha, ele está olhando para você também... – Aquilo foi o fim... Olhei na hora para ele e, depois de muito pensar, quase me afoguei no copo de Coca-Cola na minha frente. Eu havia caído na armadilha infantil, mas muito precisa, de Mirian – Viu! Eu sabia que era para o Edward que você estava olhando!

- Ora, deixe de ser retardada... – Tomei o resto do refrigerante e sai batendo o pé até o banheiro. Eu estava me sentindo a pessoa mais idiota, mais trouxa, mais retardada do mundo... E eu realmente era... Cai feito um patinho nas garras não tão infantis da "princesa Mirian". E agora o circo estava feito. Primeiro dia de aula, primeiro dia no inferno...