Primeiro dia ignorado 3: Mentes perigosas
Olhar-se no espelho e ver a imagem deprimente de uma adolescente que acabara de ser desmascarada pela pessoa que mais odeia no momento – frisando muito bem as palavras por enquanto – é terrível. O vermelho das bochechas não deixa claro se é de vergonha ou raiva. Na hora, eu tinha certeza que era de ódio de mim mesma. Como eu fui capaz de cair naquela armadilha da "princesa Mirian" na frente das biônicas? É inacreditável. Mais ainda é o motivo que causou tudo aquilo: o topetudo. Ou melhor... Edward. Ainda se fosse o Mãos de Tesoura... Mas é só um Edward comum... Com um topete imitador comum... Com olhos nem tão comuns assim... E uma boca... Mas isso não vem ao caso! Agora, o único jeito de sair fora dessa situação era tentar mostrar a elas que eu não estou nem ai para aquele garoto – como de fato, não é? – e que eu também não dou a mínima se elas ficarem enchendo meu saco...
Decidi então sair do banheiro e voltar à mesa onde estava. Caminhei desviado dos outros alunos que ainda almoçavam e localizei com certa hesitação o lugar onde estava indo. Estava completamente vazia. Ótimo, pensei, elas não vão me incomodar por enquanto. Sentei-me e coloquei os fones nos ouvidos. Quem sabe o Robert Smith poderia me dar uma idéia de como sair daquele colégio... Comecei a batucar na mesa no ritmo da música – eu era a baterista da banda, por isso sempre carregava comigo as minhas baquetas – atraindo toda a atenção a minha volta. A minha reação ao perceber isso? Comecei a cantar. Quando eu colocava aqueles benditos fones, era como se a música tomasse conta do meu corpo e comandasse meus gestos. Era tão bom... À medida que a música passava, a imagem daquele garoto começava novamente a aparecer na minha cabeça, só que agora, ao invés de esperar por Elvis e seu rebolado anos 50, já me preparava para mergulhar na imensidão dos seus olhos. Era diferente dessa vez. Era como se eu já o conhecesse há muito tempo. Era como se ele já habitasse minha mente, como se fosse dono dela...
"Com licença?"
Edward veio em minha direção e segurou minha mão, querendo me levar a algum lugar, ao infinito e além ou sei lá. Estava tão enigmático, tão...
"Senhorita..."
...tão...
"Er... Moça?"
...tão...
- Senhorita Younger, pare de bater na mesa agora, ou vou ser obrigado a te levar à sala da diretora!
Fui tirada novamente do transe, só que desta vez, pelo monitor da hora do intervalo, o senhor Krügger.
- O quê? – Tirei os fones atordoada e olhei para os lados para me certificar que não havia nenhuma biônica por perto. Por sorte, estava sozinha no pátio.
- A senhorita não pode simplesmente fazer o que quer nessa escola. Temos regras à cumprir e se a senhorita não tem conhecimento delas, creio que uma detenção depois da aula resolva essa situação.
Detenção?!
- Detenção, senhor? Mas... Eu sou nova aqui... – Ás vezes, fazer cara de cachorro pidão dá certo...
- Ou quem sabe a senhorita prefere uma suspensão? – Ás vezes não funciona como a gente espera...
- Bom... Fazer o quê... – Coloquei os fones novamente e fui novamente chamada – O que foi agora? – Arrependi-me amargamente de ter feito isso...
- A senhorita não está por dentro mesmo das regras deste colégio. Dê-me o aparelho de música e vá para a aula!
Nem tinha me ligado que o sinal havia tocado. Espera ai... ENTREGAR MEUS FONES?
- Olha, acho que isso não será possível... Eu não posso me separar deles... São como filhos para mim... Sabe como é... – Não. Ele não sabia. Não fazia idéia, na verdade...
- Senhorita Younger, dê-me isso antes que eu me irrite...
Fiz corpo mole o máximo que consegui e acabei por entregar os fones. Foi a pior separação da minha vida... Eu juro que senti lágrimas inundarem meus olhos... Segui para sala e, para minha sorte mais uma vez, o professor do período não havia chegado. Mas para meu azar, "princesa Mirian" e as biônicas me olhavam interrogativas – lê-se: hahá, vai levar bomba daqui uns tempos... Sentei e tentei ignorar os olhares e as perguntas que vieram como bombas para cima de mim.
A sessão de tortura, quer dizer, de aula, até que passou rápido. Saímos da sala e aproveitei a distração de Mirian e suas amigas e me dirigi até a sala do monitor para cumprir a tal suspensão. Eu estava nervosa, não podia negar. Afinal, aquele cara não tinha jeito de ser bonzinho com os novatos...
- Ah... Vejo que já aprendeu a primeira lição, senhorita. Chegou cedo. Cedo demais, eu diria. Ainda tenho que fazer algumas coisas para a diretora por isso, me espere ali fora que eu já volto para dizer o que tem de fazer.
Mas que ótimo... Além de ter que cumprir servicinhos forçados, ainda terei de esperar...
- Também caiu nas garras do Krügger?
- É... Aquele velho decidiu...
Diário, se fosse você que tivesse me contando essa história maluca, eu chamaria você de mentiroso. Parei subitamente a frase e fiquei imóvel por alguns instantes até cair a ficha do que estava acontecendo... E mais uma vez, senhoras e senhores, o Elvis cover de nome Edward aparece do nada – isso mesmo, do nada e quase me mata de susto.
- O que você está fazendo aqui? – Mas que pergunta idiota...
- Bom... Eu vim cumprir detenção... – Mas que óbvio... Lílian, da próxima vez bata com a cabeça na parede... - Tentei gazear aula... Acredito que a sua deva ter resultado do show que você fez no intervalo...
Olhei incrédula para ele. Mas que audácia... Quem aquele idiota pensa que é? Tirei a mochila das costas e sentei no chão fingindo certa impaciência. Aquilo devia servir para mostrar àquele moleque que aquela conversa havia parado ali mesmo.
O tempo demorou a passar até que o monitor chegasse e nos desse a detenção. Eu fiquei encarregada de limpar os vidros de sua sala e Edward de passar um pano no chão. Krügger saiu novamente nos deixando sozinhos com um "silêncio barulhento" daquela sala.
- Eu gostei.
- O quê?
- Seu show...
-... – Ele tinha passado dos limites. Aquele garoto era um folgado! Um retardado! Um... Ah, mas que ódio! – Escuta, não era para gostar de nada, ok?
Passaram-se mais alguns minutos até terminarmos o serviço. Nesse meio termo, a minha frase ficou pairando no ar como fumaça de cigarro, eu sabia que aquilo grudaria em mim como tal... Sai do colégio sem olhar para trás e peguei o ônibus que não demorou a chegar. Durante o caminho, tentei pensar em alguma desculpa para me livrar de mais um bombardeio de perguntas que eu tinha certeza que me esperaria quando eu chegasse em casa. Não seria uma noite fácil...
