A Casa dos Horrores...

Já deve passar pela sua cabeça o que aconteceu quando eu cheguei em casa aquela hora da noite, não é?

- Você tem noção do quanto me deixou preocupada, menina? Esse comportamento um tanto quanto irresponsável eu não vou admitir na minha casa, está ouvindo? - Minha tia não era de fazer brincadeiras. Era melhor eu concordar e tentar andar na linha nas próximas vezes... – Olhe Lílian, eu sei o que está acontecendo, sei também que essa fase não é nada fácil, mas olhe para sua prima... Ela é uma menina tão boazinha... Devia seguir o exemplo dela e não de outras pessoas estranhas...

Creio que a partir daquela frase, começou a passar pela cabeça de minha tia que eu já estava destinada a percorrer o árduo caminho das drogas... O que um ou dois bolinhos de haxixe tinham de tão mal assim? O fato era que eu não estava prestando muita atenção... Eu queria ir para o banheiro, esfriar a cabeça debaixo do chuveiro, fazer com que o episódio da sala do monitor se esvaísse da minha mente, mas pelo visto, o sermão seria longo...

Passada meia hora, com direito a discurso auto-revelador da "princesa Mirian" sobre sua vida perfeita no alto do castelo de cristal, eu consegui enfim ir para o meu quarto. Peguei minha toalha e segui para o banheiro. Deixei que a água percorresse toda a extensão do meu corpo, causando uma sensação de tranqüilidade repentina em minha alma. Ok, tenho que confessar que aquele gesto era uma forma simbólica de tentar me livrar da frase que ficara impregnada no meu corpo desde quando a pronunciei. "... não era para gostar de nada". Será que não mesmo? Outra coisa que eu tenho de confessar é que Edward conseguira me tirar do sério... Não pelo comentário sobre meu suposto showzinho no intervalo, mas pelo fato de conseguir, tão facilmente, invadir minha mente daquele jeito. E não vá tirando conclusões precipitadas, diário. Quando eu falo me tira do sério, é de uma forma diferente. Eu não sei explicar, é como se eu perdesse completamente o juízo e passasse a viajar na maionese toda vez que aquele idiota aparecesse na minha frente. Isso é tão mongo da minha parte...

Sai do banheiro e fui direto ao quarto. Não queria tropeçar na titia ou na Mirian. Aquela não era uma boa hora para isso. Peguei a primeira camiseta que achei dentro da mala – nem tinha arrumado minhas coisas – e passei a procurar dentro da minha mochila os meus fones...................................

VELHO FILHO DA MÃE!

Eu tinha esquecido completamente que o monitor havia confiscado meus fones e que agora, a única coisa que eu iria ouvir era a risada da minha prima que escutava todas as noites um programa idiota no rádio. Sentei na cama e comecei a olhar para todos os lados tentando achar alguma solução. Não, eu iria escutar alguma coisa, nem que fosse o hino da cidade...

Olhei instintivamente para a janela e uma idéia começou a florescer dentro de mim... O universo estava conspirando ao meu favor:

1°) Meu quarto ficava no térreo da casa, o que facilitava muito o meu plano;

2°) A vizinhança daqui tem hábitos estranhos... Todos dormem cedo pra caramba – tédio – fazendo com que eu passe despercebida pelas ruas;

3°) Eu preciso dos fones... Não... Eu quero os meus fones...

Fui até a mala e peguei uma calça jeans e calcei meus tênis. A ansiedade era tanta que eu quase dei um nó no cadarço do pé esquerdo. Eu tive que rir da cena...

Abri a janela com o máximo de cuidado possível e pulei rapidamente para o gramado do pátio na lateral da casa. Até ali foi fácil. O problema maior foi o muro que eu teria que literalmente escalar para atravessá-lo. Subi no pé de maçã que minha tia amava tanto e alcancei o muro com certa dificuldade para enfim ter minha liberdade de volta: a rua era toda minha! Como eu havia dito, as pessoas já havia se recolhido para suas casas, então eu podia andar tranquilamente até chegar naquele maldito colégio e recuperar meus fones. O caminho foi longo e posso jurar que em certas esquinas eu tinha a impressão de ser vigiada por alguém. Medo? Com certeza... Mas meus fones eram preciosos e eu iria salva-los nem que isso custasse minha vida – Meu Deus... Peguei a mania da Mirian de dramatizar tudo...

Cheguei à frente do colégio e pulei a cerca facilmente. Era incrível a falta de segurança daquele lugar... Corri pelo pátio e logo cheguei à sala do Krügger. Cheguei perto da porta e forcei com cuidado a maçaneta, que, para meu desânimo, estava trancada. Fiz a volta em torno da sala até encontrar uma janela e forcei-a para ver se abria e voilá! Krügger estava tão ocupado seqüestrando meus fones que esquecera de fechar a janela... Entrei na sala e já fui revirando as prateleiras à procura dos meus filhinhos... Abri uma gaveta que mais parecia um sarcófago e dei de cara com celulares, câmeras digitais, ipods, tudo que é aparelho menos... Os meus fones!

- Porra, onde esse velho escondeu?

- Procurando por isso?

Congelei instantaneamente ao ouvir aquilo. Nem virei para não encarar quem quer que fosse. Estava ferrada. Frita. Cozida. Grelhada. Viraria uma almôndega...

- Não pensei que isso fosse tão importante para você. Se eu soubesse disso antes, teria aproveitado a detenção e pegado para você...

O quê? O Krügger iria me devolver os fones?

- Olha senhor Krügger, eu não tive escolha AAAAAAAAAAHHHHHHH – Não foi uma boa idéia virar na direção da voz... Realmente não foi uma das melhores... Ao fazer o gesto, dei de cara com o topetudo segurando meus fones com o dedo indicador. Aquilo era pior que um pesadelo! – O que... O que você faz aqui, ou melhor, como você entrou aqui?

Edward baixou a cabeça e sentou-se no chão. Reconheci aquela tática. Ele não estava nem um pouco a fim de me contar o que eu queria saber.

- Então? Ou você acha que eu vou ficar aqui com cara de idiota sem ter uma explicação? Por acaso você esta me seguindo? Porque se for isso, eu chamo a polícia!

- E vai dizer o quê? – Seus olhos haviam mudado de cor novamente, o que me fez estremecer – Que eu a segui até aqui? Ah, espera ai, o que você fazia mesmo na sala do monitor Krügger?

Ele tinha razão. Merda, ele estava certo. Não tinha escapatória.

- Ok, então porque você não fala o que eu quero saber?

- Você não entenderia...

- Ótimo...

Edward levantou-se do chão e me olhou incrédulo – Ótimo? É só isso que você me diz?

- Oh não... Eu digo também: Com licença, poderia devolver meus fones?

Elvis cover estendeu a mão para que eu pegasse o fone e foi o que fiz. Só que, por acidente – ou não – meu dedo tocou na mão dele e eu pude sentir o toque gélido dos seus dedos. Dei um pulo para trás e deixei cair os fones no chão. Aquela cena era patética. Elvis Presley "morto" na minha frente e eu como uma múmia parada a sua frente.

- Acho melhor você ir. – Edward se aproximou de mim e eu recuei mais um pouco. Não queria tocá-lo novamente. Aliás, não queria vê-lo nunca mais....

- É... – Pulei a janela e logo sai correndo pelo pátio feito uma condenada até me atirar na cerca do colégio. Esse topetudo é um monstro! Um zumbi... Cheguei em casa em cinco minutos e pulei aquele maldito muro com uma rapidez invejável. Enfim, meu cubículo particular. Sentei na cama com a respiração e o coração acelerados. Eu estava muito assustada. Também não era para menos... Tirei minha roupa e coloquei meus fones com a música a todo volume para ver se me acalmava.

"E tudo isso por cauda desses fones."

O pior é que eu nem me liguei que eu tinha revirado toda a sala do monitor e que havia deixado naquele estado deplorável sem arrumar nada. Ele vai perceber que somente os fones haviam sumido. E a culpa cairia inteirinha na delinqüente juvenil. Eu seria expulsa do colégio, minha tia ligaria para o meu pai e... Fim. Estava tudo acabado. Ah, quer saber? Foda-se. Mais tarde eu posso ver se consigo fugir de casa... Eu dou um jeito. Sempre acho uma forma. Não seria dessa vez que seria pega desprevenida.