N./A.: Desculpem os palavrões... 8D
Faça parecer um acidente...
Fazia um calor terrível naquela noite. A lua tomara todo o calor solar e transportara-o para a Terra como uma forma de protesto em prol do rigoroso inverno que acabara. Apesar do calor insuportável, meu corpo parecia congelar a cada passo que eu recuava. A criatura a minha frente era de uma beleza monstruosa, o limite entre o belo e o horrendo. Seus dentes reluziam à medida que se aproximava do que, a meu ver, tornar-se-ia sua presa. Tentei desvencilhar-me de seus olhos, mas a tentativa foi completamente inútil. Quando dei por mim, estava imóvel, apenas esperanço que a bela criatura tomasse a iniciativa de... Puta merda! Oito e meia?!
Corri como uma condenada até minha mala, vesti a primeira roupa que vi pela frente e sai desasada com a mochila dependurada no pescoço até a cozinha. Estava mais do que atrasada... Meu ônibus saia às oito e meia e o outro só passava dali meia hora... Arrumei uns biscoitos de coco que restaram da noite anterior e corri para a sala, esbarrando em Mirian.
- Você também se atrasou? Escuta, eu esqueci de dizer para você que não precisava me esperar para sair... – Mirian estava com uma cara amarrada, impaciente com alguma coisa que naquela hora, eu nem fazia idéia por qual motivo... – Por que ainda está de pijamas?
- Você não viu o noticiário? Nossa escola fora assaltada essa noite. Disseram que até acharem os bandidos e arrumarem a bagunça que fizeram, as aulas serão canceladas.
BUUM! Foi assim que a notícia chegou até meu cérebro. Comecei a gaguejar na sua frente, parecendo uma criancinha querendo explicar a traquinagem que acabara de cometer... Estava escrito na minha testa – com letras em néon – que fora eu a responsável...
- Eles... Eles têm idéia de quem possa ter feito isso...?
Mirian sentou-se confortavelmente no sofá e pegou a xícara das Meninas Super Poderosas que estava pousada na mesinha de centro – Que eu saiba, a polícia não encontrara nada ainda que possa incriminar alguém...
- Polícia?! Ah mer... Er...
- É... Pelo visto a coisa foi séria... O problema é que vai atrasar todo o conteúdo do colégio...
Conteúdo? Que mané conteúdo, foda-se o conteúdo. Agora sim a coisa estava feia para o meu lado. Havia digitais minhas por todos os lados da sala do Krügger, fora a cerca que eu pulei para escapar do Edward... Hey, deve haver digitais do "Zumbi Presley" lá também!
- Lili Star? Você está bem? Quer sentar ou vai ficar ai na minha frente feito poste de luz?
- ...
- Lili Star?
- ...
Mirian sacudiu as mãos freneticamente na frente dos meus olhos para ver se conseguia chamar atenção, mas foi inútil. Eu não dava a mínima para Mirian. Minha mente estava concentrada demais na palavra polícia...
"Princesa Mirian" dirigiu-se à cozinha e trouxe-me uma xícara de café preto para ver se me tirava do transe. Guiando-me pelo braço, me levou até o sofá e tentou fazer com que eu bebesse aquele maldito café. Estava horrível...
- Mas que merda é essa?
- Café puro, Lili Star... Para ver se você acorda... Anda, toma mais um gole...
- Não tem cerveja? – A tentativa era válida...
- Não... Não tomamos essas coisas aqui em casa... Escuta, quer me contar agora o que deixou você nesse estado de uma hora para a outra? – A inocência dela me deixava inquieta. Como ela podia ser tão ingênua? Estava na cara que eu fui a responsável pelo roubo do colégio. Mas ainda sim, aquela ingenuidade poderia me ajudar em alguma coisa. Pelo menos por enquanto...
- Ah... É que fiquei chocada com a notícia... Foi isso...
- Sei... – O sorriso que se abriu no rosto da minha prima foi assustador – Você ficou assim porque eu disse que não teríamos aula por tempo indeterminado!
-...
- É, não adianta me esconder! Sem aulas, ficará difícil encontrar certa pessoa, não é?
- Âhn?
- Sim... Certo senhor chamado Cullen. Edward Cullen...
Engasguei feio com o gole de café que tentava tomar. Então esse era o motivo do sorriso? Não... Eu não merecia aquilo...
- Lili Star, eu só tenho que avisar uma coisinha: Toma cuidado com essa sua apaixonite, ok? As meninas do colégio – inclusive algumas de minhas amigas – são loucas por ele, e ninguém tem idéia do que elas podem fazer com quem atravessa o caminho delas.
- Eu também tenho um aviso: EU NÃO TENHO PORRA DE APAIXONITE NENHUMA POR AQUELE TOPETUDO, ESTÁ BEM? – Ela conseguia me tirar do sério. Aliás, parecia que isso virou hobbie de todo mundo nessa cidade – Olha Mirian, eu vou dar uma saída já que não tem aula, ok? Se tia Carmem perguntar, diz que eu vou demorar...
Já estava saído quando Mirian veio correndo em minha direção e pronunciou a tão temida frase: Espera que eu vou junto.
- Espera... Eu vou junto!
- Mas você nem sabe para onde eu estou indo...
- Ótimo! Assim a gente pode ter mais um tempinho para conversar...
Fiquei olhando ela saltitar até o quarto e voltar com uma animação descomunal. Não tinha como dizer que ela não podia ir... Eu nem sabia para onde estava indo... Saímos de casa e eu logo senti o nervosismo tomar conta de mim. Era como se todos estivessem com olhares de acusação para cima de mim. Era terrível. Mirian falava pelos cotovelos e eu tentava me concentrar em chutar uma pedrinha da rua. Era horrível carregar esse sentimento de culpa nas costas. Duas toneladas de puro peso na consciência acabavam com qualquer um.
- Olha Mirian. Sabe aquela garota do outro lado da rua?
- Hum?
- Aquela ali oh! – Era incrível a falta de discrição das pessoas da minha família. Só faltou ela se jogar em cima da garota.
- Ah... Que que tem ela?
- Aquela ali é a Bella Swan. A ex-namorada do Edward... Eles formavam o casal mais fofo do colégio, mas de uma hora para outra, ele começou a se afastar dela... Ninguém sabe o motivo...
Vai ver ele só tinha tempo para o topete...
- Ela parece machucada... E não lembro de ter visto ela nas aulas...
- É que, depois do rompimento, ela nunca mais pisou lá.
Meu Deus. Mas que garota idiota... Entrar em depressão por causa de um topetudo...
Continuamos a conversar – sim, agora ela conseguira prender minha atenção – até pararmos numa cafeteria no centro da cidade. Mirian pediu um café preto e eu, bom, vejamos: uma Coca-Cola, três pãezinhos de queijo, uma torrada, alguns biscoitinhos que vieram acompanhando o café da minha prima, algumas balas...
- Você é magra de ruim... Olha Lili Star, vão falar sobre o assalto do colégio na televisão!
A segunda bomba do dia... Parei de mastigar o pão de queijo e me virei para a tv. Para minha surpresa, não foi a sala do Krügger que recebera atenção da repórter...
- "As autoridades estão perplexas com o caso da Escola de Ensino Médio de Forks. A polícia estima que mais da metade dos vidros e classes do prédio principal estejam destruídos, fora o restante dos estragos feitos em outros locais. Ninguém sabe ainda o que aconteceu no local, mas calculasse que o colégio voltará com suas atividades normais na semana que vem...".
Eu estava com metade do pão de queijo na boca. A vontade que eu tinha era de sair correndo pela rua gritando eu roubei um fone, não destruí o colégio! Virei novamente para Mirian que também tinha uma expressão assustada no rosto e tentei me acalmar.
- Puta que pariu... – Uma senhora que sentava do nosso lado me olhou cara de desaprovação depois que soltei – E eu pensando besteira...
- Realmente...
- O quê? – Como assim realmente?
- Nada Lili Star. O que você quer fazer agora?
Eu? Eu queria jogar minha consciência no lixo! Então quer dizer que a polícia não estava na escola por eu ter pegado meus fones de volta? Aquela notícia foi como se tirassem aquelas duas toneladas das minhas costas e jogadas para cima...
- Não sei... O que você quer fazer?
- Estava pensando em voltarmos para casa... Sabe, estou cansada... – Mirian mudou completamente de expressão. Seus olhos começaram a ficar ainda mais negros a cada segundo que passava. Havia alguma coisa errada.
- O que houve, garota?
- Nada – Era óbvio que havia alguma coisa... Eu sabia quando alguém tentava esconder alguma coisa... Eu usava muito isso quando não queria fazer alguma coisa - Não precisa voltar se não quiser...
Mirian me deixou sozinha na cafeteria, pensando no que poderia tê-la deixado daquela forma. Mas também, por que eu iria me preocupar se eu tinha uma semana para fazer o que quisesse?
Sai da cafeteria e fui a um barzinho do lado da mesma. Queria comemorar a minha pseudo-inoscência em grande estilo: tomando cerveja!
- Uma cerveja, por favor.
- Identidade, por favor.
- Hum?
- Não posso vender bebidas alcoólicas para menores. – Mas que história é essa agora?
- E quem disse que eu sou menor de idade?
- Vai mostrar a identidade ou não?
Eu não tinha escapatória. Ia ter que brindar minha liberdade com Toddynho...
- Daí cara, beleza? Vê ai duas cervejas.
- Claro... E ai Edward, que anda fazendo da vida?
Edward?
- Olá Lílian...
Mas eu não acredito nisso... Debrucei-me no balcão e fiquei assim por alguns segundos. Eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Aquele idiota só podia estar me seguindo...
- Hey, se não vai mostrar a identidade, pode ir saindo...
- Tudo bem cara, ela está comigo...
ÃH?
- O quê? – Levantei num salto e o encarei. O que ele tava pensando? – Não... Eu não estou com ninguém... – Sai bufando do bar - E faz o seguinte – Encarei o cara do balcão – pega essa cerveja e enfia do seu...
Deixei para trás um balconista mala e um topetudo abusado e caminhei sem rumo até uma pracinha perto do bar de onde estava. Estava cheio de pirralhos gritando e pulando feito pipoca de micro-ondas, mas resolvi sentar em um dos balanços vagos. Áquila cidade era maluca! Um colégio maluco, pessoas malucas, um topetudo maluco e um balconista filho da...
- Por que você foge de mim? – Senti que alguém havia sentado no balanço do lado – Isso é uma das coisas que eu não consigo entender...
- Por que você me segue? – Já estava levantando quando sua mão me segurou pelo pulso e eu pude sentir novamente seus dedos congelados na minha pele. Diário, eu queria me matar... Eu fiz a coisa mais idiota que alguém podia fazer naquele momento. Ao sentir aquele toque gelado na pele, eu me arrepiei feito galinha depenada! Eu sei, uma completa retardada! – O que... O que você está fazendo?
- Tentando fazer com que você não fuja novamente – Seus olhos invadiram minha mente de novo, como das vezes em que eu estava no meu estado de transe.
- Eu não... Não estou tentando fugir de nada...
- Não é o que está parecendo... – Edward começou a se aproximar de mim, ainda me segurando pelo pulso. Quando deu por mim, seus lábios gélidos roçaram nos meus. Foi uma sensação estranha... Fechei os olhos como se me entregasse aquele beijo, mas, como se acordasse de um pesadelo, abri novamente os olhos e o empurrei para trás, fazendo com que caísse de bunda na areia. Se eu não estivesse furiosa naquele momento, eu iria me matar rindo daquela cena: Edward no chão com um monte de pirralhinhos dando risada da cara dele.
- Nunca mais... Nunca mais faça isso, entendeu? Não me toque, não chegue perto... Nem olhe para mim, ok? – Sai do parquinho com o nariz empinado. O que foi aquilo que acabou de acontecer? Edward havia mesmo feito aquilo? E o pior: Eu havia mesmo gostado daquilo? Não! Claro que não! Eu não conseguia entender qual era o objetivo dele, mas depois daquele maldito beijo, eu nunca mais ficaria um centímetro perto daquele... Daquele... Topetudo idiota!
Voltei para casa e encontrei Mirian jogada no sofá. Terceira nota deste diário: EU QUERO IR EMBORA DESSA CIDADE... AS PESSOAS DAQUI VÃO ME ENLOUQUECER!
- O que aconteceu, Mirian? Você saiu da cafeteria naquele estado e...
- Você beijou o Edward?
Terceira bomba do dia. Como ela descobriu isso?
- Er...
- Você beijou ou não?
- Não foi necessariamente um beijo... E...
- Você não deveria ter feito isso...
Mirian saiu da sala e subiu para o seu quarto, batendo porta e tudo! O que aquela maluca tinha? E o pior, como ela havia descoberto? Estava me seguindo também? Ah, mas que merda de vida... Subi as escadas e comecei a bater na porta do quarto como uma louca tentando fazer com que Mirian a abrisse.
- Mirian! Abre essa porta! Porra, será que alguém pode me contar o que está acontecendo? – As batidas foram inúteis. Eu não conseguia ouvir nem a respiração da "princesa Mirian" dentro do quarto. Prevendo que ela não abriria aquela maldita porta, desci e fui para o meu quarto. Minha cabeça girava... Primeiro a história do assalto do colégio, depois o beijo do topetudo e agora Mirian. As coisas estavam piorando a cada minuto e eu começava a achar que se eu não tomasse uma atitude, elas poderiam piorar ainda mais...
