Férias Adiantadas

Eu estava enlouquecendo. Nitidamente enlouquecendo. Diário, o que há de errado comigo? Será que eu tenho algum tipo de retardo mental porque, convenhamos, eu não consigo entender bulhufas do que acontece nessa cidade. Eu falei cidade? O que dizer da minha casa, então...

Passei algumas horas enterrada na minha cama tentando achar alguma resposta para ver se entendia o ataque que minha prima havia dado na sala. Dava para perceber que ela não havia saído também do quarto dela porque não dava para ouvir nada lá de dentro. Cara, qual era o motivo daquilo tudo? Como ela sabia que o topetudo Cullen havia me beijado? Por que ela saiu correndo? E o mais importante: Cadê a titia Carmem que não chega nunca para fazer o almoço?

A única coisa que eu tinha certeza até aquele momento é que o meu estômago estava completamente vazio e reclamava por comida. Decidi, então, correr até a cozinha e ver se tinha alguma coisa para comer até titia Carmem chegar. Sorte minha que ela tinha o costume de congelar coisas fáceis de preparar... Acabei encontrando uma lasanha daquelas de microondas e umas almôndegas. Meu estômago roncou de felicidade ao ver aquela caixinha milagrosa com o Garfield na frente. Abri o micro já com certa impaciência quando escutei passos vindo do andar de cima. Não era Mirian, pensei, porque ela não ia dar o braço a torcer e vir falar comigo depois de tudo o que aconteceu. Titia Carmem não havia chegado ainda, do contrário já sentiria o cheiro de biscoitos de coco tomando conta da casa... Opções plausíveis:

1°) Mirian chamou as biônicas para desabafar;

2°) Mirian chamou as biônicas para me bater;

3°) TÃO INVADINDO A CASA, VÉIO!

A primeira coisa que pensei em fazer foi sair correndo pela porta da frente com a lasanha do Garfield na mão gritando por socorro, mas quando estava quase na porta lembrei que Mirian estava em casa e deixar uma prima sozinha com gente estranha junto deve ser pecado... Já imaginou, eu, Lílian Younger, no julgamento final, tentando explicar o porquê da minha fuga espetacularmente insana?

"Mais um pecado, senhorita Younger?" – Engraçado que Deus, na minha imaginação, tinha a voz do monitor Krügger... Mas enfim, fosse a voz de qualquer outro, não ia ser muito bom deixar a pobre Mirian sozinha lá em cima.

Subi as escadas ainda com a caixinha da lasanha congelada vagarosamente até por o pé no corredor que dava acesso aos quartos quando ouvi outro barulho, só que dessa vez, vindo do quarto de Mirian. Diário, Mirian ainda estava lá dentro e, por mais que eu tentasse me convencer de que era apenas alguma biônica tentando animá-la com aquele jeito espalhafatoso que só uma legítima Barbie Girl conseguiria, alguma coisa me dizia que havia algo de errado naquilo tudo. Peguei a caixinha da lasanha com força e comecei a caminhar em direção ao quarto de Mirian – com direito a musiquinha do filme Psicose, que naquele momento não estava ajudando em nada... Minha mente não presta mesmo... – e, lentamente, fui estendendo a mão até a maçaneta fria da porta do quarto. Tentei fazer menos barulho possível, empurrando a porta com cuidado para tentar ver o que estava acontecendo lá dentro. O que eu não esperava era encontrar a cena que se passava...

Mirian estava sentada na cama parecendo tentar explicar alguma coisa, sei lá, parecia um cachorrinho de rua pedindo um pedaço do lanche de alguém, gesticulando preocupadamente algo que eu não conseguia entender. Vi uma sombra percorrer o outro lado do quarto e me escondi atrás da porta para não ser vista. Quem será que estava lá dentro? Voltei à posição anterior para ver se conseguia enxergar mais alguma coisa e, para meu azar, Mirian percebeu que eu estava ali e levantou instantaneamente gritando para eu sair.

- Então é assim que você quer ficar aqui em casa, espionando os outros? – Mirian saiu, ao mesmo tempo que me afastava do quarto e me xingava como se aquilo fosse o fim do mundo – Qual é seu problema, ein?

- Eu ouvi passos e...

- E simplesmente achou que espionar iria melhorar as coisas? Santa curiosidade... – Eu nunca tinha presenciado um ataque de fúria de Mirian... E espero nunca mais presenciar...

- Olha Mirian...

- Não quero saber! Ou você sai daqui e nunca mais faça isso ou...

- Espera Mirian. Não precisa fazer esse showzinho.

Olhei para a porta para ver da onde aquela voz vinha e para minha surpresa, era de ninguém mais, ninguém menos que Bella Swan. Sim! A garota dos machucados Mirian havia me mostrado logo cedo. A diferença agora era que dessa vez, a garota não tinha sequer um arranhãozinho no corpo. Apenas a expressão triste de sempre. Quero dizer, nem tão triste...

- Bella, eu não sabia que ela invadiria meu quarto e...

- Não tem problema, o que eu tinha para falar já disse. Agora, vire-se. – Mal tinha terminado a frase e Bella começou a descer as escadas deixando Mirian completamente atordoada e eu... Bem, inteiramente puta da cara!

- Que história é essa de "vire-se"?

- Espero que você nunca entenda... – Falando isso, Mirian dirigiu-se até o quarto e se fechou novamente. Fiquei sozinha, com mais algumas milhares de perguntas e uma lasanha congelada na mão. Isso está indo longe demais. Aliás, já ultrapassou a linha do longe demais... Preciso de respostas! E rápido antes que essa lasanha grude na minha mão e meu estômago reclame mais um pouco...

Desci as escadas pensando no que eu deveria fazer. Quem eu deveria procurar para esclarecer aquela loucura que a minha vida havia se transformado e tentar, por fim, terminar meu ensino médio e viajar. Deus, se eu pudesse viajar para a Holanda agora mesmo e me empanturrar com os meus bolinhos de haxixe...

Depois de comer, sai de casa para ver se esfriava a cabeça... Não conseguiria as respostas sozinha, então comecei a pensar em algumas pessoas que poderiam me ajudar nessa empreitada rumo a iluminação – NOFA...

Sentei perto de um chafariz na praça central e comecei a rabiscar o chão com um graveto as futuras vítimas das minhas perguntas. Titia Carmem? Não... Ela só sabe a receita de biscoitos... Mirian? Só se eu drogá-la. As biônicas? Sim, imagina só a cara de monga que elas fariam depois de eu terminar as perguntas... Krügger? Háhá, next! Edward... O topetudo zumbi. A fonte de todas as perguntas... Será? Será mesmo que ele poderia me responder algumas coisas? Por mais que eu tentasse relutar com a idéia, não tinha outra solução. Levantei do banco e comecei a caminhar sem rumo tentando achar alguma forma de fazê-lo responder as minhas dúvidas.

Por incrível que pareça, meus pés estavam me levando até a escola, num gesto completamente involuntário. Vi pela grade os policiais procurarem pistas sobre o estrago feito no colégio na noite anterior e senti certo frio na barriga ao lembrar do que tinha acontecido na sala do monitor. Comecei a caminhar novamente e reparei numa sombra que correu em direção a um bosque localizado perto da escola. Aquilo me deixou intrigada, tanto que a segui para ver o que era. De certa forma, o local era escuro, com apenas alguns raios solares iluminando pontos estratégicos do lugar. De repente, senti uma puta dor de cabeça e cai instantaneamente no chão. Meu nariz estava sangrando e quando tentei limpá-lo, senti que minhas mãos já estavam amarradas atrás das costas. Estava tonta, queria gritar, sair dali, mas foi surpreendida por alguém que tampou meu nariz e minha boca com um pano úmido. Senti meu corpo pesar, igualmente como meus olhos e depois disso, nada. Apenas a escuridão.

ONDE EU FUI ME ENFIAR?