Seqüestro

Mamãe abriu a porta do meu quarto e pediu para que eu descesse, o jantar estava servido. Alguma coisa estava estranha, havia um brilho especial em seus olhos, indecifráveis a meu ver. Ela estalou os dedos me fazendo acordar do devaneio momentâneo e falou para não demorar. Levantei da cama e instintivamente olhei-me no espelho. Queria estar bonita para a ocasião. Prendi meu cabelo num coque, deixando apenas a franja solta e vesti a roupa que tínhamos comprado logo cedo.

Desci as escadas reparando no quanto a casa estava com um aspecto tranqüilo, o que já se tornara costumeiro nos últimos anos. Papai estava sentado à mesa com um sorriso largo no rosto, convidando-me a me sentar também. Logo depois, mamãe chegara com o jantar e logo se juntou a nós. Papai segurou as nossas mãos e olhou diretamente nos meus olhos como se quisesse me passar alguma mensagem mentalmente. Não precisou... Mamãe começou a falar naquele exato momento, numa tentativa falha de tentar esconder as lágrimas que já começavam a brotar de seus olhos.

- Não esperávamos nada menos de você, querida!

Aquela frase me atingiu em cheio. Pude sentir meu rosto corar com aquilo. Ambos sorriam como se eu tivesse acabado com a rixa de judeus e palestinos. Mas o mais estranho... Eu me sentia como se fosse isso mesmo que tinha feito.

- E então minha filha, quando começam as aulas na faculdade?

- Dia treze, pai. Sabe, estou nervosa com isso... Primeiro dia, gente nova... Devem saber muito mais do que eu...

- Impossível – Mamãe interferiu. – Minha lindinha é inteligente demais para eles...

- Mamãe, não esqueça que aquela é a universidade de Direito mais influente da América...

- E é por isso que estamos tão orgulhosos de você!

"Orgulhosos de você"

"De você..."

Meu coração apertou como se alguém estivesse apertando-o sem trégua, esperando que todo o meu sangue espirrasse no chão. Ergui minha cabeça ainda com os olhos fechados e senti uma dor aguda na nuca. Tentei levar as mãos até lá, mas senti cordas segurando-as juntamente ao meu corpo. Não tinha uma parte de mim que não estivesse doendo e quanto mais eu tentasse me mexer, mais dor eu sentia. Aquilo começou a me apavorar...

Não queria abrir os olhos, pois alguma coisa dentro de mim falava que se eu o fizesse, eles literalmente saltariam para fora, tamanha era a dor. Comecei, então, a ativar meus outros sentidos para ver se conseguia me localizar. Não havia nada, nenhum grilo, nenhum pássaro, absolutamente nada que me ajudasse naquele momento. Não tinha jeito. Teria que abrir os olhos...

Lentamente, as pálpebras foram subindo e deixando que minhas pupilas se acostumassem com a escuridão do lugar em que me encontrava. Senti frio, senti pânico, senti-me sozinha. Senti a fragilidade feminina tomar conta de mim. Senti nojo por pensar no pai dos meus sonhos, por chamar a mãe que eu tanto queria ter, por pensar em Edward...

Ouvi um barulho de porta atrás de mim e logo me pus em alerta. Por mais que meu corpo reclamasse, eu teria que pensar num jeito de sair dali.

- Ah, então a bela adormecida acordou finalmente... Como se sente?

- Venha até aqui que eu digo... – Da minha boca, o único som que saia era em forma de sussurro.

Senti que a pessoa começava a se aproximar de mim e novamente, a sensação de nojo brotou em minha mente. Eu estava com medo.

- Não acha que está em uma situação um tanto desfavorecida para dar ordens? – A sua mão começou a percorrer a linha do meu pescoço como se quisesse sentir meus batimentos cardíacos que até aquele momento, estavam completamente irregulares.

- A minha situação não interfere em nada que você mostre o seu rostinho lindo para mim...

- Sempre fazendo gracinha, não é Lili Star...

Meus olhos arregalaram-se com aquilo que acabara de ouvir. Não... Não podia ser...

- Surpresa Lili Star?

- Mas que merda... O que você acha que está fazendo, Mirian? Por que isso tudo?

- Por quê? Ah... Você já vai saber, priminha querida... Eu avisei você, não avisei? Não se meta com ele, eu avisei, mas você não me ouviu...

- Do que você está falando? Se meter com quem?

Seus olhos mudaram de cor e ela começou a se aproximar perigosamente de onde eu estava, fazendo com que novamente o pânico tomasse conta de mim.

- "Do que você está falando? Se meter com quem?" Adoro quando vocês se fazem de tontas...

- Vocês?! Mas que merda, Mirian! Será que dá para você me explicar alguma coisa?

Minha prima aprendiz de cobra começou a andar de um lado para o outro balançando em suas mãos uma espécie de corrente, de forma a me deixar completamente louca com aquela espécie de ameaça indireta.

- Bom, pelo que percebi nos últimos dias você esteve atrás de respostas, não é mesmo? Muito bem, acho plausível lhe dar algumas. Por onde devo começar? Ah, sim... Por que toda aquela destruição no colégio se você só roubou um mísero fone de ouvido na sala do monitor? Sabe Lílian, há dias eu e meus "amigos" estamos te observando e não gostamos muito do que vimos. – Sua voz mudou completamente de tom, tornando aquela cena ainda mais assustadora – Você arrumou companhias que não deveria, se é que você me entende...

- Não... Tente ser mais clara.

- Oh, não se preocupe, eu serei. Edward Cullen te trás alguma lembrança?

Aquele nome outra vez... Aquele garoto transformara minha vida num inferno e para meu azar, o diabo era minha própria prima...

- Mas...

-... mas o que ele tem a ver com isso? Ora Lílian, não precisa se dar ao luxo de perguntar... Você é tão patética que tudo o que você pensa está escrito na sua testa... Bem, continuando. Não sabíamos o que aquele vampiro idiota queria se aproximando de você, pensamos em várias hipóteses e todos chegamos a conclusão de que aquilo que ele estava fazendo era um truque para atrapalhar nossos planos...

- Vampiro?! Mirian, pelo amor de Deus, o que você fumou?

- Eu? Lílian, Lílian, sua cabecinha oca não está preparada para entrar nesse mundo... Mas mesmo assim eu vou continuar, até porque, vai ser muito divertido ver você toda perdida com tantas informações... Muito bem, onde eu estava? Ah sim, no plano. Decidimos então acabar de uma vez por todas com a idéia do sanguessuga e pensamos em fazer isso na noite em que você fugiu de casa para pegar os fones. Uniríamos o útil ao agradável, pois além de acabar com a raça daquele aproveitador do Cullen, mataríamos você também. Você serviria como uma espécie de troféu para nossa raça, priminha... Perfeito, não é?

- Mas...

-... mas não conseguimos... Claro, o plano não era tão perfeito assim... – Mirian parou novamente na minha frente – Graças ao seu instinto, o Cullen fez você sair correndo de lá antes mesmo de chegarmos ao colégio. Quando chegamos, era tarde demais. Toda a família Cullen estava nos esperando. Digamos que você perdeu a festa, Lili Star...

- Então quer dizer que...

-... que nós fomos os responsáveis pela bagunça? Sim... Aquele colégio se transformou num campo de batalha. Vampiros asquerosos contra nossa raça superior de lycans!

- Lycans... Você é uma... Lycan?!

- Eu, minhas companheiras que você carinhosamente chama de "biônicas" e mais algumas pessoas...

Mirian tinha razão. Aquilo era demais para a minha cabeça. Edward era um vampiro, Mirian, uma lycan, e eu... Comida?!

- Mirian, eu só não entendi uma coisa... O que eu tenho a ver com tudo isso?

- Já chego nessa parte, priminha, seja paciente... Com a ajuda daquela Cullen de cabelo espetado que prevê o futuro, a família inteira fora acionada e nosso plano fracassou. Tivemos que pensar em outra coisa e ai, pimba! Já que nossa estimada titia Carmem teve que, digamos... Viajar por alguns tempos, decidimos afastar você do Cullenzinho... Acredite, isso melhorará a sua situação no plano...

- Mirian, o que você fez com a titia Carmem?

- Bem, ela foi visitar seu pai... O destino prega peças mesmo, não é? Justo na noite que você fugiu, ela descobriu tudinho! Obviamente que eu tive que dar uma forcinha...

Bom, agora sim meu fim estava próximo. Meu pai viria e já era. Fim de papo...

- Você vai sofrer de um jeito ou de outro, Lili Star... Não tem como escapar...

Ouvi batidas na porta novamente e a conversa parecia ter acabado ali mesmo.

- Mirian, localizamos a Bella. O que devemos fazer agora?

- Peguem-na. Tragam-na para cá imediatamente. Como ela mesma me aconselhou, eu "me virei". Priminha, infelizmente vou ter que te deixar... Nossa conversa estava tão boa... Mas não se preocupe. Mais tarde você terá companhia... Beijinhos!

Mirian me deixou novamente no escuro apenas com meus pensamentos em completa desordem. Aquela garota era louca! Pirada! E eu... Estava ferrada. Pobre Bella, tomara que ela consiga escapar das garras da... Oh Deus, das garras da minha prima lycan...

Ouvi vários passos vindos do lado de fora de onde eu estava e de repente, nada. O silêncio reinava novamente naquele lugar estranho. Puta merda, o que estava acontecendo?