O Sorriso de Mona Lisa IV

As mãos de Naruto aferraram-se no assento enquanto o Porshe vermelho-sangue rasgava o asfalto pelas ruas de Paris. Seu marido, o tão sóbrio curador do Louvre, dirigia feito maluco pela estrada iluminada. A claridade dos postes de eletricidade transformava-se em borrões irreconhecíveis vistos pelas janelas. Naruto gritou enquanto o carro sacolejava mais uma vez, com o motor rugindo como uma fera.

– Ahh, seu maluco! – ele riu, divertido. Naruto não era o tipo de homem que dispensava certa adrenalina. – Vamos morrer! – Ele arregalou os olhos quando o carro quase bateu em um muro. Quase.

– Pressa, pressa – Itachi murmurou, atento à estrada. – Hidan disse que eles se moveriam para outro lugar, logo após o casamento. Eu quero que você veja, eles voltarão somente no próximo ano.

– O que vai voltar?

Pela primeira vez em todo o percurso, Itachi tirou os olhos da estrada, e sorriu malicioso para Naruto.

– Ah, você vai ver.

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– Itachi, meu velho amigo!

– Hidan, quanto tempo.

O homem, com aparência de sacerdote de alguma religião, abraçou fugazmente o Uchiha, e sorriu, algo desconfiado, para seu acompanhante.

– Meu marido, Uchiha-Fuuma Naruto – Itachi percebeu, e o apresentou.

– Ohh, só você mesmo, Itachi! Em vez de aproveitar sua lua-de-mel com seu marido. – Ele piscou malicioso para o garoto. – Vem aqui para apresentar-lhe nosso pequeno movimento.

– Acredito que ele vá gostar.

– Então achou um ativista, igual a você.

– Ele apenas sabe reconhecer o que é realmente importante na vida – Itachi concluiu, e entrou em uma casa velha e antiga, seguido por Hidan e Naruto.

Naruto arregalou os olhos, e enterneceu-se profundamente do que viu.

Jovens – mulheres e homens – cuidavam de mendigos ali. O lugar era simples, humilde, mas limpo com esmero. Todos vestiam roupas simples, empoeiradas, sujas, e Naruto pegou-se envergonhado do que vestia, como se entrasse vestido de palhaço em uma festa de gala.

Muitas moças tinham em mãos aparelhos rústicos, como navalhas, e retiravam a barba dos homens, muitos já velhos. Naruto podia notar em cada rosto, em cada par de olhos daqueles tratados, a vergonha e uma tristeza tão profunda e lacerante que o próprio Naruto sentiu uma extrema dor na garganta. Como oposto completo, aqueles que lhes serviam tinham uma expressão única de adoração, e seus olhos brilhavam como luzeiros, iluminando tudo. Alguns se voltearam para ver o loiro, e a maioria dos moradores de rua que o viam fechavam os olhos, ou escondiam o rosto, por vergonha de sua condição. O coração de Naruto era machucado, dilacerado, enquanto via a dor em seu estado mais polido, bem ali, crua e nua, à sua frente.

Sentia-se ridículo por não dar valor a tudo que tinha.

– Venha comigo, você está os constrangendo.

Naruto segurou firmemente a mão de Itachi, que o conduziu para outro cômodo.

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Caminhavam silenciosamente pelos lúgubres corredores daquele casebre, uns mais rapidamente que outros. Itachi notou que Naruto pulava como uma pipoca de tanta ansiedade.

– "O que eles são?", não é? – Ele leu a pergunta do marido em seus gestos.

– Uhun.

– Nenhuma organização secreta, carinho. – Hidan riu mordazmente pelo apelido ridículo. Naruto corou, e Itachi agiu indiferente. – São uma das filiais da "Toca de Assis". Interessante, achei que só houvesse no Brasil quando Hidan me apresentou uma na França.

– As coisas ruins espalham-se como pragas, por que as boas não podem imitar esta característica da erva daninha?

Os três olharam para frente, de onde um homem alto vinha, caminhando calmamente.

– Kakuzu – disse Itachi.

– É uma bela surpresa, Itachi – ele disse inexpressivamente.

– Kakuzu é assim mesmo, não fala muito – Hidan acrescentou.

– Melhor do que um fanatismo exagerado e não necessário, não concorda? – Kakuzu arqueou uma sobrancelha, e o comentário mordaz teve o efeito desejado em Hidan: o sacerdote parou de caminhar e semicerrou os olhos perigosamente. Naruto sentiu que estava entrando em um lugar muito estranho.

– Acho então que ele combina com o Itachi, hehe – disse Naruto, em uma tentativa falha de amenizar o clima.

– Mais do que você – disse uma moça, logo atrás de Kakazu.

– Ei, eu conheço você! É amiga do papai!

– Achei que não se lembraria de mim, Naruto-kun.

– Claro que me lembro, Konan-sempai!

– Que tal pararmos com essas amenidades e tomarmos um chá? Sei que é costume inglês, mas é bem interessante – disse ela. Eles a seguiram para uma sala a alguns metros.

Enquanto Konan servia o chá, Itachi explicava o objetivo da Toca de Assis.

– Você deve estar confuso, não? – Naruto assentiu fracamente. – Esta é uma atividade não-governamental e desvinculada do sacerdócio clerical.

– Traduza, por favor – Naruto sugeriu mordazmente.

– Quer dizer que o governo não banca e nem todos os que ministram são padres. É uma fraternidade católica, mas qualquer um pode ajudar. Na maioria delas, deve-se primeiro tornar-se padre para depois poder entrar.

– Ahn... Melhor assim, não?

– É. Tanto que, de todos aqui desta sala, somente Hidan tem formação. – O padre sorriu orgulhoso.

– Aquele que a si exalta, será humilhado. Aquele que se humilha será exaltado. Cristo que disse – lembrou Konan, e Hidan fez um muxoxo.

– E para que serve isso?

– Ah, ela faz diversas coisas. Seu objetivo principal é viver o Franciscanismo literalmente.

– Franciscanismo?

– É o nome do movimento que integra pessoas que acreditam na obra de São Francisco de Assis. Um homem genial, diga-se de passagem. Viveu na época das Cruzadas, tempo difícil... Assassinou pessoas em "nome de Cristo", pensando que conseguiria prestígio. Típico da época, ser soldado era um bom negócio. Filho de comerciantes que tinham uma boa vida. Ele é o padroeiro dos animais, porque se diz que descobriu a beleza de Deus através deles. Ele conseguiu tocar o coração do Papa, que estava regendo uma igreja poluída pelo ouro e pela ostentação. Conta a história que o Papa disse que se envergonhava de ter esquecido o porquê de ter se tornado tal, e que Francisco tinha lhe lembrado aquilo. O santo de Assis reformou várias igrejas, e diz-se que seus serviços a Deus foram tão bem-vistos pelo mesmo que Ele lhe concedeu um pedido, e Francisco pediu as chagas de Cristo. Francisco morreu com elas nos pulsos e nos pés. Sua amiga, a fundadora da Ordem das Clarissas, Santa Clara, tem corpo incorruptível e liderou as mulheres pelo mesmo caminho que Francisco liderou os franciscanos.

– Corpo incorruptível?

– Oh, isso é um tipo de milagre. Deus preza seus santos. Clara simplesmente tem o corpo intacto, similar ao de quando era viva.

Naruto arregalou os olhos.

– Em resumo, não foi deteriorado, conserva-se e não apodrece. Claro, o corpo não está igual, a pele está colada aos ossos, mas o fato de que, desde a morte dela, há quase mil anos, a pele e os ossos não viraram pó, é algo que a ciência simplesmente não consegue explicar.

– Nossa...

– Assim como existem provas de que os animais evoluíram por Seleção Natural, existem provas de que Deus existe. Por isso eu acredito no Design Inteligente.

– Herege... – Hidan sussurrou.

– E o que é isso? – Naruto cada vez prestava mais atenção no marido.

– É uma teoria de que, sim, os animais evoluíram, mas com alguma "ajudinha" de Deus. Ele corrigia os defeitos, remodelava o DNA, proporcionava os "acidentes genéticos". Na verdade, essa teoria tem vários ramos de crendice. Mas parte do pressuposto de que tanto a Seleção Natural quanto Deus existem, não importa a forma de como isso aconteceu.

– E isso faz com que tenhamos que negar que a Bíblia seja verdadeira. – Hidan bufou.

– Ah, e você acredita que o T. Rex morreu no dilúvio? – Itachi perguntou mordaz, e voltou à explicação. – A Toca de Assis segue os ideais franciscanos, assim como os clérigos da Ordem de Assis. Mas nem todos na Toca são realmente franciscanos consagrados pela igreja.

– O que é errado... – Hidan disse.

– Quem não está contra mim está a meu favor, Cristo disse – Konan citou.

– Argh, eu nunca devia ter te dado uma Bíblia!

– Só porque muitas coisas que você fala não fazem sentido com ela? – Ela riu.

– Ah! – Hidan bebeu o chá com cara de poucos amigos.

– Esse movimento nasceu no Brasil, e espalhou-se pelo país. Agora ganhou o exterior. Ele se concentra nos pobres, que eram o alvo de Francisco. Cuida deles, faz oficinas para evangelização, cuida da aparência. O objetivo é restituir moradores de rua à sociedade, ajudar-lhes a ter um emprego e uma casa, e saírem da marginalidade.

– Ei, nem todos os mendigos são marginais! – Naruto franziu o cenho.

– Naruto... – Itachi rolou os olhos. – Você sabe o que significa "marginal"?

– Ahhn... O cara que dá tiros e mata? – Ele sorriu nervosamente.

– Também. Mas "marginal" vem de "margem", ou seja: marginal é aquele que está à margem da sociedade, fora dela e de seus padrões. Qualquer pessoa que vá contra os padrões da sociedade é um marginal. Doncéis eram e ainda são marginais.

Naruto ficou em silêncio por alguns minutos.

– Hehe, acabei de me visualizar com uma arma na mão.

– Ah, não é sua culpa, o significado das palavras é distorcido pelas pessoas... Por exemplo, pedófilo.

– Como?

– "Pedófilo" era o melhor elogio que se poderia dar a um grego antes de Cristo. Literalmente, pedófilo se traduz "pedo" igual a criança, e "filia" igual a amor, paixão, amor fraternal, desejo sexual, tesão, etc. Significava então "aquele que ama crianças". Só que filia nesse caso não era tomado como desejo sexual, mas sim como amor fraternal.

– Nossa...

– Pedófilo era o professor que amava contar histórias para crianças, as pessoas que gostavam de ficar com os pequenos, brincar com eles, ensinar-lhes... Se pensar direito, nesse emprego da palavra, Jesus era pedófilo. Ele amava as crianças, dizia que somente quem fosse como uma poderia entrar no céu.

– E por que esse significado tão...

– Bonito? – Kakuzu completou.

– É! Como foi distorcido?

– Ah, a sociedade romana era cruel com as palavras, fazia questão de levá-las ao pior sentido possível. Muitas palavras lindas criaram caráter sexual, e outros significados diferentes dos anteriores. Um grego antigo, ao ver as reportagens atuais falando que pedofilia é condenável, diria que pedófilos tinham que ganhar um Prêmio Nobel, isso sim. O problema não é a palavra ter se modificado, mas que não temos agora uma palavra específica para denominar aqueles que amam crianças fraternalmente, e não sexualmente.

– Parece que eu tenho muito a aprender. – Naruto sorriu.

– Se depender de mim, todo meu conhecimento é seu.

Os dois se desprenderam do mundo exterior por alguns minutos, e Konan teve que pigarrear para fazer-se notar.

– Bom, sei que são recém-casados, adorariam ficar à sós, e é o que deveriam fazer, mas eu tenho que aproveitar a visita. Itachi, aqui o endereço do nosso próximo local de trabalho.

Itachi leu o papel que Konan lhe entregara.

– Não acha Berlim um pouco longe?

– É a parte boa de viver na União Européia, tráfego livre de pessoas, baby.

– Tudo bem, talvez eu passe lá na próxima semana.

– O quê? Não vai tirar férias com o marido? E a consumação do casamento?

O padre, Naruto e Itachi ficaram com leves rubores nas maçãs dos rostos.

– Tenho muita coisa para fazer, e minha vida pessoal não lhe interessa. Além disso, não há regra para quando consumar.

– Acho melhor fazer rápido, antes que o garoto repense e veja que é melhor negócio não ficar casado com você. É de seu conhecimento que casamento legal, abençoado e consumado, é indissolúvel. Mas casamento legal, abençoado e não consumado, pode ser anulado pelo Papa – Kakuzu disse, o humor negro fluindo em sua voz.

– E você acha que o Papa tem respeito por doncéis? – Konan perguntou.

– Naruto-kun não vai querer se separar de qualquer jeito – Itachi afirmou. – Não é, Naruto-kun?

– Isso porque você não deu tempo para ele pensar ainda – Kakuzu falou.

– Antes que tenhamos uma briga aqui, porque não mostramos melhor a Toca de Assis para meu marido? – Itachi perguntou. Ele não queria demonstrar, mas o que eles falavam era tudo o que ele achava que aconteceria se fosse possível.

E tudo que ele temia.

Naruto foi acompanhado por Hidan para outra sala, onde trocou as vestes caras por uma bata franciscana. Ele não podia dar os três nós, pois eram votos franciscanos, então deixou a roupa frouxa, sem a corda da cintura. Encontrou o marido, que vestia o mesmo traje, e encaminharam-se para a sala anterior.

Konan guiou Naruto para um dos acentos, e ambos passaram a cuidar de um dos moradores de rua. Do outro lado da sala, Itachi acompanhava cada um dos movimentos do marido. Ele sentia que Naruto reagiria bem, mas não tão bem. Parecia que estava em casa, que nascera ali, ou que freqüentava o movimento há anos. Ele ria enquanto cortava o cabelo de um senhor, falando abobrinhas para o homem, que acabava sorrindo junto. Os outros cada vez mais se aproximavam para participarem da conversa animada do novo recruta com o mendigo. Itachi sorriu ao notar que todos se fascinavam com seu marido.

O céu se escureceu completamente, e as estrelas se espalharam no céu. A noite era coroada pela lua cheia, brilhante no alto do céu. O casal ainda estava na Toca de Assis, cuidando dos últimos moradores de rua. Konan franziu o cenho.

– Itachi, o que você ainda está fazendo aqui? Está em lua-de-mel, não?

– Eu não posso entrar em lua-de-mel, quem vai cuidar do Louvre para mim? – O Uchiha arqueou uma sobrancelha, e a moça arregalou os olhos.

– Não vai me dizer que você...?

– Vamos continuar em Paris.

– Itachi, você está morto – ela disse mortalmente, e andou a passos rápidos para a sala do chá.

Itachi rolou os olhos e continuou o trabalho, sorrindo tímida e calorosamente para o homem que tinha em mãos. Era frio com maioria das pessoas, mas não conseguia ser com aquelas pessoas que tanto sofriam. Ele compadecia-se imediatamente, e tentava passar-lhes um pouco de amor.

-

– Itachi, venha aqui! – Konan gritou. Ela acabara de voltar, depois de meia hora, da outra sala.

– O que você está tramando? – Ele foi direto na suspeita que tinha.

– Bom... Você vai gostar. – Konan riu.

– Por que eu acho que não? Do mesmo jeito, já estamos indo...

– Tenha uma boa noite. – Ela piscou.

– Naruto!

O loiro estava sentado em um canto. Já havia acabado, e Itachi estava com o último cliente.

Os dois dirigiram-se para salas separadas, e trocaram as roupas puídas pelas de gala. Saíram, despedindo-se com acenos dos que ali estavam.

A ida para o apartamento alugado foi silenciosa. Os pais de ambos tinham concordado que eles ficariam um mês em uma cobertura perto do Louvre.

Só então Naruto percebeu que estava sendo como um cordeiro indo para o matadouro. Eles chegariam à suíte, e Itachi iria querer fazer aquilo. E estava em seu direito como marido! Afinal, o casamento não girava em torno daquele tema? Amar não era proibido pela Igreja fora do casamento, mas fazer sexo era. Somente pessoas casadas tinham o aval da Igreja para transarem, com o único objetivo de procriação; do contrário, isto é, sexo fora do casamento, era uma iniqüidade chamada fornicação. Yeah, quem cometesse ia dar um beijo no rosto do capeta.

Quieto, tremeu no assento do co-piloto, e sua imaginação fértil produziu a cena que não demoraria muito a acontecer. Podia quase sentir as mãos dele em sua cintura, sob a veste, puxando-a para cima, agarrando a pele com força, soltando-a, beijando-lhe os lábios com volúpia... Corou furiosamente, e pigarreou constrangido.

Com o silêncio ainda imperando, ambos desceram do carro previamente estacionado e subiram pelo elevador para o último andar. Não se olhavam, porque o mesmo pensamento rondava as duas cabeças.

O que aconteceria?

Quando o elevador parou no andar indicado, eles caminharam lado a lado para o último quarto. Quando viraram o corredor, para a surpresa de ambos, Sasuke estava sentado no chão, escorado na porta, bebendo uma garrafa de uísque.

– Olá, cunhadinho! Bom, como já é de noite, pensei que talvez vocês quisessem começar sua vida sexual com chave de ouro, e resolvi me oferecer para ajudar as duas virgenzinhas. – Ele não estava completamente bêbado, mas não passava muito longe disso.

– Sasuke... – Itachi sussurrou perigosamente.

– Brincando, irmão. Mas se vocês realmente quiserem... – Ele riu um pouco, e mostrou duas vendas negras. – Ordens da Konan.

– Sabia que ela estava aprontando...

– E das nossas mães, então não adianta piar.

Sasuke levantou-se, ficou atrás de Itachi e o vendou. Também vendou Naruto, e encaminhou os dois de volta ao elevador. Apertou para o térreo.

– Vocês vão gostar da surpresa. E, ah, só para constar: uma semana de férias gratuitamente, e Itachi, não ouse pisar no Louvre nesse tempo. Aproveite para tirar a virgindade de qualquer parte do corpo do meu cunhadinho. – Itachi chutou a porta do elevador e Naruto corou sob a venda.

Quando o elevador parou no térreo, os dois foram praticamente arrastados pelo braço para fora do hotel. Sasuke os empurrou para baixo e frente, e eles notaram que estavam em um veículo. O Uchiha fechou a porta, sentou no banco do motorista e conduziu em silêncio.

Os três ficaram calados por meia hora, até que chegassem ao destino.

Não tinham a idéia de para onde estavam indo, nem a que velocidade, porque o carro era silencioso. Sasuke parou o carro, saiu dele, abriu novamente a porta do passageiro e tirou os dois de lá. Entrou novamente no carro, riu alto, e disse:

– Tirem a venda!

Os dois o obedeceram, e arregalaram os olhos, enquanto Sasuke arrancava, rindo alto.

Estava no meio do nada.

Era um lugar muito afastado de Paris, ao horizonte se podiam ver as luzes da cidade. Na frente de ambos, uma mansão linda, escura, sombria, e aparentemente abandonada.

– Bom, única alternativa, não? – O mais velho abriu o pequeno portão de madeira branca, e encaminhou-se para a porta aberta.

– Ahn... Lugar vazio?

– Era da minha família. Eu morei aqui durante a minha infância.

– Ohh...

– Venha.

Naruto ia entrando na casa, quando Itachi colocou o braço entre ele e a porta de entrada.

– Vamos fazer isto da maneira correta, não?

Antes que Naruto pudesse pensar, já estava sendo carregado por Itachi escada acima. Seu coração martelava contra o peito em batidas rápidas e descompassadas, fazendo o loiro corar pela impressão de que até em Paris podia-se ouvir. Parecia um tambor.

Quando notou, já estavam no quarto. Itachi tinha o rosto mais sério do que de costume, as linhas de expressão acentuadas na testa alva. Ele se aproximou da cama, que Naruto notara que estava... Coberta de pétalas de flores. Os dois soltaram um esgar, incomodados. O quarto estava todo decorado com velas aromáticas acesas, flores por todos os lugares. Naruto teve vontade de vomitar.

– Outro quarto?

– Esse era o meu. Podemos usar o dos meus pais. – Sem soltar o marido, Itachi caminhou pelo corredor, os passos ressoando no chão de madeira. Tentou forçar a porta ao lado, mas estava trancada. – Merda. Sem escolha.

– Ótimo – disse Naruto ranzinza.

Os dois voltaram para o quarto florido.

– Pelo menos as velas não são rosas, e sim vermelhas – analisou Naruto.

– É, e as flores são brancas, não rosas.

Itachi caminhou até a cama, e deitou Naruto, sentando-se ao lado dele. Como o loiro o segurava pelo pescoço e não soltou o agarre, ambos ficaram próximos, as respirações chocando-se, intermitentes.

Naquele momento, a atração superou a consciência. Sem que ambos planejassem, suas bocas já se devoravam famintas. Itachi acomodava-se sobre o corpo do marido, com as mãos puxava a veste, forçava-a, despia o corpo. O desejo incandescente vibrava em ambos, anulando a vontade racional de parar. Tudo era calor e paixão, a sanidade não mais existia. O discernimento derretia ao mesmo compasso da crepitação das velas.

O que aconteceria amanhã?

Naquela hora, não importava. Estavam fantasiando – desejando – tanto aquele momento até ali, que fariam a imaginação tornar-se realidade.

-

O sol batia com insistência no rosto de Itachi, que franziu o cenho, desgostoso. Estava cansado do dia anterior, que tinha sido pesado demais. Sua memória ainda estava falha pela sonolência, mas ele conseguiu lembrar em pequenos flashs o que acontecera. Oh, o casamento. E depois a Toca de Assis. E, por último...

Assustado como nunca antes, virou-se para o lado e encontrou o corpo adormecido e nu de Naruto. Seu marido.

Tinha uma vontade enorme de bater com a cabeça na parede mais próxima!

Porque mesmo que estivessem casados, não era sua intenção consumar o casamento. Ele sentou-se rápido de mais, e, tonto, caiu no colchão. Franziu o cenho, e tentou mexer os membros. Era estranho, formigavam e as juntas pareciam ter cedido como se fossem de gelatina. Ele próprio sentia como uma capa anestésica o separava da consciência completa. Era uma sensação agradável, mas não era nada se comparada ao êxtase da noite passada.

Ele observou o rosto de Naruto, ainda preso no mundo dos sonhos. Acompanhou com os olhos as suaves marcas de expressão na testa, as sobrancelhas levemente arqueadas, um sorriso doce, as maçãs do rosto com um rubor leve, os lábios vermelhos e inchados, os cílios louros, quase transparentes... Desceu pelo pescoço, analisando o queixo, e viu a pele bronzeada coberta por hematomas arroxeados que ele próprio sabia que tinha feito. O resto do corpo perdia-se sob o lençol fino de seda.

Assustou-se um pouco mais quando se pegou admirando o rosto dele.

Ah, estava apaixonado por Naruto. Irremediavelmente.

E ele não devia nem sonhar com isso. Afinal, que tipo de casamento de conveniência era aquele? O 'unir o útil ao agradável'? Não podia fazer aquilo com ele.

Levantou-se, daquela vez com mais cuidado, e caminhou até o banheiro da suíte. Um banho quente e relaxante lhe faria muito bem.

Quando entrou no recinto, analisou-o brevemente, mas seus olhos se fixaram no espelho. Oh...

Itachi, espero que tenha passado uma boa noite! Como você é um palerma, resolvemos dar uma forcinha! Assinado: Sasuke, Konan e Mikoto.

Aquilo não era o impressionante. O que o deixou passado foi a embalagem de vela ao lado do nome da mãe escrito com batom, pregada com fita adesiva no espelho do banheiro.

Vela aromática afrodisíaca. A última palavra destacada com caneta marca-texto amarela fluorescente.

Ele quase socou o vidro.

Sua fúria cessou quando notou certa movimentação no quarto. Abriu a porta, anteriormente fechada, e observou como Naruto se sentava hesitante, provavelmente com o mesmo sentimento de gelatina nas articulações e ossos.

Os dois se olharam, sem palavras. Não tinha como poderem conversar normalmente depois daquele... Daquele o quê? 'Acidente'?

– Vou tomar banho – disse Itachi, e se trancou novamente no banheiro. Adiantaria falar mais algo?

-

Daquele momento, passaram-se cinco anos.

Em um acordo silencioso, porém explícito no ar, prometeram mentalmente que aquilo não voltaria a acontecer, e seria apagado de ambas as memórias. Claro, era mais fácil falar do que fazer. E nem ao menos discutiram o assunto.

Depois daquele primeiro 'acidente', ocorreram mais três: um no ano novo por causa da bebida em excesso no organismo; um após uma festa em que um homem não parava de analisar Naruto com luxúria, o que fez Itachi ingerir doses exageradas de bebida alcoólica, e depois acabou por 'marcar seu território' (e ainda sentia vergonha daquilo, porque se sentia quase como um cão); a última em Veneza, dentro de uma gôndola, em uma 'rua' escura à noite.

Nas quatro vezes (contando com a da noite de núpcias), a mesma reação: não falaram nada, vestiram suas roupas e fingiram que nunca havia acontecido.

Mais um aniversário de casamento que ambos não comemoravam. Como sempre, Itachi no Louvre, e Naruto arranjando algo para fazer. Daquela vez, passara o dia inteiro na Toca de Assis, que tinha feito uma sedie em Paris. Ele largara o emprego para ajudá-los. Itachi não reclamava.

Mas sempre rondava aquele clima melancólico entre os dois.

Naruto estava assistindo televisão quando Itachi chegou. Era perto da madrugada. Como o Uchiha viera com o irmão, Naruto fez questão de comportar-se como se fosse marido de verdade de Itachi, e levantou do sofá para lhe dar um beijo rápido nos lábios.

– Oi querido – disse ele.

– Não precisam fingir na minha frente – acrescentou Sasuke.

– Quem disse que estamos fingindo? – perguntou Naruto, e sorriu falsamente. Sasuke não captou a mentira, mas Itachi sim. Ele convivia há cinco anos com Naruto, sabia os sentimentos dele até pela forma de respirar. Mas, ironicamente, o único sentimento que não notava era aquele escondido por doses enormes de melancolia e dor.

– Viemos te pegar – disse Itachi.

– Vão me levar para onde?

– Não pergunte, apenas coloque uma roupa de gala e venha.

Só então ele notara que Sasuke usava smoking.

– Ok. – Depois de conviver tanto tempo com Itachi, aprendeu que ceder nem sempre era algo ruim.

Naruto não era como uma menina. Em menos de dez minutos já estava dentro de um smoking cinza-claro, esperando com Sasuke por Itachi. Seu marido desceu as escadas, simplesmente fatal dentro da roupa negra. O coração do Fuuma falhou uma batida, mas ele se conteve. Há cinco anos se continha.

Estava apaixonado por Itachi. Assustadoramente.

Eles entraram silenciosamente no carro, deixando para trás sua casa, que anteriormente foi dos pais de Itachi.

-

– Surpresa! – gritaram em uníssono os participantes daquela brincadeira nada engraçada, pelo menos na visão da família Uchiha-Fuuma.

Os Uchiha e Fuuma riam descaradamente dos rostos de raiva de Itachi e Naruto. Não tinham dó.

A decoração era enjoativamente rosa, coroada por um cartaz no alto da mansão, escrito 'Feliz aniversário de casamento, Itachi e Naruto!' em letras rosa-choque. Sim, eles iriam matar o desgraçado que tinha arquitetado aquilo. E pressentiam que era o Uchiha risonho ao lado deles.

– Sasuke, aproveite esta festa, pois será a última da sua vida...! – Itachi rosnou.

Os dois se fizeram o possível para se perderem entre os convidados.

-

Naruto estava comendo um dos doces em uma das mesas de guloseimas, rindo baixo de algumas formas esquisitas nos doces. Ele não prestava muita atenção ao redor, mas captou uma voz no meio da multidão. Era a irritante garota de cabelos ruivos e de óculos, que ele não lembrava o nome.

– Ah, Karin, que divertido! – comentou sua acompanhante, que tampouco Naruto conhecia.

– Sim! E bem na frente do marido dele! – A ruiva riu. – Afinal, tenho certeza de que rolou um clima entre nós dois há cinco anos. E ele é bonito, e elegante, e merece algo melhor do que aquele loiro idiota e simplório.

– E esse melhor é você, não?

– Claro! Não sei se Itachi terá escrúpulos de trair o maridinho, mas parece que o loiro não está comparecendo em certo assunto, se é que me entende.

– Ah se eu entendo! – confirmou a menina de cabelos chocolate, e soltou uma risadinha maliciosa.

– Afinal, se a taxa de fertilidade de um doncel é o triplo da de uma mulher, e eu tive que cometer uns... Cinco abortos, acho... O garoto loiro já devia ter um bilhão de filhos! – Naruto arregalou os olhos, e as seguiu. Queria ver no que aquilo ia dar.

– Mas você sabe que alguns dizem que eles foram amaldiçoados por serem precursores do movimento para o direito dos doncéis, não? Afinal, doncéis ainda não podem votar, são submissos ao marido, etc.

– Ah, disso eu não sei, mas tenho certeza de que este casamento é de fachada! Aliás, todos têm! E quando souberem que o lindo casamento deles não passa do contrato, nosso adorado loiro vai queimar na fogueira. – Karin riu. – E adivinha quem vai consolar o pobre viúvo?

Naruto se sentiu ligeiramente tonto. Segurou na ponta da mesa, mas perdeu o equilíbrio e caiu para a frente. Antes que pudesse atingir o chão, porém, alguém o segurou. Ele abriu os olhos levemente, sem nem lembrar de que tinha os fechado, para ver os olhos preocupados de seu pai doncel, antes de desmaiar.

A primeira coisa que notou foi o cheiro adocicado dos remédios. Fazia seu nariz coçar. Quando esteve disposto a abrir os olhos, notou o teto, e sorriu. Estava em um maldito hospital. Como os odiava. Quando esteve disposto o suficiente para olhar em volta, notou que seu quarto estava cheio de familiares, todos com cara de enterro.

Ohh, ele tinha câncer?

– Vamos, o que foi? – Naruto perguntou, sem nem se dar ao trabalho de ser educado e cumprimentar as pessoas.

– Err... Isso vai ser difícil... – Minato sorriu fracamente, tentando claramente fazer com que Naruto desistisse de perguntar.

– Pai...

– Eu dou as boas novas! – Mikoto gritou.

– Mãe... – Itachi rolou os olhos.

– Ah, você tem que considerar, são realmente boas...!

– O que diabos está acontecendo?! – Naruto já estava impaciente.

Antes que Mikoto falasse, Itachi calou-lhe a boca com a mão. Sasuke respirou fundo, e encarregou-se de contar de uma só vez.

– Para provar que meu irmão dá no couro... – Itachi olhou feio para ele. – E que seu casamento não é inteiramente de fachada... Bom, parabéns, você está grávido.

Naruto nem deu-se o trabalho de responder: desmaiou novamente.

Ele respirava, tranqüilo, observando a paisagem pela janela. Antes de sequer perceber, suas mãos acariciavam suavemente o ventre, na mais suave percepção de que havia algo santo ali, crescendo em seu interior. Naruto teve ânsia de vomitar só ao lembrar de como Karin dizia ter descartado com tanta facilidades tantas vidas inocentes.

Itachi também estava absorto em pensamentos. Quando...? O último 'acidente' deles tinha sido há dois meses, por suas contas. Era totalmente plausível que Naruto estivesse esperando um bebê.

Mas, ao mesmo tempo, era inaceitável.

Como poderiam criar um ser em um casamento que nem baseado no amor era? Não que ele fosse romântico, mas não conseguia conceber em sua mente uma outra estrutura familiar que não fosse essa. Amor, não importando os constituintes dessa corrente.

Naruto o observava, talvez esperando uma resposta, talvez apenas querendo expressar algo com os olhos. Ele decidiu corresponder o olhar, e depois de longos cinco anos, eles se olhavam novamente daquele jeito, tão intenso. A última vez tinha sido no altar. Talvez a função daquele sentimento que passava de um ao outro pelos olhos fosse aparecer apenas em um acontecimento importante, para tornar-se inesquecível.

– Vai ficar tudo bem – disse Itachi. – Estamos juntos nessa.

E Naruto acreditou nele. Não precisavam de mais palavras.

-

Se já aparecera na face da Terra algum idiota capaz de dizer que cuidar e educar crianças é fácil, Naruto desejaria matá-lo. Porque não era, ah se não era!

Depois de tão longos – mas ao mesmo tempo tão curtos – cinco anos, sua pequena Christie era a prova de que crianças poderiam enlouquecer um adulto. A menina de quatro anos corria pela audiência como se fosse sua casa, enquanto seu pai rolava os olhos, sentado em uma poltrona confortável. Estamos juntos nessa. Ahan. E por que só ele estava cuidando da pequena barulhenta?

Naruto a agarrou e colocou uma mão na frente da boca dela, sentando-se rapidamente, quando a seção começou.

– Christie, o tio do saco está lá fora procurando crianças desobedientes, então obedeça seu pai e fique calada!

A menina lhe mostrou a língua, os cabelos negros chicoteando na pele pálida quando ela girou abruptamente a cabeça para a frente, e soltou um grito ensurdecedor.

– Christie – disse Itachi, e a menina se calou.

Naruto franziu o cenho.

– Como você consegue isso? – Ele apontou para a menina sentada calmamente em seu colo.

– Impondo respeito, oras.

– Ah, ta... – disse Naruto. – Ei, espera aí! Está insinuando que eu não imponho respeito?!

– Não estou insinuando, estou afirmando.

– Itachi...

– A seção começou.

Os dois se calaram, assim como os demais presentes. Alguns murmúrios persistiram, mas não eram suficientes para que não se ouvisse o deputado a falar.

– Hoje é um dia muito importante na história de nosso país. E de todas as nações – disse o parlamentar. Ele, inglês, apontou para os vários regentes de muitos países. Estavam em Nova Iorque, no prédio das Nações Unidas. – É com prazer que lhes aviso sobre uma mudança na lei dos direitos e deveres civis dos doncéis.

– Como...?! – Naruto arregalou os olhos, e parte de sua consciência notou que outros se agitavam, como ele.

– Cale-se, você vai ver – disse Itachi com um sorriso no rosto.

– Como esta é uma seção aberta, tentaremos simplificar da melhor maneira possível. Segundo artigos arcaicos, de cerca de dez anos, acerca dos doncéis, nota-se uma diferença para com as leis de homens e mulheres. Não é garantido o direito de voto, o gênero doncel é considerado inferior ao homem e à mulher, é negado o direito de divórcio, é negado o direito à tutela dos filhos, e a rejeição pelo consorte, seja mulher ou homem, torna-se pena capital para o doncel. Porém este movimento evoluiu ao decorrer do tempo, e...

– Explique isso direito...! – sussurrou Naruto. Ele parou de prestar atenção para o que o deputado dizia, esperando a resposta de Itachi.

– Você sabe o porquê da ONU ter sido criada?

– Ahn... Pós-guerra, para resolver tudo com diplomacia...? – ele perguntou, inceto.

Itachi suspirou, e dedicou uma boa parte de seu tempo olhando para o teto.

– Conversa para boi dormir, história da carochinha, igual à independência do Brasil.

– Ih, nada de entrar em assuntos estrangeiros!

Itachi concordou. Não era hora.

– O que eu quero dizer é: a ONU foi criada primeiramente para proteger o direito dos judeus, não porque fossem os oprimidos, mas porque são ricos. Você nunca verá um judeu pobre, e se vir, pode ter certeza de que é a exceção que confirma a regra.

– Então...?

– Não sei se são judeus agora, mas... A ONU nunca se move por ser 'boazinha', mas sim para atender certos interesses de certas pessoas.

– Ahn... – disse Naruto, e voltou a prestar atenção, notando que a palavra era de outra pessoa.

– Acima de qualquer coisa, doncéis são seres humanos. Assim como homens e mulheres. Portanto, devem ter os mesmos direitos e deveres, afinal, todo ser humano é igual perante a lei nos países considerados democráticos. Que democracia é essa que exclui um gênero inteira? É dessas pessoas marginalizadas que, em parte, nascerão as crianças do nosso futuro. Portanto esta assembléia, apoiada pelos governos das Américas, muda uma emenda constitucional em todas estas Constituições. Apartir do dia de hoje, 21 de março, o voto é universal, o direito ao divórcio e todos os direitos dos cidadãos também são estendidos aos doncéis!

O homem foi interrompido por salvas de palmas, assovios e outros barulhos de alegria. Naruto fechou os olhos, tão feliz estava.

Estava... Estava livre. Finalmente podia fazer o que quisesse.

Era um ser humano novamente.

Itachi, por sua parte, não parecia compartilhar tanto assim de sua felicidade. Ele se levantou do acento, e olhou friamente para seu consorte antes de ir embora, não sem antes dizer algumas palavras:

– Deixe Christie com Mikoto e vá ao Louvre depois da hora de fechamento. Precisamos conversar.

Em todos aqueles dez anos de casados, nunca havia visto Itachi tão sério.

Ele caminhava pelos lúgubres corredores que conhecia tão bem. Não era a primeira vez que ia de encontro ao marido, mas era sua estréia ao ir ali com nervosismo. Seu coração parecia um cavalo selvagem, galopando no peito e debatendo-se entre os pulmões, arrancando-lhe o fôlego.

– Naruto... – sussurrou Itachi.

Por algum motivo Naruto sabia que Itachi estaria observando a Mona Lisa. Estavam na sala dela. Itachi tinha um rádio que funcionava a bateria ao lado, e tocava um CD de música sinfônica, valsas, entre outros.

– Itachi – respondeu Naruto, sentindo-se estúpido.

– Sente-se.

Naruto o obedeceu, sentando-se ao seu lado. Por longos minutos ficaram observando as camadas de pintura do quadro à frente, até que Itachi decidisse se pronunciar novamente.

– Você sabe o que isso significa.

– Significa o quê?

– A nova Constituição.

– Ah, o que tem ela? – Naruto se animou. Então não era algo horrendo!

– Não há mais motivo para estarmos casados – concluiu Itachi.

Yeah, era uma coisa horrenda!

– Co-como...?!

– O direito ao divórcio é garantido. Se quiser, pode se separar de mim e encontrar alguém que você ame – disse Itachi. Só então Naruto notara que ele escondia o rosto com as mechas do cabelo.

Naruto ficou em silêncio, pasmo.

– Eu... – Ele se atreveu a tentar falar depois de alguns minutos. – Ahn... Não estou com pressa de me separar.

– Mas... Eu estou.

Naruto congelou.

– Você... Tinha um caso? – perguntou ele, com uma nota desapontada em sua voz.

– Eu... É, tinha. – Ele continuou a esconder o rosto, ao que Naruto interpretou erroneamente como vergonha.

– Bom... Nosso casamento era de fachada, então tudo bem... – Ele repetia a si mesmo que aquilo era absolutamente normal, mas não conseguia. Uma voz, no fundo de sua mente, gritava a plenos pulmões 'Ele é meu!'.

Mas não era.

– Então... Até.

– Até.

Naruto se levantou, com o estranho pressentimento de que algo estava errado. Mesmo assim abandonou a sala. Algo lhe dizia que deveria ficar, e como ele muitas vezes fazia caso a seus instintos, resolveu observá-lo. Se escondeu atrás de uma coluna. Itachi não o notaria, já que parecia absorto em pensamentos. Quando seu marido julgou que ele não estava mais ali, levantou o rosto.

Ele estava chorando.

Os soluços irromperam por sua garganta, enquanto ele deixava-se cair ao chão. Naruto fechou os olhos, e respirou fundo. Correu para auxiliá-lo.

– Na-naruto...? – Seu marido tinha se ajoelhado no chão e colocado sua cabeça no peito dele. Itachi sentia-se uma criança aninhada na mãe, mas estava ocupado demais tetando parar de chorar para se importar.

– O que está acontecendo? – ele perguntou seriamente.

– Eu... – Itachi evitou vê-lo nos olhos, porque sabia que aquele olhar inquisidor podia lhe arrancar qualquer resposta. Mesmo tentando se manter à margem, dez anos eram muito tempo.

– Responda. – Naruto segurou o queixo de Itachi com a mão que não o sustentava pelas costas, e obrigou-o a olhá-lo.

Naruto viu o brilho nos olhos dele, e identificou-o. Era o mesmo brilho que tinham os olhos seus. Sorriu, e seus lábios se encontraram com a urgência e a paixão de dez anos acumulados.

Itachi pouco se importou com os quadros. Separaram-se por poucos segundos, e já o devorava novamente, estirando-o no solo e arrancando-lhe as roupas com pressa. Naruto riu baixinho, feliz.

– Para que a pressa?

– Faz dez anos que eu quero fazer isso em sã consciência, não quero esperar nem mais cinco segundos.

– Itachi... – Naruto balançou a cabeça.

– Nem acredito que perdemos dez anos... – Ele parou o que fazia, e fitou o menor, que correspondeu o olhar. – Você me ama?

Era uma pergunta ridícula, já com resposta, mas ele precisava ter certeza.

– Sim, amo. Muito. E você?

– Como nem pode imaginar. Aliás, eu vou te proporcionar uma amostra grátis.

– Quando? – Naruto riu divertido pelo sorriso malicioso do marido.

– Que tal agora?

– Perfeito.

Os lábios se encontraram em mais um beijo passional.

É verdade, haviam perdido dez anos do que poderia ter sido uma estupenda relação. Mas tinham a vida toda pela frente.

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Fim

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