Capítulo 2 – Agouro

Aquele grito bastou, para eu acordar e os meus devaneios sumirem, levantei e procurei a origem daquele grito, meu Deus! Fui ficando cada vez mais apavorado, em vez de ser só um grito e acabar, o grito continuou, chegando cada vez mais perto, se aproximando sorrateiramente, fiquei pasmo, o grito vinha de dentro da casa. Um estrondo

A porta da sala tinha se aberto, a sombra de meus pesadelos vinha se esgueirando pela porta a meu encontro, silibando, no ato lembrei-me de uma cobra pronta para dar o bote, dando um passo de cada vez fui me afastando, ela chiou quando percebeu o que eu estava fazendo, isto me fez estacar na hora, meu sangue gelando nas veias, meu pulso acelerando, a visão turvando, as paredes alaranjadas da garagem começaram a girar e então desmaiei.

Uma sensação de que aquele era o verdadeiro primeiro dia de minha vida, porém o último, minhas lembranças judiando de mim, como se fosse uma jaula e eu o animal aprisionado dentro dela, sofrendo sem a liberdade, urrando de dor, só que não era a dor física e sim a dor psicológica, uma dor que não pode ser curada com remédios, ou que pode ser esquecida tão facilmente. Então engoli a verdade como se fosse uma colherada de sopa quente, de uma só vez, eu tinha que aceitar, de que ver a sombra, seria minha última lembrança, minha última memória, e eu fraquejando, na hora da verdade, na hora em que alguém precisava de mim, e não pude ajudar, porque fui um fraco, a segunda e última vez na minha vida que me torno um fraco, prometi a mim mesmo que se eu sobrevivesse, nunca, jamais seria um fraco o resto de minha vida.

Abri meus olhos e respirei profundamente, meus pulmões doeram, como se eu ficasse muito tempo sem respirar, tentei ficar em pé, meu equilíbrio nunca foi bom, olhei em volta, eu estava realmente sem respirar? Eu estava dentro de uma piscina vazia, só com algumas poças d'água em pontos mais baixos, minhas mãos tremiam, eu estava todo molhado, e também estava muito quente, mas minha sede falou mais alta, passei a minha mão nos lábios pude sentir que eles estavam rachados, eu devia estar desidratado, caminhei até a poça d'água mais próxima, me agachei e peguei a água e tornei a bebê-la, não tinha gosto então pensei que ela deveria estar limpa. Dei de ombros.

Agora sim, matei minha sede, minha cabeça já estava no lugar, andei, bom na verdade quase corri até a escadinha da piscina, pulei para fora, e comecei a analisar o lugar, não era um clube, muito menos uma casa com piscina, mas sim uma piscina no meio de um terreno abandonado, e um terreno no nada, para além do terreno só mato, nem sinal de civilização.

Percorri todo o perímetro do terreno, achei uma brecha entre a grama e me meti por lá, conforme a trilha seguia, ela ia se alargando, a trilha já estava da largura de uma calçada, quando ela fez uma curva, e ao fim da curva um casebre de madeira, que eu não entendia como ainda estava em pé, trotei até lá.

A porta estava emperrada, tive que dar umas boas sacudidelas para ela abrir, contudo no fim consegui abrir, o casebre era no mínimo humilde, uma cama de madeira acabada, um armário igualmente acabado e com umas duas roupas penduradas, e uma prateleira com alguns poucos livros esfrangalhados, me movi feito um fantasma até a prateleira para ver os livros, que ela continha como constatei eram clássicos, de Shakespeare, de Verne entre outros autores igualmente famosos.

Sentei-me na cama para pensar, o que estava acontecendo? O que ou quem era aquela sombra?E uma pergunta que eu tenho certeza de que se eu soubesse o que era eu resolveria todo o mistério, o que a sombra queria me dizer no meu sonho? Tentei reproduzir o som em uma das línguas, para meu espanto eu consegui, agora faltava descobrir o que queria dizer, cômico pensei comigo, além de eu falar o português, falo italiano, inglês, espanhol e japonês, mas não consigo descobrir que raio de língua é essa. Meu corpo deveria estar sentindo o cansaço agora, depois de uma longa caminhada, deitei na cama e apaguei.

Acordei assustado com um barulho que me lembrou uma moto parando em frente à casa, não conseguia me mexer, meu corpo estava paralisado, de repente passos, pisando contra o chão de madeira da varanda, comecei a me levantar, mas a porta abriu, quem quer que fosse já estava dentro da casa, por sorte o armário tampava um bom pedaço da cama, e logo do lado do armário havia uma brecha, se eu conseguisse, ir até lá, mas na hora que levantei o chão rangeu.

-Quem está aí? – perguntou a voz, para minha surpresa não era uma voz masculina e sim feminina.

-Calma, não quero fazer mal – falei com se eu estivesse na guerra – Cheguei até aqui por acaso – sai de trás do armário.

Era uma mulher bonita, com traços marcantes, bochechas rosada, e um lábio carnudo, só seu cabelo estava um pouco judiado, era alta, e devia calculei eu ter por volta de uns trinta anos. Porém para minha surpresa ela me apontou uma arma e disparou.