capítulo dois
a seleção.
- Alunos novos! Por aqui, alunos novos! - entre a multidão de gente que se atropelava para fora do Expresso Hogwarts, uma figura logo se destacou na multidão. Sacudindo sua lanterna e acenando para os recém-chegados, Hagrid tentava chamar a atenção dos alunos do primeiro ano - não que qualquer um deles conseguisse desviar os olhos do meio-gigante grisalho parado ali. Entre as várias cabeças e queixos caidos, o Guarda-Caça de Hogwarts identificou uma conhecida; e naquele momento, Rubeus não pôde deixar de sentir um forte dèjá vu.
Há quase cinquenta anos atrás, em uma noite não muito diferente daquela, um garotinho não muito diferente daquele tinha saltado do trem, acompanhado daqueles que mais tarde seriam seus melhores amigos - e que causariam mais confusões do que a paciência da profa. Minerva conseguiria suportar. Catorze anos depois dos Marotos terem deixado Hogwarts, era a vez do filho dele voltar, acompanhado de um certo ruivo que veio a se tornar seu melhor-amigo e cunhado. Foi quase com um aperto no coração - muito mais de emoção do que de tristeza - que Hagrid acompanhou a terceira geração da família Potter se empurrar até onde ele estava, com um grande sorriso no rosto.
Mas tão logo sua atenção se desviou de Albus Potter, voltou-se para quem estava com ele - e se a tendência dos Potter era se tornar melhores-amigos de quem conheciam naquele trem, então Alb teria problemas.
- Ouça, - Hagrid começou, apoiando a mão em um ombro do rapaz. Os joelhos de Albus se curvaram para frente e ele fez uma careta - se alguma coisa acontecer, qualquer coisa, é só vir falar comigo, entendido? - Rubeus avaliou Scorpius por um olhar, com desagrado. O jovem Malfoy continuava conversando com Blake Zabini e nem se dera conta da atitude do meio-gigante.
- Vou ficar bem. - Albus coçou a nuca, desconfortável. - Mamãe mandou um abraço.
- Oh, sim, abraço recebido. Lembre-me de mandar uma caixa de bolos de caldeirão para ela na semana que vem. - Albus tentou conter uma careta, ainda se lembrando de como um de seus dentes de leite tinha ficado preso em um pedaço de um daqueles bolos. - Agora vamos, os barcos nos esperam. Alunos novos, por aqui, me sigam! Ei, você, nada de se esgueirar para as carruagens!
- Quem era o grandão ali? - Scorpius perguntou, quando Albus se reuniu a eles, pouco tempo depois. Explicou a eles quem era Hagrid, o que ele fazia e algumas das histórias que seu pai tinha lhe contado sobre o Guarda-Caças, enquanto caminhavam da estação de Hogsmeade até o cais. Scorpius parecia fascinado com as histórias sobre a floresta proibida, mas Blake não parecia tão interessado.
- Não é como se eles fossem nos deixar entrar lá. - ele comentou, dando de ombros. - Mas eu ouvi dizer que há todos os tipos de coisas dentro. Todo tipo de coisas mesmo.
É, Albus sabia. Harry tinha lhe contado sobre muitas das coisas que o próprio vira por ali em seus tempos de escola e cada nova aventura fazia Albino desejar mais e mais ficar longe daquela área dos terrenos do castelo. Acromântulas, lobisomens, dementadores, gigantes! Ele não tinha certeza nem de que conseguiria segurar uma varinha sem arrancar o próprio olho processo, imagina lidar com algo assim!
Scorpius não parecia compartilhar da idéia - na verdade, enquanto embarcavam nos botes que usariam para atravessar o lago negro ("eles são seguros, certo? Certo?"), podia ouvir Malfoy e Zabini confabularem sobre como conseguiriam escapar em uma noite dessas e ir procurar algum bichinho de estimação por lá. Albus tinha até pensado em dizer que não queria nenhum filhote de unicórnio escondido debaixo de sua cama, até se lembrar de que eles não iriam para a mesma casa.
"Talvez a Sonserina não seja tão ruim..." pegou-se pensando, enquanto observava a nuca de Scorpius, que agora sacudia um dedo na direção do imponente castelo de Hogwarts, erguendo-se diante deles com suas dezenas de torres e torrinhas. As milhares de luzes refletiam na água do lago, tornando a travessia um espetáculo ainda maior do que era assistir os tentáculos da Lula Gigante tentarem agarrar os barquinhos - mas mesmo assim, Albus se sentia cada vez mais intimidado pela aproximação do castelo, ciente de que aquele seria o maior passo que iria dar na vida. Tudo iria mudar no momento em que entrasse naquele castelo... e ele ainda não se sentia pronto.
- Fiquem aqui, logo um dos professores vai levá-los para a seleção. - Hagrid deu um tapinha no ombro de Albus, antes de deixá-los em uma salinha ao lado do Salão Principal. A maioria dos outros alunos à sua volta pareciam nervosos com a seleção, principalmente os que vinham de famílias trouxas, mas ele podia ouvir uma voz conhecida sussurrando como era a seleção e que ninguém deveria se preocupar.
Era extremamente típico de Rose. Não ajudar a acalmar as pessoas - mostrar que sabia mais do que todo mundo.
Aparentemente Blake era assim, também. Mas no caso de Zabini, ele era ainda mais arrogante.
- Então... meu pai sempre me falou sobre a rivalidade entre Sonserina e Grifinória... - Scorpius começou, passando um braço ao redor do ombro de Albus. - Então, caso você queira ir mesmo para a Grifinória, como o resto da sua família, eu espero que isso não afete nossa amizade. Certo?
- Tudo bem. - Albus encolheu os ombros, desviando o olhar do novo amigo. Provavelmente deveria estar em todos os livros de História da Magia que a família Potter vinha de uma longa linhagem de grifinórios... mas ainda era meio desconfortável que Scorpius soubesse tanto sobre ele, quando seu pai raramente tocava no nome "Malfoy" em casa.
Albus fechou os olhos por um momento, concentrando-se só na sensação de ter os braços de Scorpius ao redor de seu pescoço. A sensação era boa e fazia as borboletas em seu estômago se agitarem ainda mais furiosamente. Era errado gostar tanto de estar perto de alguém? Era errado considerar ir para a Sonserina por causa disso?
Ele sabia que seu pai iria apoiá-lo se ele decidisse assim, mas os prós e os contras estavam deixando-o confuso. Estar na Grifinória significava ter de estar à sombra de James em basicamente tudo, além de agüentar Rose reclamando sobre sua amizade com Blake e Scorpius (ela obviamente iria, considerando sua reação no trem). Ir para a Sonserina daria motivos suficientes para que o irmão o zoasse e para deixar a prima mais irritada. Um ponto positivo para a segunda opção era que ele só teria de agüentá-los realmente durante as férias.
- Acho que ele está fora de órbita. - alguém sussurrou, cutucando-lhe nas costelas. Albus piscou os olhos, confuso, ao perceber que Scorpius e Blake o encaravam com as sobrancelhas franzidas. Em algum momento ele sabia que eles tinham sido conduzidos para fora da sala por uma professora alta e com longos cabelos loiros que caiam-lhe quase à cintura, cujos olhos pareciam esquadrinhar cada um deles como um Raio-X, mas Albus não estivera prestando atenção - sua atenção estava tão focada em qual das Casas escolher que ele nem tinha percebido que a seleção começara.
- Será que o monte de doces que comemos no trem afetou o cérebro dele? - Scorpius soltou uma risadinha, apertando-lhe o ombro.
Eles estavam no Salão Principal, parados em fila diante do que parecia ser um banquinho de três pernas, onde um chapéu velho estava repousado. Tão logo Malfoy o cutucara, o Salão se enxera com palmas, fazendo as velas que flutuavam acima de suas cabeças se sacudirem e as bandeiras com os simbolos de cada Casa sobre as mesas tremulizarem. Blake comentou algo sobre o chapéu ter terminado de cantar.
James comentara certa vez que o Chapéu Seletor mal tocara em sua cabeça e já lhe mandara para a Grifinória, mas não foi bem isso que aconteceu com a maioria dos estudantes. Certas vezes havia longos minutos de silêncio, enquanto o Chapéu sussurrava coisas ou se contorcia, tentando definir em qual das Casas o aluno deveria ficar - a única exceção foi Maximillian Longbottom, que foi enviado para a Lufa-Lufa antes mesmo do Chapéu lhe cobrir totalmente o topo da cabeça.
E então era a vez de Scorpius.
- Hmm, esse aqui é interessante. Já vi uma mente dessas antes... sim, sim, mas faz muito tempo. Grande potencial, é. Como o resto da família. Acho que não existe melhor lugar pra ir do que a... - e o Chapéu fez uma pausa dramática, obrigando Scorpius a fechar os olhos e trincar os dentes - Sonserina!
A mesa ao seu lado explodiu em comemoração e alguns alunos mais velhos se adiantariam para dar tapinhas nas costas de Scorpius quando este se juntou a eles. Albus enfiou as mãos nos bolsos, sentindo as palmas das mesmas suadas. Blake sussurrou algo como "grande surpresa", mas Potter não deu atenção. Não demorou muito mais para que fosse seu nome a ser chamado.
- Mais um para a Grifinória! - ele ouviu James gritar, seguido por uma série de urros de comemoração vindos daquela mesa. Scorpius retrucou algo e antes que o chapéu lhe cobrisse os olhos, ele pôde ver que seu irmão e seu amigo estavam lançando olhares homicidas um contra o outro.
- Outro Potter, não é? Mas não parece muito com o irmão. - o Chapéu sussurrou. - Tem muito do pai, sim, e os mesmos medos. Grifinória ou Sonserina? Eu acho que você já sabe qual vai escolher... Precisa que eu diga em voz alta? Sonserina! - e mais uma vez a casa das serpentes explodiu em palmas e uivos de contentação, muito pouco afetados pelos gritos que vinham da mesa da Grifinória. James parecia prestes a saltar em sua direção e apertar-lhe o pescoço, mas foi o que ele viu nos olhos de Rose que o afetou mais.
Albus nunca tinha visto tanta decepção nos olhos de alguém como vira em Rose naquele momento - e aquilo lhe atingiu com tanta força que era uma sorte que Scorpius tivesse lhe puxado para sentar, ou suas pernas teriam cedido.
- Parece que estamos juntos nessa! - ele riu, enquanto alguns alunos se adiantavam para lhe dar os parabéns. Alguns poucos outros, entretanto, não pareciam muito felizes com a presença dele ali.
Rose foi selecionada para a Grifinória - não que alguém tenha ficado surpreso - e Blake se juntou a eles alguns minutos depois. O tilintar de taças chamou a atenção dos alunos e quando eles perceberam que o diretor tinha se levantado, o Salão caiu em silêncio novamente. Foi só então que Albus viu quem era o Diretor.
- Neville? - deixou escapar, atraindo a atenção de alguns colegas. O professor Longbottom (que até onde ele sabia, ensinava Herbologia) sorriu em sua direção, fazendo um gesto breve com sua taça. Neville era um dos amigos mais próximos de seu pai e sua família jantava em sua casa praticamente todo mês. Quando ele tinha sido promovido à Diretor? E por que ele não tinha dito isso durante as férias?
- Como alguns de vocês já devem saber, durante as férias a professora McGonagall se aposentou. Ela voltou a viver com sua família em Aberdeen e eu, como vice-diretor, fui convidado a assumir seu lugar. Não se preocupem, alunos da Grifinória, a professora Harrieth, de Transfiguração, irá tomar conta da Casa. - ele indicou a mulher loira que tinha os selecionado e novamente Albus teve a sensação de que aqueles olhos verdes estavam avaliando sua alma novamente. A Grifinória vibrou em comemoração. - Como novo professor de Herbologia, eu gostaria que vocês recebessem o prof. Crowley. - e ele indicou a ponta oposta da mesa, onde um homem franzino e grisalho se encolhia.
Não houveram muitos aplausos ou comemoração - a maioria ainda estava analisando o professor, que não parecia muito confortável com a situação, apesar do largo sorriso do professor Longbottom. Este, ao perceber o silêncio desagradável, preferiu iniciar o jantar.
- Mal posso esperar para que as aulas comecem. - Blake comentou, enchendo o prato de comida. Scorpius concordou com a cabeça, sacudindo o garfo. O frango preso ali quase acertou o rosto de Albus.
- Quero mais é conhecer o resto do castelo. Papai disse que no quarto ano ele encontrou uma passagem secreta na Sonserina, mas nunca me disse onde fica. - ele coçou o queixo, pensativo.
- Eu sei onde fica a passagem. - uma garota se pronunciou. Era baixa e morena, com os dentes da frente bem pronunciados. Ela não era bonita, estava fora de forma e havia algo no modo como ela o encarava que fez sua espinha gelar. - Mas não é bom se meter por lá, a parede pode desabar a qualquer momento.
- E você seria...? - Blake franziu o cenho. A garota sorriu, estreitando os olhos.
- Shelby. Shelby O'Leary. Sou a monitora. - ela indicou a insigna cintilante no peito e por um momento Albus achou que a serpente ali tinha tentado lhe dar o bote. - E vocês, é melhor se apressarem. O jantar acaba daqui há pouco.
Albus preferiu não comer muito - ainda conseguia sentir o gosto dos doces que Scorpius comprara no trem -, deixando-se assistir enquanto os colegas praticamente atacavam a comida. Tinha acabado de comer o pedaço de uma maçã quando a coisa aconteceu.
Um calafrio percorreu da base de sua coluna à sua nuca, arrepiando todos os seus pêlos. Era como se alguém tivesse acabado de sibilar em seu ouvido alguma coisa ou uma lufada de vento gelado tivesse o atingido. Ao olhar para frente, seus olhos cruzaram os de Blake e por um momento ele viu as íris escuras se tornarem vermelhas, injetadas; era como se seu rosto estivesse se transformando bem diante de seus olhos. Antes mesmo que Albus pudesse piscar, tudo tinha voltado ao normal, entretanto.
- Eu realmente acho que aqueles sapos de chocolate te fizeram mal, Albino. - Scorpius sussurrou, parecendo realmente preocupado. Albus sacudiu a cabeça em negação, ignorando o suor frio.
- O jantar está acabando, é melhor a gente ir. - ele se afastou da mesa, acompanhando os alunos que também se preparavam para sair. Ele pôde ouvir Neville dar meia dúzia de avisos (algo sobre não ir à Floresta Proibida e evitar transitar nos corredores depois do toque de recolher) e Shelby e o outro monitor mandarem que os primeiranistas os seguissem, mas ele novamente tinha parado de prestar atenção.
O que diabos tinha exatamente acontecido ali? O que diabos tinha acontecido com ele? Antes de ser arrastado para fora do Salão, tentou dar uma boa olhada em James, mas não conseguia identificá-lo no meio da multidão. Tinha ele lhe enfeitiçado? Podia ser uma explicação lógica. O que fora aquilo dos olhos vermelhos em Blake? E por que ele continuava se sentindo tão... estranho?
- Essa é a passagem da Sonserina. - o garoto monitor se adiantou, indicando um trecho de parede lisa. - Lembrem-se: parede da esquerda do terceiro corredor a partir do acervo de poções. Nunca digam para ninguém e, principalmente, não espalhem ou esqueçam a senha. A dessa semana é "sui profusus". - ao dizer a senha, o trecho de parede lisa ao lado deles se abriu, dando passagem a eles. - Os dormitórios masculinos ficam à esquerda e os femininos, à direita. Não tentem entrar nos dormitórios alheios se quiserem manter todos os membros intactos e nos lugares certos. Suas malas já foram levadas para baixo. Qualquer dúvida, é só nos perguntar. - e ele os deu as costas, desaparecendo em uma porta não muito distante dali. Shelby continuou no salão comunal durante alguns minutos, conversando com as alunas novas.
- Até amanhã, Albino. - Scorpius disse, passando as cortinas ao redor de sua cama. Ele tinha pegado a cama do meio, à esquerda da sua e à direita da cama de Blake, que ainda não tinha descido. Era a primeira vez que eles ficavam sozinhos realmente.
- Boa noite. - ele suspirou, caindo na cama. Os lençóis de linho eram macios e confortáveis, lhe lembravam muito os de sua casa. Casa... Albus ainda sentiria falta da antiga rotina.
Mas algo lhe dizia que aquela nova seria muito mais interessante.
