Capítulo I

"Santa Inquisição"

Henrik enfiou alguns livros de capa dura dentro de uma mochila, junto com algumas barras de cereal, pegou seu celular e a chave de casa. Abriu em seguida a porta e saiu, ficando do lado de fora a esperar por Saladino.

Após dar uma última olhada para o interior da casa, e relembrando novamente o terrível contato com os espíritos que antes possuíram Henrik, Saladino também saiu. Desceu os poucos degraus diante da porta de entrada e caminhou até onde se encontrava o garoto, ao mesmo tempo lançando um olhar para a rua. Havia algo mais que lhe era novo ali, mas de forma incômoda. E o cavaleiro, abraçando o próprio tronco, logo percebeu que teria problemas até se acostumar: frio. Um vento cortante, gélido, que lhe arrepiou a espinha. Muito diferente dos desertos da Palestina...

- Saladino, por favor, oculte sua presença aos olhos de curiosos! – o rapaz disse de súbito. – Não queremos chamar atenção.

Algumas pessoas tinham esticado o pescoço, lançando olhares intrigados sobre a figura do árabe, mas nada de muito grave ainda.

- Oh, desculpe-me pelo lapso, ainda não estou acostumado, agora farei isto sempre... – e, sem mais nem menos, o servo tornou-se invisível a todos, exceto Henrik.

Este, irritado, sussurrou raivosamente:

- OK. Faça. Mas, da próxima vez, faça-o antes de sair de casa. Demos sorte que ninguém reparou... Vamos.

Pôs-se então a andar.

Saladino ficou um tanto incomodado com a raiva do garoto, mas permaneceu calado, seguindo-o. Conforme caminhavam, o árabe passou a admirar a arquitetura da cidade alemã. Os contornos e estrutura das residências e estabelecimentos sem dúvida eram muito diferentes daqueles das antigas urbes do Oriente. Além das construções, tudo mais parecia intrigá-lo: objetos, invenções, roupas, as pessoas... Principalmente as pessoas.

Andavam assim tranqüilos pela cidade, quando um chamado inesperado interrompeu a caminhada:

- HENRIK! JUSTIN BIEBER DO MAL!

- WALTER, FILHO DA MÃE! – foi a exasperada resposta do mestre de Saladino, olhando para trás enquanto pronunciava essas palavras.

O garoto desconhecido, autor da exclamação, vinha acelerado, e era bem maior que Henrik. Não possuía uma expressão amigável em seu semblante. O servo, por sua vez, levou a mão à bainha, pronto para sacar sua cimitarra caso percebesse perigo à vida de seu mestre...

O estranho vinha a toda velocidade. No momento em que iam colidir, Henrik abraçou-o. Eles riram. Menos mal...

- Então, como foi o ritual? – o recém-chegado inquiriu ao mestre.

- Mais complicado do que esperava, mas, de uma maneira ou outra, deu certo.

- Vamos à casa do Sten, tomar uns tragos...

- Agora não dá. Tô ocupado.

- Ih, vai se fazer de difícil?

O tal Walter, como Saladino presumiu se chamar o amigo de Henrik, possuía corpo alto e dotado de músculos, pele muito clara e cabeça careca. Vestia roupas simples, mas que lembravam em tom e composição as do outro garoto. Uma figura que não conseguia deixar de gerar suspeitas no servo...

E, ao mesmo tempo, o cavaleiro árabe questionava-se a respeito do "Justin Bieber" referido se tratar de algum mago famoso ou coisa parecida...

Foi então que Saladino percebeu... O olhar de Walter era ameaçador para Henrik. Este, conhecendo o amigo, sabia que ele normalmente vinha antes de uma má notícia. Não poderia estar mais certo sobre isso.

- Ah... – murmurou o careca, mãos nos bolsos. – Tudo bem, Henrik. Eu vou contigo.

Saladino não apreciara em nada o rapaz desconhecido, nem a decisão tomada por ele de seguir Henrik. Aquilo não parecia bom, ainda mais devido ao servo desejar manter-se oculto. Conforme caminhavam, o árabe perguntou ao jovem mago:

- Quem é ele? Tem certeza de que isto é uma boa idéia?

- Walter, lembra de quando íamos praquele bosque quando crianças? – ignorando a fala de seu servo invisível, Henrik indagou ao amigo. – Que eu te dava medo às vezes?

- Você me dá medo sempre, cara. Por que sua voz tá diferente?

- Culpa daquele ritual.

- Não brinca. Você vai ter que me contar mais.

- Você vai saber de tudo assim que chegarmos ao bosque.

Andavam assim descontraídos. Henrik esperava responder às perguntas de Walter, algo de muito sinistro se fazendo mais e mais presente em seu rosto...

Saladino, por sua vez, se deu conta de que não poderia se comunicar com seu mestre por algum tempo, embora reprovasse, e muito, o que acontecia.. Calado, continuou seguindo-os. Esperava que o tal bosque não lhes reservasse nada de desagradável...

Chegaram ao lugar, mudos. O clima estava pesado. Os dois garotos se estranhavam por algum motivo. Walter dizia o tempo todo que Henrik estava diferente. O indagado se mantinha impassível. O bosque era grande, e, por incrível que pareça, vazio. A alegria era quase tátil na feição de Walter. Henrik mantinha o tom sério. Caminhava para o interior do local, que gradativamente complicava seus caminhos e causava alguns tropeções nos recém-chegados, pois já estava escuro.

Num dado momento pararam, e o mestre, sem qualquer aviso prévio, simplesmente falou:

- Revele-se, Servo. Descubra-se, meu leal Sabre.

Saladino estremeceu. O que aquele garoto poderia estar pensando? Lá se ia a discrição, as precauções... E ele não pôde desobedecer à ordem. Surgiu em sua imponência diante do outro rapaz, mão ainda cautelosa junto à bainha com a cimitarra.

- Aqui estou...

Walter estava atônito. Aquilo era diferente de todas as outras conjurações. Emanava prana demais. Era vivo demais. E parecia inteligente.

- Q-q-que é isso, cara? – balbuciou, impressionado.

- Você quis vir até aqui – Henrik replicou, seu tom soando cada vez mais macabro. – Agora seria bom que você ficasse quieto, eu e ele precisamos nos integrar como servo e mestre.

- T-t-tudo bem. Você precisa me ensinar a fazer isso.

- Se não se calar, é melhor você sair.

- Se eu sair, você corre o risco de ser descoberto por isso aí.

- E quantas pessoas sãs de consciência confiariam em um skinhead alcoólatra e drogado?

Silêncio. Pois é... Henrik tinha forte um argumento.

Incomodado ainda mais pela situação, Saladino resolveu indagar:

- Mestre, por que motivo me revelou a essa pessoa?

- Não é simples? Era necessário calá-lo. Aliás, ele me ajudou até aqui em muitas coisas. Não posso ser totalmente ingrato e não posso perder tempo também. Mas, preparemo-nos.

Henrik abria a mochila e pegava um dos livros, mais especificamente um de capa antiga e folhas amareladas. Abrindo em determinada página, fechou os olhos, enquanto o ambiente ficava mais e mais sombrio...

Sem entender completamente, Saladino imaginou se eles realmente atacariam aquele outro garoto. O matariam assim, a sangue frio? E Henrik estaria novamente preparando uma conjuração que faria com que aqueles espíritos malignos retornassem a seu corpo? De qualquer modo, o cavaleiro árabe ainda não compreendera. E temia tudo aquilo.

- Mestre, ainda não entendi – protestou. – O que significa tudo isto?

- Significa que vamos treinar, e ele vai assistir. Agora, por favor, não atrapalhe minha concentração.

O local e seus arredores ficavam mais e mais escuros. A lua minguante no céu se tornava rubra, um silêncio mortal tomava conta do lugar. Ao fundo podia-se ouvir gritos torturados. A grama tornou-se acinzentada. Toda a atmosfera assumia um tom excessivamente pesado e torpe, como se a maldade contida nas entranhas da Terra viesse à tona e a tudo contaminasse... A expressão de pavor de Walter estava evidente.

Ao menos Henrik não desejava ceifar a vida do amigo. Bem, "ele" em si não... Mas talvez os espíritos que pareciam novamente em via de dominá-lo sim. Aturdido, Saladino manteve uma postura de defesa, mão firme na bainha e olhos se alternando entre o sombrio mestre, o atônito skinhead e o cenário aterrador que se formava ao redor...

Que Allah estivesse com eles.

O chão começou a se abrir, e as crateras assim criadas não exalavam um odor agradável. Ouvia-se gritos desesperados, agonizantes, provenientes do interior dos buracos. Após algum tempo, viu-se junto às bordas destes mãos queimadas, deformadas e algumas com os ossos expostos, tentando agarrar a terra em volta na aparente tentativa de subir.

Aquilo não agravada Saladino em nada. Parecia que as profundezas infernais realmente estavam entrando em conexão com o mundo terreno, abrindo um portal para que seus temíveis habitantes nele penetrassem. Sem poder mais se conter, o cavaleiro retirou sua cimitarra da bainha, brandindo-a em posição de defesa e as jóias incrustadas no cabo brilhando como fogo sob a claridade gerada pelas crateras. Em seguida indagou, exclamando enquanto fitava seu mestre:

- Em nome de Allah, o que é isto?

A voz de seu mestre já não era a mesma. Num tom horripilante ela bradou:

- EM NOME DE LILITH E SAMAEL, EU AS INVOCO, CRIAS DO VÍCIO!

Viam-se cinzas, cheirando a enxofre. Apareciam então seres queimados e com um olhar ameaçador de dentro das fendas. Alguns possuíam garras, outros presas. Não pareciam muito felizes. E riam. Todos riam. Uma risada nervosa. Digna das mais hediondas bestas do abismo.

- Tudo bem, Saladino – a voz de Henrik saía mais uma vez em coro. – Eles serão seu jantar. Servirão para nos treinar e para aumentar sua energia. Aliás, precisamos nos acostumar às realidades desse plano, também.

Não, Saladino não podia aceitar aquilo. Consumir almas para aumentar seu poder, ainda mais de humanos perdidos na danação eterna, era algo que não podia suportar. Aquilo ia contra suas crenças. Contra seu código de cavaleiro. Contra tudo em que acreditava. A guerra, repleta de batalhas sangrentas e exaustivas, ensinara-o a respeitar a vida alheia acima de tudo. E, decidido, foi com uma voz firme e determinada que respondeu:

- Eu me recuso, mestre. Não posso fazer tal coisa.

- Quer que elas implorem, nosso Sabre? – riu-se o Henrik possuído. – Elas preferem fazer parte de ti, que é puro, do que sofrer o que sofrem. Vai lhes negar essa dádiva? Vai lhes negar o perdão?

As criaturas pareciam consentir, em seu rastejante torpor, diante das palavras do mestre. E era isso que mais causava horror no servo.

O árabe ainda não podia conceber aquilo. Era estranho demais, disforme demais. Mas de fato, aquelas almas, ainda que invocadas por terrível sortilégio, ainda possuíam um quê de apelo puro e justo. Saladino, no entanto, achou bem mais prudente confirmar:

- Mostrem-me então uma prova de vossa pureza, ó condenados à eterna danação!

As criaturas aparentavam estar intrigadas. O mestre em seguida balançou a cabeça em tom negativo:

- Você não entende? Por que o maligno que habita as profundezas se preocuparia em ferir qualquer um que seja da estirpe dele? Não vê as chagas e feridas nos corpos dessas pobres criaturas? Não vê como foram torturadas? Não vê que eles, apesar de serem ameaçados com castigos muito piores que esse, vieram aqui atender ao nosso chamado? Vieram receber o perdão? Vieram nos auxiliar na vitória nesta guerra?

"Vitória nesta guerra". Essa era a palavra-chave. Após a prévia dominação de Henrik por aqueles espíritos malignos, e agora diante de tal torpe prodígio, Saladino ainda não sabia bem a quem estava servindo. Via as chagas, via o sofrimento daqueles seres, porém de nada adiantaria que servissem ao propósito maligno de quem os escravizasse. Lilith, o demônio feminino. Samael, anjo vil. Ambos representantes das mais negras hordas maléficas infernais. Saladino não poderia ceder antes de ter certeza. Jamais serviria a algo tão vil, se o realmente o fosse!

- Conceder vitória a quem? – inquiriu o cavaleiro, severo. – A meu mestre, o garoto Henrik, ou a esse conluio de entidades vis que se manifestam a bel-prazer em seu corpo?

- De que importa, Sabre, se a ti também será o desejo concedido? De que importa? É pouco provável que volte a esta realidade. É tão mais importante saber algo dessa insignificância do que realizar seu desejo? É tão mais importante saber com quem dividirá o prêmio?

- Sim, o é!

Dizendo isso, Saladino apontou sua espada para o mestre, numa postura hostil e desafiadora. Nem sequer piscava, convicto do que fazia, ainda mais ao exclamar:

- Não servirei a qualquer demônio do abismo que queira usufruir do Graal e do corpo de uma pobre criança! Meu desejo é menos importante do que minha honra e os preceitos em que acredito! Caso isto continue, serei obrigado a fazer uso de meu sabre contra tamanha vilania!

Uma risada partiu do corpo do adolescente, de vários tons diferentes. Ele então disse:

- Por que te transformaste em tal aberração pervertida da vontade de teu deus? Algo tão profano quanto um desrespeito a uma lei natural? Você devia estar morto há séculos, herói do Egito e flagelo de seu próprio deus. Você envergonharia seu povo se ele soubesse sobre essa desonra. O que você sabe sobre a natureza do Graal? Nada, não é? Ainda assim você fez um pacto com ele. Você é a escória de seus próprios valores.

As palavras das entidades das profundezas poderiam abalar um ouvinte comum. Mas não Saladino. Aquela escória inumana poderia tentar insultá-lo, desmotivá-lo, porém só aumentava sua convicção. Ela citar o Graal poderia muito bem ser um blefe, mas Saladino preferia descobrir a verdade sozinho, não através dela. No momento só tinha uma certeza: tinha de tirar o Henrik possuído de ação, desacordando-o de algum modo e banindo aqueles seres das trevas de volta para sua dimensão de origem. Confiando em Allah e em suas bondosas bênçãos, lançou-se contra o rapaz, cimitarra erguida e um grito partindo de sua garganta:

- Eu os expulso daqui, vis demônios!

Seguiu-se uma inesperada lufada de vento, um ruído abissal, e a despedida do coro demoníaco:

- Até mais, Saladino.

O ambiente voltou ao normal de súbito e de forma rápida. Henrik caiu no chão. Walter já não estava presente – o momento em que fugira tendo sido completamente ignorado. Mas uma coisa ainda restava...

Seres disformes, cinzentos, raquíticos, possuindo crânios deformados e resquícios do que um dia haviam sido rostos humanos capazes de expressar sentimentos... Erguiam os braços de forma suplicante, tentando agarrar algum tipo de esperança tangível...

A cratera e as criaturas ainda se encontravam ali.

Ofegante, arma ainda em punho e lâmina erguida, Saladino fitou aqueles seres mórbidos. Disformes, sombrios, sedentos. Antes de socorrer Henrik, viu que era de suma urgência fazer algo por suas pobres almas. Jogou-se ao chão, prostrando-se de bruços. E, numa voz alta e suplicante, rogou:

- Ó Allah, guiai estes espíritos infelizes para longe dos castigos eternos. Eles já sofreram o bastante, e agora almejam redenção. Mostrai a eles a luz, a fé, o Paraíso!

Uma luz repentina invadiu os céus, como se o sol brilhasse mais forte por alguns segundos. As criaturas se desfizeram uma a uma, transformando-se em cinzas, suas bocas mínimas demonstrando algo como sorrisos antes de deixarem de existir. Henrik parecia desacordado. Saladino sentia como se seu vigor e força de vontade estivessem aumentando conforme aqueles seres torturados iam se desfazendo...

Agora mais calmo e em paz, o cavaleiro ergueu-se do chão lentamente, observando enquanto as últimas entidades ali presentes desvaneciam. Ao menos haviam encontrado eterno descanso. Ainda teria de se averiguar o que acontecera ao amigo de Henrik, mas isso poderia ficar para depois. Saladino correu até seu mestre e, tomando-o em seus braços, tentou acordá-lo com leves sacudidas:

- Henrik! Henrik!

Inerte. O servo podia sentir um grande volume de prana emanando dele, muito maior que o das outras vezes e muito mais denso. Podia-se ouvir, também, gritos ao longe.

Aturdido, Saladino olhou na direção dos brados... E deparou-se com cena no mínimo inusitada.

Como que surgidas do nada, talvez invocadas assim como ele o fora, seis pessoas encontravam-se de pé, perto dali, sobre o gramado. Cinco delas eram homens vestindo manto e capuz negros, como se pertencentes a algum tipo de seita, apenas um deles compondo exceção e tendo seu corpo e feições ocultados por um robe vermelho. Com faces fechadas e sinistras, olhos bem abertos e lábios retraídos, formavam uma roda em torno de uma sexta personagem, mulher vestindo uma espécie de túnica branca rasgada, cabelos castanhos presos num rabo de cavalo atrás da cabeça... E expressão de incrível sofrimento em seu semblante. Os demais a estavam torturando... Puxando correntes atreladas a diversas partes de seu corpo, incluindo algumas bem sensíveis como seios e dedos, cada um dos algozes a puxando para um lado, como que com a intenção de dilacerá-la.

A situação piorava imediatamente depois de ter aparentado melhorar. Henrik parecia bem, ainda que inconsciente. Talvez acordasse dentro em breve – não requeria maiores cuidados. Mas a garota em questão sim. Fitando as vis figuras encapuzadas, Saladino perguntou-se qual seria o motivo de tamanhas crueldade e selvageria. Puro sadismo? Talvez sim. Com o tronco firme, expressão séria, o árabe pôs-se a caminhar na direção dos agressores, cimitarra em mãos. A uma distância mais curta, bradou:

- Que significa toda esta maldade?

- Ih, sujou, galera, corre, corre! – exclamou um dos encapuzados, agitado.

Todos se puseram a correr, cada um para um lado, inclusive a garota torturada. E logo desapareceram da vista do servo. Este, sem entender nada, permaneceu alguns instantes imóvel, em guarda, aguardando o possível retorno de algum daqueles misteriosos personagens. Vendo que realmente haviam se afastado, decidiu que pensaria naquilo depois e voltou sua atenção novamente para Henrik, averiguando se já havia acordado...

Lágrimas de sangue vertiam agora pela face do rapaz... Como se estivesse angustiado, chorava copiosamente, mas continuava desacordado. Ouvia-se, ao mesmo tempo, passos de pessoas se aproximando vindo diretamente da entrada do bosque.

Saladino ocultou-se rapidamente em sua forma espiritual, abaixando-se ao lado do rapaz. Fazendo uso de sua aguçada audição, constatou que os recém-chegados ainda se encontravam longe. Tinha de tirar seu mestre dali. Tomando Henrik em seus braços, correu para o interior de uma área bem arborizada ao sul do bosque. Se não encontrasse uma saída alternativa, ao menos poderia se esconder ali com o garoto, e tentar reacordá-lo, enquanto os estranhos não fossem embora.

O servo chegou a um ponto do bosque onde não havia trilhas. Podia-se ouvir sons de alguns pássaros e pequenos animais, além de insetos. Mais tranqüilo, colocou lentamente o corpo de Henrik na relva, olhando para seu rosto... Olhos rubros. Semblante manchado de sangue. Boca seca e bastante pálido. Saladino sacudiu o rapaz e chamou-o novamente, na esperança que despertasse:

- Henrik, Henrik!

O garoto mexeu os olhos. Aparentava estar fraco demais para falar. O árabe sussurrou:

- Não fale, meu mestre. Poupe forças.

Rogando a Allah, Saladino pediu proteção divina e claridade de pensamento para tentar raciocinar sobre a melhor saída para aquela situação. Animais como esquilos e passarinhos começaram a se juntar, a uma certa distância, em volta dos dois. Pareciam curiosos com elementos inesperados presentes tão fundo no bosque. O servo ouvia passos cada vez mais altos.

- Hada shay'un Jameel! – Saladino murmurou em tom irônico.

E, com a cara fechada, tomou Henrik novamente nos braços, conduzindo-o para a direção contrária aos passos que se aproximavam...

Foi quando ouviu impetuosas pisadas também do outro lado. Encontravam-se cercados.

- Droga...

Colocando-se em profunda prece a Allah, suando, Saladino rogava ao seu deus por um lampejo a respeito do que poderia ser feito em tal situação...

E foi então que, num lampejo, pôde ver Walter, o skinhead, com um taco de baseball na mão, seguido por um grupo de outros adolescentes trajando spikes e portando correntes ou bastões. Todo aquele aparato era desconhecido ao cavaleiro, mas julgou-o ameaçador pela mera aparência.

O grupo aparentemente não notou Saladino ou Henrik. O servo permaneceu onde estava, apenas observando...

Os agressores passaram, sem notar qualquer um dos dois. Já era possível ver o céu clareando com os primeiros raios da manhã. Saladino não compreendeu bem o que teria acontecido. Eles não o teriam visto por se encontrar em sua forma espiritual, mas e quanto a Henrik? E o que teria acontecido a Walter para ele ter desaparecido e então reaparecido novamente, com asseclas?

O cavaleiro decidiu-se a tentar compreender tudo isso apenas depois. No momento, apenas tentou novamente tirar Henrik do chão... E viu que ele estava acordado. Sorria maniacamente. Tinha marcas profundas nos olhos. Marcas estas que emanavam uma densa energia.

- Vamos embora, meu sabre, que o dia já raia – ele falou como se nada houvesse acontecido.

O cavaleiro ficava cada vez mais confuso:

- Mas meu mestre, o que houve? Será que pode me explicar?

Henrik mal conseguia se levantar, porém seguia dizendo:

- Tudo a seu tempo, valoroso Sabre. Leve-me para casa, por piedade.

Saladino tentou erguer o rapaz nos braços novamente, perguntando-se se conseguiria ou não... E dessa vez conseguiu fazê-lo facilmente. Aliviado, o árabe passou a caminhar com cuidado e atenção tendo o mestre em seus braços, rumo à saída da qual se lembrava. Esta logo foi vista. Nenhuma alma viva fora encontrada nos limites do bosque. Saladino deduziu serem aproximadamente seis horas da manhã. Um novo dia principiava.

O árabe se lembrou que precisava se voltar em direção à Meca sagrada para pedir as bênçãos de seu senhor em mais aquele dia, principalmente agradecendo por todo auxílio já prestado, porém tinha de primeiro levar seu mestre até sua casa. Aproveitando-se do fato de não ser visto por ninguém, Saladino seguiu carregando Henrik até a entrada, dirigindo-se rumo às ruas. Pensou em entrar em sua forma espiritual, e logo teve uma idéia que poderia contribuir para discrição: colocando seu mestre de pé, apoiou-o num de seus ombros e, ficando invisível, passou a empurrá-lo e ampará-lo discretamente conforme andava. Assim as pessoas nas ruas não estranhariam nem um árabe em trajes de combate, nem o corpo de um rapaz sendo carregado por algo misterioso que não podia ser visto. Era provável que olhariam para o infeliz garoto e deduziriam que, tendo exagerado no vinho, tropeçava agora de volta para sua morada...

Saladino e Henrik chegaram em casa após algum tempo. A porta estava trancada, e o jovem dormia novamente. O servo olhou ao redor com atenção, buscando uma janela aberta... Contornou a residência, logo encontrando a janela dos fundos que, ao que parecia, nunca era mantida fechada.

Cauteloso, procurando não causar barulho e ainda carregando Henrik de pé, como se ele andasse por si só, Saladino levou-o até a dita abertura, debruçou-o sobre o parapeito, e colocou-o sentado cuidadosamente do lado de dentro, para só então entrar. Ao fazê-lo, Saladino deu-se com o inesperado. Ouvia uma voz feminina e outra masculina na sala. Provavelmente eram os pais de seu mestre.

- Droga... – murmurou o servo. – Assim como suspeitei...

Atento e procurando fazer o máximo possível de silêncio, Saladino, mantendo-se em sua forma espiritual, deitou Henrik cuidadosamente na cama e sentou-se junto a um dos cantos do quarto, quieto, aguardando.

Os pais, ao ouvirem barulho no quarto do filho, foram até lá. Detiveram-se, porém, diante da porta fechada. Houve uma pequena discussão, sobre o que deveriam fazer com o menino, suas vozes abafadas se exaltando. A mulher pediu então ao marido para ir descansar da viagem. Assim que ele saiu, Saladino pôde ouvir a mulher pronunciar, logo após adentrar o cômodo:

- Revela-te, espírito.

Saladino arregalou os olhos. Por isso ele não esperava, mesmo tendo suspeitado um pouco anteriormente. Afinal, magos geralmente descendem de longas linhagens e seria no mínimo estranho não haver nenhum outro conjurador na família de Henrik. Calmo e sereno, o cavaleiro alterou sua forma, revelando sua presença:

- Aqui estou.

- Eu me chamo Silk Schwartz, mãe de Henrik Schwartz e Exorcista da Igreja Católica – a mulher, de cabelos negros curtos e porte germânico imponente, apresentou-se sem cerimônias. – Sou também juíza da Primeira Grande Guerra do Graal, nomeada pela Associação Mágica. Acompanharei vocês para Munique amanhã. Henrik não deve suspeitar de nada, muito menos meu marido.

A mulher mostrou a seguir um crucifixo que escondia sobre as vestes. Não havia dúvidas: pertencia ao clero e seria árbitra daquele conflito entre magos.

Aquilo era no mínimo inesperado. Diante do símbolo cristão, Saladino sentiu na mulher a mesma determinação que vira nos monarcas cruzados que combatera no passado. Então a própria mãe de um dos mestres era juíza da guerra e representante da Igreja. Seria um tanto quanto complicado atender a seu pedido de manter-se incógnita, principalmente para Henrik. Existindo a possibilidade de Saladino ser vencido e o garoto ficar sem mestre, ele acabaria por descobrir que a mãe era árbitra daquela conflagração, pois era regra que a procuraria para não ser eliminado por outros mestres – e por certo Silk, além de cumprir seu papel de juíza, agiria ainda com mais afinco devido a seu instinto maternal.

- Parece-me que você andou escondendo muitas coisas de seu filho... – o cavaleiro começou a falar, após olhar para Henrik novamente e certificar-se que dormia. – Não sei se era sua intenção ou não mantê-lo afastado de tudo isto, senhora, porém ele agora está envolvido nesta guerra e eu serei a espada dele rumo ao Cálice. Manterei sua presença em nosso rastro e sua função ocultas do garoto, se assim o deseja, porém há diversas dúvidas que desejo sanar. Em primeiro lugar, pergunto-me a respeito do termo "Grande Guerra", que utilizou para se referir a esta disputa. Como espírito heróico invocado, não me lembro de minhas possíveis prévias participações nestas guerras, porém gostaria de saber se esta difere em algo das anteriores. E, como mencionou ser exorcista... Imagino que talvez deva ser de seu conhecimento que seu filho vem sendo molestado por criaturas das trevas, demônios impuros do submundo que o dominam sempre que ele tenta utilizar magia. Está ciente dessa situação? Fez ou pretende fazer algo para livrá-lo dessa condição tão penosa?

A mulher respirou fundo e respondeu:

- Só há uma coisa sobre a qual posso lhe esclarecer: esta guerra é de proporções globais. Há, neste momento, mestres do mundo inteiro lutando para obter o Graal. E essa batalha não se resume a sete servos, nem concede um simples desejo. Sobre meu filho, creio que isso somente diz respeito a mim.

As coisas estavam tomando um caminho cada vez mais imprevisível. Fitando fundo os olhos da mulher, Saladino sentiu nela uma dureza de caráter que só era demonstrada parcialmente em suas palavras. Ela parecia ser como uma rocha, e nisso o cavaleiro árabe perguntou-se a respeito do que significaria os demônios de Henrik somente dizerem respeito a ela. Teria aquela mulher algo a ver com o infortúnio do garoto? Poderia ela ser de algum modo... causadora?

- Eu compreendo – o servo assentiu. – Se esta guerra é assim tão ampla, então devo manter minha cimitarra pronta e meus sentidos atentos para proteger meu mestre e vencer seus inimigos. Aguardarei então nossa partida para Munique, porém gostaria ao menos de saber se o sono de meu mestre é benéfico, e se há alguma previsão de quando acordará...

- Se você puder deixar-me chegar perto dele, posso fazê-lo voltar ao normal e descansar de maneira natural, sem lutar contra si mesmo... – a mãe do rapaz afirmou com certo enfado.

- Certo... – o árabe suspirou, afastando-se da cama e observando.

Silk ajoelhou-se em frente à cama e tocou a testa de seu filho. Henrik mudou sua expressão facial instantaneamente, agora descansando calmo. Levantando-se, a exorcista voltou-se para o servo e informou:

- Bom, partimos amanhã. Ele vai dormir hoje o dia inteiro.

- Está bem... – murmurou Saladino um tanto contrariado, mas contendo-se devido às circunstâncias.

Não desistiria de obter as respostas que desejava.

- Devo retirar-me para ir ao encontro de meu marido – disse a mulher, dirigindo-se até a porta. – Desejo-lhe sorte, Saber.

- Agradeço, minha senhora. Alláh Akbar!

Ela se retirou, deixando Saladino e seu mestre sozinhos.