Música do Capítulo: White Chrismas. Essa música é um super clássico de Natal. A composição é de Irving Berlin, e a versão original é de Bing Crosby. Mas a que me inspirou para esse capítulo é cantada por Tomizawa Michie (a Sailor Mars!).

Link: Um videozinho legal com a música! Sailor Moon + Sakura (XD) - ht*tp:/www*.youtube*.com/watch*?v=1eP*s2Pp8D3A


Chapter Two – A White Christmas

I'm dreaming of a white Christmas

(Eu estou sonhando com um Natal branco [com neve])

Just like the ones I used to know

(Como aqueles que eu conhecia)

Where the treetops glisten,

(Nos quais as copas das árvores reluzem)

and children listen

(E as crianças escutam)

To hear sleigh bells in the snow

(Para ouvir sinos de trenó na neve)

Os dois homens subiram as escadas estreitas do hotel em silêncio. Vez ou outra trocavam um breve olhar, mas nenhum deles queria falar. A situação de estar preso em um lugar estranho, com um desconhecido era bem desconfortável. E cada um tinha seus motivos pessoais para permanecer calado.

O quarto não era lá aquelas coisas, mas era melhor que o saguão do aeroporto. Cada um entrou e colocou suas coisas – não muitas, já que traziam apenas a bagagem de mão – sobre uma das duas camas. Dean foi até a janela, enquanto Jimmy suspirava e tirava o celular do bolso e discava alguns números.

- Ah, alô Ames... – disse, desanimado. – Er... eu não vou poder chegar aí hoje. Todos os vôos foram cancelados, por tempo indeterminado. Estou preso aqui em Nova York. Eu sei, mas não há nada que eu possa fazer... Ames, eu posso falar com ela?

Enquanto, do outro lado da linha, o telefone era passado para Claire, o moreno se levantou, agitado.

- Claire? Oh, minha querida... Eu sinto muito, muito mesmo, mas não vou poder estar aí hoje a noite! Estou preso em Nova York. – a pausa enquanto ouvia a resposta da filha foi angustiante. Seus olhos marejaram. – Claire, você é muito especial. Obrigado... por entender. Papai promete que estará aí assim que puder. Nós vamos passar o dia inteiro juntos, vamos andar de trenó no parque, como sempre fazíamos... – as lágrimas agora escorriam pelo rosto do moreno. – Certo. Nos veremos logo, meu amor. Papai te ama muito. Um beijo.

Quando desligou o celular, Jimmy respirou fundo uma ou duas vezes, tentando se acalmar. Só então se lembrou de que não estava sozinho no quarto. Sentiu o estômago afundar alguns centímetros e o rosto queimar violentamente. Já era constrangedor o suficiente ele ter tido aquela conversa com sua filha na frente do homem loiro dos olhos verdes, mas ele precisava ter chorado.

Dean, por sua vez, tentara não prestar atenção nas palavras do moreno dos olhos azuis, mas era praticamente impossível. Involuntariamente ele desviou o olhar da rua escura lá embaixo para olhá-lo. Ele não era muito dado a essas coisas de emoções, mas naquela situação, não pôde deixar de sentir-se comovido. Principalmente porque ele experimentava uma sensação parecida com a daquele homem: ele não iria passar o Natal com Ben e isso o estava matando.

Jimmy levantou-se e foi ao banheiro. Dean sentou-se na cama enquanto ouvia o barulho da torneira despejando água na pia. O que ele faria agora? Tentar puxar conversa? Deitar e dormir? Era ridiculamente cedo e ele tinha costume de dormir bem tarde. Puxar conversa também não parecia uma opção muito interessante.

- Ah... desculpe pelo momento constrangedor. – a voz de Jimmy interrompeu seus pensamentos. Ele parecia mais controlado, mas os olhos ainda brilhavam excessivamente.

- Oh... eu... – Dean não sabia o que dizer. Decidiu que um aceno de cabeça era suficiente.

- James Castiel Novak. – o moreno repetiu o nome que a mocinha da recepção tinha dito. – Muito prazer.

- Dean Campbell Winchester. – Dean respondeu, estendendo a mão em um cumprimento automático. Sentiu o aperto firme de James, a mão quente, embora estivesse molhada.

- Mas você pode me chamar de Jimmy. – ele continuou, sentando-se na própria cama. – É como todos me chamam.

Dean fez que sim com a cabeça novamente. O sujeito parecia ser simpático. E era o que Jimmy estava tentando ser. Já que não tinha outro jeito, pensou, a saída era tentar fazer a noite ser a melhor possível. Houve um momento de silêncio, em que os dois homens encararam o teto.

- Seu nome do meio é engraçado. – comentou Dean. Talvez fosse melhor tentar conversar com aquele cara ao invés de passar a noite tentando ignorá-lo.

- Ah... sim. – disse Jimmy, erguendo um pouco os lábios em um pequeno sorriso. – É o nome de um anjo. Minha mãe quis colocá-lo porque acreditava que ele, Castiel, era meu anjo protetor, algo assim.

Dean não conseguiu evitar o sorriso que surgiu em seus lábios. Quando criança, sua mãe lhe dizia que os anjos olhavam por ele. Ele cresceu e não acreditava muito naquilo, mas essa lembrança era uma das que mais gostava.

- O quê? – perguntou Jimmy, curioso com o sorriso do outro. – Achou muito bobo?

- Não, não. – Dean apressou-se em dizer, com medo de que Jimmy estivesse ofendido. – É só que... isso me lembrou uma coisa.

- Ah, sim. – o moreno respondeu.

- Bom... Mas parece que ele não ajudou muito hoje. – Dean disse, tentando brincar um pouco com a situação.

- Quem sabe tenha? – Jimmy disse, levantando-se e caminhando até a janela. Lá fora algumas pessoas passavam, sorrindo. – Minha mãe sempre dizia que quando algo assim acontece, é Deus nos protegendo de algo ruim que possa acontecer no caminho. Ou para que estejamos no lugar certo na hora certa.

- Bom, é um pensamento positivo. - Dean deu de ombros e jogou-se na cama. Ultimamente não sabia se acreditava muito em Deus. Sua vida tinha desmoronado em tão pouco tempo que ele se sentia um tanto confuso e perdido. Esperava que pudesse reencontrar-se naquela confusão toda, mas tentava confiar em si mesmo, pois talvez fosse a única coisa que tivesse.

- Pensamento positivo é sempre bom! – disse Jimmy, voltando-se para encarar o loiro.

Dean arqueou as sobrancelhas e não conseguiu evitar a pergunta:

- Como você consegue ficar de bom humor numa situação assim?

Dessa vez foi Jimmy que ergueu as sobrancelhas. Ele parou para pensar um pouco antes de responder.

- Bem... Não vou dizer que não estou chateado, claro que estou. Mas o que eu posso fazer? Está além da minha capacidade resolver isso, então o melhor é aproveitar como puder. Ficar resmungando e de mau humor só vai deixar tudo pior.

O loiro sorriu. Aquele era um ponto de vista interessante. Queria que ele mesmo fosse um pouco mais assim. Tentaria, pelo menos.

- Ei, olha só! – exclamou, ao olhar para a janela. – Está começando a nevar.

- Ah, sim. – disse Jimmy. – Foi isso que nos aprisionou aqui... Se não nevasse eu iria ficar realmente irritado! – acrescentou, em um tom falsamente raivoso.

Dean não conseguiu segurar o riso. O que aquele sujeito tinha para fazê-lo rir? Fazia meses que ele não ria, e aquela não era a melhor situação para rir. Talvez fosse todo o "pensamento positivo" do moreno. Bom, de qualquer modo, era bom sorrir um pouco.

- Hm, escuta, - Jimmy começou, olhando o relógio – ainda é muito cedo e eu realmente acho que ficar aqui não vai ser legal. Que tal irmos dar uma volta? Nova York é realmente linda no Natal...

Dean pensou um pouco. Não era o que imaginava para sua noite de Natal, sair por Nova York com um sujeito que acabara de conhecer. Por outro lado, se tudo tivesse saído como planejado, ele passaria a noite tomando whisky sozinho, enquanto tio Bobby dormia no sofá, tentando assistir os especiais natalinos na TV.

- Bom, acho que é melhor do que ficar aqui. – concordou. - Preciso de um pouco de ar, também.

Jimmy abriu um sorriso. Dean continuava achando um pouco estranho tanto bom humor, mas tentou ficar com a teoria do pensamento positivo. Abriu sua pequena mala e tirou um cachecol e luvas. Buscou sua jaqueta, que tinha deixado em uma cadeira ao entrar no quarto. O moreno dos olhos azuis fez o mesmo, vestindo um comprido sobretudo cor de creme, ao invés de uma jaqueta.

- Só espero que a nevasca não piore... – disse Dean, quando saíam do quarto.

- Hm, eu tenho um pressentimento de que não vai. – disse Jimmy, confiante, os olhos azuis brilhantes.

O loiro franziu o cenho mais uma vez. Jimmy definitivamente era um cara diferente. Talvez até estranho. Mas ele estava gostando de o destino o ter colocado junto com o moreno. Seria bem pior se fosse um outro mal humorado e resmungão feito ele próprio...

D & C

I'm dreaming of a white Christmas

(Eu estou sonhando com um Natal branco)

With every Christmas card I write

(Com todos os cartões de Natal que eu escrevo)

May your days be merry and bright

(Possam ser os seus dias felizes e alegres)

And may all your Christmases be white

(E possam ser todos os seus Natais serem brancos)

- Aonde você quer ir? – perguntou Jimmy, quando desceram do táxi, em uma avenida do centro de Nova York.

Dean deu de ombros. Não tinha idéia do que fazer em plena noite de Natal na cidade, com um cara que conhecera há poucas horas. Normalmente seus natais eram em casa, com Lisa e Ben, preparando a ceia, ouvindo os cânticos de Natal que os corais das igrejas cantavam de porta em porta, essas coisas.

- Bem, então vamos caminhar um pouco, enquanto pensamos. – sugeriu Jimmy, começando a andar.

O homem loiro seguiu-o. Nova York realmente merecia o título de cidade que nunca dorme. Mesmo na véspera de Natal, as ruas estavam apinhadas. Gente carregando sacolas, pais com seus filhos, casais abraçados. Fora, claro, os vendedores ambulantes de comida, os Papais Noéis e elfos das lojas – que por sinal ainda estavam abertas, atendendo os compradores de última hora. Tudo conforme o caos harmônico de uma cidade grande.

- O quê? – perguntou Jimmy, quando Dean deu um suspiro profundo.

- Isso. – ele respondeu, fazendo um gesto largo. – Essa coisa toda de Natal. Você acredita?

O moreno ergueu as sobrancelhas, os olhos azuis indo de um lado para o outro enquanto formulava a resposta.

- Sim e não. – disse. Dean fez cara de quem não entendeu. – Bem, veja, eu fui criado em uma família religiosa. Lá em casa sempre comemoramos o Natal, íamos ao culto na igreja e todas essas coisas. Eu cresci acreditando nisso. Mas hoje... Bem, para mim não importa realmente se você acredita que o Natal é o nascimento de Jesus. Isso é algo muito pessoal. – o moreno fez uma pausa, enquanto eles passavam por um grupo de cantores em uma esquina. – Para mim o Natal é muito especial porque é uma das únicas – talvez a única – épocas do ano em que as pessoas param e olham para o outro, nem que seja por um instante. Em que os corações ficam mais leves. Ainda que depois esse espírito acabe, que haja muito interesse comercial por trás da data, é bom saber que ele se faz presente ao menos nessa época.

Sem perceberem, os dois homens tinham parado não muito longe do coral, que entoava Silent Night. Dean deixou-se ficar encarando os olhos azuis do homem a sua frente. Havia algo neles que era simplesmente hipnotizante.

- E você, acredita? – Jimmy perguntou, fazendo o loiro desviar o olhar para o coral.

- Nunca fui muito religioso. – Dean admitiu.

Na verdade, depois da morte de sua mãe, o Natal passou a ser apenas mais um dia. John nunca fez questão de comemorar coisa alguma – apenas beber mais que o de costume no dia da morte de Mary. Quem sempre dava um jeito de comprar alguma coisa para celebrar o Natal, escondido no quarto com Sam, era ele, Dean. Deu um sorriso amargo ao lembrar-se do único presente que o irmão lhe dera – o pingente que trazia sempre no pescoço. "É para te proteger das criaturas que moram no escuro. Tio Bobby que me contou.", a voz de Sam ecoou em sua cabeça. Na verdade quem arranjara o tal pingente fora Bobby, que sempre que podia lhes fazia um agrado. O pensamento o fez lembrar-se que ainda tinha que avisar o tio sobre o cancelamento do vôo.

- Ah, eu preciso fazer uma ligação. – disse de repente.

- Oh, claro. – disse Jimmy.

Dean afastou-se, procurando um telefone. Enquanto discava os números, olhava Jimmy com o canto do olho. Ele estava de olhos fechados, ouvindo a música do coral. Um sorriso brincava em seus lábios. O loiro não pôde deixar de achar engraçado e sorrir um pouco com a atitude displicente do homem. Bobby não demorou muito a atender. Como sempre, entendeu perfeitamente a situação, e lamentou que Dean não pudesse estar com ele.

- Estarei aí assim que os vôos forem liberados. – o loiro garantiu. – Certo... Um feliz Natal para você também. Até logo.

Quando se juntou novamente a Jimmy, ele aplaudia com entusiasmo o coral, que agradecia curvando-se. O homem dos olhos verdes balançou a cabeça, incrédulo diante de tanta alegria.

- Então... – Jimmy disse, quando continuaram a andar. – Você ainda não respondeu se acredita ou não no Natal.

- Ah... – fez Dean. Uma parte de sua mente dizia para mandar aquele estranho ir cuidar da própria vida. Mas por outro lado, alguma outra coisa realmente o impelia a fazer algo que não era de seu feitio, abrir-se, ser sincero a respeito de si mesmo. Talvez fosse o tal espírito natalino. – Não muito. O Natal só passou a fazer sentido para mim quando conheci Lisa e Ben. Com eles valia a pena... quer dizer, com Sam... – o loiro parou de falar. Jimmy nem fazia ideia de quem eram aquelas pessoas, e ele não se sentia muito a vontade para falar nelas.

O silêncio entre eles foi constrangedor. Dean achou que Jimmy fosse insistir, fazer mais perguntas, mas o moreno apenas caminhou em silêncio ao seu lado. O loiro sentia os flocos de neve que caíam em seu rosto derreterem com sua temperatura. Ele devia estar vermelho. Excelente...

- Ei, porque não vamos jantar? – Jimmy sugeriu depois de algum tempo. – Eu conheço um restaurante muito legal aqui perto.

Dean já ia dizer que não, mas seu estômago roncou. Ele não comia nada desde a hora do almoço.

- Ah... okay... – ele concordou, reticente.

- Olha, eu sei que é super estranho isso. – Jimmy disse, lendo a expressão no rosto do homem de olhos verdes. – Acredite, para mim também é. Só estou tentando fazer isso ficar menos desconfortável.

- Não, tudo bem. – Dean disse. Não queria parecer muito rude. – É só... bem, é estranho e bem... Estou passando por um momento um tanto difícil.

Jimmy olhou-o de uma maneira tão empática que Dean se perguntou se ele era alguma espécie de psicólogo ou algo assim.

- Bem, então vamos fazer desse momento uma calmaria em sua tempestade. – o moreno sugeriu. – Por essa noite, você tenta deixar seus problemas de lado e aproveitar o que a vida lhe oferece. Quem sabe você não encontra as respostas, as forças de que precisa?

Dean achou que deveria estar mesmo ficando louco, para sequer pensar em considerar uma bobagem daquelas. Ele era um homem prático, de pé no chão. Não via sentido naquela filosofia "carpe diem" do moreno. Mas, se era só por aquela noite, por que não arriscar? Devagar, fez que sim com a cabeça, e ele e Jimmy continuaram caminhando, seus pés pisando a neve que começava a se acumular, cobrindo tudo de branco.

D & C

I'm dreaming of a white Christmas

(Eu estou sonhando com um Natal branco)

- Agora é sua vez. – disse Dean, tomando mais um gole de vinho. – Eu já lhe contei sobre como vim parar em Nova York e o que me levou a estar naquele aeroporto hoje a noite. E você? Qual é a sua história, Sr. Novak?

Jimmy pousou os talheres no prato e respirou fundo. Ao redor dos dois homens, no pequeno e aconchegante restaurante encravado entre os arranha-céus da cidade que nunca dormia, as pessoas riam e brindavam o Natal. A maioria eram casais, mas havia uma ou duas famílias pequenas. Estavam ali há horas, conversando. Dean acabara de lhe contar sua história – uma história triste e problemática. Por isso Jimmy estava admirando o homem à sua frente. Porque ele conseguia perceber que, mesmo por trás da tristeza nos seus olhos verde-esmeralda, havia coragem e vontade de ser feliz, apesar de todos os revezes da vida.

- Bem, - o moreno começou – minha infância também não foi lá aquelas coisas. Meu pai morreu quando eu tinha nove anos. Então eu meio que tive que assumir o lugar dele na família, porque sou o mais velho de três irmãos. Minha mãe trabalhava muito para poder nos dar uma vida digna, enquanto eu estudava e cuidava dos meus irmãos menores.

Dean ouvia atentamente o outro homem. Não pôde deixar de identificar-se com aquela parte de sua história. Ele também fora responsável por cuidar de Sam, desde que Mary tinha morrido.

- Eu trabalhei desde cedo, fazendo bicos aqui e ali – continuou Jimmy – mas com muito esforço consegui entrar para a faculdade de publicidade e propaganda. Com meus irmãos já criados, eu me mudei para Pontiac, onde arranjei um emprego em uma pequena agência local... conheci Amelia e nos casamos. Tivemos uma filhinha, Claire. Ela é um doce. Mas... – ele parou para tomar um pouco de vinho – Dois anos atrás eu tive um surto. Estresse. Tive alucinações, por pouco não me matei ou... algo pior. Eu saí de casa antes que uma tragédia acontecesse. Amelia ficou muito assustada, pediu o divórcio... Bom, talvez nosso casamento já não estivesse tão bem e isso foi apenas a gota d'água, não sei. Na verdade não importa muito.

O loiro e o moreno se encararam por um longo tempo. Dean tinha mais em comum com aquele homem do que poderia imaginar. Enquanto ele contava sobre a separação, lembrou-se da sua própria. Quando conhecera Lisa, logo quando chegara em Nova York, a moça era o amor de sua vida. Mas alguma coisa não estava certa. Talvez tivessem ido depressa demais e viver sob o mesmo teto tivesse jogado uma nova luz sobre as partes um do outro que eles ainda não estavam prontos para acolher. Bom, para ele isso também não importava muito, agora. Era o seu momento carpe diem.

- Então eu passei um tempo em um clínica, - Jimmy retomou sua história – me recuperei e comecei a procurar outro emprego – obviamente o meu antigo foi para o espaço. Por quase um ano fiquei desempregado, sobrevivendo novamente de bicos, na casa de parentes e amigos... Até que a sorte começou a mudar e eu consegui um emprego em uma agência de San Francisco. Desde então eu vou às filiais, tentando conseguir campanhas. Graças a Deus fechei um negócio excelente aqui em Nova York, quem sabe até serei promovido! – um sorriso iluminou seu rosto. Dean sorriu em resposta, sem saber direito o porquê. – E Amelia finalmente me deixou ver Claire. De modo que seria o Natal perfeito, se não fosse a tal tempestade, nevasca, sei lá o quê.

- Estávamos em situações opostas, então. – concluiu Dean. – Meu Natal seria o pior em anos.

- Bom... – o moreno parou para pensar. O loiro notou que seus olhos assumiam uma expressão perturbadora quando ele fazia aquilo. Era como se ganhassem uma profundidade imensurável e extremamente atraente. – São as ironias da vida, não é? Dois estranhos em momentos tão díspares se encontrando da maneira mais improvável.

- Ok, agora você falou como um personagem de uma novela mexicana. – Dean brincou.

- Os clichês às vezes são a mais pura realidade. – Jimmy disse, sério. Curvou-se sobre a mesa para olhar o loiro mais de perto. – Às vezes o universo conspira das formas mais estranhas... Quem sabe não era para que eu e você nos encontrássemos, bem aqui, bem nessa noite?

Dean deu um sorriso de canto e balançou a cabeça.

- Acho melhor você parar com o vinho. – disse.

Jimmy deu uma gargalhada. Dean ergueu as sobrancelhas. Normalmente ele acharia aquilo muito, muito esquisito. Mas aquele moreno tinha algo diferente. Sua vontade era gargalhar junto com ele. Acreditar que aquela situação era mesmo uma "conspiração do universo". Talvez ele precisasse parar com o vinho também. Antes que se desse conta, estava rindo também.

- Acho que você tem razão. – Jimmy concordou, depois que se controlaram. – Que tal dar outra volta para recuperar a sobriedade?

- Por mim, okdok... – respondeu Dean. Sentia-se muito leve. Sentia-se estranho. E, lá no fundo, uma voz dizia que era por causa daquele estranho moreno de olhos azuis mais estranhos ainda.

D & C

With every Christmas card I write

(Com cada cartão de Natal que eu escrevo)

May your days be merry and bright

(Possam ser os seus dias felizes e alegres)

- Dean, vamos lá! Não vai custar nada...

- Jimmy... eu não vejo razão...

- Não tem porque ter razão. E, na verdade, há sim. Amanhã de manhã provavelmente estaremos em aviões separados, e talvez nunca mais nos encontremos de novo. Não acha que vale a pena guardar uma lembrança dessa noite?

O loiro suspirou. Pelo que estava vendo, Jimmy era do tipo insistente. Ele balançou a cabeça, concordando. O moreno sorriu em resposta e entrou na loja. Dean o seguiu, em silêncio, e esperou enquanto o moreno escolhia um cartão em um painel.

- Você não vai escolher um? – perguntou, enquanto apanhava o envelope.

- Achei que você fosse fazer isso. – Dean respondeu, sem graça.

- Tem que se você, oras. – o homem mais velho disse.

Com outro suspiro, Dean escolheu um dos cartões. Um com a imagem de um coro de anjos cantando em saudação ao nascimento do menino Jesus.

- Viu? Não foi difícil. – Jimmy disse, pegando o cartão de sua mão e indo até o caixa.

Era uma daquelas lojas de conveniência, abertas vinte e quatro horas. Àquela hora, quase meia noite, não havia muito movimento. O moreno desejou feliz Natal ao rapazinho do caixa, que deveria estar mesmo com raiva por ter que trabalhar até àquela hora, pois nem respondeu. Depois saíram para o ar frio da noite.

- Toma, escreve alguma coisa. – Jimmy estendeu ao loiro uma caneta. Tinha outra na mão.

Dean apanhou a caneta, pensando que um publicitário deveria andar por aí com canetas e bloquinhos de papel para anotar suas idéias para propagandas. Não fazia idéia do que escrever. Enquanto pensava, viu que Jimmy já escrevia, apoiado em uma caixa de correio. Tentou pensar no que ele colocava nos cartões que dava aos vizinhos e amigos... Mas era sempre Lisa quem fazia isso. Então, de repente, lembrou-se de uma das músicas que sua mãe mais gostava de cantar no Natal... Sim, era perfeita. Sorriu e, apoiando o cartão na parede, escreveu na melhor letra que conseguiu: "'Possam ser todos os seus dias felizes e brilhantes.' Obrigado por fazer desse Natal melhor do que eu esperava. Dean Winchester".

Quando terminou, Jimmy já estava com o envelope estendido para ele. Pegou o cartão e entregou o que era para o moreno. Já ia abrindo quando Jimmy segurou sua mão.

- Ainda não! – disse. – É para quando estivermos indo cada um para o seu caminho.

Dean ergueu as sobrancelhas. Não tanto por aquela idéia, mas porque Jimmy estava segurando sua mão. Estavam sem as luvas e sentiu o calor da pele do moreno contra a sua. Seus olhos baixaram um instante, antes que Jimmy quebrasse o contato.

- Vem, tem mais uma coisa que eu quero fazer. – ele anunciou.

Dean não argumentou. Ainda estava com a sensação estranha que o toque do outro lhe provocara. Além do mais, já tinha feito muitas coisas que nunca pensara que faria com um estranho em plena noite de Natal. Além do mais, Jimmy já não era tão estranho. Além do mais, era seu momento carpe diem.

D & C

And may all your Christmases be white

(E possam todos os seus Natais serem brancos…)

- Rockefeller Center? – Dean perguntou, quando percebeu aonde iam.

Jimmy fez que sim com a cabeça. Dean parou imediatamente.

- Não dá. – disse, sério. – Jimmy, eu não vou.

- Dean...

- Não consigo. Digo, eu te contei, eu sempre levava Lisa e Ben para patinarem.

- Dean, é por isso que eu quero que vá. – o moreno o encarava, como se quisesse entrar em sua mente com aqueles olhos tão intrigantes. – Se você conseguir passar por isso hoje à noite, é sinal de que conseguirá passar por essa crise.

Ele fez uma pausa, enquanto se aproximava mais.

- No meu primeiro Natal sem a Claire, eu fiz exatamente o que costumávamos fazer. E sabe... Embora tenha sido estranho, dolorido, era como se ela estivesse comigo. E eu sabia que eu conseguiria passar por tudo que estava enfrentando.

O homem dos olhos verdes encarava o dos olhos azuis. Vacilante, deu um passo a frente. Jimmy acompanhou-o. Aos poucos, os passos de Dean foram se tornando mais confiantes. Talvez Jimmy estivesse certo. Ele não estava perdendo Ben. Talvez nem Lisa. Só teriam um relacionamento diferente dali pra frente. Aquele passeio ao Rockefeller Center seria sua despedida de Nova York, seria uma celebração de todos os momentos bons que passara ali, seria o começo de sua nova vida.

Não demorou muito para chegarem ao grande conjunto de prédios, magnificamente decorados para o Natal. De longe, dava para ouvir a música de algum artista pop do momento tocando, no tradicional show natalino. Tomando a Quinta Avenida, entraram para a Lower Plaza, onde ficava o famoso rinque de patinação no gelo. O homem loiro respirou fundo e caminhou ao lado do moreno, que sorria, maravilhado – nunca deixaria de se encantar com aquilo.

Várias pessoas estavam no rinque, rindo, brincando e se divertindo ao pé da imensa árvore de Natal e vigiados pelo silencioso Prometeu de bronze. Dean não pôde deixar de achar engraçado o modo como Jimmy quase o arrastou até o lugar onde se alugavam os patins, parecendo uma criança.

- Jimmy, o gelo não vai derreter. Não agora! – o loiro disse, rindo.

Ele não lhe deu atenção, colocando algum dinheiro na mão do homem que estava atrás do balcão. Apanhou os patins e os calçou rapidamente. Dean fez o mesmo gesto, mas com mais calma. Queria aproveitar bem aquela experiência. Respirou fundo, sentindo os vários cheiros no ar. Seus olhos verdes correram o lugar, guardando cada detalhe.

- Dean, vem! – Jimmy chamou, já à beira da grande superfície congelada, onde algumas pessoas bailavam sem dificuldade e outras se equilibravam precariamente sobre as lâminas.

O loiro riu e foi andando calmamente até o outro. Parou, esperando que ele entrasse no rinque.

- Você primeiro. – Jimmy disse, um ar estranho no rosto.

Dean achou melhor não questionar. E, para falar a verdade, agora que estava ali, ele estava morrendo de vontade de patinar. Pôs o primeiro pé, depois o outro. Era como andar de bicicleta. Seus movimentos foram lentos no começo, mas foi ganhando velocidade, o corpo movendo-se para dar equilíbrio enquanto ele cobria vários metros. Fez uma curva fechada e procurou Jimmy perto de si. Ficou surpreso ao não ver o moreno e virou o pé de lado para frear. Ainda parado no mesmo lugar, Jimmy acenou para ele.

- Tá, você me traz até aqui e não vai entrar? – o loiro perguntou, quando chegou de novo à beira do rinque. Não esperou a resposta do homem de olhos azuis e puxou-o.

E antes que pudesse entender o que estava acontecendo, Jimmy se viu tentando se equilibrar em cima das lâminas de metal. Tentou segurar-se em Dean, que, surpreso, perdeu seu próprio equilíbrio. Com um baque surdo, os dois homens caíram, embolados, no gelo.

- D-Dean... – disse Jimmy, tentando desvencilhar-se do loiro. – Eu ia dizer que eu não sei patinar direito...

O loiro começou a rir. Logo a risada transformou-se em gargalhada. Dean não sabia explicar o porquê, a coisa nem era tão engraçada. Mas o fato era que ele estava se sentindo melhor do que se sentira nos últimos meses. Jimmy devia ser mesmo psicólogo, além de publicitário. Era a única explicação. Ou então ele tinha não apenas nome de anjo, mas era um anjo que viera lhe salvar na noite de Natal.

Foi quando viu que aquele pensamento era extremamente estranho para seu jeito de ser, que o loiro se deu conta de que ainda estava embolado com Jimmy. Na verdade, o moreno estava meio que deitado em seu colo, gargalhando.

- Acho... acho melhor levantarmos antes de ficarmos molhados com esse gelo. – disse Dean, ajudando Jimmy a levantar. – Você devia ter dito antes. E que tipo de maluco fica tão animado para vir ao Rockefeller Center patinar se não sabe patinar?

- Ah, do tipo que gosta de patinar. – Jimmy respondeu, a expressão divertida. – Mesmo sem saber direito. Qual é, Dean, fica até mais divertido!

- Bom, cada um tem um jeito de se divertir... – o loiro respondeu, sorrindo. – Mas vem, vou te ensinar a pelo menos ficar em pé.

Tomou as mãos do moreno e, equilibrando-se, ajudou-o a se firmar em pé.

- Isso! – disse. – Agora você tem que equilibrar o peso do corpo. Assim... Agora vou ficar do seu lado e vamos andar um pouco.

Jimmy fez que sim com a cabeça. Estava adorando aquilo. Se alguém lhe dissesse que seu Natal passaria do pior de todos os tempos para um dos mais divertidos em anos, ele não acreditaria. Obviamente que sua vontade de estar com Claire era imensa, mas Dean era melhor companhia do que ele jamais poderia esperar. Só tinha sido preciso quebrar a casca na qual ele parecia se envolver. Jimmy era muito perceptivo e tinha quase um dom para fazer as pessoas se mostrarem para ele.

Aos poucos, o publicitário foi conseguindo dar as primeiras patinadas, sempre seguro ao braço do mecânico, que com a maior paciência acompanhava seu ritmo. Os dois homens pareciam crianças, com sorrisos enormes. O coração de Dean ia aos poucos acelerando, sem que ele se desse conta. Estava preso nos olhos brilhantes de Jimmy. Este, por sua vez, sentia o rosto ficar cada vez mais quente, a respiração ficando irregular. Era apenas o esforço de patinar... Ou de olhar nos olhos verdes de Dean.

Nenhum dos dois saberia dizer, mas em algum momento as coisas em volta sumiram. O que existia era apenas o toque macio de lábios. Os lábios de Dean nos de Jimmy. Equilibrar-se nos patins já não era necessário, porque estavam presos um ao outro, a língua do loiro abrindo espaço na boca do moreno, ao mesmo tempo em que a do moreno também pedia passagem, o gosto bom de ambos misturando-se...

Em algum lugar na cidade de Nova York, sinos soaram. Era meia-noite. Era Natal. E a neve caía, suave.


Nota da Beta: Ownnnn... Que final perfeito! Estava quase tendo um ataque, esperando por esse beijo e ele foi... absolutamente perfeito. E esse Jimmy é meio estranho mesmo... Acho que ele já estava com segundas intenções antes de sair do quarto. haushauhahsa Ta, eu sei que não. Mas ele seria um bobo se não tentasse nada com o Dean. Enfim, ansiosa demais pelo capítulo 3!

Nota do Autor: Eu também vou fazer "ownnnn"! Estou adorando escrever essa estória! Nha... não vou me derreter mais sobre o Natal aqui... Mas eu gosto muito mesmo! E um dia ainda vou pra Nova York, passar um Natal bem branco, com muita, muita neve! Será que o destino me ajuda e eu acho um Dean ou um Jimmy/Cas também? Rsrsrs. Bom, essa foi o segundo capítulo! O próximo e último vem o dia de Natal! Então é isso, contagem regressiva! Faltam 12 dias para o Natal, galera! \o/