Capítulo 2 – Conhecendo o Acusado.
"As pessoas entram em nossa vida por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem." — Lilian Tonet.
Se há dois dias me falassem de viagens no tempo, eu com certeza riria da cara da pessoa. Por hora eu seria uma tola se não acreditasse. Vir parar em 1550 é algo encantador, de fato, mas não estava preparada para o que viria a seguir.
Enfim, conheceria o acusado. Não sabia seu nome, somente que era irmão de Alice e do que ele estava sendo – injustamente – acusado.
Alice me levou até o outro andar do castelo, este com apenas duas portas enormes, uma de cada lado no corredor. Ela abriu a do lado esquerdo e entrou a segui. O aposento era com certeza o mais lindo, me tirando o fôlego. Meus olhos varreram o lugar, vendo cada detalhe, quando meus olhos passaram pela cama, vi que jazia um corpo de bruços ali. Alice se aproximou e o balançou para que acordasse.
O rosto que vi a seguir me deixou hipnotizada, fazendo com que eu soltasse um suspiro, chamando a atenção do jovem rapaz. Seu rosto era másculo, seus olhos verdes não paravam de me olhar, a barba por fazer o deixava com um ar mais velho e ao mesmo tempo sexy. A boca carnuda parecia me chamar.
— Edward, está é Isabella, ela esta aqui para ajudá-lo – esclareceu Alice.
Edward? Este era o nome dele?
— E quem a chamou? – perguntou arrogante.
— Eu a chamei – interveio Alice – Você sabe que precisa de ajuda meu irmão. Não negue isso. A partir de hoje, Isabella será minha hóspede.
— Muito prazer Edward. – disse fazendo uma reverencia com o vestido.
— Para a senhorita é Príncipe Edward – resmungou – E não preciso de ajuda – seus olhos não desviaram dos meus, um segundo de quem.
Quem esse homem pensa que é? Ok, ele era o príncipe, mas mesmo assim creio que um príncipe deve tratar bem seus súditos e no meu caso, hospedes.
— Fui chamada unicamente para ajudá-lo e é isso que farei.
— E tu vieste de onde? – ele se aproximou de mim, ignorando perfeitamente, Alice ao seu lado.
— Ela veio de Paris, Edward – Alice disse suavemente, vindo também para o meu lado.
— Bem – Edward deu-me as costas voltando para onde estava – Se está tentando me ajudar a me livrar da guilhotina, espero que consiga o seu propósito.
— E eu irei, pode ter certeza disso – vire-me e sai do quarto. Bufei. Afinal, ele não quer ter a cabeça salva?
A boa impressão que sua beleza transmitia não se comparava a arrogância de como tratava as pessoas.
Ouvi passos atrás de mim e virei à cabeça para ver quem era. Alice. Parei de andar e a esperei.
— Não se intimide, nem fique brava com o jeito hostil de Edward. Ele é assim mesmo – explicou – Ele somente acha que pode resolver tudo sozinho. Mas no fundo Bella – parou a minha frente – Ele é uma boa pessoa. – sorriu inocente.
Algum tempo depois de ter conhecido Edward, eu tinha que começar a minha investigação, era meu dever como historiadora, saber das coisas. Alice me deu passe livre para andar por todos os corredores do palácio.
Adentrei alguns cômodos, aposentos e nada. Fui até o aposento das vitimas e não encontrei absolutamente nada, nenhum vestígio. Fui até a torre do castelo, subi a escadaria e quando cheguei ao topo, parecia mais um escritório, ou uma cozinha. Não consegui distinguir. Nas mesas havia frascos com líquidos coloridos. Jarras, panelas, tudo que um alquimista dessa época tinha para fazer suas invenções, remédios e coisas a mais.
Curiosa, comecei a andar por onde conseguia. Peguei um frasco que continha um líquido amarelo e levei-o ao nariz.
— Que cheiro ruim – rapidamente coloquei-o onde estava. Minha careta de desgosto e de desconforto com o forte cheiro, deveria ser engraçada pois ouvi uma risada atrás de mim.
Assustada, virei-me para reconhecer a figura de Edward sentada em uma poltrona de couro cor vinho. Ele se levantou e se aproximou de mim perigosamente.
— O que faz aqui? – perguntou com o seu conhecido tom arrogante.
— Pesquisando, o que mais poderia fazer – dei-lhe as costas e continuei xeretando no que havia ali.
— Com que permissão? – insistiu.
— De Alice – respondi apenas.
— Para...? – dei um pulo ao sentir sua respiração em meu ouvido, afastei-me rapidamente, tendo como foco seus olhos verdes.
— O propósito que estou aqui, acho que já deixei bem claro mais cedo – já estava ficando irritada com todas aquelas perguntas.
O olhei de relance e vi Edward me fitando com os olhos espremidos. Acreditando ou não na história na qual Alice lhe contara, era óbvio que ele não compartilhava a minha presença naquele local e muito menos na ajuda.
— E o senhor? – tentei desviar um pouco a conversa – O que faz aqui?
Ele suspirou e voltou a se sentar na poltrona de couro.
— Vim falar com Jane.
Voltei minha atenção para as estantes cheias de livros grossos e empoeirados.
— Interessante – disse assim que avistei um livro não muito empoeirado, mais limpo que os outros. Na posta dos pés, consegui alcançá-lo e pegá-lo. Sua capa era verde, com detalhes nas bordas em dourado. O abri e comecei a folheá-lo, uma folha marcada com um pedaço de fita preta me chamou atenção, assim que abri na página marcada ouvi passos nas escadas. Rapidamente levantei a barra do meu vestido e com a fita do meu sapato o amarrei no tornozelo, bem a tempo de ouvir a posta de abrindo. Vire-me rapidamente.
A figura de uma loira com a face juvenil, com um vestido na cor preta e algumas partes em vermelho, apareceu. Sua cara de poucos amigos em minha direção me deu arrepios.
— Quem é você? E o que faz em minha torre? - o tom nada agradável em minha direção fez com que eu saísse de perto da prateleira.
— Eu... eu... só estava... – legal Bella, isso era hora para gaguejar?
— Ela está comigo Jane – interveio Edward, foi quando eu percebi que ele estava ao meu lado, o olhei assustada.
— Oh! – exclamou – Príncipe Edward – fez a suposta reverencia com o vestido. Revirei os olhos – Qual a honra de sua presença em minha torre? – perguntou.
— Vim saber como anda as investigações. – investigações? Como assim? – Até agora não estou vendo nenhum progresso Jane, muito pelo contrário – a voz de Edward era de pura irritação.
— Peço desculpas, mas preciso de mais tempo – sua atenção foi desviada para os frascos que eu estava olhando há pouco tempo atrás.
— Mais? – rosnou Edward – Já se passou mais do que o necessário. Em sete dias eu irei a julgamento Jane! – ela parecia estar nem ai para a situação de Edward, cerrei meus olhos em dúvida – Vamos Isabella – dirigiu-se a mim.
Depois que Edward e eu saímos da torre, fui direto para o quarto que Alice disse para ficar. Tranquei a porta e levantei a saia do meu vestido, tirando do meu tornozelo a pequeno livro e o abrindo na página marcada com a fita preta. Lá dizia o seguinte:
Para aqueles do passado;
Use este encantamento apenas para aqueles que o magoaram. Misturando-o na bebida do individuo, e fará com que ele tenha uma morte lenta.
E abaixo disso alguns materiais para fazer o tal líquido. Isso tudo estava muito estranho.
— É melhor eu mostrar isso para Alice – comentei.
Depois de dar mais umas folheadas naquele livro o escondi em baixo na cômoda e sai do quarto. Precisava dar uma olhada por aí e ver se encontrava Alice em algum lugar.
Atravessei os corredores do castelo, até chegar ao lado de fora. Sinceramente eu não sabia para onde eu ia. A minha direita um jardim florido, cheio de árvores frutíferas, e a minha esquerda um jardim de arbustos, não muito encantador. Escolhi a direita.
Conforme andava pude notar que no centro do jardim havia uma fonte. Para uma concepção surpreendente para a época, o jato de água era impecavelmente forte. As flores cor-de-rosa combinavam perfeitamente com o verde da grama e das árvores. Aproximei-me da fonte, para olhar os peixes.
— Achou alguma coisa? – o pulo que dei de espanto fez com que eu me desequilibrasse e caísse com tudo dentro da fonte. Quando emergi, dei de cara com Edward. Era a segunda vez naquele mesmo dia.
Sua cara era de puro contentamento e provavelmente, contando que sua boca estava muito comprimida do que o normal, ele estava querendo rir da situação.
— Argh! – grunhi de raiva e me levantei para sair da fonte. Ele estendeu a mão para me ajudar, porem fiz questão de ignorar. Levantei sozinha, com um pouco de dificuldade, confesso, mas não ia dar o braço a torcer. Quando sai da fonte, toda ensopada pude notar seus olhos cravados em mim, subindo e descendo pelo meu corpo – Algum problema? – perguntei. Ia mandá-lo tirar uma foto, mas não ia cair muito bem.
— Não, nenhum – seu sorriso aumentou, exibindo a fileira de dentes branquíssimos dele. – Vamos para dentro, se não você irá pegar um resfriado – percebendo então que eu estava molhada, ele tirou seu casaco, ficando apenas com uma camisa cor creme muitíssimo fina e me entregando. O coloquei sem exitar.
— Obrigada – falei assim que coloquei o casaco.
Íamos andando juntos para a entrada do palácio quando ele pôs-se a falar.
— Achou alguma coisa? – repetiu.
— Sim, achei – continuava olhando somente para frente.
— O que? – insistiu.
— Não tenho certeza ainda, por isso não posso contar – comentei.
Ouvi-o bufando ao meu lado e o olhei. Ele também olhava para frente, sua expressão era de puro desgosto.
— Não precisa ficar assim – voltei minha atenção para frente – Conseguiremos achar a verdade.
— Jane ainda não achou nada ao meu favor – falou sobre mais cedo – E não sei quando irá achar. Tudo está contra mim.
— Hey! – parei de andar o olhando, Edward parou e me olhou – Não fala isso, tudo bem? Vou conseguir te tirar dessa, sei que você não é o culpado.
— E como sabe disso?
— Bem... – afundei minhas mãos nos bolsos do casaco – Não sei realmente a verdade, mas algo me diz que você não é o culpado. E não só para mim, para Alice e Angelina também. Confie em nós, tudo bem? – sorri torto.
— A intuição de vocês não irá mudar praticamente nada. Precisamos de provas, sem elas... – pausa – Serei condenado.
Depois desse desabafo, estava começando a entender um pouco do rancor e da ignorância de Edward. Ele não confiava em ninguém, e se fosse óbvio, seria por causa dessa acusação.
— Que tal isso: por que não me conta um pouco da história dos seus pais? Às vezes podemos pegar algo do passado e nos restará apenas juntar as peças - Edward começou a estudar meu rosto e franziu o cenho – Como espera que eu ajude se não me diz algumas coisas?
— Minha irmã já não contou? – perguntou.
— Sim, algumas coisas, mas não o suficiente – expliquei.
Ele ficou calado por alguns minutos, apenas pensando, então, de repente começou a andar.
— Siga-me, não podemos ficar aqui fora. Vamos para um lugar mais quente onde você possa se secar.
Fiz o que Edward me pediu, o segui. Só não esperava que o lugar quente onde pudesse me secar, em suas palavras, fosse seu quarto.
Ele me guiou segurando minha mão a todo o momento, olhando para os lados procurando alguém que pudesse no ver, e nos comprometer.
— Sente-se, e contarei o que deseja saber – Edward disse de costas para mim, de frente para a janela. Tirei o casaco que a pouco me protegia do frio, colocando-o no chão.
Sentei-me em uma poltrona de couro vermelho e fiquei o olhando. O céu lá fora estava escuro e algum pingos de chuva eram vistos no vidro da janela. A claridade do ambiente era proporcionada pelas chamas de velas e também pela lareira. Então, Edward virou-se para mim, mas logo sua atenção mudou de foco para uma cômoda ao lado da poltrona. Ele caminhou até ela, abriu a porta de madeira e de lá de dentro tirou uma toalha verde escura e me entregou. Depois voltou para o lugar que estava.
Comecei a secar meu cabelo com a toalha fofinha.
— Então... – comecei.
— Quando meus pais se conheceram – começou - meu pai estava prestes a se casar com a mãe de Jane. E minha mãe prometida a um plebeu – pausa – até eles se encontrarem. Meu pai estava fazendo uma visita ao vilarejo quando a viu. Minha mãe dizia que foi amor à primeira vista, que assim que os dois se viram pela primeira vez, sabiam que ficariam juntos – sorri com o acontecido, então ele continuou – Eles começaram a se encontrar escondidos, até meu pai quebrar o acordo de seu casamento... – suspirou, sentando-se na cama, quieto. Edward passou a mão no cabelo.
Eu só conseguia prestar atenção em suas palavras e movimentos. A blusa fina que ele usava, dava para ver seus músculos bem definidos. Ele fez um aceno negativo com a cabeça, passando novamente as mãos no cabelo, olhando para cima, logo, seus olhos pousaram em mim. O verde de seus olhos era profundo, dando a nítida sensação de afogamento, desespero... Tristeza.
— Quando ele o fez, nem preciso dizer como meu avô ficou não é? – riu irônico – Todos ficaram em choque com o anuncio de que o futuro rei não iria se casar com quem lhe foi prometido. Meu avô ficou uma fera, mas depois de um tempo, ele aceitou a decisão de meu pai... – seus olhos perderam o foco – Logo depois, meu pai e minha mãe se casaram e eu nasci.
— Fim?
— Não... – seu cenho estava franzido quando levantou e fora novamente para frente da enorme janela do aposento – A vida de meus pais nunca foi calma, meu avô sempre culpava meu pai por qualquer coisa que dava errado no vilarejo, dizendo que, se ele tivesse se casado com aquela que lhe fora destinada nada estaria como estava – pelo reflexo do vidro da janela, pude ver seus lábios curvando-se em um sorriso irônico – Minha mãe sempre se culpava, na cabeça dela, ela era a errada, a culpada por estar com meu pai, mesmo este dizendo que não era nada relacionado com ela. Fora isso, eles foram muito felizes – as mãos no bolso.
Seus olhos estavam fechados e pingos de chuva impregnados no vidro, as chamas das velas e a lareira acesa, dava um aspecto misterioso ao ambiente. Edward continuou:
— Poucos anos depois, quando Alice já era nascida e eu estava com meus 7 anos de idade, recebemos a noticia que receberíamos uma hospede mais a trágica noticia que Lilian – a mulher com quem meu pai casaria – havia falecido, deixando uma filha sozinha. Meu pai como que por... – ficou como se procurasse a palavra certa e prosseguiu – dívida, fez com que a filha de Lilian viesse morar conosco. – terminou com um suspiro pesado.
— E essa garota a qual seu pai acolheu, seria Jane? – perguntei curiosa.
— Exatamente. Jane, Alice e eu, nos dávamos muito bem, mas de uns tempos para cá, exatamente um dia após a morte de meus pais, Jane se encontra fria e distante. Não sei a razão para essas atitudes dela, a primeira coisa que passou pela minha mente foi luto, mas percebo como Alice mesma me disse que é outra coisa – virou-se e parou a minha frente se ajoelhando e pegando minhas mãos nas suas.
Vamos dizer que fiquei meio assustado com esse ato, não estava esperando por isso. Soltei uma das mãos que ele segurava delicadamente, e a pousei em seu rosto, mergulhando em seus olhos verdes. De repente seus olhos mudaram e o verde esmeraldino parecia sumir, dando lugar a um olhar duro e rancoroso. Edward então se afastou de mim, indo em direção a uma cômoda, abrindo uma das gavetas e de lá tirando uma camisa, vestindo-a logo em seguida.
Logo uma dor desconhecida se apossou do meu peito, meus olhos pareciam marejar. Por que logo agora que Edward estava se abrindo, contando tudo que precisava, ele voltava para de trás do muro que ele construiu?
Engoli as lágrimas que teimavam em sair e respirei fundo, balançando a cabeça rapidamente para afastar aqueles pensamentos. Vamos lá, Bella, você não pode perder o foco. Tudo que precisa é descobrir a verdade e depois cair fora daqui.
