Quando Mrs. Hudson me escreveu após a morte de Richard, a missiva nunca poderia ter vindo em melhor altura.
Confesso que a morte do meu marido me tinha abalado muito mais do que eu pensara possivel, mesmo sabendo que era inevitável. Ele estivera doente por alguns meses antes de falecer oque, pensava eu, me permitira ter tempo para assimilar os factos: Ele não iria sobreviver.
Precisam de entender que amei muito o meu primeiro marido. Ao contrário do que era habitual na época, o nosso não tinha sido um casamento arranjado. As famílias sempre se tinham conhecido e tinhamos crescido juntos. Após a simples amizade viera um carinho especial entre nós. Quando ele me pedira em casamento, éramos ainda muito jovens. Infelizmente, nunca tiveramos filhos. Pelo que naquele momento, eu estava completa e totalmente sozinha.
Mrs. Hudson parecia saber disso e convidava-me para ir viver com ela pelo tempo que quissesse em Londres. "Um pouco de tempo na capital só lhe poderá fazer bem, Charlotte. Além do mais, muitas vezes sinto falta de uma amiga com quem falar. Os dois rapazes a quem aluguei quartos são excelentes pessoas, mas nunca poderão ser iguais à companhia de outra senhora."
Meditei sobre o assunto durante cerca de uma semana antes de escrever a minha resposta.
"Cara Mrs. Hudson
Agradeço-lhe pela sua extrema generosidade.
Decidi aceitar a sua simpática proposta e penso chegar a Londres na próxima semana. Precisarei apenas de tratar das questões práticas relacionadas com a minha casa entretanto.
Com os melhores cumprimentos,
Charlotte Malcolm"
Pedi ao rapazinho filho da minha vizinha se por acaso se importava de correr até à estação para que a carta seguisse o mais rápido possivel. Em troca oferecia-lhe a promessa de guloseimas acabadas de fazer quando regressasse.
Posso dizer que o garoto correu como se houvesse diabos no seu encalço.
Não me levou demasiado tempo a preparar a minha ausência. Não tinha animais domésticos e a única empregada que trabalhava para mim ia dia sim, dia não.
Falei com a vizinhança para que vigiassem qualquer coisa de anormal que acontecesse na minha ausência e entreguei as chaves à minha melhor amiga de infância. O carteiro ficou com a minha nova morada para o caso de me chegar correspondência. A nossa vila era um sítio pacato e pequeno, logo não havia muito mais a fazer.
A manhã de segunda feira seguinte encontrou-me na estação, com os meus baús a rodearem-me. Não tinha viajado para Londres em anos. As minhas roupas dificilmente poderiam ser consideradas na última moda. Mas isso não me preocupava minimamente. Nunca me considerei uma mulher de medos. Os meus companheiros iriam comentar isso várias vezes posteriormente nos anos seguintes.
Quando me sentei no comboio posso dizer que esperava tranquilamente toda e qualquer surpresa que me pudesse acontecer.
