Kinshisoukan – 3 atos para o amor

Segundo ato : Ciúmes ?

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-Então, você quer sair?

-Hai.

-Sinto muito mas, só Tamaki pode resolver isso, afinal ,o clube é dele.

-Entendo.

O silêncio caiu como uma pedra..Kyoya ajeitou os óculos, nunca admitiria se o perguntassem, mas estava muito desconfortável com aquilo.

-Mas, eu posso te dar uma folga, até que vocês se resolvam.

-Não existe mais 'vocês'.

-Nunca se sabe.

Puxou a manga do uniforme, conferindo as horas num caro relógio de pulso.Em breve os outros chegariam, dando início aos já conhecidos preparativos para a abertura do clube, e ele não queria ficar pra ver.

Se aproximou, afagando de leve os cabelos negros, tomando o cuidado de não despentear.Desceu, contornando os traços austeros que conhecia tão bem, espalmando a mão na bochecha, num carinho firme.

Os olhos negros se fecharam, se permitindo um último momento de entrega.Kaoru não pode conter o sorriso.

"E se fosse amor?"

Há muito tempo se fazia essa pergunta porém, sempre a descartava.O relacionamento deles não foi feito pra isso mas, sim, para suportarem o fardo que era amar sem ser correspondido.Mesmo com todo o carinho, ambos os corações já tinham dono.

E eles sabiam que nada mudaria isso.

-Perdão. – fechou os olhos, beijando-o com toda a afeição, sendo completamente sincero em sua despedida.

Quando se separaram, cada um foi pro seu lado, dando as costas para o outro.Não iriam dizer nada, não precisavam, já tinham previsto esse momento e palavras só piorariam as coisas.

O som da porta se fechando avisou que estava sozinho.Foi até a janela, afastando um pouco as cortinas, buscando o pátio abaixo de si.Não demorou muito e uma cabeça loira apareceu.

Sabia que se declarar era bobagem, mesmo assim, não conseguia culpar Kaoru.

-Precisa de muita coragem.

Deixou a janela, no exato momento que seu alvo sumiu de vista.Sacudiu a cabeça, ordenando os pensamentos, começando então a arrumar as coisas, teria muito trabalho pela frente.

- Kinshisoukan -

-Nani?!Kaoru não vem?!

Ainda ouvia aquela conversa ecoando, como um disco arranhado ou um gravador ser botão de stop.E, se por um lado ela era perfeitamente plausível, por outro não passava de um enorme absurdo.

-Ele estará ausente por alguns dias, parece que existem certos problemas a serem resolvidos.

Era uma desculpa esfarrapada e inútil, e o fato dos outros engolirem só piorava as coisas.Ele sim sabia o verdadeiro motivo, e isso o revoltava, porque não o deixava esquecer.

Afinal ele sabia...mas não aceitava.

"Droga!Custava fingir que nada aconteceu?"

Os dias passavam, um atrás do outro, logo uma semana se completou, sem que Kaoru pisasse no clube uma vez se não fosse suficiente, ainda se tornara discreto e escorregadio, um verdadeiro mestre nas fugas, nem mesmo o rosto ele ousava levantar mais.Nem mesmo pra Hikaru.

Em compensação, o irmão andava nervoso e irritadiço, grosso e até mesmo brigão.O afastamento do gêmeo somado a tudo que acontecera, o abalara de tal forma que, nem dois dias depois e também fora forçado a se ausentar do clube.

Porém, o pior de tudo não era ser motivo de fofoca, perder sua fama de inseparável ou seus amigos.Não, o que era realmente insuportável é se dar conta que, pela primeira vez na vida, estava só.

E ele não estava gostando nem um pouco disso.

Talvez tenha sido justamente por isso que decidiu matar aula, se deixando perder no bosque anexo ao jardim da ala sul.Foi andando, sem reparar em nada, apenas buscando um canto sossegado para por em ordem os pensamentos.Acabou encontrando uma cerejeira, com tronco muito grosso e imponentes galhos cheios de flores.

"Deve ser a mais velha desse lugar." – tocou na casca, sentindo a dureza sobre os dedos um suspiro cansado, desistiu de ficar em pé, sentando aos pés da árvore que, de tão grande, o fazia se sentir uma criança.

"Como daquela vez..."

-

Era um dia comum, nem quente nem frio, o céu estava límpido e azul e uma cálida brisa soprava.Aos pés de uma imponente árvore, duas crianças brincavam, cobertas da cabeça aos pés com pétalas e sakuras.

-Parar de tocar?

-É.

-Mas, porque?

-Porque se não, todo mundo vai ganhar no jogo do "Quem é o Hikaru".

-Mas, não é isso que a gente quer?

-Não.Eles tem que saber pelo que a gente é, não pelo que a gente faz.

-É que eu...

-Onegai, Kaoru!

-Hai...

-

"Eu fui um idiota."

Lembrava da dedicação do irmão, do jeito que ele tocava, tão alegre e vivo que nunca se cansava de admirar.Fechou os olhos, tentando voltar àquele tempo, quase podia ouvir a melodia...

"Peraí, eu posso ouvir!"

Levantou num pulo, procurando por todos os lados, logo identificou a origem da música : o outro lado da grossa cerejeira. Com passos largos, porém cuidadosos, avançou esticando a cabeça para tentar ver o irmão.

E não deu outra.Lá estava ele, salpicado de pétalas, o arco do violino deslizando em gestos suaves, os olhos fechados totalmente entregue.

Mas havia um detalhe, algo que arruinava todo o harmonioso conjunto, transformando-o em algo melancólico.Algo que só Hikaru conseguia perceber e que mesmo as inúmeras notas não eram capazes de conter, deixando que transbordassem, pequenas e sofridas pelos ambarinos cerrados.Lágrimas.

Kaoru chorava.

"Porque..."

-Porque está triste?

A melodia cessou, num súbito desafino.O gêmeo piscou, limpando as lágrimas com uma rapidez desengonçada, tentando disfarçar.Hikaru se encolheu, rezando pra não ter sido visto, e abaixou, sentando encolhido contra o tronco.

-Haruhi?

-Essa música não combina com você.

-Eu...

-Você está triste. – cortou, erguendo uma das mãos – Nem tente negar.Posso não saber o que está acontecendo mas, garanto que guardar tudo pra você não vai resolver.

-Gomen, não posso te contar, porque não diz respeito só a mim.

-Nem mesmo a sua parte?

-...

-Não confia em mim?

Kaoru riu, baixo e melancólico, como tudo que fazia nos últimos dias.

-O pior é que confio. – suspirou, ignorando a cara da garota ante o comentário.Juntou forças e, respirando fundo, começou.

-Eu amo uma pessoa...mas não pense que é só um amor estudantil ou algo do tipo.Meus sentimentos são sérios, eu faria de tudo por essa pessoa.

-Ela sabe disso?

-Não.Meu amor nunca foi correspondido no entanto, disso eu sempre soube.

-Então o que...

-Eu jurei nunca dizer nada.Prometi que ficaria ao lado dela, sempre apoiando, mesmo que nunca fosse visto com a mesma importância que ela tem pra mim.Em troca de sua simples companhia eu desisti de tudo...dos meus mais profundos sentimentos...

Mordeu o lábio, impedindo a voz de sair embargada, sentiu os braços da amiga o envolvendo, tentando passar algum conforto.Ela sabia o quão difícil estava sendo expressar com palavras tamanha dor.

Por um segundo, desejou também ter se apaixonado por ela.

-Eu quebrei a minha promessa...tinha jurado que não iria, mas acabei dizendo...e agora...agora essa pessoa me odeia e nunca mais vai deixar eu me aproximar...nunca mais será como antes...

Sentiu dedos gentis secarem as novas lágrimas porém, era inútil, elas nunca deixariam de rolar.Mesmo que com o tempo parassem de manchar seu rosto, no coração elas jamais secariam.

Se agarrou a amiga, se deixando levar por um choro silencioso, não havia mais nada a dizer ou fazer, somente chorar, com toda a força de sua alma e toda a dor de seu coração.Não que isso fosse lhe trazer algum alívio.

Estava sozinho.

Nada mudaria isso.

-

Hikaru tremia, um frio sobrenatural surgido do nada lhe envolvia, penetrando sobre o grosso uniforme.Ainda podia ouvir alguns leves soluços do irmão e as palavras de consolo da garota entretanto, por mais que esse cuidado fosse normal, uma espécie de alarme parecia soar em sua cabeça, avisando que talvez, não fosse bem assim.

"Será que ele também gosta dela?Não...se gostasse não teria feito aquilo."

Arriscou uma rápida espiadela, viu os dois abraçados enquanto Kaoru finalmente se acalmava.

"Viu?Dois amigos se consolando, nada de mais."

"Tem certeza?"

"Como assim certeza?É óbvio que não rola nada!Se rolasse ele não teria armado aquele encon..."

Parou, o coração apertado batendo doído no peito.Os sentimentos do irmão eram muito fortes e antigos, ele já devia amá-lo antes mesmo da Haruhi chegar ao Ouran.

"Então, porque marcou aquele encontro?"

"Porque se importa?Você não o ama."

"Porque...Porque ele é meu irmão!Isso!Me preocupo só porque ele é meu irmão!"

"Só isso?"

"Só!"

"Então, porque não olha de novo?"

Bufou, irritado consigo cuidado, espiou mais uma vez, crente de que só veria a cena anterior.Porém, o que viu o deixou totalmente em choque.

Ambos estavam sentados no chão, muito próximos um do outro.Haruhi tinha uma mão espalmada na face de Kaoru, a outra passeando por seus cabelos, retirando as pétalas róseas.Enquanto isso o gêmeo simplesmente ficava parado, se deixando tocar de forma tão íntima, os olhos fechados em total abandono.

"Como se atreve?Você não pode ficar assim, não pode ser tocado desse jeito!Não estamos no clube!"

Queria sacudir a cabeça bem forte, até que aquela imagem simplesmente pulasse fora e ele pudesse joga-la no lixo.Mas a verdade é que não conseguia, mesmo com tanta revolta, seus olhos não abandonavam a imagem.

"Maldito!Só eu posso te tocar assim!"

Parou, a mão sobre a boca, em sinal de choque.Não verbalizara uma única palavra, entretanto, não acreditava no que acabara de pensar.

"Que raios?Eu gosto da Haruhi,HA-RU-HI!"

"Então, porque o ciúme?"

"Não estou com ciúme!"

"Está sim."

"Não estou!"

"Está."

-Não!

Olhos castanhos e ambarinos o encaravam.Os primeiros, nada mais demonstravam além de óbvia surpresa porém, o olhar de Kaoru revelava tanta coisa, medo; culpa; solidão...e, acima de tudo, dor, muita dor.

-Hikaru...

Era uma súplica, um último pedido feito num fio de voz, mas que só serviu para quebrar o triste encanto.O gêmeo desesperou-se, não podia ficar ali, não com aquele olhar sobre si, não com aquela dor.

"É tudo culpa sua!"

"Eu não queria..."

Correu, desembalado, tropeçando a cada passo.Não via aonde ia e, sinceramente, nem queria ver, só desejava se afastar o mais rápido possícel. Corria como se sua vida dependesse disso, e assim continuaria, nem que fosse preciso ir até o fim do mundo, faria de tudo para tirar aqueles olhos de si.

Não percebeu as lágrimas que derramava, tampouco a mata que ficava mais e mais densa.Em sua mente, uma única frase.

"Gomen ,Kaoru...gomen..."

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Agradecimentos especiais a : Carol Freitas, Valkiriah e TazChan

Pelas opiniões sinceras e palavras de apoio!Muito obrigada mesmo!

E aos que lêem mas ñ comentam, obrigada assim mesmo!

Espero estar agradando u.u'

Bjs!