Ela parecia um anjo. Foi a primeira coisa que escreveu. Não parecia poder ser qualquer outra coisa. Foi a primeira frase que veio em sua cabeça.

Ela parecia um anjo, e agora é mesmo um anjo. Era o que mais o magoava naquela história.

Já a tinha visto, mesmo antes de serem apresentados. Foi no dia em que chegou a pacata Alameda dos Anjos. Muito diferente dos lugares onde já passara onde tudo era grande, alto e majestoso. Era uma cidadezinha litorânea, onde todos pareciam felizes, saudáveis, louros e bronzeados. "Um comercial de margarina ambulante", pensou, lembrando que estava de má vontade naquele dia. Não estava satisfeito em ter saído de sua cidade, deixado o seu colégio e seus amigos, ale de sua popularidade conquistada depois de anos dedicados ao futebol e as artes marciais. Estava pensando em como poderia ser naquele lugar, em como seriam as regras do jogo. Tudo parecia provinciano demais para ele.

Depois de arrumar algumas coisas, seu pai sugeriu a ele que andasse e começasse a conhecer os lugares que mais poderiam lhe interessar. Pelo pouco que soube antes de se mudarem, pensou que não seria nada mais que um parque e um centro para jovens. Deste centro esperava menos ainda. Na realidade, pouco sabia o que esperar dali. Sabia apenas que o lugar valorizava muito as artes marciais... e então era nisso que iria se apoiar. Afinal não tinha saído de onde morava para ser um qualquer onde estava agora. Claro que para isso ainda precisaria esperar o primeiro dia de aula, conhecer as pessoas certas para chegar onde queria. Ainda era sábado, mas lembrou que já pensava em como fazer uma aproximação.

Estava andando pelo "tão falado" parque enquanto pensava nisso. Achou o lugar bonito, mas bem parecido com o clima da cidade. Um bom lugar para treinar, ou espairecer quando fosse preciso, mas estava focado na manutenção de sua popularidade. Planejamentos, antecipações de conversas, possíveis respostas para perguntas... algo que exigia concentração máxima devido a grande importância que isto sempre teve em sua vida.

Isso durou até ver algo que lhe dissipou todo o foco. Nada que pudesse ser tão especial num primeiro momento, se pensasse bem, mas que não importou naquela hora: uma garota estava sentada, de costas para ele, olhando em direção ao campo.

Ela estava de costas pra mim. Não pude ver seu rosto. Os cabelos eram compridos, lisos e muito negros... tão brilhantes que pareciam até azuis. Escreveu, lembrando-se da primeira vez em que a viu. Mal pude vê-la. O lugar onde estavam não era nada favorável a uma observação sorrateira. Pelo pouco que seus olhos sagazes puderam captar, era magra, usava uma roupa preta e sem mangas. Nada mais que isso, e tais pequenos detalhes só fizeram aguçar sua curiosidade.

Pelo pouco que pôde perceber, ela não estava em posição sensual. Também não se mexia e nem dava sinais de que pretendesse sair dali. Seja o que fosse o que estava olhando, parecia distraí-la bastante.

Desejou poder vê-la, desejou poder ver seu rosto. Odiava mistérios, mas algo ali dizia-lhe para não ser apressado... por mais que não quisesse, era simplesmente uma voz que falava em seus pensamentos. Não queria obedece-la, mas o receio de se apressar a alguma coisa que pudesse acontecer falou mais alto.

Foi embora, tomando seu caminho, enquanto a garota dos cabelos azuis permanecia ali, sentada, alheia à curiosidade que despertou.