"Posso dizer que a quis desde o primeiro momento." Escreveu. Se antes tinha qualuqer preocupação em parecer coerente, isso lhe pareceu agora ser uma grande perda de tempo. A coerência e a aparência em certos momentos eram as coisas erradas a se pensar. Talvez se tivesse deixado suas antigas certezas de lado tudo pudesse ser diferente... tinha plena consciência disso, por mais que todos os que sabiam e ela própria digam que isso não teria feito as coisas mudarem. Ele sabia que sim, que aquele discurso era pura piedade, pura conversa de auto-ajuda, porque amigos ajudam amigos, consolam e querem o seu bem... mas sabe que mesmo que não pudesse ter evitado o destino, poderia ao menos ter feito duas ou três coisas significativas acontecerem.

Naquele dia ela foi embora sem que ele pudesse tomar uma atitude. Sem ao menos que pudesse ver seu rosto. Não, aquele não foi o "amor a primeira vista", como afirmavam pensadores e filósofos desocupados. Por mais romântico que fosse a idéia, Tommy tinha que apelar para a verdade, pois não queria máscaras ou filtros em suas lembranças. Elas deveriam ser tão verdadeiras quanto suas intenções com ela.

No decorrer do dia tentou não dar importância ao acontecido. Afinal não tinha acontecido nada realmente. Só admitiu que foi provocado ao descobrir-se tentando imaginar como era o seu rosto, quem ela era. Durante toda a noite, em meio ao caos de uma mudança, e flagrado pela insônia viu-se tentando imaginar como era seu rosto... mas nenhuma alternativa parecia se encaixar. E assim passou longas horas da madrugada, entre uma adivinhação e muitas indagações.

No dia seguinte, mal humorado e com olheiras, zangou-se com sua recente obsessão, da qual não achava divertida ou produtiva – pelo contrário – e decidiu tentar procurar alternativas para construir uma nova reputação. Continuava decidido a ser popular, afinal não tinha se mudado por vontade própria, e se era pra estar ali não seria no anonimato. O caminho mais fácil para isso era usar o que sabia fazer de melhor: sempre fora um bom atleta. Iria ser o melhor nas artes marciais.

Sabia que ser o melhor não era fácil, e ninguém tinha dito que iria ser, mas afinal tinha persistência e a certeza de que iria dar certo. Nunca deixara de ter o que quis. Sempre alcançara suas ambições. Não seria dessa vez que não iria errar.

Uma semana passou rapidamente. Nada mudou tanto, então estava apenas dando continuidade ao plano de ser "bam-bam-bam" em Alameda dos Anjos. Treino duro era sua alternativa, assim como a concentração, isso incluía ter foco em seus objetivos e apenas neles. Não pensar em mais nada.. aliás sequer precisava se preocupar com outra coisa. Aquela garota nem estava mais em sua cabeça... só de vez em quando... entre um golpe e outro, um soco, um chute, nas noites de sono...

"Por mais que eu tentasse eu não conseguia deixar de pensar naquele enigma de como era o seu rosto." Riu-se ao lembrar, e hoje sabia que não era mais um capricho seu. Ela merecia todos os pensamentos que pudesse ter, todas as horas que achara que perdera no início. "Nunca foi perda de tempo."

Estava batendo no saco de areia, despejando antigas e atuais frustrações quando a viu novamente. De costas, mas era ela, tinha certeza. Os cabelos não deixavam dúvidas... mas estava conversando com um rapaz alto, forte.

"Será um amigo? Um namorado? Quem é ele?" pensou. E antes que pudesse refletir sobre algo, descobriu-se parado, observando-os como se fosse um namorado ciumento ou uma criança que segue a menina que gosta em segredo, com olhos arregalados.

"Meu Deus... o que estou fazendo?" balançou a cabeça, descrente de sua falta de atenção, decidido a golpear o saco de areia... mas bastou voltar a olhar e os dois tinham sumido. A garota dos cabelos azulados e o intruso.

"Droga!"