A noite não foi fácil. Era ruim querer alguma coisa, desejar intensamente sem saber exatamente o que era o objeto desejado. Não que aquela garota fosse um objeto. Claro que não... mas como mais poderia considerá-la se não havia sequer um rosto para lembrar? Nada para que aqueles cabelos azuis pudessem servir de moldura. Era muito vazio não ter do que se apegar em momentos como aquele.
E aquele cara? Quem era aquele cara que estava com ela? Ainda era o principal foco dos seus pensamentos. Nunca pensara que poderia sentir ciúmes de alguém que nem rosto tinha. Condenou-se por isso... mais parecia uma loucura, uma doença. Quem mais teria problemas como aqueles?
"Não posso esquecer dos meus objetivos." pensou. Sabia que não conseguiria nada ali se continuasse sendo um qualquer, um ninguém. Não queria continuar pensando no que pudesse distraí-lo. Nem podia. Não era um qualquer.
Eu não podia ser um qualquer. Não era um direito meu. Não tinha nascido pra isso.
E assim veio o dia seguinte, e mais um dia, e mais outro sem que nada mudasse. Esforçou-se para esquecer: não podia continuar assim.
Meus dilemas continuaram por alguns dias escreveu. Alguns, na verdade poderiam ser poucos mas para ele, principal elemento imerso na situação, pareceu uma verdadeira eternidade.
Haveria uma competição de artes marciais. Oportunidade perfeita para os seus planos principais se concretizarem. Não temia os adversários porque sabia – modestamente – que iria vencer. Assim, teria a sua popularidade, e seria muito mais fácil buscar os outros objetivos. Ainda pensava na garota, mas tentava se controlar, pensava que seria muito mais fácil descobrir quem ela era se tivesse o mesmo "poder" que sempre teve. Então precisava ter paciência... muita paciência e treinar. Assim teria uma chance... por ela, por ela...
Treinou durante dias e dias. Sempre sozinho porque além de não conhecer ninguém o suficiente para confiar o seu treinamento, preferia não mudar o que sempre dera certo. De qualquer modo espancar o saco de areia era terapêutico: frustração por não ter o que queria, não saber o que desejava no tempo que era o certo. Demorar tanto... não estava acostumado a demora... mas resolveu dar crédito, afinal, quanto mais tempo, mais valor.
Os dias passaram rapidamente, até tudo começar a clarear. A competição iria começar dentro de alguns minutos e Tommy estava sentado, sozinho se preparando: um alongamento, aquecimento, alguns socos e chutes no ar. Pouco olhava para os lados, embora a vontade de encontrá-la, às vezes, superasse sua concentração. Olhava para o público, para a pequena arquibancada improvisada e quem simplesmente estivesse de pé, cercando o tatame... mas não encontrou ninguém. Viu algumas garotas bonitas, outras nem tanto... a maior parte delas certamente estava cercando os lutadores, procurando os vencedores para alguns beijos, ou até mesmo um namoro depois da luta. Sabia que isso acontecia, e por mais interior que fosse, Alameda dos Anjos deveria ter esse tipo de coisa. Era impossível que não tivesse... tornaria as coisas muito mais chatas se nem isso pudesse encontrar de familiar.
A luta começou. Sentado, assistiu os competidores sem achar nada de especial em algum deles. Nenhum golpe em especial, nenhum trunfo secreto. Tudo lhe pareceu muito amador e Tommy não via necessidade de se esforçar muito para enfrentá-los. Bem mais fácil do que pensava... não parecia nem mesmo merecer sua atenção, mas isso durou apenas até encontrar alguém: um rapaz alto, cabelos curtos, feições de bonachão... e sabia que já vira aquele rosto em algum lugar...
É ele! Ele estava com ela! pensou, articulando um sorriso de canto de boca. Vira bem o rosto dele enquanto estava no parque. Se ele está lutando, ela deve estar aqui !
Saber disso lhe deu um novo ânimo. Logo entraria no tatame: precisava de concentração para lutar. Precisava impressioná-la.
