- Tudo bem, "Jase"? – ouviu a voz melódica soando como se fosse o único som que houvesse por ali.
- Tudo bem. – respondeu ele, com um sorrisinho mixo, decepcionado. Certamente não estava muito feliz com a derrota, mas conformado com a situação.
- Você foi muito bem. – ela disse, parecendo entusiasmada.
- Você acha?
- Acho sim.
Havia sinceridade em suas palavras, não eram apenas um discurso qualquer de consolo ou algo do gênero. Logo vários outros se juntaram aos dois, cercando-os. Eram amigos, e eu mal sabia que seriam eles que me salvariam.
Mesmo com a chegada de mais três pessoas, ele ainda conseguia vê-la. Bela, o rosto delicado, o jeito carinhoso mas sem pena com que tratava o outro rapaz, sem se importar com o resultado de uma luta mal sucedida. Por um momento muito breve, Tommy quis ser outra pessoa, para receber aquela atenção. Durou pouco porque Jason foi em sua direção, como um bom competidor, cumprimentar o oponente por sua vitória. Tommy nunca tinha entendido aquele tipo de atitude, mas naquele dia aceitou sem qualquer estranheza os elogios e o aperto de mão. Não soube se conseguiu disfarçar a desconfiança, mas ainda assim o fez, só para ter a chance de vê-la mais de perto. Ela não era a única perto de seu aniquilado adversário: havia mais uma garota e dois outros caras, aparentemente amigos fiéis, mas não lhes deu atenção suficiente a ponto de descobrir nomes ou detalhes, apenas o suficiente para distinguí-los entre qualquer multidão, mais tarde quando precisasse. A única que lhe despertava atenção era ela.
Olhei em seus olhos. Eram belos, cheios de mistério. Não havia absolutamente nada de comum ou trivial. Era exótico. Uma combinação que eu nunca tinha visto na minha vida. A mais bela do mundo.
Talvez não fosse tão bela quanto pensava. Afinal, tiveram muitas garotas em sua vida, e sempre as mais desejadas fosse do bairro, do colégio ou do clube. Mas ela era diferente. Era exótica, incomum, uma flor rara daquelas que só podiam ser vista uma vez a cada década, como ouvira naquelas aulas chatas de biologia (seria menos? Um ano talvez? Era melhor não pensar nisso).
Com toda a paciência do mundo e até mesmo uma certa falsidade, ouviu os cumprimentos de todos. Do rapaz nerd de óculos, do negro cheio de graça, da ruivinha que até lhe atraiu numa primeira visão e do adversário cansado. Tudo isso até chegar a ela.
- Parabéns, foi muito bem na luta. – disse, com voz suave e melódica. – Você tem talento.
Viu um sorriso brotar de seus lábios. Nada muito expansivo, mas sabia ser sincero. Em anos de falsidade e aparência, sabia muito bem distinguir uma coisa da outra. Não era raro ouvir o que ela disse, mas não na voz de uma garota, ainda mais com absoluta franqueza e sem interesses ocultos. Tommy respondeu a eles qualquer coisa. Talvez tivesse elogiado o rapaz porque afinal tornara a luta difícil. Não era comum elogiar adversários mas ele talvez merecesse. Qualquer forma de prolongar o assunto, para ter aquela garota em sua frente por mais alguns minutos eram válidos. Talvez mais tarde se sentisse ridículo por isso, mas teria valido a pena alguns segundos do que poderia parecer humilhação ou fraqueza há poucos dias atrás. Valeu a pena porque ela agora tinha rosto e voz. Ainda não tinha um nome, mas isso poderia ser descoberto outra hora.
Ela tinha voz. Rosto. Agora eu sabia. Era de verdade. Eu não estava louco. Ela existia.
