As lembranças já não tão mais vivas, escreveu.

Não estava se referindo a Trini. Não. Dela jamais se esqueceria, nem que se passassem mil anos. Ela talvez fosse a lembrança mais viva de toda a sua existência. Referia-se a um período que permaneceu nebuloso por muito tempo, e que quando se lembrou simplesmente preferiu esquecer.

Preferia, mas sabia que não seriam esquecidas. Apenas abrandadas pelo tempo. Sabia que não deveria esquecer, pois de certa forma deveria agradecer aos céus por tê-lo vivido. Sem isso talvez sua aproximação com ela fosse apenas daquelas poucas palavras trocadas após o torneio. Não sabia como teria sido se nada tivesse acontecido. Apenas um punhado de hipóteses. Inúteis a esta altura dos acontecimentos.

Não pense nisso! Disse a si mesmo, tentando lembrar do que ela lhe ensinara. Viver o presente, pensar no futuro, lembrar do passado mas sem dúvidas. Um olhar sereno sobre sua trajetória. Uma filosofia puramente dela, mas que sem ela por perto não tinha qualquer sentido. Tentava seguí-la, mas certamente não era fácil. Eram hipóteses demais, arrependimentos demais. Peso demais.

Ainda assim tinha sido necessário passar por aquilo, seu encontro com o mal. Uma de suas faces, certamente que lhe transformara em um ser que serviria aos objetivos escusos de uma corja. O ranger do mal, o ranger verde. Quem diria, logo ele que não acreditava em heróis e monstros... ser um deles! Imagine! Se alguém tivesse lhe dito isso, daria risadas achando que fosse uma piada. Sabia que os rangers existiam, pois de um modo ou outro sempre eram notícias... mas achava que fosse um bando de idiotas sem vida própria, sem recompensa e mais nada.

Mas foi o que aconteceu. Transformou-se em um deles, mas alguém que deveria destruí-los. Passara por inúmeras batalhas, confrontando-os, chegando perto de destruí-los e de ser destruído. Até que um dia isso acabou sem que o pior acontecesse. Foi salvo, acordado de qualquer feitiço que o comandasse naquele momento onde se transformava em um monstro... justamente por eles. Por ela, Trini também estava lá.

Ela me salvou de todas as formas... mesmo que não soubesse disso.

Não imaginava se ela sabia disso. Mas agora tinha certeza que sim. Agora ela estava em posição de saber todas as coisas. Tommy costumava esquecer disso, apesar de ser a sua maior mágoa, e o seu maior arrependimento.

Fizera o mal naquele período. Causara destruição. Foi um instrumento que obedecia as vontades do lado errado da briga. Tristeza, raiva, traumas e arrependimentos.

E a vida não é feita disso?

Tommy ainda podia ouvir a voz suave dela dizendo isso, em algum momento qualquer onde remoia seu passado.

Há males que vêm para o bem. Respondeu, concordando com ela, embora naquele momento ela talvez não o compreendesse. Foi o mal que o aproximou daquele grupo que lhe deu, finalmente boas razões para viver.

O prazer de fazer a coisa certa. Amigos de verdade. Um amor eterno.