Moira
Segunda Parte
Capítulo 1 – Morte Súbita
7 anos depois
A manhã estava quente, mas não muito. Havia uma densa nebulosidade que sufocava o sol, inundando tudo de um branco leitoso que apagava as linhas do horizonte, e o mundo inteiro era como uma ilha isolada, sem sol, sem nuvens. Talvez ao norte houvesse vento, quem sabe chuva, e ao sul um pouco de sol nos campos. Em Londres podia estar fazendo frio. Mas não ali. Ali havia apenas o clarão abafado de uma redoma completamente branca.
Draco afrouxou o colarinho da camisa enquanto fingia escutar o médico. Olhava para os jardins lá em baixo, por entre as colunas do corredor que caminhava, escutando as conversas baixas, as vezes um grito, as vezes um silêncio súbito, como se todos tivessem de repente perdido a vontade de falar. Era até certo ponto agradável a atmosfera serena e clara daquele lugar, onde todos usavam roupas brancas, e os pacientes usavam roupas brancas, e as paredes eram pintadas de branco, e os lençóis e as toalhas eram brancas e possivelmente as calcinhas das enfermeiras também eram brancas. Talvez, ele pensava, fosse para cegar a mente deles. De todos aqueles loucos. Quem sabe se não vissem, se não houvesse cores em seus olhos para ver, não reagissem a nada. Ele nunca tinha ouvido falar de um cego louco, não é? Ora, mas quem sabe...
"...no entanto eu gostaria, se a família estiver de acordo", dizia o médico, "que ela ficasse um pouco mais. Ainda notamos um..."
"Estou de acordo", disse Draco secamente, virando-se para ele. "Veja bem, só não passo minha mãe para o nome de vocês porque eu perderia a parte dela na herança de meu pai", isso ele disse num sussurro entre um sorriso jovial que tirou qualquer profissionalismo do médico e ambos ficaram se olhando, um leviano, o outro sem ação. Draco indicou com um movimento de cabeça o final do corredor às costas do médico, "Ali vem minha esposa. Fale com ela sobre os detalhes e as despesas. E lembre-se que minha mãe terá tudo que quiser, seja o que for."
Antes de dar as costas ao médico, Draco estendeu a mão casualmente para a criança que vinha depressa pelos corredores a seu encontro. "Não corra", disse ao garoto num tom ácido.
Juntos eles desceram a escadaria externa do prédio que levava aos jardins. Naquela manhã, muitos pacientes pareciam ter sido levados para fora, talvez pelo calor, talvez por ser um dia estranho. Draco lembrou sem muita emoção das baratas, que num ambiente muito quente saem de seus esconderijos como que acuadas. Alguns grupos de pacientes caminhavam entre as árvores, outros estavam sentados na grama bem aparada enquanto os enfermeiros liam para eles, outros recebiam familiares e amigos em mesinhas de ferro branco perto do lago, como Narcisa, que estava sentado numa cadeira, vestia uma camisola (branca) e tinha os cabelos muito claros e compridos roçando seus cotovelos numa trança destoante. Mas todos estavam estranhamente calmos. Estranhamente calmos para loucos.
Quando viu Narcisa, o garotinho ameaçou correr, mas algo ainda recente em sua mente o segurou e ele percorreu todo o caminho até ela ao lado do pai, a passos sob medida.
"Olá, meu rapaz", disse Narcisa com um sorriso elegante, tocando no rosto do garoto. Draco parou ao lado dele, sem parecer ter a menor intenção de se sentar em nenhuma das três cadeiras que rodeavam a mesa.
Nitidamente mais envelhecida, Narcisa dava ares de burguesa. Sua pele muito branca e suave tinha algumas rugas, mas não o suficiente para a tornar uma mulher menos exuberante, e seus cabelos sempre muito bem penteados, mesmo naquela claridade opaca, brilhava mais do que suas roupas alvas. O azul dos olhos ainda era limpo como o de uma criança, embora o sorriso fosse agudo como o de uma raposa.
Ela recostou-se no acento da cadeira e observou o garoto com olhos analíticos. "Vejo que você está deixando o cabelo dele crescer", disse à Draco.
Mas foi o garoto quem respondeu. "As meninas gostam, vovó."
"Ah, não me diga", disse ela com um sorriso. "Você tem muitas namoradas?"
"São só garotas", disse ele dando de ombros, e olhou para o lado para comprovar a desimportância do assunto.
Draco encostou-se no tampo da mesa, atraindo os olhos da mãe pela primeira vez naquela visita.
"Onde está Rebeka?", perguntou ela.
"Conversando com os médicos."
O garoto pareceu interessar-se por algo perto das árvores e caminhou distraidamente para lá. Narcisa aproveitou para dizer: "Essa mulher ama mais a mim do que você."
Ele sorriu.
"Quanto tempo mais ainda me deixará aqui? Eu não estou louca, Draco!"
"Narcisa", cantarolou Draco, mas mudou imediatamente o tom da voz para um murmúrio ríspido e controlado, "Quando meu pai era vivo, mantínhamos você dormindo para que não visse e nem atrapalhasse o dia-a-dia da casa. Mas você insistiu. Você quis ficar acordada e ninguém, Narcisa, ninguém que fique acordado naquela casa consegue suportar. Além do mais, aquela não é mais a sua casa. E você não tem mais onde morar."
"Me compre uma casa então", sibilou Narcisa.
"Aqui é mais barato."
Narcisa cuspiu nos sapatos bem envernizados de Draco. "É você quem deveria estar aqui, Draco. Você é perturbado. Tenho pena de Scorpius, ainda tão pequeno, e já fala como você, e pensa como você...trata as mulheres como se fossem objetos, coisas que levam para a cama, brinquedos para distrair. Como se não fossem nada mais."
Draco deu a volta na cadeira de Narcisa e disse devagar em seu ouvido, "Porque deveriam ser?"
"Eu tinha esperanças de que Rebeka o fizesse mudar de opinião. Que se você a amasse..."
"Ah", fez Draco, sentando ao lado dela e balançando a cabeça, "viu? Você enlouqueceu. Fui criado por você e Lúcio, e veja só, não reconheço mais meus pais", e como se isso fosse uma piada estranha, ele riu franzindo as sobrancelhas. "Sabe", ele se inclinou para a frente, ficando mais perto dela, "sabe, Narcisa, isso tudo me deixa muito desolado. São apenas pessoas, por favor. Veja, olhe ao seu redor. São só...coisas, coisas entre tantas outras coisas. O ser humano enxerga demais, inventa, acredita. Não, não, chega disso, estou farto disso. Não gosto de tratar ninguém como se importasse, no fim das contas somos fáceis de esquecer."
"Ah, sim. Venha cá, Rebeka, traga um champagne", Narcisa olhou por sobre os ombros de Draco. "Vamos fazer um brinde."
Draco não se deu ao trabalho de se virar quando Rebeka se aproximou e pousou uma mão em seu ombro como se catasse ali uma borboleta. Usava um vestido fino de verão, preto, cujas alças finas deixavam à mostra os ossos delicados que delineavam a linha de seu pescoço e ombros. Os cabelos soltos faziam curvas perfeitas ao redor de seu rosto fino.
"Ao aniversário de Scorpius?", perguntou Rebeka sonsamente.
"Não", resmungou Narcisa. "Ao único homem que não é hipócrita nesse planeta. Seu marido."
"Providenciei sua transferência para os quartos do terceiro andar", anunciou Rebeka, "São mais arejados e maiores. E pedi ao Sr.Drew que a deixasse à vontade para passear pelos jardins e que comprasse todos os livros que a senhora quiser ler. Hoje mesmo trouxe alguns de nossa biblioteca."
"Façamos um brinde a você também", falou Narcisa com desinteresse, virando os olhos para os lados que Scorpius tinha ido. Seu semblante turvou-se "Ao fim da hipocrisia. Ah, veja. Ele achou uma amiguinha."
Draco seguiu o olhar da mãe. Debaixo da sombra das árvores, Scorpius conversava com uma mulher. Ela era jovem, não aparentava ter mais do que vinte anos e sua pele muito branca parecia fresca mesmo ao mormaço abafado do dia. Estava sentada sobre uma toalha de piquenique e tinha um livro nas mãos. Scorpius colocava devagar uma margarida entre seus cabelos vermelhos. Ele lhe disse algo e se afastou. A moça ergueu os olhos e encontrou os de Draco.
Vendo a expressão do filho, Narcisa comentou: "Me parece que esta ficou o tempo todo acordada."
Alguns meses depois.
Harry colocou o dedo médio e indicador na jugular da moça e ficou alguns segundos em silêncio antes de anunciar aos outros: "Está morta."
Um suspiro cansado deu lugar ao silêncio do quarto. Em seguida os aurores se movimentaram no cômodo, afastando móveis, dando espaço para os peritos. Harry saiu do quarto e desceu para a sala, onde o Sr. Hansen esperava, sentado numa poltrona de brocado vermelho, enrolado num roupão verde musgo e com uma xícara de chá de camomila numa mão trêmula. Harry fez um gesto discreto de cabeça para que Tonks contasse ao homem sobre a morte da filha, e depois de um momento de dor e lágrimas, Harry se aproximou, sentando-se na poltrona à frente do Sr. Hansen.
"Senhor Hansen", começou Harry num tom pacífico, "pode responder para mim algumas perguntas?"
O homem ofegou, escondendo o rosto nas mãos enrugadas, e assentiu devagar.
"Meus pêsames", disse Harry o olhando francamente. "Pode, por favor, contar novamente o que o senhor e sua filha faziam antes de..."
"Tínhamos voltado de um passeio na praça. Ela estava bem, não parecia sequer cansada. Eu fui para o banheiro tomar um banho, e ela entrou no quarto para se trocar. Depois eu saí do banho e ela continuava lá, eu a chamava pra descer, íamos almoçar, mas ela não vinha. E quando entrei no quarto ela estava caída no tapete, como vocês a encontraram."
Harry ouviu tudo com uma atenção imperturbável. Não parecia haver nenhuma falha no relato do Sr. Hansen, e aparentemente motivo algum para que sua filha tivesse morrido subitamente. Ele disse isso ao homem.
"É essa sua palavra final?", perguntou o Sr. Hansen.
"A palavra final do Ministério", disse Harry, "só será dada quando todos os procedimentos tiverem sido seguidos."
Em pé ao lado do homem, Tonks crispou os lábios. Ela segurava a xícara agora vazia do Sr. Hansen e parecia ligeiramente impaciente. Lá em cima, os peritos ainda trabalhavam, e Harry levantou, pedindo licença ao Sr. Hansen.
Quando saíram da casa, Tonks disse: "Com ela, agora são cinco."
"Está indo depressa demais."
"Isso não faz sentido nenhum. Ela também não tem sinais de briga, alterações físicas...Harry, acha que é Magia Negra?"
Ele passou uma mão pela nuca, pensativo. "Não", disse, e fez uma pausa hesitante. "Esses casos não têm relação alguma entre si, as vítimas não foram envenenadas, nem tocadas, elas simplesmente morreram por si só."
"O que mais me intriga são os locais", disse Tonks, cruzando os braços enquanto atravessavam a rua, passando pela equipe de repórteres que se amontoavam no espaço estreito do portãozinho que dava para os jardins da casa.
Quando os viram sair, os repórteres se viraram depressa, tirando fotos e avançando com penas e anotações em direção à Harry e Tonks.
"Pode nos esclarecer o motivo da morte, Senhor Potter?", perguntou um rapaz franzino de nariz aquilino. "Foi mesmo Magia Negra?"
"Segundo a Confederação Internacional de Magia no último congresso do ano, os assassinatos desde Maio têm relação entre si, isso é verdade?"
"Não são assassinatos", disse Harry sem os olhar, atravessando a calçada com Tonks ao seu lado e os repórteres os seguindo como abelhas enfurecidas. "Você sabe o que é um homicídio", ele olhou de relance para a mulher que lhe fizera a pergunta, "Rita Skeeter? Morte de uma pessoa praticada por outrem, o que não é o caso, como foi muito bem colocado na edição de dez de Abril pelo seu colega Edward Chris."
"Mas são mortes", objetou Rita Skeeter, fazendo sua pena se agitar na folha de anotações que flutuava em meio à confusão de cabeças, "mortes sem causa, logo presume-se que..."
"Eu não presumi nada", declarou Harry em tom de fim de conversam, virando-se subitamente para Rita Skeeter. "Mas se você quiser fazer parte do corpo investigativo do Ministério temo que precise estudar para as provas específicas, Senhorita...Senhora Skeeter", e com um sorriso leviano, desaparatou com Tonks.
"Como eu estava dizendo, Harry", falou Tonks enquanto saíam da cabine telefônica do Ministério e se fundiam ao fluxo de pessoas que enchia o hall, "os lugares são muito distantes. Este é o primeiro que acontece na Inglaterra, todos os outros quatro foram em outro país. É como uma epidemia."
"Uma epidemia de mortes", murmurou Harry, sombrio.
"Devíamos passar o caso para um departamento superior", sugeriu Tonks entrando num dos elevadores.
Harry ficou do lado de fora e fingiu não ouvir, "Vejo você depois do almoço", disse, e se afastou.
Infelizmente Tonks podia estar certa. Talvez fosse um caso para patentes superiores, e não estivesse nas mãos deles resolvê-lo. Podia envolver coisas muito mais delicadas, e Tonks já estava no Ministério tempo o suficiente para saber a hora de sair de cena. Mas alguma coisa naquelas mortes estava o incomodando mais do que de costume. Era como se ele já tivesse visto aquilo antes, uma espécie de déjà-vu sinistro, algo típico dos misticismo de sua antiga professora de Adivinhação, Sibila Trelawney, apenas não conseguia fazer nenhuma ligação ainda.
Atravessou o hall e entrou por um corredor amplo com iluminação baixa que terminava num portal de mármore verde. A biblioteca do Ministério era três vezes maior que a de Hogwarts, com um pé direito tão alto quanto um prédio de dez andares e lustres de cristal que enfeitavam o centro de cada entrelace de gesso no teto. Janelões enfeitiçados para mostrar sempre a luz do dia enchiam tudo de uma claridade que lembrava a Harry o genuíno espírito da sabedoria: mesmo quando era noite lá fora, ali sempre era dia. Ele apontou a varinha para as milhares de prateleiras e murmurou:
"Pervideo Morte Súbita".
Cerca de setenta livros saíram de diversas prateleiras e pousaram sobre uma mesa redonda, abrindo-se automaticamente nas páginas que continham a expressão procurada. Harry se aproximou, olhando com cuidado os primeiros da pilha. Depois passou para os debaixo, afastando os já lidos para o lado, mas não conseguia achar nada interessante que fizesse sentido. A morte súbita era citada como conseqüência de sustos muito perturbadores, ataques cardíacos, envenenamentos, choques repentinos, mas nenhuma morte súbita era realmente súbita. Sempre havia uma razão. Aquilo não estava ajudando.
Ele olhou para a mesa e suspirou, perdendo o pouco do ânimo que tivera ao entrar na biblioteca. Não chegara sequer na metade dos livros.
Ela olhou para o enorme relógio de planetas no alto da coluna principal do prédio de Gringotes. Era meio dia em ponto, e não tinha terminado a contabilidade. Gridlow ignorava sua impaciência, contando pacientemente galeões. Seus óculos quadrados escorregavam para a ponta de seu nariz agudo e ele o empurrava para cima num intervalo milimétricamente calculado a cada vinte galeões que jogava no caixa. Gina tentava o acompanhar mas as mãos do duende se moviam tão depressa que a deixavam com náuseas. Por vezes ele erguia os olhos miúdos e a lançava um olhar reprovador e seco que a indignava.
"Você está com fome, senhorita Weasley?", perguntou ele de repente em sua voz ranhosa.
Gina deu de ombros.
Ele deu uma risada estranha. "Porque acho que hoje você só vai jantar, se continuar nesse passo."
Com uma pancadinha de triunfo, Gina fechou o caixa e sorriu. "Ora, ora, Gridlow. Me parece que vou almoçar ainda antes de você", ela levantou e apanhou a bolsa, "Quer que eu traga uma fatia de pudim de amoras?"
Gridlow contraiu as orelhas com repugnância. Suas narinas se dilataram como se ele fosse bufar, mas de repente uma sombra o cobriu, o fazendo virar para o balcão, recomposto.
Uma mulher jovem estava parada ali. Para Gina, a beleza dela era desnorteante, como que saída de capas de revistas trouxas, mas para o duende Gridlow ela desconcentrava tanto quanto um rabanete fatiado. Ele a encarou.
"No que posso ajudá-la?", perguntou.
"Gostaria de fazer um saque."
"Tem conta no banco?"
A mulher se ofendeu. "Ora, se não tivesse não estaria aqui!"
"Qual cofre?"
"Meia meia meia."
Gridlow virou-se para Gina. "Cofre meia me..."
Gina levantou-se, sem deixar o duende terminar, e foi para os fundos do balcão procurar a chave. Que espécie de gente escolhia um número daqueles para cofre?
"Aqui está", disse ela, entregando a chave para Gridlow.
Apenas como um gesto simpático, Gina olhou para a moça e sorriu. A outra retribuiu, embora não com muita vontade. Algo breve passou pelos olhos dela, que pareceu prestes a dizer alguma coisa, mas Gridlow desceu de sua cadeira e passou para o outro lado, tossindo e dizendo:
"Vou guiar a senhora até..."
"Ah, sim, já, já sei", falou ela abanando a mão, "Escute, gostaria de descer sozinha até o cofre."
Gridlow piscou.
"Meu filho", murmurou a mulher, parecendo óbvia.
"Seu filho", fez Gridlow, olhando para os lados, "...onde está seu fi..."
Foi rápido demais para Gina entender. Gridlow estava parado ao lado da mulher, segurando a chave dourada do cofre 666, olhando distraidamente para os lados, quando no segundo seguinte a mulher estava parada sozinha na frente do balcão, e Gridlow corria pulando e gritando pelo saguão, com um fio de fogo saindo de sua bunda. E logo Gridlow estava voando pelos ares como um balão estourado, rodopiando, dando rasantes sobre as cabeças das pessoas. Gina achou que aquilo não teria fim, até que finalmente ele girou depressa em círculos e caiu com um baque surdo de ponta-cabeça no chão.
Um silêncio tenso pairou em Gringotes, mas não durou muito. De repente uma risada aberta encheu o saguão, e Gina olhou pela primeira vez para baixo. Uma garota de mais ou menos 6 anos estava ajoelhada no chão perto do balcão com uma espécie de rojão na mão. Sua gargalhada era maravilhosamente franca.
"Que criança absolutamente adorável", disse Gina para a mulher, "Eu fico com ela."
Gridlow se levantou gritando palavrões e sem esperar por ninguém saiu em direção aos cofres. A mulher pigarreou e o seguiu.
Aos poucos as pessoas voltaram às suas coisas, e Gringotes encheu-se novamente de vozes e tilintares de moedas.
Achando mais seguro passar para o outro lado a trazer a criança para dentro do balcão, Gina saiu, fechando a passagem às suas costas e trancando o caixa com um movimento de varinha.
"Eles são feios", disse a criança.
"Tenho que concordar com você."
Quando ela ficou de pé Gina consertou sua primeira impressão; talvez fosse mais velha, e não era uma garota. Era um garoto estranhamente bonito e peculiar, com grandes olhos cor de água, crentes demais para esse mundo, e cabelos de um loiro pálido que passavam de seu queixo e roçavam seu pescoço. Usava uma camisa cor de vinho, calças bem engomadas e sapatos caros, tudo combinando harmoniosamente com seu nariz aristocrático.
"Scorpius", disse Gina, "quer ir comigo comer um doce?"
Ele ficou sério. "Como sabe quem eu sou?"
Eles começaram a atravessar o saguão.
"Você não se lembra de mim, mas ganhei de você uma flor."
"Não dou flores para mulheres", declarou ele.
"Oh", fez Gina.
Ele ficou em silêncio, depois ergueu os olhos e pareceu a avaliar por um instante. "Mas para você talvez eu tenha mesmo dado."
Ela sorriu.
"Que tal aquela?", perguntou Gina.
Scorpius inclinou-se sobre a vitrine. Seus cabelos quase brancos irradiavam uma luz delicada na claridade do dia.
"Aquilo é morango?", perguntou o garoto. "Eca."
"Hum...Do que você gosta?"
"Chocolate amargo."
"Ah, bem", Gina ergueu as sobrancelhas, "pelo menos você gosta de chocolate."
Ela pediu as tortas no balcão e sentou-se com o garoto numa mesa na calçada. Algumas pessoas passavam, conversando, e por vezes se demoravam um pouco mais em Scorpius, que estava longe daquele mundo, olhando evasivo para algum ponto distante e particular. Gina achava curioso que uma criança daquela idade já chamasse tanto a atenção das pessoas, em particular das mulheres, que o olhavam como que hipnotizadas, desejando secretamente terem um dia um filho tão atraente quanto aquele garoto. Alguns olhavam para o garoto e imediatamente para Gina, tentando fazer alguma ligação lógica, mas não havia nenhuma. Não eram sequer meramente parecidos.
Ele havia crescido alguns centímetros desde a primeira vez que o vira, mas mudara a ponto dela não o ter reconhecido de imediato. Seu rosto aos poucos ia deixando os traços infantis, seus olhos perdiam devagar a inocência azul clara, mas nada muito evidente, afinal, ele ainda era apenas uma criança.
Quando começou a ver no perfil de Scorpius algo familiar, Gina desviou instintivamente os olhos.
"Você já deve ter ouvido falar de Hogwarts", disse, olhando os transeuntes.
Ele voltou-se para ela. "Meu pai sempre me fala."
"Estudei com seu pai."
O garoto pareceu misteriosamente interessado.
"Você era da Sonserina?", ele perguntou.
"Não. Não era."
"Ah" fez ele, como se isso encerrasse a questão.
A garçonete trouxe as tortas e as colocou sobre a mesa. Scorpius recebeu a sua com desinteresse. Para uma criança ele era incomodamente inerte.
"Eu era da Grifinória. Enfrentei seu pai no quadribol algumas vezes. Gosta de quadribol?"
"Tanto faz."
"Tem algo que goste de verdade?"
Ele sequer refletiu. "Não."
Gina estava vendo que aquela conversa não ia muito longe.
"Seu pai e eu não nos dávamos muito bem."
"Agora se dão?"
"Não. Nunca mais nos vimos. Já faz muitos anos."
"Não gosto quando vocês adultos dizem isso", Scorpius cutucou a torta com o garfo, brincando com a calda de chocolate. "Já faz muitos anos..."
Gina sorriu. "Mas nesse caso, Scorpius, não é meramente uma expressão."
"O tempo", continuou ele, "não é bem tão linear assim. Quando você fala que o tempo passa, parece que ele é uma linha reta e não vai mais voltar."
"Creio que é exatamente isso."
"Não, não é", afirmou ele, a olhando abertamente. "Ele se monta", e abaixou a cabeça para seu doce, tornando a cutucá-lo, "E além do mais, sempre que minha mãe diz que faz muito tempo, eu me sinto excluído, porque não sei o que se passou com ela durante todo esse tempo que ela fala que passou."
Gina molhou os lábios. "Scorpius", disse ela, se inclinando um pouco para ele, "o que você quis dizer com 'ele se monta'?"
"É só matemática", disse o garoto, provando o primeiro pedaço de torta.
"Não, espere..."
Scorpius sorriu, a olhando. "Meu pai também fez essa cara quando eu disse isso a ele. É uma equação. Ela prova que o tempo não é linear, por isso, pode ser montado. Mas ele não gostou quando usei essa palavra, ele prefere dizer que é permeável. O tempo é maleável. E se você souber andar por ele, pode montar sua vida. E como sua vida é todo o seu tempo, você pode montar o seu tempo. Acho que montar é uma palavra mais legal, não acha? Gosto de montar coisas, quando eu tinha três anos ganhei do meu pai um castelo com peças de cobre..."
Gina deixou seu garfo escorregar devagar para o prato. Aquilo não podia ser, não podia.
"Me fale dessa equação."
O garoto pareceu não entender a seriedade repentina dela. Então ele encostou um dos dentes do garfo na calda de chocolate e começou a desenhar uma linha reta no fundo branco do próprio prato. "Aqui tem uma linha. Se você a dobrar, faz um círculo", ele girou o garfo e desenhou uma bola. "Mas círculos são feitos de milhares de retas. É como o tempo. Ele parece linear, mas é circular. E tem um monte de segmentos."
Gina balançou a cabeça. "Continue."
"Uma base para isso é o pi. Gosto desse número, você conhece?"
"Sim, sim."
"Meu pai disse que já conhecem esse número a muito tempo, mas até hoje ninguém viu o final dele", então o garoto simplesmente sorriu, e disse a Gina em tom de quem conta um segredo: "É porque ele não tem final. Se tivesse, não seria círculo."
"E o tempo seria linear."
"Sim."
Gina olhava para o garoto sem o reconhecer. "Que equação é essa?"
"Ela é gigante!", disse ele.
"Você a fez?"
"Sim, fiz. Meu pai está com ela, mas ele já não a usa mais, já conseguiu o que queria."
O garoto parou de falar subitamente, como se tivesse perdido o interesse na conversa. Gina ficou o olhando, estarrecida, esperando que ele continuasse, mas então uma mão tocou seu ombro e ela se virou. Era Harry. Ele se inclinou para lhe dar um beijo, mas então bateu os olhos no garoto e franziu as sobrancelhas.
"Ela está acompanhada", disse Scorpius.
"Harry, esse é o filho de..."
"O filho de Malfoy", concluiu Harry, se detento um pouco mais ao garoto.
"É", fez Gina, passando a alça de sua bolsa pelo ombro. "Sua mãe já deve ter voltado dos túneis. Vai ficar preocupada se não o ver lá", ela esperou que o garoto se levantasse, então murmurou para Harry, de modo que Scorpius não ouvisse "espere só para ouvir o que tenho para lhe dizer", e dando um rápido beijo em sua boca, atravessou a rua para Gringotes.
Rebeka saiu do coche e fechou a porta com força atrás de si, fazendo Scorpius estremecer. Uma chuva fina de verão começava a cair e umedecia o gramado verde-uva dos jardins da Mansão Malfoy enquanto mãe e filho o atravessavam. A brisa que vinha das montanhas no horizonte distante assobiava baixo e ecoava nas árvores ao redor, do outro lado do enorme portão de ferro retorcido, com dois elegantes emes desenhados, um em cada porta.
Scorpius correu depressa para as escadas como um gato que foge da chuva.
Rebeka o olhou com raiva quando chegou às escadas, o vestido respingado, as ondas voluptuosas dos cabelos desfeitas em mexas disformes. "Não corra!", e pegando-o pela braço, o arrastou para a porta, onde uma serviçal se mantinha, esperando-os entrarem. Quando o fizeram, a porta se fechou e a voz de Rebeka se tornou insuportável, batendo nas paredes altas do monumental hall de entrada, "Juro que não posso saber para quem você puxou. Como pode aceitar doces de qualquer um? Seu pai já lhe disse, eu já lhe disse, podem conter veneno! Mas você não escuta, você é como um cãozinho alegre, sorri para todo mundo, vai com todo mundo!"
"Porque aquela moça iria me envenenar, mamãe?", perguntou Scorpius.
"Chega", disse Rebeca, tocando o sininho sobre a mesinha de apoio, ao lado da chapelaria. "Suba, suma da minha frente."
Scorpius subiu para o segundo andar, e duas moças surgiram pelo vão debaixo da grande escadaria, trazendo toalhas secas. Usavam o uniforme dos serviçais da Mansão e olhavam para baixo o tempo todo. Uma delas fez um momento para enrolar os cabelos de Rebeka na toalha, mas Rebeka tomou a toalha da mão da moça e jogou a bolsa no colo da outra.
"Acendam a lareira."
Ambas correram para a sala ao lado, onde Rebeka acabava de se largar no sofá. Particularmente odiava chuva mais do que qualquer outra coisa em sua vida, porque minguava seus cabelos e estragava seus vestidos, além de derreter sua maquiagem. Não se achava menos bonita por conta desses pequenos acidentes, mas desde que se casara com Malfoy, passara a olhar para si mesma com um senso crítico cada vez mais rigoroso. Ao se mudar para a Mansão, trocou todo o seu guarda-roupa de jovem burguesa para um mais adequado. Agora ela se vestia como uma esposa, como uma mãe. Nada de mini-saias, rabos-de-cavalo, brincos muito exagerados, embora ela jamais tivesse aberto mão dos decotes e dos jeans justos. Olheiras não eram permitidas, unhas sem esmalte eram igualmente vulgares. Ela fazia banhos de rosas a cada três dias, massagens, e encomendava as melhores poções e efusões das casas de Magia Especializada, em Paris, a cada quinze dias. Mas nunca estava totalmente satisfeita, sempre surgia alguma imperfeição em seu rosto, um poro dilatado, um pêlo de sobrancelha mal tirado, ou algo estava errado em sua barriga, em sua cintura, ou no osso de seu tornozelo.
Rebeka fez um gesto leviano de mão e mandou as moças embora, tendo elas acendido a lareira. Ainda chegaria o dia em que todas elas seriam mandadas embora, e poderia ficar finalmente sozinha com seu marido. Era algo que ela sempre pensava, desde que se casara, não conseguira ter uma lua-de-mel descente, porque o tempo todo havia alguém perto, algum barulho, algo estalando, alguma voz vindo de longe. Era uma casa cheia demais. E depois que tivera Scorpius, tudo ficara ainda pior. Não suportava tudo aquilo, o que mais queria era ficar sozinha com Malfoy, sozinha, inteiramente sozinha, para que ele fosse apenas dela, e ela fosse exclusivamente dele, e ela não seria a Senhora Malfoy, ou mamãe, ela seria simplesmente minha querida.
Perdida nesses pensamentos, Rebeka secou os cabelos, depois subiu para o quarto, trocou de roupa, colocando um vestido seco, penteou os cabelos, borrifou um pouco de perfume entre os seios e foi até o escritório de Malfoy, onde ele passava a maior parte dos dias.
Sempre que o via, desde a primeira vez que o vira, ela se sentia bem. Era uma espécie de calor agradável que tomava seu corpo. Ele não era o tipo de homem que passa segurança a uma mulher, porque estava sempre distante, e tratava as pessoas com um descaso que beirava a repugnância, mas algo nele era imprescindível. Olhando-o assim, como ela olhava agora, encostada ao lado da porta, ele era uma obsessão.
Depois de algum tempo, ele a notou. Estivera debruçado sobre os livros que pesquisava, quando Rebeka torceu distraidamente o calcanhar e seu salto arrastou no chão, o fazendo olhar na direção da porta.
Sem nenhuma alteração em sua expressão, ele voltou-se para os livros novamente.
"Meu amor", disse Rebeka, se aproximando da mesa, "o que vai fazer hoje de noite?"
Malfoy virou uma página, coçou a barba na região do maxilar e balançou a cabeça, dando de ombros.
Rebeca passou uma mão pelos cabelos dele devagar. Havia algo de sedutor e embriagante nos gestos dela que em última instância chamou definitivamente a atenção dele.
Malfoy girou a poltrona e ficou de frente para Rebeka. "O que você tem em mente?"
Rebeka puxou a saia do vestido um pouco para cima e sentou-se sobre as pernas dele, o envolvendo numa nuvem de feminilidade delicada e perfumada. "Primeiro", começou ela, beijando devagar a linha de seu maxilar, "você mandará os serviçais terem um dia de folga. E poderemos mandar Scorpius para a casa de algum amiguinho. Então...um jantar."
Ele esperou que ela fizesse seu caminho sedutor e chegasse à sua boca. Esperou que ela o beijasse com cuidado enquanto suas mãos o acariciavam, e esperou que ela tivesse certeza do que estava fazendo. Então ele disse, correspondendo apenas por alguns segundos seu beijo delicado: "Prefiro levá-la a Paris."
Um sorriso embevecido abriu-se nos lábios de Rebeca. Ele podia ver, sem muita surpresa, o brilho extasiado nos olhos dela.
"Paris", disse ela, e depois, desabotoando os primeiros botões da camisa dele. "Quando casei com você, Malfoy, achei que em menos de dois anos estaríamos como adultos envelhecidos e entediados. Mas você sabe tratar uma mulher, sabe fazê-la..."
A frase ficou por terminar. Talvez Rebeka não tivesse achado propósito nela, ou não quisesse mais dizer coisa alguma, ou a mão de Malfoy em suas costas a fizera calar-se. Mas as vezes ela sentia que tinha muito o que dizer a ele, mas nunca dizia, porque ele de alguma forma achava uma maneira de tirar-lhe as forças na hora certa, no momento certo, do jeito certo.
A língua de Rebeka ainda estava na boca do marido quando ele fez um movimento breve e a afastou. Disse algumas palavras em seu ouvido e ela se levantou, os olhos brilhantes. Deu-lhe um beijo no rosto e saiu. Ele ficou olhando fixo para a porta, logo que ela se fechou. A tranca estalou num ruído tão seco quanto a expressão de Malfoy, e uma voz complacente veio da escuridão às suas costas:
"Quão magnífica pode ser a mulher: tão pobre de forças e tão cheia de vontades."
"Rebeka não é idiota, Salazar", disse Malfoy. Sua voz era tão firme quanto impaciente. "O mal das pessoas é acreditar nisso."
"Não creio que ela seja. Ah, não, não creio mesmo. Acho, sim, que você não entendeu o que eu quis dizer."
Pontuando as palavras, Salazar Slytherin se calou, e Draco voltou a se inclinar sobre os livros, retomando sua concentração interrompida.
"A maior vontade de Rebeka é me desvendar", disse num tom cortante. "E para isso, ela pretende desvendar o meu mundo. Por isso quer afastar todos de perto para conseguir, para que não hajam olhos para a vigiar."
Com uma risada suave, Salazar respondeu: "Scorpius é os olhos dela."
"Scorpius é fiel a mim", disse Draco depressa, virando o rosto na direção das sombras, como se a desafiasse.
"Scorpius é só uma criança, é fiel a qualquer um. Especialmente aos pais. Compreenda que Rebeka pode ser tudo que você menos desejou como esposa, mas é a mãe dele. Isso tem um poder muito maior do que qualquer magia ou...imposição."
Draco sorriu. Não respondeu. Estava pensando que não fazia sentido Rebeka continuar tentando o bisbilhotar se Scorpius já tivesse lhe dito tudo que ela queria. Quando Scorpius começou a falar, mais ou menos com um ano de idade, Draco marcou o filho com um pacto de fidelidade. Uma magia inquebrável, que ligava a consciência de Scorpius aos segredos de Malfoy de uma maneira mútua, assim, tudo que Scorpius visse, ouvisse ou soubesse sobre seu pai, morreria com ele, e vice-versa. Aquilo era necessário, e Draco o soube muito antes de o ter, na noite em que encontrou Tom Riddle e ele lhe mostrou seu futuro. Ter Scorpius como seu gênio fiel era mais do que um mero artifício: era vital.
Nada mais foi dito naquele escritório, até a noite chegar. Draco levantou da poltrona e com um movimento de varinha fez os textos dos livros sobre a mesa converterem-se. Agora, eles falavam sobre sociologia, apenas. Ao se encaminhar para a porta, a voz de Salazar veio das sombras, como uma música distante e esquecida:
"Tenha em mente o seu destino, Malfoy. Tenha-o sempre em mente..."
Draco parou no vão da porta, quieto. Nada em seu rosto se alterou; mas naquele momento ele esqueceu-se que era um homem poderoso, incontestável, misterioso, impenetrável. Seus olhos, ao escutarem a frase de Slytherin, deixaram aparente a única coisa que ele jamais conseguiu reter em si. Naquele momento, seus olhos eram duas grandes cicatrizes em seu pálido rosto.
A ponta da varinha caiu sob uma foto antiga de jornal. Harry franziu as sobrancelhas para as notícias ao redor dela mas logo se deu conta de que nada na edição daquele dia lhe interessava, e tornou a folhear os jornais velhos. A bibliotecária havia trazido as pilhas de jornais dos últimos trinta anos. No começo ela se dispôs a ajudá-lo a procurar notícias que contivessem a palavra "Morte súbita", mas mal haviam saído dos anos 70 quando ela começou a bocejar. Harry, por educação, a convenceu de que conseguiria dar conta de tudo sozinho. Ela então pegou seu casaco, sua bolsa, e foi embora, deixando na biblioteca apenas o vigia do Ministério. Teoricamente, àquela altura da noite ninguém mais poderia circular ali, mas Harry tinha permissão para consultar o acervo da biblioteca quando quisesse, por ser auror e precisar o tempo todo de informações.
Quando Gina lhe contara sobre a conversa com o filho e Draco Malfoy, algo na mente de Harry estalou. Talvez estivesse procurando nos lugares errados. Não era em livros que ele deveria procurar por mortes súbitas, e sim em jornais. Se Draco estava mexendo com o tempo, eles precisavam de provas, mas é claro que aquelas provas não apareceriam tão fácil. Não, Harry não subestimava ninguém ou nada com que trabalhasse. Ele pensava muito, e confiava que o inimigo pensava tanto quanto ele. Foi estranho para Harry admitir, mas um dos maiores fatores para se compreender e chegar ao inimigo, era confiando nele.
Não havia por enquanto nada que ligasse o tempo com as mortes súbitas, somente – e isso era o que chamava a atenção de Harry – o fato de ambos serem igualmente anormais. Lidar com o tempo era algo que apenas Voldemort conseguira. Bem, ele já estava morto. E tudo ligado a ele deveria ser um assunto encerrado... Pelo menos era o que se acreditava.
Talvez não achasse nada naquela noite, mas um dia acharia, porque tudo que se planeja é planejado por cabeças humanas, e homens falham, portanto havia um ponto em que tudo se encaixava, e esse ponto obrigatoriamente era a falha, e ele a acharia.
Harry terminou com uma das pilhas e suspirou. Seus olhos ardiam, sua boca estava seca e suas costas tensas. Ele levantou da mesa e caminhou pelo salão da biblioteca. Seus passos ecoavam, lentos. Lá fora devia ser mais de meia noite, mas ali dentro a claridade ofuscava. Talvez fosse isso que o estivesse cansando mais do que tudo...era como se o dia sequer desse menção de terminar. Voltou para a pilha de Jornais, mas sem se sentar começou a afastar alguns exemplares para o lado distraidamente, até bater os olhos na foto de um parque vazio, com dois homens parados ao lado do que parecia um corpo. Um dos homens segurava uma máquina fotográfica trouxa e o outro usava uma espécie de uniforme de gari. Acima da foto a manchete dizia:
Corpo misterioso é achado em parque público de Londres.
Harry pegou o Jornal e o abriu sobre a mesa. Leu a notícia cada vez mais depressa:
Na manhã da última segunda-feira, um empregado da limpeza pública de Londres, Edward Lancaster, tomou um susto ao achar entre as árvores do Hyde Parque o corpo de um homem. Segundo a polícia trouxa, o homem não portava documentos que o identificassem. Aparentemente saudável, a perícia cogita homicídio doloso.
Por alguns segundos, as coisas começaram a se encaixar na mente de Harry. Ele pegou o jornal do dia seguinte, passou depressa as páginas, depois o do próximo dia, e parou apressado na manchete:
Autópsia acusa corpo de indigente como vítima de ritual macabro.
O corpo do homem não identificado achado a dois dias atrás no Hyde Parque estava totalmente sem sangue, segundo o relatório da autópsia realizada pela polícia de Londres na última terça-feira...
Sem terminar de ler, Harry foi para a primeira página e olhou a data no cabeçalho do jornal.
27 de Outubro de 1972.
"Por favor não me faça falar disso outra vez", disse Gina. Ela caminhava de braços cruzados pelo quarto. Seus cabelos estavam soltos e um tanto revoltos por Harry tê-la tirado da cama, embora sem a intenção. Chegara em casa e deitara-se ao lado dela, mas não conseguira dormir. Talvez estivesse tão tenso que Gina percebera, e perdera também o sono. "Você já sabe", ela murmurou.
"Gina", disse Harry devagar. Sua voz era leve, embora não desse para saber se de cansaço ou de ternura. "Você é a única pessoa que poderia me dizer o que preciso."
Ela balançou a cabeça.
Harry levantou-se da poltrona e foi até ela. Segurou seu rosto, beijou-lhe os lábios e a olhou nos olhos.
"Eu não pediria isso a você se não soubesse que é capaz de falar."
"Passei quase cinco anos internada numa clínica por ter um dia lembrado de tudo que vi naquela casa."
"E saiu de lá porque estava curada."
"Isso não significa que eu possa brincar com minhas lembranças!"
Harry abriu a boca para argumentar, mas imediatamente mudou de idéia. "Esqueça isso", disse, dando a ela um sorriso apagado, "Você está certa."
Ele se afastou, tirou a camisa e os sapatos e foi para o banheiro. Gina ficou parada no meio do quarto, os braços cruzados, o queixo apoiado em uma das mãos. Ouviu o som da água salpicar o piso do boxe quando Harry abriu o chuveiro, e o viu de costas se inclinar sobre a pia e começar a escovar os dentes. Vê-lo de costas era uma das coisas que ela mais gostava de fazer; a linha dos ombros e das omoplatas, a curva da coluna, a pele branca sobre os músculos tênues e a penugem aveludada de sua nuca. Gostava de vê-lo em movimento: curvar-se sobre a pia, mover os braços, contrair os ombros, se levantar, mexer no cabelo, tirar os óculos...Era o olhando que Gina sentia que o amava, porque o mundo ao redor se dissolvia e o delineava, como uma impressão digital em sua própria alma.
Harry saiu de seu campo de visão. Gina foi para o banheiro.
"Foi na ala hospitalar", disse.
Ele estava desabotoando a calça, mas parou.
Gina continuou, encostando-se à parede: "Eu acordei de madrugada e li a notícia no Profeta. Era 27 de Outubro. Estava logo na primeira página. Dizia que um homem de 56 anos tinha sido assassinado na Mansão Malfoy, foi uma denúncia anônima. O corpo não foi encontrado."
Harry se encostou também à parede, de frente para Gina. "Até aí nada para eu me preocupar."
"Não", disse Gina, os olhos baixos. "Ainda não. Quando estive na Mansão Malfoy, descobri que eles tiravam sangue das pessoas, era uma espécie de ritual. Mas nunca soube que podiam matá-las dessa forma."
"É uma forma inteligente de esconder corpos. Mandá-los para outro tempo. No passado você não terá as razões do crime, no presente você não terá as provas."
Gina assentiu.
"Não consegui achar essa notícia no arquivo da biblioteca do Ministério", Harry terminou de desabotoar o jeans. "E agora eu e você sabemos porquê."
Gina o observou entrar debaixo do chuveiro enquanto uma nuvem quente embaçava o vidro temperado do box.
"Como você vai fazer?"
Harry passou as mãos pelos cabelos molhados e depois pelo rosto e a olhou. "Fazer com o quê?"
"São crimes sem provas, Harry. Quer dizer, sem provas palpáveis."
Ele pareceu refletir, mas nada disse. Gina particularmente não gostava disso. As vezes no meio de uma conversa importante ele guardava todas as considerações para si e a deixava esperando por uma resposta que talvez viesse, ou se perdesse numa mudança repentina de assunto.
"Você não espera ter essa conversa que está tendo comigo com o Departamento acreditando que isso vai bastar para que no dia seguinte eles prendam Malfoy, não é?"
Harry balançou a cabeça enquanto ensaboava o braço direito. Quando se virou para ela, Gina sorriu ao ver seus olhos verdes brilhantes acentuados por uma leve camada de espuma branca em suas bochechas.
"Não", ele disse, e um sorriso infantil passou depressa por seus lábios. "Mas eles podem dar uma idéia."
"E as mortes?"
Harry ficou em silêncio novamente, mas dessa vez Gina soube que não era pelo súbito distanciamento habitual. Ele ficou parado debaixo do fluxo de água, deixando o sabão escorrer pelas costas e pelas pernas, olhando para o chão, concentrado, como se tentasse ler alguma coisa no redemoinho de espuma que ia pelo ralo.
"Tem uma coisa que você não sabe."
Gina molhou os lábios.
Harry abriu o box e puxou a toalha, enxugando o rosto para a olhar. Seus olhos eram tão francos que pareciam ter sido limpos pela água do banho.
"As mortes têm uma ligação."
Ela estendeu as mãos para pegar a toalha das mãos dele e a passou gentilmente em seu torso, depois em seu peito.
"As vítimas eram bruxos, com pais trouxas."
"Meu Deus, Harry", Gina enrolou distraída a toalha na cintura dele. Uma coisa extremamente improvável veio em sua mente. "Hermione."
Harry abriu mais os olhos, como se tivesse lembrado que esquecera a carteira no banco do metrô. Então correu para o quarto e começou a se vestir.
