Moira
Segunda Parte
Capítulo 2 - Mãe
Três semanas depois
"A nova divisão dos setores será votada na próxima semana", disse o homem à direita de Draco, pousando sua taça de vinho espumante sobre a mesa. Seu bigode ruivo ficou salpicado de espuma roxa. "Se o décimo tribunal for incorporado ao Departamento de Execução das Leis da Magia..."
"Rufus não vai aprovar", disse Draco de repente, "ele tem influências do Comitê Internacional."
"O projeto já foi avaliado, traria menos gastos", argumentou o homem à frente de Malfoy.
"Pense comigo, Malfoy", disse o homem ruivo, inclinando-se para o lado de Draco. Sua voz era penetrante e pausada, o que causava uma certa sensação de se estar sendo hipnotizado. "Aquele Departamento de Mistérios, ninguém sabe nada. Quero dizer, nunca foram divulgados os nomes dos que trabalham lá, ou o que fazem, como fazem. Com a nova divisão isso vai acabar. O Departamento de Execução trará tudo à tona, as pessoas vão adorar. Todo mundo adora saber segredos". Ele sorriu e voltou a se encostar no acento de sua cadeira. "É só isso que importa."
Malfoy o olhava, impassível. Seus olhos estreitos e brilhantes eram como agulhas finas que avaliavam.
"O Comitê não está interessado no que os outros adoram, Robbert", disse o homem que sentava à frente de Draco, rindo. "Ah, mas é um bom argumento. Sabe...aqueles filhos da puta são sérios."
"Isso é hilário", comentou um terceiro homem à esquerda de Malfoy. Apesar do que tinha dito, estava apático.
"Coloque dez mil galeões na frente de cada um do Comitê", sibilou Draco, simulando arrastar moedas para o centro da mesa. Quando terminou, ergueu os olhos para cada um dos três homens. Depois apontou para o imaginário monte de dinheiro entre os pratos de porcelana. "Aí está a sua seriedade, Maverik."
O silêncio entre os três homens foi estranhamente patético para Draco. Eles se entreolharam, tensos, como se Draco tivesse xingado suas mães e eles não soubessem como reagir. Robbert parecia suar, embora não desse para saber se pela inusitada proposta ou se pela quantidade de vinho espumante que tinha bebido; Maverik pigarreava e olhava evasivo para os talheres e para o resto de comida em seu prato, cruzando as vezes com o olhar de Augustus, o mais assustado de todos.
Foi ele quem fez o penoso comentário: "Mas quem tem dez mil galeões para dar a todos eles?"
Draco, que estava até o momento se deliciando com aquelas ridículas caras, deu um breve sorriso, que aos poucos se transformou numa risada ampla e limpa. De relance viu Rebeka sair do toillete e vir em direção à mesa. Estendeu o braço e deu uma batida amistosa no ombro de Augustus. "Aí vem minha esposa", e ainda sorrindo abertamente, virou-se para os outros "Boa noite", e saiu da mesa, colocando a mão na cintura de Rebeka e se dirigindo com ela para a saída do restaurante.
Os três homens viram o casal se afastar e sumir pelas escadas do salão. Nenhum deles disse nada, mas todos pensavam uma única coisa enquanto deslizavam os olhos pelo vestido justo de Rebeka: O dinheiro é uma benção.
Quando aparataram nos jardins da Mansão Malfoy, Draco sentiu um breve estremecimento nas costas da mulher. Olhou-a de relance e seguiu em frente. A noite estava fria e escura, as luzes da Mansão estavam apagadas, a lua atrás dos montes ao longe era opaca e solitária. Nas florestas ao redor da Mansão vinham distantes uivos longos e evasivos. A água corrente da enorme fonte no centro do jardim fazia um barulho destoante em meio à tudo aquilo. Enquanto caminhava até as escadas de entrada, um esquilo passou depressa pelos pés de Draco e sumiu no negrume da grama. As pesadas portas de mogno da Mansão se abriram quando ele colou os pés no primeiro degrau da escadaria e se fecharam assim que Rebeka tirou os dela do capacho. Subiram sem trocar palavra para o segundo andar, Rebeka sempre um pouco atrás, seguindo Draco até o quarto.
Ao entrarem ela estacou na porta. Mesmo sem olhá-la, Draco sentiu naquele momento que havia algo errado. Algo que ele não percebera ainda, mas estava ali, muito perto. Acendeu as velas na parede com um gesto de varinha e pela primeira vez desde que Rebeka voltara do banheiro do restaurante, ele a olhou de verdade.
Seus olhos castanhos bem delineados vagueavam distraídos pelo quarto, como se ela jamais o tivesse visto, mas não pareciam surpresos, como de fato não poderiam estar: ela dormia ali a quase dez anos. Havia algo nela que de repente parecera a ele familiar e estranho. Suas sobrancelhas sempre tão argutas estavam leves, eram apenas sobrancelhas. Os ombros, que ela empertigava e a deixavam com um ar burguês de imponência eram apenas ombros. A luz dourada das velas aveludava delicadamente a linha de seu maxilar, pescoço e braços, e sombreava de camurça as ondas escuras de seus cabelos.
Draco atravessou o quarto e sentou-se na poltrona perto da lareira, começando a tirar os sapatos. Viera o tempo todo pensando na conversa que tivera com os três homens no restaurante; planejara aquilo a anos. Quando tudo estivesse feito e o Departamento de Mistérios fosse diluído aos poucos, ele poderia penetrar na suprema corte com a ajuda de Robbert, um dos chefes do Departamento de Execução das Leis da Magia. Leis, como Draco pensava, são leis. Em outras palavras, são definitivas. E o lugar dele sempre fora num cargo de poder irremediável. Não era pelo dinheiro ou pela ordem, era por algo muito mais simples: destino. Ele fora educado para ter certeza, ensinado a não hesitar, levado a impor. E era apenas isso. Seu próprio pai não conseguira tal influência no Ministério, seu pai fracassara em tudo, aos trinta e seis anos era servo de um homem miserável que relutava em não morrer. Draco tinha vergonha e nojo. Nos aniversário de morte de Lúcio Malfoy, Draco ia ao cemitério para lhe levar saliva, que cuspia vigorosamente sobre sua lápide. Todos os dias era um pouco mais que ele caminhava para se distanciar de Lúcio, sua vida era apenas caminhar para longe, cada vez mais longe...mas ao olhar para Rebeka a alguns minutos atrás, era como ter virado subitamente de direção. Desde que a conhecera ela era como um prêmio a qual devia ser polido todas as noites. Não importava a ele o fato de que ela engravidara pra se casar e herdar sua fortuna, porque cedo ou tarde alguma mulher faria isso. Que fosse então ela. Rebeka sabia francês, grego, latim e alemão, sabia sorrir sem parecer excêntrica e chorar sem causar desprezo. Ela fazia penteados agradáveis e vestia as roupas certas, ela era sexy e inteligente, ela usava óculos de vez em quando, era educada e diplomática e sabia fazer certas coisas específicas na cama. Mas nunca, desde que a vira descer as escadarias de sua casa a oito anos atrás, na noite de Natal, ela causara nele algo menor do que o que ele acabara de sentir. Uma simplicidade tão feminina que chegava a doer.
Ela afastou-se da porta e caminhou até o banheiro. Ele escutou a torneira se abrir, a água correr por alguns minutos e em seguida parar, então ela saiu do banheiro e foi para o closed. Quando voltou para o quarto estava usando uma camisola de cetim branco.
Draco a observou subir na cama com uma pontada de estarrecimento.
"Rebeka", disse.
Ela o ouviu e parou, mas não o olhou. "Sim?"
"Não quero que você durma aqui", e vendo que ela hesitava, acrescentou: "hoje."
"Ah", fez ela, visivelmente confusa, mas prontamente levantou da cama. Então voltou-se parcialmente para ele, os cabelos caindo sobre o rosto com o movimento. "Pode ir comigo até o quarto de Scorpius?"
"Para quê?"
"Para vermos como ele está e...dar um beijo de boa noite."
Draco começou a entender devagar a reação que os três homens haviam tido na mesa. Não conseguiu achar nada para dizer a ela. Rebeka não fazia a menor questão de ver Scorpius antes de dormir, e se ela pudesse não vê-lo o dia todo para o resto de sua vida, seria um alívio. Isso era uma espécie de pacto silencioso entre ela e Draco, que ela havia, sem aviso prévio, acabado de quebrar.
O silêncio na sala foi interrompido pela voz de Scorpius. Draco deixou sua xícara de chá sobre o pires e esperou pacientemente que o filho se sentasse à mesa. O garoto deu a volta e se sentou na frente do pai. Estava usando uma camisa azul clara e um jeans desbotado. Draco o avaliou de cima à baixo quando o garoto passou. Em seguida Rebeka entrou, abriu as cortinas com naturalidade e sentou-se ao lado do filho e não no lugar de costume, ao lado do marido. Draco os olhou e não respondeu ao bom dia de Rebeka. Ela usava uma blusa branca de botões, folgada, uma calça preta justa e os cabelos soltos num formato mais ondulado do que o de costume.
Ao ver que ele a olhava, ela sorriu.
"Mãe, eu posso cavalgar hoje?", disse Scorpius, esticando a mão para os bolinhos de chocolate.
Rebeka no entanto ainda tinha os olhos fixos nos de Draco. A luz do dia entrava fulminante nos olhos dela e os matizava de um amarelo-fogo, escuro e magnético.
Ela piscou e moveu os olhos para o bule de chá na mesa, se servindo. "Sim", disse, "vamos cavalgar", e ergueu gentilmente o rosto do filho para si mesma, "Deixe-me ver isso no seu rosto. O que é isso?"
"Uma aranha me mordeu."
"Quando?"
"Hoje de noite. Não doeu."
"Scorpius", disse ela, deixando de lado o café-da-manhã para concentrar-se completamente no filho. "Venha cá", disse ela, levando-o para a luz das janelas.
Draco a observou abaixar-se na frente do filho e o avaliar, uma vontade amarga de rir. Aquela luz toda o cegava, e ele se viu a ponto de perder a paciência. Queria olhá-los, mas não conseguia, a claridade inundava seus olhos como o sol explodindo sobre a superfície lisa de uma lagoa translúcida.
"Você a viu?", dizia Rebeka.
"Sim, quando acordei ela estava indo embora. Era peluda, meio vermelha. Era bonita, mãe..."
"Porque não foi nos dizer isso ontem mesmo?"
Draco jogou o guardanapo sobre a mesa. "Venha cá, Scorpius", disse ele, a voz grave se sobrepondo sobre à de Rebeka com facilidade.
Scorpius obedeceu. Draco segurou-lhe pelo rosto e o avaliou.
"Está doendo?"
"Não."
"Está coçando?"
"Não..."
"Não é nada", disse, largando a garoto e encarando Rebeka como se a intimasse a se calar.
Mas Rebeka não lhe deu a menor atenção. Pegou Scorpius pela mão e saiu com ele, dizendo: "Vamos ver isso lá na cozinha. Deve ter algo lá em baixo para mordidas de aranha...Mas aranhas não têm dentes, ou têm? Você viu os dentes dela? Espero que essa não tivesse cáries..."
A risada de Scorpius ficou retinindo na sala do café-da-manhã enquanto o sol entrava, ludibriando os olhos de Draco.
O vapor dos caldeirões encobria as cabeças dos serviçais na cozinha. O cheiro era sempre uma mistura estranha de sabão, tinta de roupa e temperos, e o calor daquela nuvem exótica amornou o rosto de Rebeka como o hálito de um enorme dragão. As mulheres gritavam, riam e conversavam, eram no mínimo umas trinta, e alguns homens, embora estes sumissem em meio a tantas tranças e seios, mas então alguém viu Rebeka parada na porta e as conversam foram morrendo, para em seguida dar lugar a outro alvoroço.
"Senhorita Malfoy!" exclamou alguém em algum lugar, Rebeka não soube dizer, pois várias garotas vieram em sua direção como uma manada. "O que deseja? Os pãezinhos de cenoura não estão bons?"
"Oh, eu lhe disse, Amélia, para não adoçar demais o suco de morango!"
"Não é isso, é a roupa dela. Veja como está vestida, você esqueceu de passar as blusas dela, criatura!"
"Já estamos subindo, Senhorita!"
"Pegue o pudim de ameixas, Madeiline, traga para a Senhorita provar."
"Oh, acho que está um tanto azedo, Madame...mas não se preocupe, tudo estará excelente para o almoço..."
Rebeka se viu rodeada de rosto corados, olhos claros e sorrisos suados. "Core", disse ela, "Onde está Core?"
As garotas se viraram para a cozinha novamente. "Chamem Corelina!"
Dali a alguns minutos uma moça franzina de francos olhos verdes surgiu, fitando o chão.
"Sim, Madame", disse.
Rebeka foi para os fundos da cozinha com a moça e mostrou a ela o rostinho de Scorpius, onde uma pequena marca avermelhada se escondia sob a penugem loira das têmporas.
"Hum", fez Corelina. "Foi uma aranha."
"É venenosa?" quis saber Rebeka.
Core balançou a cabeça. "São as que costumam ter nessa região, não são muito inofensivas mas não chegam a matar. Talvez ele tenha um pouco de febre", ela virou-se para um rapaz que estava sentado numa pilha de queijos, "Sulzer, vá ver se temos erva de lobo no depósito", e assim que o rapaz se foi, os olhos de Core cruzaram com os de Rebeka, e ela murmurou "Oh, meu Deus."
Rebeka balançou a cabeça depressa.
"Senhorita Pan..."
"Corelina", avisou Rebeka.
Core se calou, mas ainda parecia encantada. Nenhuma das duas disse mais nada até que o rapaz voltasse com um vidrinho marrom. Core, ainda sorrindo satisfeita, molhou um pano no líquido oleoso e o passou na pequena lesão de Scorpius.
Rebeka afagou os cabelos finos do garoto enquanto dizia à criada: "Mais tarde leve chá de hortelã para mim, Corelina."
E a moça assentiu radiante, como se Rebeka tivesse lhe mandado receber um prêmio da loteria.
Core largou a bandeja com o chá na bancada da lareira e correu para abraçar Rebeka, se ajoelhando aos pés dela em seguida.
"Senhorita Pansy", disse, mal contendo a alegria, "Madeiline já havia me dito que algo estava estranho quando viu a cortina da sala aberta, e a expressão do Senhor Malfoy, ela me disse, era tão diferente..."
"Shhh", fez Rebeka, "Core, não, pare!"
"...mas depois de todos esses anos eu não acreditava que a veria de novo, quero dizer, eu fiz tantas coisas..."
"Core, por favor."
"...tantas coisas aconteceram, e aquela mulher, essa que você é agora, é tão desprezível..."
Rebeka não viu outro jeito de a fazer calar. Tampou a boca da garota com a mão.
"Core, fique quieta. Pode fazer isso?"
Corre assentiu.
Rebeka a largou. Foi até a porta e a fechou, depois levou Core para a janela do quarto e a abriu, para que tudo que fosse dito ali terminasse por ir embora com o vento.
"Da última vez que eu estive aqui, vim por conta própria. Por motivos meus. Mas agora venho por que não tive escolha."
"Sim", disse Core, "Eu soube das mortes."
Rebeka não ficou surpresa com a inteligência da moça, sempre de prontidão para os assuntos mais variados. Era por isso que desde o princípio soube que não conseguiria esconder nada de Core por um momento sequer.
"O Ministério sabe que a alguns anos atrás eu estive aqui, e que conheço a Mansão", Rebeka se calou, algo ficou preso em seus olhos como uma gota de água numa folha, mas ela logo prosseguiu: "Fui convidada para participar da investigação, que eles passaram a chamar de Morte Súbita. Para eles seria mais fácil infiltrar alguém na Mansão que já tivesse passado por uma situação parecida, e que soubesse fingir."
Core escutava tudo e aos poucos seu sorriso ia sumindo.
"Mas eu não queria aceitar."
"E porque aceitou?"
"Porque não há tempo para pensar em outro plano. Se a lógica do Ministério estiver certa, e não vejo como não poderia estar, cedo ou tarde alguém próxima a mim vai morrer da mesma forma que outros estão morrendo."
Core pareceu ponderar. "Está aqui para dar informações sobre Malfoy ao Ministério."
"Sim."
"E quando conseguir tudo o que quer, o que vai acontecer?"
"Se eu conseguir provas de que ele está envolvido com as mortes, ele irá para Azkaban."
Como se já esperasse essa resposta, Corelina disse depressa, sem hesitar: "Então nada tenho para lhe dizer, senhorita", virou-se e se afastou.
"Core", chamou Rebeka, também já prevendo a reação da criada. "Você vai me delatar?"
"Não", disse a moça em voz baixa. "Às vezes eu gostaria de não existir, Senhorita."
"Eu não quero que me ajude, Core..."
"Não poderia querer, não é? Ver o homem que amo enlouquecer numa prisão até a morte, não, senhorita Pansy...você não poderia querer isso."
Então estava sozinha, como sabia que iria estar. Desde que aceitara entrar na investigação, teve certeza de que estaria completamente sozinha.
O olhar de Harry ainda doía.
"Você está sendo treinada para ser Rebeka Stern", ele lhe dissera, sentado sobre sua mesa no Quartel General dos Aurores. Os músculos de seus ombros e costas pareciam mais tensos do que o de costume, como se ele tivesse acabado de sair de uma briga. "Está sendo treinada para fazer tudo que ela faz e ser exatamente como ela. Vestir o que ela veste, dizer o que ela diz, pensar como ela, o Ministério está levantando toda a vida dela para você ser Rebeka Stern. Lá", ele apontou para uma direção hipotética onde deveria ser a Mansão Malfoy, "você não poderá hesitar. Lá você não terá a sua vida. Está entendendo o quero dizer?"
Gina respondera numa súbita e tranqüila indignação. "Sim. Nossa melhor amiga está em perigo e você está me imaginando na cama com Draco Malfoy."
Harry murmurara um palavrão. Ao escutar o nome de Draco sair de sua própria boca, ela se arrependeu de ter dito o que acabara de dizer. Mas já era tarde. Harry levantou da mesa e andou pela sala naquela passo perigoso de um leão prestes a rugir.
"Sim", ele disse. Gina esperava que ele gritasse, mas sua voz estava estranhamente estável. "Estou imaginando você na cama com ele. Estou imaginando tanta coisa que não sei como não perdi o controle."
"Você tem outra idéia?", disse Gina simplesmente.
"Não", Harry deu de ombros. Aquela ironia suave exasperava Gina.
"Não vou submeter você a isso", disse ela.
Ambos ficaram em silêncio. Harry assentiu, compreendendo tudo.
"Acho que é uma idéia brilhante", disse. "Se terminarmos agora, está tudo resolvido. Então diga, Gina, diga que está terminado comigo e em um segundo eu não amarei mais você, e tudo estará resolvido."
"Estou terminando com você."
Harry pegou a capa sobre a poltrona e a vestiu. Gina o viu se dirigir para a porta.
"Mas não por achar que isso vai nos machucar menos", continuou.
Ele saiu e fechou a porta.
O que quer que acontecesse naquela Mansão, ela estaria sozinha.
Naquela noite, Gina acordou de madrugada com um pesadelo. Quando abriu os olhos teve a nítida impressão de ter visto Lady Slytherin ao lado de sua cama. Lembrou de Core lhe dizendo a sete anos atrás:
"Ela é mau agouro nesta casa. Ela prevê a morte."
Embora não estranhasse nem um pouco o fato de Rebeka não dormir no mesmo quarto que Malfoy, pois a Mansão era dada a absurdos, Gina achava que havia algo de notavelmente anormal naquela situação. Estava agora se olhando no espelho, e não conseguia compreender muito bem como uma mulher tão bonita e sedutora como Rebeka não despertava o desejo de posse de Draco. Desde os dezesseis anos ele levava todo tipo de mulher para a cama, e todas tinham algo imprescindível em comum: eram lindas. Mas Gina achava difícil que outra mulher conseguisse ser mais bonita do que Rebeka, porque não era apenas pela sua beleza física, mas pelas suas maneiras tão poderosas. Ela sabia exatamente o que fazia sempre, e não havia forma de recusá-la. Isso Gina compreendera no treinamento que tivera no Quartel General, com Tonks lhe dizendo em detalhes que tipo de mulher era Rebeka.
"Ela não se casou com Malfoy só pelas suas curvas", dissera Tonks com um ar malicioso. Gina tentava imaginar onde ela aprendera tanto sobre mulheres sem deixar se ser apenas Tonks. "Pois bem", ela mostrava a Gina revistas de moda, apontando os modelos que mais tinham a ver com o estilo de Rebeka Stern. "Você provavelmente vai encontrar coisas de todo tipo no guarda roupa ela, mas ela não é uma mulher extravagante. Ela sabe usar o corpo, o resto é acessório. Nossa, que coisa horrível. Isso aqui", ela apontou uma calça de bolas coloridas, "jamais. Ela é simples, entende? Mas é uma simplicidade sexy. Essa parte vai ser fácil pra você..."
Aos poucos Gina entrou no mundo de Rebeka, mas isso era inevitável sem antes entrar no mundo de Draco Malfoy. De certa forma, era ele que configurava tudo aquilo. Rebeka não era o tipo dona de casa porque ele não gostava disso. Rebeka não saía muito de casa porque ele não gostava disso. Rebeka tinha uma conta no banco só sua porque ele permitia isso. Rebeka dormia em outro quarto porque ele queria assim. E Gina pensava em que espécie de homem Draco havia se tornado, que tem uma mulher como Rebeka em casa e não dorme com ela. Sequer conversa com ela. Rebeka não era burra, sabia muitas coisas, gostava de estar informada...
Talvez sete anos de casamento tenha esfriado a relação, pensou Gina erguendo as sobrancelhas e entrando na banheira. Embora ela não conseguisse imaginar Draco Malfoy tendo alguma relação despropositada com alguém. Não era do feitio dele. O modo como ele falava, como agia, como pensava, tudo era muito calculado e intenso, nada era por acaso ou sem um motivo forte. Ele não podia estar com ela só por estar.
Gina relaxou o corpo na curva da banheira e ficou pensando. Achava que não ia suportar voltar à Mansão, que no momento em que pisasse ali enlouqueceria novamente, Mas era particularmente incomum sentir que estava em casa. Conhecia tudo ali, cada quarto, os corredores, a biblioteca, os escritórios, as passagens secretas, os antigos quartos, os subterrâneos, o sótão, os jardins. E depois que Lúcio morrera e Narcisa fora internada, a casa era silenciosa e tranqüila, e a atmosfera caótica e sombria que Gina conhecia parecia menos densa, embora a visão do rosto de Draco de vez em quando ainda a fizesse ter arrepios desconfortáveis. Mas não se deixaria enganar, a Mansão Malfoy seria sempre o que era: um lugar com vida própria que marcava qualquer um que entrasse ali. O quadro de Sebacius Malfoy logo no topo da escadaria principal deixava isso bem claro. Ela não sabia porque, mas aquele lugar cheirava a loucura.
Tinha pena de Scorpius, fadado a crescer ali, com assombrações de garotinhas mortas, uma mãe alheia e um pai displicente. O Quartel não tinha como treiná-la em relação ao pequeno Scorpius e Draco, por não terem acesso ao núcleo familiar dos Malfoy, que por mais status que tivessem, evitavam se expor. Não havia pista alguma se Rebeka era uma boa mãe, por exemplo. Mas pela cara de Draco quando ela dera atenção ao filho, isso era tão comum quanto vê-la tirar meleca do nariz. Quanto a isso, Gina não ia imitar Rebeka. Certas coisas podiam ser corrigidas, Scorpius era apenas uma criança. Enquanto estivesse ali, trataria o menino como uma mãe trata um filho, fosse isso estranho ou não para Draco.
Ao sair da banheira, Gina olhou para a água e viu um fio vermelho de sangue flutuando no lugar onde antes ela estivera. Rebeka Stern acabara de menstruar. Ocorreu a Gina algo um tanto obsessivo, mas talvez Draco não estivesse fazendo questão de dormir com a mulher por ter total ciência dos dias de sua regra.
É, aí estava o característico senso de posse de Draco. Afinal, certas coisas ainda estavam em seu lugar.
"Não vá muito longe", disse Rebeka para Scorpius. O garoto ia trotando devagar ao lado, mas por algum motivo decidira ir até o pomar.
O dia era um tanto nublado e frio, e as luvas de couro que Rebeka vestia já não eram tão quentes. Por isso, Gina apertava as rédeas do cavalo com força, tentado reter um pouco de calor entre os dedos. O terreno dos Malfoy era inimaginavelmente grande, iam além das colinas no horizonte, onde o sol se punha e a lua subia, eram quilômetros e quilômetros de florestas, campos e mais campos, onde a Mansão Malfoy ocupava apenas alguns metros quadrados de tudo. Do alto devia ser apenas um pontinho perdido em meio a tanto verde. Mas como o sol de fato quase nunca brilhava ali, toda aquela grama era sempre cinzenta e meio morta.
Scorpius parou perto de algumas árvores e ficou olhando o horizonte. Gina o observava. Ele parecia como um pássaro preso numa gaiola onde não se viam os limites, onde as grades erma invisíveis. Com um jardim tão grande, ele era a criança mais pálida e franzina que ela conhecera. Apesar de bonito, um ar frágil de doença rondava seus olhos distantes.
Quando ele voltou para perto dela, Rebeka afagou seu rosto com um sorriso um tanto triste.
"Gosta de cavalgar?"
"Sim", disse ele. E apontou na direção das colinas. "Uma vez o papai me levou ali. Tem uma cachoeira."
"Já foi ali com Draco?", Gina perguntou, mas Scorpius franziu um pouco as sobrancelhas. "Já foi ali com seu pai?"
"Fui. Ele me levou lá para...", mas de repente o menino parou de falar, parecia ter esquecido o que ia dizer. "Mãe, vamos voltar?"
"Que houve, meu bem?"
Scorpius a olhava como se tivesse medo de algo que Gina não percebia. "Estou com frio."
E sem esperar por Rebeka, ele cavalgou de volta na direção da Mansão. Mas quando chegou perto das sebes, Gina o viu soltar-se do cavalo e cair no chão como um boneco sem enchimento.
Rebeka estava ao lado da cama quando a porta do quarto se abriu com violência. Draco entrou num estado que Gina não imaginava que ele fosse capaz de se permitir: suava e tremia, e os musculos de seu maxilar estavam visivelmente rígidos.
Duas serviçais cuidavam de Scorpius, que estava deitado na cama, delirando de febre.
"Ele caiu do cavalo..." Rebeka começou, mas Draco num movimento brusco a fez se calar.
Ele se abaixou ao lado do garoto e tocou-lhe o pescoço, "Está fervendo."
"Pode ser a picada da aranha. Core avisou que poderia acon..."
"Saiam daqui", Draco olhou para as duas garotas. Elas largaram os panos gelados que usavam para umedecer a testa e os braços de Scorpius e saíram. Gina acreditou que ele fosse mandá-la embora também, mas para sua surpresa ele parecia querer que ela ficasse. "Rebeka", disse ele jogando para o lado os cobertores que envolviam Scorpius, "ligue as torneiras da banheira."
Gina foi para o banheiro e as abriu.
"Água gelada", acrescentou Draco do quarto. Sua voz era tão glacial e impassível quanto a voz de um general.
Ela tocou na água, estava dolorosamente gelada. Não sabia se era uma boa idéia. Começou a entrar em pânico.
"Draco, ele vai ter convulsão."
Draco veio com Scorpius nos braços e o passou para o colo dela.
Gina olhou para ele, chocada. "O que está fazendo?"
Ele desabotoou os punhos da camisa e as dobrou até os cotovelos, depois tomou Scorpius de volta para si e o colocou na banheira. O garoto começou a chorar e a ofegar, trêmulo, os pequenos lábios arroxeando.
"Meu Deus", murmurou Gina, perplexa.
Draco molhou a cabeça de Scorpius, passando os dedos pelos cabelos do garoto e os afastando do rosto. Sua mão firme e ágil cobriu de água em segundos o corpo inteiro da criança. Quando finalmente enrolou Scorpius na toalha e o pegou no colo, Gina se achou chorando ao lado da banheira, uma mão na boca. Sentia-se humilhada. Em menos de dois minutos, Draco havia entrado no quarto, mergulhado Scorpius na banheira e o tirado de lá, tudo com gestos tão precisos que chegavam a ser agressivos.
"Rebeka", disse Draco do quarto.
Gina, no entanto, permanecia imóvel ao lado da banheira. Não conseguia se mexer.
"Merda", disse Draco num tom furioso. Ele veio do quarto e parou diante dela. Sua camisa estava molhada e seus cabelos se desprendiam das mechas bem penteadas para trás, caindo em fios sobre os olhos incisivos.
"Eu não...não..."
Draco respirava forte, como se tentasse controlar um animal violento dentro de si.
"Ia passar a tarde toda esperando que a febre baixasse com paninhos úmidos?", gritou ele.
"Eu não sabia o que fazer!"
Draco se inclinou sobre ela, rilhando os dentes. "Porque não me chamou?"
Uma raiva ameaçadora brilhava nos olhos dele, e isso irritou Gina mais do que tudo.
"Você não daria a menor atenção! Não deu importância no café-da-manhã", Gina se levantou. "Ele falou que tinha sido picado por uma aranha, Malfoy! E você não fez nada! Continuou tomando seu chá como um idiota e agora se acha no direito de fazer essa cara e gritar comigo porque eu não chamei você para cuidar dele!"
Draco deu um soco na parede atrás de Rebeka. Ela se calou com um pulinho de susto.
"Rebeka", ele murmurou, o rosto inclinado para ela, a encarando muito de perto. "Se alguma coisa acontecer a Scorpius, a culpa é toda sua. E nesse caso o seu decote", ele abriu alguns botões da blusa dela, "não vão ter o menor efeito em mim."
A mão de Draco acariciou a curva do seio de Rebeka, subindo depressa para o pescoço dela e a empurrando contra a parede, apertando sua garganta. O pânico enrijeceu o corpo de Gina, ela não conseguia falar ou pensar, apenas se sentia esmagada pelas mãos de Draco e pelo olhar dele, algo tão poderoso e rígido que parecia capaz de atravessá-la. Ela levou as próprias mãos até as dele, tentando empurrá-lo, afastá-lo, mas ele não se movia, não piscava, apenas a encarava profundamente, a ponto de Gina não saber o que era pior, a falta de ar ou o olhar dele. Talvez por não ter escolha, fechou os olhos e parou de relutar. Não conseguia sequer compreender o que estava acontecendo.
Foi quando ele a soltou de repente, e Gina despencou ao lado da banheira, sentindo o ar voltar aos pulmões em rajadas que se atropelavam até a boca, os sons pulsavam em seus tímpanos e o sangue em sua cabeça latejava, quente. Abriu os olhos para ver Draco saindo do banheiro num ângulo torto, a imagem de suas calças escuras e seus sapatos brilhosos ficou em sua mente por alguns segundos, piscando, como um alerta silencioso.
Draco deixou que a nota se repetisse inúmeras vezes até marcar seu cérebro. Como quando se olha para o sol por muito tempo e depois o mundo todo se afigura com uma mancha negra no meio. Ele gostava de fazer isso, porque era como marcar seu cérebro, fazer um buraco que apagava alguma outra coisa. Gostava particularmente daquela nota do piano, o mi da segunda escala. Em pé ao lado do instrumento, ele a tocava seguidamente, e ela aos poucos ia aderindo nele e à tudo naquela sala.
Quando ergueu a mão e parou de tocar, a nota vibrou devagar no ar até morrer suavemente. Draco fechou os olhos e engoliu em seco.
"Já lhe contei a história de Édipo?" a voz veio das sombras que se acumulavam no fundo da sala de música.
Draco foi até o bar e pegou uma dose de absinto, a levando até o Narguilé e derramando o líquido em sua base. Aquele Narguilé indiano fora presente de casamento, embora ele não se lembrasse de quem, e era maior do que os tradicionais. Todo em outro branco, tinha detalhes em preto e azul escuro, além de madre pérola negra. Draco não via muita coisa naquela Mansão que lhe fizesse falta, mas aquele piano de cauda e aquele Narguilé eram sem dúvida seus objetos preferidos na Mansão inteira. Os serviçais sabiam disso, por isso deixavam o Narguilé sempre abastecido com carvão e ópio.
"Mil vezes", disse Draco sentando-se na poltrona ao lado do aparelho.
"Édipo", disse a voz de Salazar, "é o meu preferido. Sabe, vejo muito dele em você."
"Não transei com minha mãe", disse Draco, aspirando a fumaça do ópio pelo tubo do Narguilé.
Salazar riu devagar. "Você um dia irá furar seus próprios olhos."
Salazar sabia de muitas coisas, coisas que Draco não conseguia compreender. Intimamente, achava Salazar um louco varrido, falando de histórias desconexas, profecias estranhas, citando poesias, peças de teatro, trechos de livros, filósofos. Mas uma espécie de louco muito franco, que não conseguia ludibriar ninguém mesmo quando tem a intenção, por isso jamais questionara nada do que Salazar lhe dissera. Por trás de todas aquelas citações e referências, existiam verdades geniais que poucos percebiam.
Draco ficou muito tempo em silêncio. Sentia o cheiro do ópio regado pelo absinto acalmar aos poucos seus músculos tensos. "Ela ia deixá-lo morrer." Ele passou a mão pelos cabelos e afrouxou os botões da camisa na altura da garganta. "Salazar", disse, "eu mato pessoas todos os dias e sequer as conheço. Isso não me incomoda. Mas hoje quase matei Rebeka, e isso me fez vir aqui com vontade de injetar um quilo de ópio no meu sangue para não sentir o que estou sentindo. Aquela mulher ia matar meu filho e eu preciso me matar, me matar para não me permitir sentir..." ele sentia o suor brotar em suas têmporas, "isso."
Tinha certeza que havia algo em Rebeka que antes não estava ali, fora isso que o impedira de continuar...
"Quem está matando Scorpius é você."
Draco voltou-se para as sombras.
"É por esse pacto de fidelidade que ele está definhando."
"O que está dizendo?"
"O pacto subtrai as vontades dele. Sempre que ele deveria dizer naturalmente algo sobre você, ele se cala, e isso o tira cada vez mais um pouco da materialidade. Se ele não diz as coisas que deveria dizer, ele não pode ser quem ele é."
"Está dizendo que a febre que ele teve hoje não foi pela picada de aranha?"
"Hum", fez a voz. "É provável que tenha sido. Mas não estou falando dessa febre. O que eu estou falando levará muitos anos para ser notado."
"O que vai acontecer?"
"Ele ainda é uma criança. Mas talvez seja como perder a memória, ele aos poucos irá deixar de falar, depois não conseguirá dormir nem comer, até finalmente morrer."
Draco balançou a cabeça. "Eu posso desfazer."
"Pode", a voz sussurrou devagar, "mas então, Malfoy...você desfará?"
Draco ficou olhando para a nuvem translúcida que avultava sobre sua cabeça, e o teto desenhado lá em cima parecia exageradamente adornado. Os leões pintados a óleo saiam de seus lugares e devoravam os anjos nus que dormiam sob as árvores, lançando para ele olhares acusadores, e Draco via o sangue escorrer em seus dentes amarelos, via um coração pulsar perto do lustre, e o rugido daqueles leões era tão alto que poderia enlouquecê-lo. Penas felpudas flutuavam para todo lado como se os animais estivessem destroçando travesseiros. Uma música distante se erguia como uma onda cada vez mais perto da praia, uma música acelerada e desigual que soava como um réquiem. Draco não soube quanto tempo ficou assistindo o teto, mas quando abaixou a cabeça novamente viu um pequeno rastro vermelho vivo atravessar o carpete da sala, o aguilhão voltado para cima como uma seta que aponta para o céu.
"Não acredito nisso", o cabelo de Tonks havia mudado para uma tonalidade de vermelho azulado como veias humanas prestes a explodir. "Não acredito que está fazendo isso!"
"Não vou continuar", disse Gina decidida, olhando para o rosto de Tonks na superfície da pia. "Veja", ela afastou os cabelos do pescoço e mostrou a marca roxa que a mão de Draco deixara ali. Parecia uma coleira de mau gosto. "Eu não sei que tipo de relação ele tem com a mulher, mas seja o que for, eu não vou continuar."
"Em primeiro lugar", começou Tonks fazendo força para falar mais baixo, "não é permitido que se comunique com o Ministério. Abri uma exceção apenas porque você está descontrolada. Em segundo lugar, você assinou um contrato com seu próprio sangue. Desistir é uma realidade impossível agora." Tonks balançou a cabeça como se estivesse perdendo a paciência. "Vamos, Weasley, você se recuperou! Você conseguiu superar coisas que pessoas normais não conseguiriam, e está me dizendo que vai recuar porque Draco Malfoy deu dois gritos com você?"
"Ele quase me matou!"
Tonks fez um gesto leviano. "Besteira. Ele é agressivo, só isso."
Gina agarrou as bordas da pia com mais força. "Diga ao Quartel General que a partir de agora eu não me responsabilizo pelos meus atos. E quanto ao contrato", Gina abriu a torneira, fazendo o rosto de Tonks turvar como uma tv mal sintonizada, "que se dane."
Curvou-se sobre a pia e molhou o rosto. A água se misturou com suas lágrimas. Sabia que não podia desistir, isso a deixava transtornada. Não tinha nada a ver com o contrato, mas com Hermione. Cada minuto que passava naquela maldita Mansão, imaginava se a amiga ainda estava viva, e se fosse embora dali seria muito mais difícil resolver aquele caso. E agora estava mais uma vez por conta própria, sem o apoio do Ministério, que ela acabara de mandar às favas. Bem, até certo ponto. Se ela descobrisse alguma coisa, teria de contar a eles. Mas Tonks certamente não se disporia mais a ajudá-la em nada, e naquele momento Tonks era todo o Quartel General para Gina. Fora a única que a treinara, e a única que tinha autoridade suficiente para desligá-la da operação a qualquer momento, como devia estar fazendo naquele mesmo segundo em que Gina lavava o rosto e chorava, ainda sentindo dores em seu pescoço.
Levou a toalha aos olhos e ficou parada em frente ao espelho. Rebeka tinha os cílios um tanto unidos e brilhosos de lágrimas, e seus cabelos caiam em cachos delicados ao redor da cabeça. Olhando-a assim, Gina a achou frágil. Notara que apesar de estar tomando a poção Polissuco regularmente, Rebeka aos poucos assumia características suas, como os olhos que começavam a puxar para uma tonalidade mais amarelada de castanho e os cabelos, que ondulavam cada vez mais. Nada que fosse muito óbvio, é verdade. Ela mesma só notava porque afinal eram características suas. Ainda não sabia muito bem como Core conseguira descobrir tudo com tamanha rapidez...
Alguém acabara de entrar no quarto, e Gina olhou pela porta do banheiro. Era Corelina trazendo uma bandeja com um bule de onde saía uma fumacinha morna. Usava os cabelos soltos e eles batiam em sua cintura. Ao vê-la, Gina sentiu-se menos desolada.
"Como está Scorpius?" perguntou.
Corelina pousou a bandeja sobre a cama e a olhou. "Está bem. A febre cedeu."
"O que é isso?"
"É chá de camomila."
Gina passou distraidamente a mão pelo pescoço, fugindo o olhar do de Core. Não queria que a garota visse o hematoma, mas no caso de Core, aquilo era algo impossível.
De modo que ela disse: "Que houve com sua garganta?"
"Não foi..." Gina deu de ombros, "não foi nada, foi a gargantilha. Estava muito apertada."
Core ficou a olhando. "Você o provocou."
"Não provoquei ninguém", respondeu Gina, seca.
"Você não tem filhos, não é? Mas Rebeka tem, e ela saberia o que fazer, e ele esperava isso dela. Como também poderia não esperar nada, e nesse caso...", Core girou os olhos para o teto. "Aí temos o resultado."
"Não entendi."
"Madame Stern tem uma espécie de fixação pelo marido", Core parou e ficou pensando, depois sorriu para si mesma e continuou: "não gosta de dividi-lo com nada nem ninguém. Ela não vê Scorpius como um filho, mas como alguém com quem ela precisa dividir a atenção do Senhor Malfoy."
"Ela é doente", constatou Gina.
"Ela já tentou mandar os empregados embora seis vezes para ficar sozinha com o marido na Mansão. Ele não aceitou", Core se aproximou de Rebeka como se fosse lhe contar algo tão grave quanto secreto. "O Senhor Malfoy teve motivos para tentar matá-la hoje", disse, a olhando nos olhos. Gina devolveu-lhe o mesmo olhar penetrante. "Quando Scorpius tinha dois anos de idade, ela tentou afogá-lo na banheira."
"Meu Deus..."
"E aos três anos de idade ela envenenou o bolo do menino no dia do aniversário dele. E depois aos quatro anos ela sabotou seu pônei para que o animal caísse durante o galope. Quando Scorpius completou cinco anos, Rebeka o proibiu de sair de casa para ir aos jardins. Queria sufocá-lo de alguma forma, deixá-lo adoecer. E aos seis anos...bem", Core molhou os lábios, "aos seis anos ela acabou de tentar deixá-lo morrer de febre."
A imagem de Core subitamente embaçou diante dos olhos de Gina. As vezes pensava que certas coisas no mundo necessitavam de uma sanidade sobrehumana para se suportar tomar conhecimento.
"O Senhor Malfoy nunca soube de nada, apenas desconfia. Ele vê o filho cada dia mais pálido e fraco...mas passa o tempo todo trancado no escritório, muitas vezes dorme lá, e quando sai, parece cansado, cansado demais..." então Core cortou sua frase no meio e pulou depressa para a próxima, "Creio que a única prova que ele teve até hoje de que Rebeka faz mal ao filho...foi a que você deu hoje."
"Eu não ia deixá-lo morrer...", murmurou Gina, a voz engrolada.
Core bateu as mãos no avental e se afastou. "Você não. Rebeka sim."
