Moira
Segunda Parte
Capítulo 3 – Lullaby
Hush, little baby, don't say a word.
Mama's gonna buy you a mockingbird
And if that mockingbird won't sing,
Mama's gonna buy you a diamond ring
And if that diamond ring turns brass,
Mama's gonna buy you a looking glass
And if that looking glass gets broke,
Mama's gonna buy you a billy goat
And if that billy goat won't pull,
Mama's gonna buy you a cart and bull
And if that cart and bull turn over,
Mama's going to buy you a dog named Rover.
And if that dog named Rover won't bark,
Mama's going to buy you a horse and cart.
And if that horse and cart fall down,
You'll still be the sweetest little baby in town
Gina parou de cantar e aos poucos a respiração suave de Scorpius deu lugar ao silêncio que a ausência da voz dela deixara no quarto. A chuva lá fora fustigava forte a vidraça da janela, e a luz do luar refletia as gotas de água no rosto do garoto como lágrimas compridas. Mas ele dormia, apenas um pouco febril. Uma das meninas tinha trocado suas roupas e ele usava uma camisa de mangas compridas de algodão, seus cabelos estavam secos e eram quase tão claros quanto a luminosidade do luar. Gina afastou uma mecha de cabelo da testa de Scorpius e viu a marca vermelha da picada da aranha ainda ali.
Durante o tempo em que ficara ao lado da cama cantando em sussurros para ele, Gina pensava em coisas demais. Nunca tinha tido filhos e nem sabia como era a sensação de tê-los, mas saber que uma mãe podia odiar tanto uma criança por motivos tão hediondos a torturava. Quando tudo acabasse e ela fosse embora, Rebeka voltaria à Mansão...e tudo seria como antes. Gina soluçava em silêncio, sem saber o que fazer. Podia contar ao Ministério e Rebeka seria presa sob pena de maus tratos, mas ela não tinha provas para incriminá-la. Como ainda não tinha provas de coisa nenhuma. Não conseguira sequer uma pista, e nas vezes que tentara entrar no escritório de Malfoy durante a madrugada, não conseguira. A porta estava trancada e era à prova de feitiços. Ela só conseguiria entrar lá com a permissão de Draco.
Pelo resto do dia ela não o vira e isso a atormentava. Não o fato de não tê-lo visto, mas saber que a qualquer momento o veria – não saberia como reagir. Como Rebeka reagiria depois de ter sido estrangulada pelo marido? Ela seria intolerante? Seria submissa? Não passara pela cabeça de Gina nem por um momento que pudesse viver uma situação daquelas na Mansão. Sabia da índole destrutiva de Draco, mas não podia fazer idéia que com o passar do tempo ele perdera os limites.
Scorpius se mexeu na cama, tirando Gina de seus pensamentos. Ele abriu os olhos e a fitou.
"O que houve?", perguntou.
"Você teve uma febre", disse Gina em voz baixa. "Mas já está bom."
"Mãe", Scorpius parecia estar sorrindo, embora de uma forma triste demais para uma criança, "você estava cantando."
"Sim, meu anjo. Você ouviu?"
Scorpius fez que sim. Gina sorriu, mas viu de relance que ele começara a chorar. Não como crianças comumente choram, com vontade, com desejo, com um pouco de mimo e teimosia, mas com uma apatia que causava náuseas. Ele virou a cabeça para o outro lado, olhando pela janela escura enquanto uma lágrima fina escorria lentamente por sua pequena bochecha branca, confundindo-se com os reflexos das gotas de chuva, e Gina não lhe perguntou o motivo delas, talvez por já saber, ou quem sabe por achar que se abrisse a boca para dizer qualquer coisa, se sentiria fraca demais. Scorpius era uma criança e precisava muito acreditar que existiam pessoas mais fortes do que ele no mundo.
Quando Gina entrou no quarto de Rebeka, sentiu um cheiro doce e forte. Embora não combinasse nada com Malfoy, era dele que o cheiro vinha. Sua expressão era um misto selvagem de fúria, alienação e medo. Gina olhou melhor. Sim, medo. Draco parecia um gato que voltara da rua depois de brigas e devassidões, os cabelos despenteados, a blusa um tanto amassada, os botões da gola e dos punhos meio abertos e o olhar brilhante e cansado. Estava sentado na beira da cama com os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando para o desenho delicado do tapete aveludado sobre seus pés, mas voltou-se para Gina assim que ela entrou.
Nenhum dos dois disse nada. Por alguns minutos Gina achou engraçado perceber que ele ficava displicentemente bonito de barba, embora tivesse passado quase três dias ao lado dele sem se dar conta disso. Era uma barba rala e homogênea, loira como uma penugem, que cobria o maxilar e o queixo e seguia numa linha suave por sobre o lábio superior. Mas isso não é um ponto a seu favor, pensou Gina ao lembrar das mãos dele apertando seu pescoço.
Sem lhe dirigir palavra, Gina atravessou o quarto e foi para o closed, sentindo mais forte aquele cheiro adocicado.
"A moral", disse Draco numa voz irônica. Gina parou de mexer nos cabides do guarda-roupa para o ouvir melhor, "é uma coisa maravilhosa. Ela é como uma entidade que toma conta de nossos corpos, fala por nós, age por nós, e depois vai embora, e voltamos a ser coisas amorais como sempre fomos."
Gina o escutou caminhar pelo quarto e quando se virou para a porta do closed ele estava parado ali.
"Hoje, Rebeka, a moral escolheu você." Ele falava sorrindo como se estivesse apresentando um programa de auditório. Mas logo ficou sério outra vez. "Isso me preocupa, é claro. Já pensou se ela resolve ficar conosco? Você cantará canções de ninar para Scorpius todas as noites e tomaremos café-da-manhã juntos, eu farei tranças no seu cabelo, teremos mais dois filhos e iremos todos juntos ao Hyde Park nos sábados, você teria orgasmos múltiplos na cama e sairíamos em capas de revistas. Poderíamos até fazer um filme."
Talvez Rebeka nunca tivesse dito o que Gina se viu de repente dizendo: "Já tenho orgasmos múltiplos".
Ela pegou uma camisola no armário e ficou esperando que ele replicasse com alguma coisa estúpida ou perversa, mas nada veio em resposta e ela foi forçada a o olhar de relance, esperando que já tivesse ido embora, mas Draco permanecia ali, a observando, de braços cruzados, esperando que ela fizesse alguma coisa...Gina corou. Olhou para o banheiro, a porta aberta, a luz dourada as velas iluminando seu interior minuciosamente luxuoso, e tornou a olhar Draco. Ele ergueu uma sobrancelha, como se Gina tivesse lhe contado uma piada que ele não compreendera.
Pela expressão dele, a hesitação de Rebeka em entrar no banheiro para tomar banho na frente de Draco era inédita. Provavelmente isso é alguma espécie de ritual do casal, pensou Gina, suspirando fundo. De qualquer forma, não era o corpo dela que estaria exposto, e Gina se prendeu decididamente a isso, entrando no banheiro para se despir. Draco veio atrás, a fitando com agudos olhos claros sob cabelos de cetim. Gina parou em frente ao espelho e tentou fazer com que aquilo fosse o menos erótico possível. Mas quando tirou a blusa e viu os seios perfeitos de Rebeka refletidos no enorme espelho do banheiro, sentiu que isso seria potencialmente impossível. Evitando o encarar, ela tirou o jeans e a lingerie. Draco havia se encostado na parede ao lado do boxe e assumido aquela postura que era um misto de introspecção e distanciamento, tão comumente conhecida de Gina em tempos anteriores.
Quando tirou a calcinha, pensou no que viria em seguida. Na melhor das hipóteses, e precisava ser esta, ele apenas a assistiria tomar banho. Talvez Draco fosse um voyeur. Com muito azar, aquilo se prolongaria. Mas pensar nisso causava em Gina a sensação de ter engolido um espremedor de limão enferrujado.
Por isso lembrou-se de Harry, porque todos os assuntos relacionados a sexo eram, em sua mente, imediatamente aliados a ele, desde que ela entrara na adolescência. Ele fora seu primeiro homem e ela ficava feliz em imaginar que pudesse ser o último, o simples fato de se sentir tocada por outro homem a causava repugnância, mas foi com uma cálida sensação de transgressão que ela entrou no boxe e abriu o chuveiro, sentindo o vapor quente lamber suas pernas e seu ventre com uma carícia reconfortante.
À medida que olhava para Draco, essa sensação aumentava, chegando quase a beirar a adrenalina. Não havia nele sinal algum de excitamento, para o alívio perplexo de Gina. Ele ainda a olhava nos olhos, parecendo ignorar totalmente seu belo corpo, e os cheiros maravilhosos dos sais que evaporavam com o calor do chuveiro. Eram cheiros leves, mas penetrantes. Gina molhou os cabelos longos e escuros de Rebeka, passando as mãos no rosto para afastar a água, sempre atenta a Draco, mas tentando categoricamente não parecer sexy.
Enquanto a água caia, eles se olhavam, Gina debaixo de uma cortina macia de água e Draco atrás de uma parede delicada de vapor. Até que ele lentamente quebrou a parede e entrou no boxe. Foi um gesto tão natural e repentino que Gina não teve tempo de sentir coisa alguma a não ser a língua dele em sua boca no segundo seguinte. O primeiro impulso dela foi afastá-lo, mas Rebeka não faria isso, e ele desconfiaria, de modo que Gina tentou corresponder aquele beijo, apesar de estar obviamente rígida como pedra. Tentou se concentrar na água que acariciava seu rosto e por vezes entrava entre suas línguas, quente e suave, mas isso não ajudou e ela começou a respirar mais forte. Uma inquietação sufocante a tomou; Draco não parava aquele beijo, ela não sabia como interrompê-lo, temendo ser fria e entregar o plano.
Seja Rebeka, afirmou uma voz decidida no fundo de sua mente, ou seria seu estômago? Seja Rebeka, disse Tonks com sua voz inflexível. Seja Rebeka, dizia o Ministério e Hermione. Mas Harry se calava. O que ele diria? O que ele faria?
Num impulso de desespero, Gina passou os braços ao redor do pescoço de Draco e seu corpo colou-se ao dele, sentindo suas vestes molhadas e agradavelmente quentes contra seu ventre. O corpo esguio de Rebeka moldou-se no de Malfoy. Estando sozinha, tudo que ela tinha era aquele disfarce, tão frágil, mas que naquele momento lhe pareceu ser a única resposta para todas as suas agonias. Era como se Rebeka lhe tomasse pela mão e lhe dissesse "venha comigo, não se importe com o resto", e ela, Gina, ficasse para trás, esquecida, apagada, sufocada. Isso era estranhamente bom.
Interpretando esse desespero como um estímulo, Draco a beijou de uma forma diferente. Sua língua de repente se tornou mais lenta e seus lábios se moveram com um cuidado quase milimétrico, Gina era capaz de sentir o coração dele pulsando no peito compacto. E ela entrou num estado de enlevo e desejo que jamais tinha sentido antes, tomando agora não só a mão de Rebeka, mas também a de Draco. Se viu abraçada a ele, não mais o beijando, mas agarrando-se a ele, o que havia de mais sólido em sua frente, para não se perder na própria imaterialidade de seus medos.
Então Gina o soltou e encostou-se à parede, ofegante, sentia que estava chorando e se envergonhou, queria que Draco saísse dali, fosse embora, que tudo sumisse. Teve em seguida uma forte crise de autocrítica em que engoliu as lágrimas com força, agradecendo que a água em seu rosto as camuflasse, enrijeceu a expressão e bloqueou o olha para torná-los frios e impermeáveis como os de Draco. Ela havia virado o rosto para o outro lado mas voltou a encará-lo, como se assim pudesse desafiá-lo de alguma forma, mas Draco estava distante e – Gina franziu as sobrancelhas – vulnerável. Seus olhos brilhavam com algo que ela não compreendia, e algo lhe dizia que não era permitido compreender. Ele pegou a esponja ao lado, coberta de espuma branca, e a passou devagar nos ombros e nos braços de Rebeka. Depois em seus seios e em sua barriga, e quando se abaixou para lavar suas pernas, Gina teve uma súbita vontade de rir.
Draco aos seus pés. Que ironia azeda.
Ele passou a esponja em suas panturrilhas, em suas coxas e ficou novamente de pé. Seus cabelos pingavam água, suas têmporas brilhavam, a penugem prateada agora cintilante e úmida, suas sobrancelhas eram riscos bem delineados de um tom castanho claro, de uma textura sedosa, sua camisa cinza claro estava translúcida, marcando seu abdômen como folhas de papel manteiga. Ele largou a esponja e a beijou novamente, dessa vez no canto dos lábios, depois sua bochecha, a linha de seu maxilar, até o pescoço, enquanto deixava a ponta dos dedos roçarem de leve entre as pernas dela.
Gina escutou a voz de Rebeka suspirar o nome dele. Ele a puxou para debaixo do água outra vez, para que a água levasse a espuma em seu corpo, e Gina sentia a língua dele em sua boca como o único fio que a ligava àquela realidade bizarra e causticante.
Ele desligou o chuveiro e a enrolou numa toalha. Saiu do boxe e começou a tirar a camisa ensopada.
"Boa noite, Rebeka", disse ele, saindo do banheiro, e Gina ficou olhando as pegadas molhadas que ele deixara no soalho escuro.
Rebeka estava séria e estranhamente concentrada.
Harry esfregou o rosto e sentiu o coração disparado. Depois que o Quartel submetera Rebeka Stern ao Veretasserium sem obter resultado algum, ele ficara na sala de interrogatório a observando, pensando se deveria ou não tentar entrar em contato com Gina. Talvez por ter sido Gina seu último pensamento antes de cair no sono sobre a mesa da sala, tivesse sonhado com ela – um pesadelo na verdade, em que ela estava sobre ele e faziam amor, mas quando ele começava a sentir prazer, olhava para os olhos dela e via Malfoy refletido neles. Naturalmente desde que se afastaram, Harry sonhava com ela, as vezes eram sonhos que não tinham relação alguma com a realidade, outros eram cenas, lembranças, e quase sempre ela estava de cabelos soltos, sob o sol, sorrindo ou falando com ele. Mas aquele pesadelo era exatamente o reflexo de algo que o acompanhava a muito tempo, desde que ele a beijara pela primeira vez: os olhos dela refletiam sempre algo que ele não conseguia alcançar.
A conversa que haviam tido numa noite, alguns dias antes dela decidir ir para a Mansão, veio em sua mente como uma dor-de-cabeça incômoda. Ele lembrou da sensação entorpecente que tinha depois de fazer amor com ela, que o deixava vago e um tanto inconsciente e as vezes precisava de algum tempo para voltar à realidade. E naquela noite, ainda recuperando os sentidos, ele a olhou. Gina, ainda sobre ele, respirava de leve. O luar incidia sobre ela num ângulo lateral, delineando de branco uma parte de seu rosto e o contorno delicado de seu ombro e braço direitos, alourando alguns fios soltos de seu cabelo de fogo, que caia por suas costas até a cintura. Ele passou a mão pela penugem prateada do ventre dela, a trazendo suavemente para aquele momento, e Gina sorriu, embora ainda parecesse particularmente afastada.
Ele sabia no que ela pensava. Quase sempre, depois que faziam amor, uma coisa passava pela mente de Gina e a distraia. A princípio ela chorava, inconformada, mas depois de tanto tempo é como se a dor anestesiasse, por mais que fosse sempre existir. Gina era estéril. Voldemort não contara com isso quando planejou usá-la para dar continuidade à sua linhagem pútrida, e Harry agradecia a isso com todas as suas forças, ao mesmo tempo em que parte de sua alma silenciava uma revolta íntima. Às vezes, no meio da noite, ele acordava de pesadelos antigos que jamais o haviam deixado e olhava para o lado. Era uma estranha sensação a de ver o dorso de Gina, nu, próximo, sossegado, representando uma realidade nova e dolorosamente boa, e em seguida desejar que aquilo fosse ainda melhor, ainda mais valioso, e não poder ir adiante. Mas nunca deixou nada disso transparecer para ela; Gina tinha um orgulho inflexível, mas também uma fragilidade inimaginável.
No entanto, naquela noite, foi ela quem tocou no assunto.
"Gostaria que tivesse os seus olhos", ela disse, com um sorriso triste que tirou as forças de Harry mais do que o prazer do sexo. "Na verdade, gostaria que ele fosse exatamente igual a você."
Ela sorriu ainda mais e ele viu com alívio que sua tristeza tinha se dissolvido na própria felicidade de imaginar aquela criança impossível.
"Sim", murmurou ela, abaixando-se sobre ele para beijar de leve sua boca, "teria seu caráter, que é a coisa mais linda em você. E quando sorrisse, a gente pensaria que não existe nada de ruim no mundo. E eu tocaria os cabelos dele", Gina deixou as mãos deslizarem por dentro dos cabelos de Harry, e eles resvalaram por entre seus dedos, "e o ensinaria tudo que sei sobre o homem, sobre o mundo e sobre como o pai dele foi e é a pessoa mais fantástica e valorosa desse mundo."
"Você sabe como levantar meu ego", disse Harry, e ambos riram.
Harry levantou da mesa e deu voltas a esmo. O vidro entre a sala e a cela de Rebeka era fumê e não permitia que o outro lado visse o que acontecia na sala, mas ele sentia que Rebeka observava, fosse o que fosse. Uma vontade sinistra e selvagem o consumia. Ficou um tempo a olhando, tentado achar o foco do olhar dela, mas não conseguia. Quem sabe não estava apenas perdida em seus pensamentos. Ele saiu da sala, deu a volta no corredor e foi até a ala onde Rebeka estava. Quando o viu, ela piscou e dirigiu a ele um olhar assassino.
"Me tire daqui seu filho da puta."
Harry encostou-se no espelho em frente a cela dela, mãos nos bolsos. "Peça 'por favor'"
Rebeka cuspiu no chão e o olhou fixo.
"Agora percebo que você nunca deixou de ser a garota vulgar que sempre foi", Harry disse.
"Fique preso numa cela por três dias sem banho e sem uma escova de dentes, e vamos ver se você seria delicado", Rebeka disse e depois acrescentou, quase como se fosse uma única frase: "Quero um cigarro."
"Você fuma?"
"Estou esperando que você me inicie."
"Eu não fumo, Rebeka."
Rebeka deu de ombros. "Então alguém tem que fazer algo por nós dois."
"Não estou convencido que você não saiba nada sobre Draco Malfoy."
"Pouco me importa. Você e aqueles abutres me obrigaram a beber aquela porcaria ácida e fiquei por mais de uma hora tagarelando. Se eu não disse nada do que queriam ouvir, não posso fazer nada."
"Que tal", Harry murmurou, "se você me contar o que não preciso saber?"
Rebeka ficou o olhando. "O quê?"
"Me fale sobre sua vida sexual", Harry puxou uma cadeira que estava perto da parede e sentou-se com as pernas abertas de frente para o encosto, mais perto da cela de Rebeka. Viu com satisfação que o assunto afetara a mulher. "Nada do que você disser sairá daqui."
"E porque diabos eu lhe falaria sobre minha vida sexual?"
Harry coçou o queixo. "Malfoy é gentil?"
"Não", respondeu ela com amargura.
"Frases longas, Rebeka."
"Não, ele não é."
Harry sorriu. "Porque ainda está casada com ele?"
"Porque eu o amo."
"Quantas vezes por semana?"
Rebeka o encarou. Cruzou as pernas e encolheu-se em sua cadeira. "Nove."
"É um bom número. Você acha que explica os nove anos de casamento?"
"Escute, guri", Rebeka disse em tom leviano, embora Harry tivesse certeza de que era apenas dois anos mais novo que ela, "Draco não se prende a uma mulher por sexo, se fosse este o caso, ele já estaria casado com umas cento e trinta mulheres."
"É. Mas não perguntei isso. Perguntei para você se sexo justifica seu casamento."
"Porque não justificaria?" Rebeka coçou o joelho. "Draco é muito inteligente. Poucas pessoas conseguem perceber isso, ele não se importa com certas coisas."
"Como o quê, por exemplo?"
"Com os outros."
"Ah", Harry disse, "bom exemplo."
"Ele não se importa com ninguém porque não tem motivo para isso. As pessoas acham que são importantes demais, mas para Draco todos já nascem sendo merdas."
Harry assentiu.
"Onde você quer chegar com essa conversa?", perguntou Rebeka.
"Quero entender uma coisa."
"Que coisa?"
"Como pode uma mulher viver nove anos com alguém que ela não conhece, ter um filho com ele e sentar aqui comigo sem ter absolutamente nada para me dizer de bom sobre o marido a não ser que transam nove vezes por semana."
Rebeka balançou a cabeça. "Não, não", disse. "Você quer justificar alguma coisa. Estou sabendo que sua namoradinha está agora no meu lugar, na Mansão Malfoy." Ela chegou mais para frente, e Harry viu seus olhos castanhos o desafiarem. Para uma mulher daquele tipo, Rebeka Stern sabia ser persuasiva. "Sabe, guri, isso é o que mais me deixa puta. Todos os dias da minha vida eu vivo para aquele homem. Eu acordo e me olho no espelho querendo ver o que ele vê, e vou dormir sentindo o gosto dele na minha boca e dentro de mim. Algumas pessoas precisam ler para dormir, tomar poções, trouxas idiotas vêm até televisão", ela fez uma cara crispada de desgosto, mas logo voltou à concentração anterior. "Eu só preciso do meu marido." O modo como ela falava meu quando se referia a Draco chegava a ser penosamente digno. "Depois que Scorpius nasceu eu o amei. Não pelo que ele era, garoto. Mas eu o olhava e via Draco ali, naqueles olhos inocentes, naquele rostinho de anjo mau. Eu o olho e lembro que ele nasceu do amor de Draco por mim, que eu sou a esposa dele e eu gerei o filho dele." Rebeka rilhava os dentes pronunciando cada palavra, e seus olhos aos poucos brilhavam de amor e cólera, "E vocês, seus filhos da puta, enfiam na minha casa uma garota que se faz passar por mim! E vai para a cama com o meu marido! Olha para ele com os meus olhos, toca nele com as minhas mãos! Ela não sabe ter o cuidado que ele merece, ela não o compreende, ela não saberá lidar com ele como EU SEI!"
Rebeka havia se levantado e agora sacudia as grades da cela, encarando Harry com um ódio que chegava a ter cheiro.
Harry piscou.
"Ah", fez Rebeka, irônica, "você tem muito auto controle, garoto. Tem sim. Você sabe que ela está mesmo sendo eu, na prática", ela riu, frisando a última palavra e fazendo uma veia na têmpora de Harry estremecer, "mas está sendo profissional. Meus parabéns, admiro homens assim, que não se dobram aos próprios instintos."
Com isso Rebeka pareceu terminar seu discurso e voltou a se sentar calmamente na cadeira. O tom avermelhado de suas bochechas agora se atenuavam para um suave rosa corado.
Harry balançava uma perna, a encarando. "Seu marido está sendo investigado por cometer homicídios."
Rebeka riu, leviana, mas não disse nada.
"Naturalmente o Veritasserium comprovou que você não sabe nada a respeito, mas ainda é muito cedo para libertá-la", foi a vez de Harry sorrir, mas não havia nada de agradável naquele gesto, para o azar de Rebeka. "Até lá seremos só eu e você, Rebeka Stern. Olha só que divertido."
"Você está fazendo isso para descontar em mim seus ciúmes."
Harry coçou a barba e disse para o teto: "É, acho que sim. Realmente gostei daquele papo de 'só preciso do meu marido para dormir'... isso teria levado as fábricas de soníferos à falência, não é Rebeka? Vamos conversar, não fique tão calada, dá mau hálito..."
Rony atirou o jornal sobre a mesa no escritório do Quartel General e fechou os punhos. Harry sentiu a tensão subir na sala como gás lacrimogênio. O rosto de Rony, tão comumente descontraído, estava marcado por olheiras escuras, e seus olhos estavam sem brilho. Desde que a linhagem sangüínea das vitimas da Morte Súbita fora admitida como um fator em comum, ele não conseguia mais viver. Levava Hermione consigo para toda parte, e mantinha uma vigilância sobre ela que chegava a ser incomoda até mesmo para Harry, como se tivesse medo que ela evaporasse do mundo enquanto ele piscava. Cada vez que uma nova vítima era encontrada, ele sofria um golpe. Desta vez foram três irmãos bruxos nascidos de trouxas, e a notícia vinha crua e descritiva no Profeta Diário daquela manhã.
"E não temos pista nenhuma", a voz de Rony saiu abafada enquanto ele esfregava os cabelos com uma expressão cansada, "não sabemos que lógica é essa, as pessoas simplesmente morrem, não há uma ordem, pode ser qualquer um...", sua garganta ondulou quando ele engoliu em seco e seus olhos hesitaram em se voltar para os lados de Hermione, "a qualquer momento."
Hermione, que estivera encostada na mesa de Harry, permaneceu calada e imóvel, a expressão distante e vaga, os braços ao redor do corpo.
"Rebeka Stern não deu pista alguma", comentou Harry depois de longos e torturantes minutos de silêncio em que apenas o relógio decorativo de água pingava, pendurado na parede atrás de Rony. "Estou acreditando que ela não sabe mesmo de nada, o que nos leva à..."
"Gina", disse Rony. Sua barba uniforme e ruiva em conjunto com sua expressão séria lhe acrescentava dez anos de idade.
Harry não ia seguir aquela linha de raciocínio, mas teve de admitir em silêncio que de fato agora só podiam confiar em Gina.
"Supondo que seja Malfoy o responsável pelas mortes", Hermione falou, mas seus olhos ainda estavam sem foco e um tanto arregalados.
"Não vejo quem mais poderia ser", Rony murmurou, depois estalou os nós dos dedos distraidamente. "Desde que Voldemort foi derrotado, não sobrou nenhum Comensal da Morte, ninguém que pudesse dar continuidade às suas atrocidades doentias."
"Você está esquecendo", Harry disse, "que as idéias de Voldemort eram apenas cópias um tanto deturpadas das idéias de Salazar Slytherin. E se são idéias antigas, qualquer um pode retomá-las."
"Mas o ponto", Rony havia se inclinado na poltrona, gesticulando com uma mão para Harry, os olhos estreitados, "é: quem teria tanta audácia quanto Voldemort?"
"Só não consigo imaginar que pudesse ser Malfoy."
Rony balançou a cabeça. "Mas Gina conseguia. De todos nós ela é quem mais o conhece e tenho certeza que ela só concordou em ir para a Mansão Malfoy porque sabia, ela sabia, Harry, que Malfoy teria essa audácia."
"Depois que Voldemort se foi", disse Hermione, "os Comensais da Morte silenciaram. Não tinham mais um líder nem um objetivo pelo que lutar. Mas quando penso em Malfoy, não sei porque, algo me incomoda. Voldemort era muito poderoso e tinha o dom da palavra, convencia qualquer pessoa com seus argumentos, com sua lógica, tinha tanta fé no que defendia que contaminava as pessoas com isso. Mas Draco Malfoy...ele tem inteligência."
Harry e Rony a ouviam, concentrados. Rony parecia estar entendendo onde a esposa queria chegar, porque estreitava os olhos num misto de interesse e ansiedade.
"E a inteligência é a pior arma que alguém pode ter. E a melhor."
"Então", disse Harry, cruzando os braços, "vamos tentar entender a vida de Malfoy. Depois que Lúcio Malfoy morreu, ele herdou toda a fortuna da família e dos antepassados. Os Malfoy tinham dois cofres em Gringotes, porque um não era grande o bastante para todos os seus tesouros. Tinham fama de serem mercenários. Defendiam a estirpe de sangue puro desde a Idade Média, como os Black, e foram seguidores fiéis de Voldemort no passado, mas Draco Malfoy nunca se envolveu diretamente com Tom Riddle, alguém tem um palpite do porquê?"
Foi, naturalmente, Hermione quem respondeu: "Porque ele sabia que o modo de Voldemort fazer as coisas ia levá-lo à decadência."
Harry fez que sim, e Rony deu um sorriso estranho.
"Depois que se recuperou, Gina me contou algumas coisas que escutava na Mansão Malfoy", Harry falou. "Draco mantinha contato com Salazar Slytherin."
Hermione engasgou. Rony fez um movimento brusco ao descer as botas de cima da mesa e derrubou um tinteiro sem querer.
"Você nunca..."
"Porque só nos contou isso agora?"
"Como ele conseguiu manter contato com um morto?"
"Ah, bem", disse Rony para Hermione em tom condescendente, "não gosto quando você faz isso. Subestima seu cérebro."
Diante disso, Hermione ficou alguns segundos erguendo as sobrancelhas, então exclamou: "Um vira-tempo!"
"Talvez", disse Harry, "Mas não acho que seja esse o caso. Gina me falou sobre um escorpião o qual Salazar se transfigurava. Eu não sei como Draco conseguiu trazê-lo de volta, mas é bom lembrarmos que o corpo de Slytherin nunca foi encontrado."
"Sempre desconfiei que ele não tivesse morrido...", murmurou Rony para si mesmo.
"Se estiver vivo, tem mais de mil anos", concluiu Hermione, franzindo a testa como se achasse a idéia tão absurda quanto assustadora.
Mas Harry prosseguiu: "Salazar Slytherin perturbava Narcisa, mas Gina não chegou a saber porquê. Narcisa Malfoy sofria de algum tipo de doença que fazia com que o filho e o marido a mantivessem dormindo para que não sofresse ou visse o que não devia. Não contei nada disso a vocês antes porque eram coisas que Gina não gostava de lembrar, queria que sumissem de sua mente."
"Mas isso muda tudo", Hermione mal se continha, "Harry, se Slytherin tem contato com Draco, as mortes súbitas começam a fazer sentido!"
"Hermione, vá com calma..." começou Rony erguendo uma mão.
"Rony, vamos, pense!", Hermione exclamou, "São bruxos filhos de trouxas que estão morrendo! Isso não lhe é familiar? Eram as mesmas idéias de Voldemort. E de quem Voldemort tirou essas idéias? De Salazar!"
"Mas Hermione, como Malfoy poderia estar matando essas pessoas sem sequer ter contato com elas? Algumas vítimas sequer moram na Inglaterra."
"Faz sentido", disse Harry, "Mas tem algo que não encaixa."
"Eu sei", admitiu Hermione, estalando os dedos.
Os três se olharam. Tudo fazia sentido, mas alguma coisa não batia, e nenhum dos três conseguia encontrar em suas cabeças a peça que faltava.
A época das chuvas começara. Os dias eram pontuados por garoas finas que batucavam nas janelas e enchiam a Mansão de um som morno que, no silêncio da casa, era triste e vazio. A névoa cobria o horizonte e a copa das árvores lá fora, o verde da grama era escuro e o cinza do céu era aguado. As lareiras agora eram acesas pelos criados e Scorpius passara a usar casacos de linhos sobre as blusas de seda.
Com o passar dos dias, Gina sentia-se desmotivada por não ter conseguido descobrir nada significativo sobre Draco. Scorpius não dizia nada e nem parecia saber, os criados tão pouco – a única pista que ela tinha era o escritório de Malfoy, mas este estava sempre trancado quando vazio, e estando Malfoy lá dentro, de nada lhe servia. Sabia que seria difícil descobrir coisas na Mansão Malfoy, sempre fora. No passado ela tivera sorte, porque Core a ajudara, e Narcisa lhe dava pistas mesmo sem querer, e Tom Riddle a instigava, e ela estava aliada a Draco. Mas agora tudo parecia ter se fechado, ela se sentia verdadeiramente sufocada, sem caminho algum em sua frente, vivendo sob o mesmo teto que Malfoy, suportando todas as nuances geladas de seu humor imprevisível, tentando moldar-se a ele e à Rebeka o máximo que podia, mas não se aproximava nem deles e ainda tinha a sensação de estar se afastando de si mesma e de Harry. Por mais que pensasse nele, ali, na redoma alienante da Mansão Malfoy, Harry era uma realidade quase delirante. E se era delirante, não era realidade.
Ao mesmo tempo, Draco se tornava mais e mais presente, como uma droga que se toma por força do vício, e não mais por vontade. Todas as noites ele beijava a esposa, tocava-a, e então se afastava, num estranho e inebriante jogo de sedução que não tinha sentido. Era como se ele não tivesse a menor pressa em possuí-la, ou de saciá-la, mas também não parecia interessado em simplesmente provocá-la. Gina não compreendia, não conseguia chegar às razões de Malfoy, não conseguia sequer desconfiar de nada em relação a ele, sobre ele, dele.
Mas naquela manhã soturna, os criados da Mansão Malfoy olharam desconfiados quando a Senhora Rebeka desceu as escadarias de entrada, o casaco de pêlo de doninha ondulando ao vento, e entrou no coche, que saiu tremulando sobre o cascalho que rodeava a fonte central do jardim. Para eles, algo estava estranho, porque a madame quase nunca saía, muito menos em dias de chuva. Mas não cabia aos criados da Mansão saber, estipular, ou sequer imaginar nada a respeito de seus patrões. Esse era um direito o qual eles estavam socialmente fadados a nunca ter, de modo que tão depressa quanto Rebeka deixou a Mansão, aquele fato foi ignorado.
Para um dia de chuva, Edimburgo estava agitada. Estudantes de guarda-chuva listrado e meias molhadas corriam pelas calçadas, rindo e meio encolhidos de frio, homens e mulheres atravessavam as ruas em passo justo, saíam das estações do metrô, se esbarravam, se cumprimentavam, conversavam. Quando Gina passava pela praça central, escutou ao longe o som de uma gaita de foles e por alguma razão que ela não soube explicar, achou pouco convincente a fantasia do homem que a tocava, distraindo turistas num kilt vermelho berrante. Ela passou pelo grupo de turistas, atravessou a rua e seguiu por mais quatro quarteirões adiante, até chegar numa outra rua mais larga, de paralelepípedos, onde o telhado de casas baixas e magras pingavam gotas grossas e apáticas de chuva. Aquela era uma das ruas mais famosas de Edimburgo por abrigar a maior concentração de lojas wicca do Reino Unido, e em alta temporada fervia de turistas, mas naquela época do ano estava tão vazia que Gina se sentiu entrando em outro mundo, ouvindo cada vez mais distantes os sons da cidade atrás de si. Dava para sentir, como um murmúrio misterioso que arrepiava os pêlos dos braços e das costas de Rebeka, a magia fluir. Na verdade estava em todo lugar, especialmente ali, na Escócia, e se você fechasse os olhos em qualquer lugar mais tranqüilo, ia sentir aquela força descer em você como uma descarga de prazer. Para os trouxas, claro, era uma mera sensação, mas para os bruxos era algo tão forte que precisavam ter muito controle para não fazer magia espontânea.
Por esta razão era uma ponte de ligação entre Londres – o Beco Diagonal – e Edimburgo.
Gina parou em frente a uma loja de paredes escuras cujo néon desligado à luz do dia lembrava um decadente letreiro de boate. Na vitrine, fadinhas de resina eram expostas, ocultando o interior sombrio. Ela empurrou a pesada porta de vidro, sininhos retiniram sobre sua cabeça, e seu coração apertou para em seguida acelerar quando seus olhos cruzaram com os de Harry, sentado numa mesa perto do balcão.
Apesar de pequena por fora, a loja por dentro era comprida e tão colorida quanto o interior de uma concha, cheirava a chocolate e mirra, e a vendedora era uma senhora pequena, de traços orientais, cujos cabelos muito negros e longos estavam presos numa trança desfiada. Ela conversava com Harry animada, os olhos brilhantes, e sorriu para Rebeka um tanto consternada quando esta entrou. Gina achou-se grande demais dentro do casaco de pele e desejou ter escolhido algo menos suntuoso.
Sem perguntar se Rebeka desejava alguma coisa, a senhora acenou para Harry e foi se afastando.
"Até, Senhora Chang", murmurou Harry com um sorriso crispado e, vendo que Rebeka continuava parada na porta, levantou e ambos saíram da loja para a rua deserta.
Caminharam pela calçada, debaixo da proteção das calhas e dos telhados, mas Gina sentia respingos gelados de chuva na meia calça e nos sapatos de Rebeka. Harry tinha uma postura amistosa mas distante, e disse com um olhar imparcial:
"Quando recebi sua coruja, Tonks estava do meu lado."
"Ela não está satisfeita com o que tenho feito, quero dizer..." Gina piscou e virou o rosto para o outro lado, "Eu não sou exatamente delicada quando me irrito e ainda não consegui nenhuma prova."
"Ela não tem estado muito simpática ultimamente", Harry sorriu, e Gina teve vontade de parar e abraçá-lo, de beijá-lo e sentir os cabelos dele entre seus dedos, mas tudo isso passou em sua mente enquanto ela o ouvia, esforçando-se para parecer apenas uma centrada parceira de trabalho. "O Ministério está tentando conter a situação mas ela está saindo do controle. Pessoas morrem sem motivo, nada aparece na autópsia, estão com medo de que seja uma doença desconhecida sem cura."
Passaram por uma banca de revistas e Gina leu na primeira página de vários jornais manchetes sobre mortes súbitas sem explicação. Estava a tantos dias na Mansão Malfoy, isolada do mundo, que não tinha noção da proporção que aquilo estava tomando, tanto para os bruxos quanto para os trouxas.
"Quando alguém morre por um feitiço", comentou Gina, lendo de relance as notícias enquanto passavam devagar pela banca, depois voltou-se novamente para Harry, "sabemos que houve alguma coisa. Mesmo que os trouxas não saibam, nós sabemos. Mas agora nem mesmo nós sabemos, Harry, e não consigo compreender como isso está acontecendo...Malfoy não sai de casa, ele passa o tempo todo...Você tem certeza de que ele é um suspeito em potencial?"
Pararam debaixo de uma marquise, na frente de uma confeitaria. O cheiro de doces e chocolate perfumava o ar gelado e isso pareceu fisgar Harry.
"Colocamos você para investigar isso porque sabíamos que você tinha essa resposta."
"Bem, não tenho", então Gina balançou a cabeça, e mechas escuras do cabelo de Rebeka deslizaram para um lado de seu rosto, "Malfoy é...é perigoso."
Harry deu de ombros como quem encerra a questão.
"Mas como, Harry? Como ele está matando pessoas sem sair de casa? E acho que Malfoy está desconfiando."
Carros passavam depressa pela rua principal. Do outro lado, uma loja de eletrodomésticos exibia televisores de plasma com telas do tamanho de janelas, e todos estavam sintonizados na BBC de Londres. Uma repórter loura de nariz fino falava, e seus lábios se moviam de forma engraçada, sem som, acompanhando a expressão grave e concisa de suas sobrancelhas.
"Bem, foi por isso que vim me encontrar com você", Gina continuou, "ele me olha de uma forma que não acho que seja a forma como olha para Rebeka", ela parou a frase ali, porque não conseguiu se imaginar contanto a Harry que estiveram tomando banho juntos mas não fizeram amor.
Mas a reação de Harry foi totalmente inesperada:
"Como ele é na cama?"
Gina o olhou e ele estava sério. Não havia ciúme em sua voz, mas seus olhos tinham uma dureza quase agressiva, embora estivessem tranqüilos.
"Não...teve cama."
"Então", Harry sorriu um tanto nervoso, "sofá, mesa, o que seja."
"Harry, não transamos."
Outra reação adversa. Gina esperava ver pelo menos alívio no rosto dele, mas ele pareceu sinceramente alarmado.
"Merda."
"O quê?"
"Merda", ele repetiu.
Os transeuntes passavam para lá e para cá em passos ligeiros, e um grupo de crianças usando capas azuis atravessou a rua na direção de Harry e Gina, fazendo barulho, guiados pela professora. Uma delas ergueu os olhos para Harry e eles brilharam como se reconhecessem ali um herói de quadrinhos. Estava tão fascinada que trombou com o colega da frente.
Harry relanceou os olhos por toda a extensão da rua. Tudo parecia normal e não havia o menor cheiro de magia no ar, mas ele sentia que algo estava errado. Algo estava prestes a acontecer. Aquela criança o reconhecendo não era um bom sinal.
Ele segurou Gina pelo braço e entrou com ela na confeitaria. Foram para os fundos, fingindo estarem interessados nos panetones e nos bolos, e as estantes apinhadas de doces os encobriu com facilidade.
"Ele sabe" Harry falou depressa, abaixando-se e virando na mão um panetone de chocolate, como quem procura a validade na embalagem, "Essa não é a atitude normal de Malfoy, interroguei Rebeka porque desconfiava que ele iria querer testar a pessoa caso percebesse alguma coisa. E ele está fazendo exatamente isso."
Gina abriu a boca para replicar, indignada, mas recriminou-se imediatamente. Porque estava evitando tanto ir para cama com Malfoy, se isso fazia parte do plano? Se ela aceitara ir para a Mansão sabendo dessa condição? Era ridículo argumentar, era ridículo até mesmo parecer ou se sentir indignada.
Harry não a olhava. Ao invés disso estava com os olhos o tempo todo nos panetones e na entrada da confeitaria. Pensava no absurdo que poderia parecer a um bruxo ver Harry Potter conversando com a esposa de Draco Malfoy e cada vez mais acreditava que fora uma tolice aceitar encontrar-se com Gina, mesmo que ali, no meio de trouxas.
Para terminar depressa a conversa, ele disse: "Talvez ainda haja uma saída. Você vai ter de convencê-lo na cama."
Gina teve outro ímpeto de reagir, mas ficou calada, sentindo que sua boca se contraía.
Ele se aproximou um pouco mais dela para falar em voz baixa, mas em tom casual: "Seja singela. Rebeka não é do tipo provocante, mas sabe fazer as coisas certas na hora certa."
"Eu sei disso", ela respondeu, balançando a cabeça.
Inesperadamente ele a segurou pelo queixo e a fez olhá-lo nos olhos, o que não haviam feito até então, e aquilo foi como uma injeção de amor em Gina, que o beijou ali mesmo, sem se importar com mais nada.
"Você entendeu?" disse Harry com a voz um tanto pastosa, ainda a olhando nos olhos.
Ela fez que sim.
Ele passou a mão depressa pela curva do rosto dela, mas de forma tão fria que mais pareceu estar a afastando, e em seguida deixou o panetone sobre os outros na prateleira, fazendo menção de irem embora.
Gina seguiu com ele de volta até a lojinha da Senhora Chang, calada, esperando ansiosa pelo momento em que estaria sozinha, totalmente sozinha, para que ninguém pudesse escutá-la chorar. Esperava pela hora em que estaria longe de qualquer um, quando pudesse deixar que seus olhos fossem tristes, fossem vazios, fossem mortos, sem culpa, com alívio.
