Moira
Segunda Parte
Capítulo 4 – Amantes no Escuro
O Senhor Gerard acenou para Corelina enquanto arrumava a cartola na cabeça em forma de ovo e Scorpius o esperou sair e descer as escadarias da Mansão para os jardins. A chuva não havia cessado e o ar estava leitoso e gélido. A capa do Senhor Gerard, geralmente ondulante e brilhosa, amofinou em suas costas quando ele saiu para a chuva. O coche que o levaria até a cidade estava parado mais adiante, mas nem Core nem Scorpius o viram sair da Mansão, porque a moça fechou logo a porta e começou a recolher os livros do garoto, espalhados sobre a enorme mesa da sala.
Enquanto recolhia os livros, Core passava os olhos, atenta, pelas anotações. O Senhor Gerard era um dos professores de Scorpius, não ensinava magia, porque isso Scorpius iria aprender mais tarde, em Hogwarts. Mas o professor foi um pedido do próprio garoto, que desde cedo se interessava em física e matemática. Sendo assim, o Senhor Gerard dava aulas para ele a mais de dois anos e sempre elogiava a inteligência aguda do menino. Malfoy lhe pagava bem, mas parecia que não havia nada que o satisfizesse mais do que ver Scorpius escrever em seu caderno equações e sistemas complexos, que ocupavam páginas inteiras. Ele arregalava os olhos negros de pombo, espantado, deleitado, e erguia as sobrancelhas para Core, que sempre assistia as aulas de longe, caso o homem ou o garoto precisassem de algo. Depois fingia não estar muito surpreso.
"Para não inflar demais o ego dele", justificava-se à Core em segredo.
Mas, olhando para aqueles números pequenos e corridos, Core se perguntava como era possível resistir ao raciocínio daquela criança.
Ela olhou para Scorpius, agora sentado quieto perto da lareira, girando na mão uma bola de gude dourada e acariciando com o olhar o reflexo do fogo no vidrinho brilhante. Era tão pequeno e frágil, tão suave, que muitas vezes era difícil conceber que uma genialidade tão feroz habitasse aquele pequeno corpo.
Enquanto olhava distraído para a bolinha, sua expressão delicada ficou subitamente séria, presa a algum pensamento particular, e Core sorriu ao ver seu rostinho assumir uma gravidade descabida para um menino de apenas 6 anos.
Uma imagem familiar superpôs-se ao vulto de Scorpius. A figura de Draco sentado na antiga poltrona de Lúcio Malfoy, em frente a lareira de uma das 7 sala da Mansão, a sala preferida de Lúcio. Ele tinha por volta de treze anos, e ver em Scorpius os mesmos traços de Draco, os olhos de água, a linha sedutora das pálpebras e o maxilar quadrado, ainda muito tênue em Scorpius, fez o coração de Core apertar e ao mesmo tempo acelerar. Seus cabelos finos de cetim caiam sobre seus cílios e douravam à luz laranjada do fogo, exatamente como os de Draco. Felizmente, a única coisa que herdara da mãe fora as ondas suaves dos cabelos, que modelavam ainda mais seu rosto de anjo.
Scorpius saiu de seu transe particular e largou a bolinha sobre a mesa, ficando de pé.
Havia em seu rosto um ar treloso natural das crianças que vivem muito tempo sem sair de casa, e que anseiam por uma diversão mais excitante que a de atrapalhar o serviço dos empregados.
Scorpius colou o ouvido na porta o escritório. Não havia som algum, mas isso era o normal. Como sabia que ia estar trancada, ele bateu. Imediatamente um pequeno olho mágico surgiu na madeira escura da porta, cor de azul translúcido, olhou para baixo, fitou Scorpius e o trinco da porta girou.
Seu pai estava sentado atrás da mesa abarrotada de livros, e sua expressão era cansada e penetrante. Suas sobrancelhas finas e douradas estavam franzidas enquanto ele escrevia com uma pena, a testa tinha gotas finas de suor e um fio fino de cabelo havia se desprendido dos demais e caía sobre seu lábio, agitando-se com os movimentos frenéticos que o tronco dele fazia ao escrever depressa.
Desde que Scorpius podia se lembrar, seu pai escrevia. Ele lhe dizia que eram histórias, mas nunca permitiu que Scorpius as lesse. Por mais que insistisse, seu pai não deixava, e evitava falar no assunto. Era como se fosse um segredo que fazia parte do mundo inexplorável e misterioso de seu pai, um mundo tão grande e majestoso quanto ele próprio. Os livros em que ele escrevia eram grandes, com capas grossas e folhas grossas como pergaminhos, cheiravam a couro e cera de vela, e Scorpius tinha mais desejo de lê-los do que jamais teve com qualquer outro livro de sua biblioteca, que para seu tédio já não trazia novidades.
Nas noites em que demorava para dormir, dedicava sua imaginação às histórias secretas de seu pai. O que diriam? Porque eram tão proibidas? Não podiam falar de piratas nem de dragões, porque isso ele já lera em outros livros e seu pai não os vetara. Também não podia ser sobre coisas de adultos, senão seu pai permitiria que outros adultos lessem. Não, era algo pior, maior. Era algo que ele não conseguia imaginar e justamente por isso lhe causava tanta admiração.
Mas podia ficar satisfeito em ser o único permitido a entrar em seu escritório. Qualquer coisa que seu pai dedicasse exclusivamente a alguém era algo a se ter como troféu, e mesmo pequeno demais para compreender porque, Scorpius guardava aquela honra como uma insígnia perfurada em seu peito.
Fechou a porta atrás de si e foi se sentar sobre uma pequena estante. O escritório de seu pai era uma mistura esquisita de laboratório científico com biblioteca, e havia ali, espelhados pelas prateleiras, objetos tão estranhos quanto os que Leonardo Da Vinci fazia. Um em particular intrigava Scorpius: uma ampulheta minúscula que ficava pendurada por uma corrente longa no cabideiro. Embora seu pai quase nunca lhe desse atenção, os sentidos imaginativos de Scorpius depositavam total crença naquele pequeno objeto.
"Onde está sua mãe?" perguntou a voz grave de seu pai, fazendo Scorpius se voltar para ele.
"Saiu."
Os olhos de seu pai ergueram-se subitamente para ele, como se Scorpius tivesse lhe dado uma resposta torta.
"Saiu?"
Scorpius fez que sim.
Seu pai inclinou o enorme tronco para trás e se levantou. Scorpius gostava quando ele fazia isso, era como ver um líder se levantar, e mesmo que o escritório estivesse em silêncio, pareceu que até mesmo o próprio silêncio se encolhera. Ele foi até a janela nos fundos do aposento e afastou o cortinado. A luminosidade do dia acendeu seus olhos, mas ao invés de ficar com a expressão mais leve, sua expressão fechou-se como o tempo lá fora.
Scorpius partilhou do mesmo pensamento do pai. Sua mãe estava estranha.
"Vocês vão se divorciar?"
Seu pai fechou o cortinado e o olhou. "Porque deveríamos?"
"Vocês não se beijam mais."
Um ar um tanto aparvalhado passou pelo rosto de seu pai, mas Scorpius fez força para perdoar aquele gesto. Ele deu a volta na mesa, sentou sobre o tampo com uma das pernas apoiada no chão e o olhou.
"Você ainda é muito pouco importante para que seus pais lhe devam alguma satisfação."
Scorpius sentiu as bochechas corarem. O olhar congelante de seu pai fixo no dele o fez perder as palavras. Ele teve vontade de correr e abraçá-lo, mas não conseguiu se mover.
"Você não é nada, Scorpius, está entendendo?"
A voz de seu pai era limpa, grave e homogênea.
"Você é uma criança como qualquer outra, ingênua, descrente, inventosa, atenta, e isso não são qualidades."
Desviando os olhos dos de seu pai, Scorpius fitou a mexa de cabelo que ondulava diante do rosto dele enquanto ele falava, mas aquelas palavras penetravam seu ouvido e tornavam suas costas e seu peito quentes como carvão em brasa. Quando seu pai ergueu a mão e virou devagar seu rosto para que o encarasse de novo nos olhos, Scorpius mordeu os dentes para não chorar.
"Você é nada", ele baixou a voz e Scorpius prendeu a respiração, "Ouça, o mal das pessoas é achar que valem alguma coisa. Que os outros lhe devem alguma coisa, lhe devem amor, atenção, carinho, explicações. Não devem, porque ninguém é coisa alguma. Todos não passam de vazios, nascem vazios e morrem vazios."
Scorpius agora tentava evitar que seu coração parasse.
Então, quase como um pedido de desculpas, uma forma de abrandar suas palavras, seu pai o soltou e acrescentou, a expressão um pouco mais amistosa:
"Pare de chorar, isso é vergonhoso. Não tenho pena de você, Scorpius." seu pai inclinou a cabeça para o lado como se o avaliasse, "Não tenha pena de si mesmo."
Era aquilo. Scorpius desceu da bancada em um salto e agarrou-se às pernas do pai, soluçando.
"Desculpe!", disse ele com a vozinha entrecortada. "Me desculpe, papai."
Seu pai não disse nada, apenas pousou a mão em seu ombro e Scorpius sentiu o peso de aço daqueles dedos que podiam quebrar sua espinha num aperto. Mas eles o acariciaram.
Mas não era o bastante. Ele se sentia humilhado, ofendido, se sentia sujo e o perdão de seu pai era tudo que ele tinha na vida. Sempre seria assim, um perdão por algo que ele fizera desde que nascera, uma dívida que só crescia sempre que dizia algo errado, que fazia algo errado.
"Me desculpe", ele repetia, sem conseguir parar de chorar.
Seu pai o fez olhar novamente para ele.
"Pare de chorar. Não esconda o rosto."
Scorpius repetiu, olhando o mais fundo possível nos olhos frios de seu pai: "Me desculpe."
Ainda sim seu pai não disse as palavras que queria ouvir, embora Scorpius soubesse que no fundo ele não estava chateado. Mas não era esse o ponto – seu pai era um rei, era um homem e tudo ao seu redor se tornava masculino e forte com sua presença; ele tinha o poder de tornar as coisas mais magníficas em pó, e as mais miseráveis em jóias. E esse poder nenhum outro ser humano tinha, nem nas histórias que ele lia, nem nas que as empregadas lhe contavam, em lugar algum, em tempo nenhum.
"Não sou nada, papai", disse ele "sou apenas seu filho, é tudo o que sou."
Scorpius não viu brilho algum, genialidade ou soberba em suas palavras que fossem capazes de trair a impenetrabilidade azul dos olhos de seu pai, mas ao ouvi-las, ele sorriu de uma forma triste, quase carinhosa.
"E não me importo em ser alguém se eu puder ser sempre só o seu filho."
Seu pai ergueu as sobrancelhas. "Ora, não se preocupe com isso. Não há como ser diferente."
E passando-lhe depressa os dedos nos cabelos, seu pai o afastou e voltou e se sentar, rijo e forte como um gladiador, em sua poltrona cor de carmim.
Quando a senhora Malfoy chegou na Mansão, os criados ouviram a pesada porta da entrada se fechar como um trovão. Puseram-se em alvoroço. Três moças se acotovelaram pelo corredor até o hall de entrada e uma delas já estava abrindo a boca para pedir licença e retirar seu casaco molhado do corpo quando estacou, e as outras duas também, com a visão de Rebeka Stern tirando ela própria o encharcado casaco de pêlo de doninha.
Quando ela deu um sorriso natural para as três moças, todas arregalaram os olhos como se ela as tivesse estapeado.
A que se refez mais rápido do absurdo disse, estendendo a mão: "Senhora, por favor, o casaco."
"Ah", fez Rebeka Stern passando o casaco pesado para as mãos da menina. "Obrigada."
E com outro sorriso subiu para o andar de cima.
As três não esperaram vê-la sumir; giraram nos calcanhares e correram para os fundos.
"Ela sofreu algum trauma", disse uma delas para as outras quando chegaram ao fosso fumegante que era a cozinha da Mansão.
"Sorriu para nós", contou a outra.
As outras se entreolharam, bestificadas.
"Era com desdém", quais justificar uma.
"Não", respondeu a outra, que recebera o casaco de Rebeka e agora o passava para a irmã, que deveria levá-lo para a lavanderia, mas não conseguiu deixar de escutar, "era um sorriso verdadeiro, era tão verdadeiro que chegava a ser humilde."
Elas riram.
"Você estava delirando!"
"Humildade e Malfoy são nomes que não andam juntos."
"Ela estava debochando de você, sua tonta!"
Elas se dispersaram, rindo e balançando a cabeça, como se tivessem coisas mais importantes para se ocupar, espalhando-se entre caldeirões e vapores.
Core, que escutara tudo enquanto cortava cenouras, fingindo pouco interesse, largou a faca, enxugou as mãos no avental e subiu para o quarto de Pansy Parkinson. Bateu na porta, ouviu um "entre" do outro lado e assim o fez. Pansy estava no closed trocando de roupa, e mesmo sabendo que não era Rebeka Stern, a visão do rosto de sua senhora não agradou nada o humor de Core.
"Você devia ter mais cuidado", disse, "Não me parece que esteja se empenhando."
Pansy, que agora abotoava no corpo uma blusa seca, cor de ferrugem, disse: "Então suponho que você resolveu me dar atenção."
Corelina piscou.
"Não agi assim por descuido", Pansy fechou as portas do guarda-roupa e pegou uma escova de cabelo da penteadeira. "Sabia que se chamasse a atenção das meninas, chamaria a sua também. Porque a última coisa que você é, Core, é alheia."
"Já dei minha palavra", retorquiu Core amassando o avental nas mãos. "Não vou ajudá-la com esse plano para levar Malfoy para a prisão."
"Não quero que me ajude com isso", Pansy passou a escova nas ondas castanhas de Rebeka. "Não preciso de ajuda para isso, se Draco mesmo é quem dá a corda para que o enforquem", a voz dela mudou de repente para um tom mais complacente, "Core, sei que você o respeita e...o ama. Sei também que quando eram mais novos, tiveram um relacionamento."
Core deu um muxoxo de deboche, mas se Pansy notou não demonstrou.
"Você poderia me contar como ele é na cama?"
Um calor, que era um misto confuso de vergonha e raiva, subiu pelo ventre de Core. Ela lembrou de cheiro do suor de Draco e do tom de sua voz, rouca, quando chegava perto do êxtase.
"Porque eu lhe diria isso?"
Pansy deu de ombros e se sentou na cama. "Estou apenas pedindo. Malfoy tem um comportamento estranho comigo, como marido, como homem, e pode ser que seja por desconfiar de mim."
"Eu não duvidaria", Core cruzou os braços, balançando os quadris, "Você é uma péssima atriz."
"Não, Corelina", disse Pansy categoricamente, "é seu patrão que é desconfiado demais."
"Você está mexendo em um vespeiro e sabe disso, Senhorita Parkinson, e eu não quero estar perto quando o ninho estourar. Mas vou lhe contar que é muito possível que ele esteja agindo dessa forma para testá-la."
"Me testar?"
Core viu o olhar de Rebeka ir para um lugar distante, mas voltar em seguida, para fixar-se, sério, nos dela.
"Se ele está sendo frio e distante – como sei que consegue ser quando quer, com uma mulher – é porque tem algo em mente, vai fazer uma jogada e dar xeque-mate."
"Não, olhe, Core", Pansy se mexeu irrequieta na cama, "ele não é frio. Ele apenas não...parece ser ele mesmo."
Core riu. Sabia o que ela queria dizer. Ele estava a instigando, a provocando, sem dar a menor impressão de que tinha pressa. Sabia fazer isso com maestria profissional, para a infelicidade das mulheres.
"Você pode quebrar essa resistência dele", disse Core molhando os lábios.
Pansy fez-se uma excelente ouvinte.
"Rebeka usava roupas provocantes entre quatro paredes, com ele. Faça o mesmo, mas nada vulgar, ele odeia vulgaridade, vai desprezá-la como se fosse uma vagabunda", Core encostou-se no pilar da cama, ao lado de Rebeka, "e seja tão imune quanto ele. Jogue o jogo dele. Se ele for agressivo com você, ignore, mas não assuma ar de superioridade, porque ele vai tratá-la como uma escrava. Se ele a tratar como uma escrava, não sinta-se como uma. Seja feminina, muito feminina, receptiva, mas não faça-se de morta. Ou ele vai dominá-la em dois tempos, se você der muito espaço para ele agir..."
"Meu Deus", disse Pansy, "é uma estratégia de guerra."
"Ah", Core riu, corando, "Ele é muito disperso, mesmo que goste muito de sexo, é muito fácil o menosprezar se sentir que não vai ser bom."
"Rebeka me parece ter sido a única mulher capaz de não entediá-lo"
Core engoliu em seco.
Pansy suspirou. "Não se preocupe, Core. Preciso apenas fazer com que ele pare de desconfiar de mim."
Antes de sair, Corelina passou um pano sobre a lareira e disse: "Não tenha a ilusão, Parkinson, de que o sexo irá ser para ele algo tão importante para que defina alguma opinião sobre você."
Gina viu o coche de Draco chegar pela janela. A luz branca do luar prateou seus cabelos quando ele desceu e entrou na Mansão. Usava um sobretudo escuro. Ele não lhe dissera onde fora, mas pelo que sabia, era costume jantar com sócios e amigos de Ministério, de modo que Gina imaginou que ele estava voltando de uma ocasião assim.
Levantando-se do batente da janela, Gina foi para o quarto dele. Tinha escolhido uma camisola branca de Rebeka, um pouco transparente, que ondulava na metade das coxas. Pensando em tudo que Core lhe dissera, escolher a roupa certa foi como achar uma calcinha tamanho P numa promoção da Harrod's. Nada parecia ideal, por mais que Rebeka tivesse bom gosto para roupas, e muitas vezes Gina se viu escolhendo as peças mais feias e extravagantes sem ter a consciência de que as escolhia para não parecer sexy.
Quando pensava que ia fazer sexo com Malfoy, a repulsa que tinha era suplantada pelo distanciamento que Harry mostrara no ultimo encontro e se tornava quase uma simpatia quando dizia para si mesma que não era seu corpo. De modo que quando entrou no quarto de Draco, sentia-se muito bem na pele de Rebeka, a esposa impecável.
Mas Malfoy demorou para subir. Talvez tivesse ido para o escritório. Quem sabe fosse dormir mais tarde. Gina esperou, sentada de pernas cruzadas na poltrona cor de pêssego.
O quarto dele era maior que o de Rebeka, tinha uma alta cama de dossel, as paredes, cobertas por tapeçarias, eram altas e largas. Quatro janelões preenchiam a parede externa, e um quadro grande em tons de preto e roxo de um jardim noturno preenchia a parede oposta. Um lustre em camadas pendia do teto, com velas finas encaixadas nos milhares de suportes. Afora as mesinhas de apoio ao lado da cama e a poltrona em que ela estava sentada, o quarto não fora decorado com mais móveis, o que dava a luxuosa sensação de amplitude ostensiva.
Gina admitia que Malfoy tinha um gosto sofisticado que por vezes descambava para o soturno, mas que jamais decepcionava.
Ele acordou com uma claridade em seus olhos e franziu a testa para a luz que vinha do banheiro. Se mexeu nas cobertas e viu a sombra dela se mover pelo chão de ladrilhos, a borda de sua camisola longa ondulando. Afastou os cabelos do rosto e ergueu a cabeça para olhar o relógio de pulso sobre a mesinha de cabeceira: quase meia-noite.
Esfregou o alto da cabeça, ainda com os sentidos zonzos de sono, virou-se na cama, de peito para cima, e ficou com a mão sobre os olhos apenas respirando e ouvindo ao longe os sons que Hermione fazia no banheiro; a água da torneira caindo, o vidro da saboneteira tilintando. Estava tentando se lembrar do sonho que acabara de ter, mas ele escapulira de sua mente como um gato assustado tão logo seus olhos se abriram para a claridade do banheiro. Recordava vagamente de ter visto sua irmã em algum momento antes de abrir os olhos, e nada mais. Ela estava um pouco mais nova, os cabelos faiscavam no sol, mas ele não se lembrava onde estavam, ou se ele estava com ela, mas ela sorria, simplesmente.
Rony afastou a mão dos olhos e os abriu, finalmente, enfrentando aquela luz branca que ainda ardia em seus olhos.
"Mione", murmurou ele, a voz rouca.
A torneira foi fechada. O rosto moreno claro de Hermione apareceu perto do patente da porta. "Não queria ter acordado você", disse, e voltou a desaparecer, então, alguns minutos depois, a luz se apagou, e Rony quase chegou a dizer "Graças a Deus", em voz alta.
Ele se virou novamente na cama, afastando as cobertas. Sentia de repente um calor de noite de verão, mas embora ainda fosse outono, ele não estranhou. Um incomodo crescia em seu peito e se alastrava por seu corpo como um vírus, e ele não conseguia atinar para uma causa. A imagem do rosto de Gina ainda avultava em sua mente e o gosto do sono estava retido no fundo de sua garganta.
Que diabos, se não tivesse jantado ao lado de Hermione, pensaria que tinham posto alguma coisa em sua bebida.
Então, devagar como uma gota de orvalho que desgruda de uma folha, a causa de seu incomodo estalou, e seu coração quase parou. Depois que Hermione desligara a luz do banheiro, não voltara para a cama. Rony levantou tão depressa que em um segundo estava na porta do banheiro, olhando para o corpo inerte dela no chão, os cabelos longos espalhados como um leque ao redor de sua cabeça.
Dali a quase uma hora, ele entrou no quarto.
"Boa noite", disse ele sem a olhar, desfazendo o nó da gravata.
Na voz mais envolvente e firme que Gina soube fazer de Rebeka, ela disse: "Sim."
Draco voltou-se para ela e seus olhos de água pararam nas pernas cruzadas de Rebeka, que despontavam sob as ondulações suaves do baby doll. Sentindo o olhar dele, ela o encarou, passiva, mas receptiva.
Ele ficou a olhando por um tempo. O cérebro de Gina maquinava depressa, pensava se deveria agir, se deveria esperar, começava a ficar nervosa, temendo dar um passo errado e perder a atenção dele que ela tinha magicamente conseguido capturar.
Por fim ela levantou-se. Caminhou devagar até ele e parou diante dele, muito perto, seus narizes se tocavam, e ela maneava a cabeça lentamente para o lado, para a frente para trás, o incitando, fazendo que ele sentisse seu cheiro, sentisse a textura de sua pele.
Gina foi cuidadosa ao beijá-lo. Não sabia ao certo como eram as técnicas de sedução de Rebeka, e não ia arriscar ser muito agressiva ou muito dominadora, porque o objetivo não era ser de fato Rebeka, mas sim fazer com que ele acreditasse e sentisse que estava no comando de tudo. Em seguida, ele a olhou com olhos que ela acreditou serem os mais tristes que jamais vira.
Então subiram na cama e ele a devorou com os olhos, daquela forma calma que não combinava com seus gestos tão impetuosos, mas que dava a Gina mais alguns minutos. Ela sorriu-lhe um sorriso calculado para parecer tímida e um pouco surpresa. Ele suspirou devagar, exalava o cheiro do ópio que acabara de fumar, um aroma doce e hipnotizante. O ópio tinha sobre Draco um poder que mulher alguma conseguia ter: o deixava contido. E aquilo, pelo menos em Draco, era uma combinação perigosa.
"Quando a conheci você usava um vestido escuro", ele falou, e sua expressão mudou rapidamente. "Eu não gostava de você, Rebeka."
Achando que deveria sorrir, Gina deu um gracejo.
"Não", Draco murmurou e subitamente ele a estava olhando com olhos duros e frios como diamantes. Ela ficou surpresa – aturdida, na verdade – ao se dar conta de que era a primeira vez que via algo incontestável nos olhos dele, algo que não podia ser colocado em dúvida nunca, por ninguém. "Naquela época eu tinha só dezesseis anos mas sabia que você nunca ia me despertar nenhum tipo de interesse. Ah, sim", fez ele, descendo o olhar para o colo de Rebeka, "talvez um."
Gina encostou-se ao espelho da cama para dar a impressão de estar bem relaxada. Fosse o que fosse que Draco estava dizendo, não fazia sentido e provavelmente era algum joguinho sádico. De modo que ela não deu sinais de se abalar com a confissão.
"Sabe o que devíamos fazer?" perguntou ela.
"O quê?"
"Devíamos deixar você mais confortável."
"Esta camisa é de seda irlandesa", disse ele dando de ombros. "Eu gosto da sensação."
"É a roupa adequada para você, mas..."
Ela deslizou a mão por baixo da camisa de Draco. Ele pestanejou. Ficou claro naquele momento que, amando ou não Rebeka, o toque dela causava um efeito letal no que ele tinha entre as pernas. Enquanto ela desabotoava a camisa, perguntava-se se ia conseguir prosseguir com aquilo até o fim. Provavelmente não. Correu a mão por seus ombros tirando-lhe a camisa.
A algum tempo atrás Gina descobrira que nada vestia melhor o corpo de um homem do que sua própria pele. Fora, mais especificamente, em sua primeira vez com Harry. Vê-lo completamente despido foi uma das visões mais lindas que sua mente pudera guardar em sua curta existência. Mas no caso de Draco aquilo era gritante. Dentro das camisas de seda e dos sobretudos grossos que ele usava, percebia-se um homem alto, com força o suficiente para amassar bolas de golfe com os punhos, mas o que ela via agora era admirável.
Ela sentiu que seus olhos brilhavam, talvez sua boca tivesse se entreaberto um pouco, olhando para o peito nu de Draco, grande, imponente e calmo. Um fio de penugem prateada descia de seu umbigo, entre as ondulações da musculatura rija do ventre, e desaparecia pelo cós da calça escura.
Ela subiu em suas pernas e chegou a ter vertigens com o esforço que fez em ser apenas Rebeka. Mas ele continuava impassível e pouco receptivo, no que ela o beijou, tentando quebrar aquela estranha barreira que havia entre ambos e que nada parecia capaz de romper. Cada beijo que trocavam, cada passo que ela avançava e que não era recíproco, mais Gina se sentia incapaz de prosseguir.
Ela relaxou o corpo, desabotoando-lhe a calça. Quando os dedos dela esbarram em sua ereção, aquilo magicamente partiu, por fim, a barreira entre eles. Era como se algo tivesse ficado óbvio a ponto de soterrar qualquer jogo, teste ou resistência. Ele retribuiu o beijo com certa selvageria, segurando o rosto de Rebeka entre as mãos como se temesse que ela tirasse a língua de sua boca de repente. Ele se inclinou para a frente e a fez se sentar na cama, e quando suas bocas se separaram ele parecia embriagado. Com a respiração acelerada e aquela constante tristeza no rosto, ele a olhou da cabeça aos pés. Ela ainda usava a diáfana camisola.
Parecia querer dizer alguma coisa, e era quase possível ver as palavras entaladas em sua garganta como um novelo de lã, mas Draco sequer abriu a boca. Gina levou a mão dele ao corpete e colocou as fitas em torno de seus dedos. Então afastou bem devagar as mãos dele. Ao fazê-lo, a fita se desatou e a camisola caiu de seus ombros como se fosse vapor.
Gina tinha certeza de que ele já vira Rebeka nua vezes sem conta, mas pelo modo como a olhou parecia que não a via e que ao mesmo tempo nunca tinha visto algo com tanta atenção em sua vida. Ele levantou uma mão para tocar os seios dela. Gina sentiu-se surpresa ao ver que seu corpo reagiu de imediato: a pele das aréolas rosadas se arrepiou.
Ah, não, ela pensou. Não era possível.
Ele curvou-se sobre ela, tocando com os lábios aquela região. Gina apertou as dobras do lençol nos dedos, seus olhos fixos nos movimentos dele, mas virando-se para o teto vez ou outra, como se a visão de Draco a beijando daquela forma fosse insuportável demais, fosse...estranha. Não era o corpo dela, era o de Rebeka, mas as sensação que estava tendo não eram de outra pessoa.
Sua boca estava seca e ela sentia sede, sentia suas bochechas esquentarem e suas costas se arrepiarem, e nessa hora Draco a beijou na boca outra vez, e naquele estado em que Gina estava, não foi de fato uma coisa ruim, mas Gina recolheu a língua num surto de desespero quando percebeu que suas entranhas começava a responder àquilo tudo.
Para a agonia de Gina, Draco insistiu. Ele a colocou sobre si e a abraçou, abrindo as mãos enormes em suas costas e a apertando contra si; os seios de Rebeka palpitaram deliberadamente contra o peito quente dele. Ele a beijava, beijava, beijava, sua respiração entrecortada, meio aflita, meio desesperada, despertavam em Gina uma sensação que beirava a compaixão e se convertia em algo mais selvagem quando ela olhava em seus olhos tristes, quase infantis, agora tão vulneravelmente expostos, como todo o resto de seu corpo.
Então ela o tocou. Não como viera fazendo até então, movendo-se sutilmente, planejando cada gesto para seduzi-lo como uma esposa cativa; ela o tocou como seu corpo mandava. Subiu as mãos por seus braços e ombros e pescoço, sentiu entre os dedos os pêlos sedosos de sua nuca, enfiou os dedos na raiz de seus cabelos, movendo a pélvis contra a dele, o prendendo com as pernas. Os gemidos de Rebeka eram baixos e faziam com que ele suasse de desejo, Gina sentia a pele dele, muito quente, deslizar debaixo de seus dedos como ferro molhado, e ela não conseguia parar de pensar no quanto era cruel ela nunca ter querido tanto um homem como queria Draco naquele momento. Quando a imagem de Harry ameaçava vir em sua mente, quando seu coração apertava ao perceber que todo o desejo, todo o amor que sentia por ele não era de fato a maior coisa que ela já experimentara, ela fechava os olhos e afundava as unhas na carne de Draco, como se ouvi-lo gritar de dor desse a ela alguma certeza, já que ela percebia nunca ter possuído nenhuma.
Gina olhou para ele. Embora ele ainda não a tivesse penetrado, ela chegou ao clímax, repetidas vezes, sob o corpo dele. Ela pensou que provavelmente fora o Ópio, aquela coisa que ele fumava na Sala de Música, que o segurara até aquele momento, ou ele já teria explodido. Ela estava muito íntima dele, e isso era tão estranho quanto excitante; olhar em seus olhos duros e gelados como barreiras de aço e vê-los sinceros, invariavelmente honestos, o olhar mais fiel e frágil que ela já vira em toda a sua vida, dava a ela a impressão de ter poder sobre ele, uma espécie de poder impulsivo, ilícito, mas merecido.
Como se tivesse lido os pensamentos dela, ele deslizou sobre a cama, para sair debaixo do corpo dela. Gina deslocou o peso e o corpo de Draco a dominou. Olhando dentro dos olhos dele, ela afastou as pernas. Seu coração batia tão depressa que ela tremia, mas quando ele entrou dentro dela, Gina achou que ia transbordar. O mundo escureceu, ela ouviu um estrondo. Pressionando o corpo contra o dela, ele ouviu a voz de Rebeka murmurar o nome dele. Ela estava tão completa, estava totalmente inteira, se isso era possível para um ser humano. Nunca havia sido mais mulher, ou mais ela mesma em nenhum outro momento de sua vida e era difícil imaginar o dia em que seria novamente se não fosse daquela forma, com ele dentro dela, ele, apenas ele, daquela forma.
Era como se ela estivesse se transformando num único e resplandecente ponto de puro prazer que se perdia dentro de si mesma com uma velocidade mil vezes mais rápida que a da luz.
Draco se afastava, os olhos dormentes e brilhantes, e então avançava outra vez. Segurava-a pelo queixo e não a permitia desviar o rosto nem por um segundo, como se quisesse penetrá-la também com o olhar, inundá-la com ele de todas as formas possíveis.
Então, ele descansou sobre ela, ofegante, e a sensação daquele peso surpreendentemente grande sobre seu corpo era a mais natural e maravilhosa do mundo. Era tão semelhante ao que ela sentia com Harry que isso quase lhe partiu o coração.
Ele afastou-lhe os cabelos do rosto e segurando a cabeça de Rebeka entre as mãos ele a beijou devagar. Seu sexo ondulava com força, e ele todo tinha uma força que não condizia com o olhar que ele dirigia a ela agora, como se ela o machucasse, como se ela o ofendesse e humilhasse e ele não pudesse, não quisesse e não soubesse como se defender. Ele a segurava sob seu corpo e ela gostava da ilusão de estar indefesa, ele se movia de forma bem vagarosa e precisa, a encarando, enquanto ela arqueava as costas, sem conseguir pensar, bloqueada de prazer...
Não, não, aquilo não podia...não...
Gina estava quase gritando.
Aquilo era uma desgraça, uma verdadeira desgraça! Porque Gina sentia-se em chamas por dentro e não podia mais voltar atrás. Sabia que não estava fingindo, que naquele exato momento era a voz de Rebeka que dizia o nome de Draco, mas era ela, Gina Weasley, quem estava...quem estava...
Estava tudo perdido, acabado. Meu Deus, que Malfoy seja inocente, pensava Gina, sentindo lágrimas se acumularem nos cantos de seus olhos, pensava isso numa mistura de dor e prazer, que a deixava em brasa. Ela tinha tudo sob controle – não tinha? – e agora, subitamente, com aquele corpo enorme movendo-se sobre ela, aquele rosto forte e adorável, aqueles olhos magoados, obcecados – e tudo mudava de lugar, para sempre.
O suor brotava em profusão do corpo de Draco, suas coxas se mexendo, cada músculo tenso, Gina via em seu rosto que cada investida tocava cada vez mais às raias do clímax, a penugem prateada de suas têmporas estava brilhante e molhada, seus cabelos caíam para a frente de seu rosto o deixando mais jovem, quase um adolescente, e Gina os afastava, os segurando atrás de sua cabeça num gesto quase maternal.
Ele estava pegando fogo. As partes em que seus corpos entravam em contato chegavam a zunir nos ouvidos de Gina. Eletricidade. Ele pressionou o corpo com força contra ela e então foi como se ouro líquido se derramasse dentro dela. Draco rugia, gemia, ria. E Gina sentia uma imensa onda de fogo a atravessando com força, ela moveu a pélvis para a frente e arqueou as costas, e os dois comprimiram seus corpos um contra o outro, espremendo as últimas gotas de deleite.
Um pensamento distante arrebatou Gina para longe dali, enchendo-a de um triste ardor; a imagem de uma criança de grandes olhos castanhos brincando perto dos joelhos de Draco enquanto ele lia um jornal numa manhã ensolarada de verão, o sol batendo em cheio em seus cabelos de cetim, e ela abriu os olhos para encontrar com os dele, igualmente distantes e sombrios, quando Draco finalmente desabou sobre seu peito e um silêncio cheio da lembrança de seus gemidos encheu o quarto, latejando em suas mentes como suas próprias peles.
Ela chorava, lagrimava sem ousar soluçar. Virou a cabeça para o lado e então duas coisas aconteceram seguidamente: ela viu mechas ruivas de cabelo sobre o travesseiro, tão ruivas que à luz dourada das velas ardiam como o mais puro fogo, e em seguida Draco ergueu a cabeça novamente e a fitou diretamente nos olhos. O beijo que ele lhe deu foi uma punhalada fria que esmagou as últimas partes intocadas que Gina guardava dentro de si.
Ele caminhou pelo corredor escuro e parou no topo da escada, olhando o modo bizarro como sua sombra descia pelos degraus, comprida, como um tapete espectral. Tudo estava em silêncio, e o silêncio tinha sob Scorpius um magnífico efeito sobrenatural. Ele desceu a escadaria sentindo na própria pele aquele silêncio quente, e quando chegou ao enorme saguão de entrada, tentou se lembrar quando fora a última vez em que fizera aquilo. Não costumava sair pela Mansão de madrugada, mas quando tinha insônia ou pesadelos no meio da noite, não havia nada mais interessante para se fazer, então ele caminhava pelos corredores, ia até a biblioteca, observava o modo como as sombras se acumulavam nos cantos das paredes, debaixo dos móveis, entre um quadro e outro. Era uma escuridão macia, diferente das outras.
Olhou para o vão negro das lareiras apagadas. Atravessou o saguão e o hall, entrou no corredor ao lado esquerdo da escada, mas não foi muito longe. Olhou para o chão e viu, perto do batente, um pequeno escorpião vermelho vivo andar na direção oposta. Scorpius estacou, fascinado. Já havia visto algumas vezes aquele escorpião pela casa, mas nunca assim, tão de perto, estando ambos tão sozinhos.
O animal saiu das sombras para um raio de luar que iluminava o saguão, e Scorpius o seguiu. Era pequeno, mas sedutor. O vermelho de seu aguilhão, erguido para cima, era brilhoso e resplandecente como tinta fresca, e seus pinças pareciam em posição de ataque sempre.
Quando o escorpião foi para trás da escada e desapareceu magicamente atrás de uma parede, Scorpius soltou uma exclamação de admiração. Olhou para a parede. Como nunca tinha visto que tinha uma quebra ali no papel de parede? Agora que via mais de perto, era tão óbvia. Scorpius colocou os dedos entre a minúscula fenda e a empurrou para o lado, e a parede se abriu como uma grande porta de rolagem, os trincos enferrujados estalando alto no silêncio da Mansão.
Era um elevador. Um elevador! Scorpius ficou alguns segundos olhando para o espaço vazio e poeirento em sua frente, mas não tempo o bastante para tornar aquilo tudo uma banalidade. Entrou depressa, fechou a porta, e antes de pensar o que fazer em seguida, o elevador começou a descer. Scorpius sentiu a adrenalina em seu corpo subir e fazer seu coração palpitar forte.
Quando o elevador parou com um solavanco leve, Scorpius se achou diante de uma câmara sufocante, com um portal alto do outro lado. Haviam letras estranhas gravadas no alto do portal, mas Scorpius passou direto por elas, deixando a câmara para trás, atravessando uma estranha ponte sobre uma água escura e...corrente. Ele ergueu os olhos e viu uma fonte em forma de serpente no centro do que parecia uma sala. Uma sala estranhamente decorada, com focos de luz aleatórios, tapeçarias xadrez, espelhos decorados com alcatifas, almofadas de veludo com arremates de fios de seda, cortinados, objetos estranhos, quadros, quadros e mais quadros, uma profusão de paisagens, pessoas, rostos, animais, cenas, faziam com que o ambiente mórbido da sala ficasse ainda mais sinistro.
Scorpius caminhou pela sala e o piso de mármore negro o refletiu quando ele olhou para baixo. Sua camisa branca de flanela estava para fora da calça e seus cabelos soltos caiam sobre seu rosto e pinicavam seu pescoço, mas nada era tão surreal em sua imagem quanto seus olhos. Era estranho, mas eles estavam quase brancos.
Então algo mais interessante chamou sua atenção. Na verdade, havia chamado desde que ele entrara: tudo estava muito limpo. Será que alguém morava ali? Como seu pai nunca lhe contara? Aquilo tinha a ver com suas histórias secretas?
Quanto mais observava a sala, mais fascinado ficava. Então começou a caminhar para os fundos, onde uma escuridão impalpável se adensava, e se viu diante de um corredor cheio de portas. Algo o impediu de sair abrindo todas. Algo que ele não sabia explicar, mas era como uma voz o repreendendo, e talvez fosse a de seu pai. De modo que ele abriu apenas uma; a última. Era uma sala de armas. Seu pai tinha uma como aquela na Mansão, lá em cima, forrada de veludo vermelho, luz baixa. Mas aquela era bem diferente. As armas eram estranhas, embora uma ou outra fosse conhecida, uma adaga, uma espada, um punhal, um arco sem as flechas, mas outras eram incomuns. Ficavam penduradas no teto como móbiles, mais de cinqüenta. E era fria, muito fria, como um frigorífico. Scorpius olhou para cada uma das armas, caminhando em baixo delas com o pescoço erguido. Eram bonitas, muito bonitas, cravejadas de jóias e cintilavam como estrelas contra o teto negro. Tinham lâminas finas, pontas afiadas, desenhos fatais. Mas havia um ponto vazio entre elas. Uma arma estava faltando, seu fio de aço fino estava solto, solitário. Scorpius olhou ao redor procurando algo para subir. Achou num canto uma escadinha, a carregou com dificuldade e a colocou debaixo do arco sem flechas. Tendo cuidado para não se arranhar nas armas ao redor, ele desprendeu o arco e o olhou de perto. Conteve um suspiro de prazer. Era espetacular, de um material claro, quase branco, leve, tão leve que parecia com um brinquedo, mas o fio afiado preso às extremidades lhe dizia que não se devia brincar com aquilo. Scorpius desceu e viu de relance um brilho apontando para si. Olhou. De repente, todas as armas haviam girado e apontavam para ele. Embora ainda estivessem presas, aquilo fez Scorpius engolir em seco.
Ele se virou para a porta e correu, mas quando a abriu e saiu, não foi o corredor pelo qual viera que ele viu, e sim o escritório de seu pai. Olhou para trás novamente e não havia mais porta às suas costas, era como se aquela casa o tivesse expulsado de lá. Scorpius olhou novamente para o arco em suas mãos, mal podia acreditar. Longe das lâminas daquelas cinqüenta armas, ele o avaliou melhor. Parecia mágico. Haviam inscrições ao longo de toda a sua curvatura, muito pequenas e delicadas, e era um tanto curioso, mas à claridade do luar ele ganhava tonalidades avermelhadas como cobre. Como sangue.
Absorvido por aquela cor tênue, Scorpius sentia uma espécie de atração, embora não soubesse explicar pelo quê. Era uma vontade esquisita que ele nunca tinha sentido antes, quente, pegajosa, o fazia corar e respirar mais lentamente, como se de repente tivesse domínio sobre todo o seu corpo como nunca antes. Ele queria, queria alguma coisa, queria muito e aquilo o deixava um tanto zonzo. Então, sentindo o braço leve mas dormente, ele abaixou o arco e todos os livros de seu pai surgiram em seu campo de visão, empilhados sobre a mesa, debaixo de uma lasca de luar, como se estivessem se oferecendo para ele.
A sensação sumiu assim que ele largou o arco num móvel ao lado e subiu na poltrona de seu pai, inclinando-se sobre os livros.
Scorpius olhou com atenção que beirava a devoção a capa do livro que estava mais acima; era de couro grosso e brilhante como pele de cavalo, e escuro, cor de chocolate. Ele puxou o ar e prendeu a respiração, começando a folheá-lo, mal acreditando que ía ler as histórias que seu pai escrevia e escondia até mesmo de sua própria sombra.
