Moira
Segunda Parte
Capítulo 5 – Take Your Time…
Scorpius terminou de ler e leu outra vez. Não era nada do que ele imaginava. Eram apenas histórias estranhas de casais que se desencontravam.
Decepcionado, ele fechou o livro. Ficou sentado na poltrona, olhando para eles. Eram tantos...porque seu pai escreveria tantas histórias sem sentido? Pessoas que se desencontravam, que tinha isso de interessante? E ele sequer sabia quem eram, nomes desconhecidos, com histórias banais, sem nada de especial. O que havia nelas de tão secreto para que seu pai as escondesse tanto?
Não, tinha uma explicação. Ele desceu da poltrona e olhou o escritório, esperando que algo saltasse me suas vistas que pudesse lhe dar alguma orientação sobre aquelas histórias, uma espécie de chave, prólogo, apêndice, o que fosse. Mas nenhum dos objetos estranhos de seu pai parecia ter algo a ver com as histórias. A não ser...
Scorpius voltou para a mesa, puxou o livro que folheara e as coisas aos poucos começaram a se delinear. Havia citações de várias datas antigas, como 1967, 1950, 1930, e até o século dezenove! As histórias eram contadas com espaços de dez a vinte anos, e a última começara em 1965. O que aquilo significava, Scorpius ainda não sabia dizer, mas tinha a ver com o tempo, e isso o fez subitamente lembrar da equação que fizera e entregara a seu pai a alguns anos atrás.
Ele sabia que seu pai tinha uma estima inimaginável por aquela equação, que a guardava com o máximo de sigilo. Mas Scorpius a tinha na mente, inteira, decorada, sabia como começá-la e sabia a desenvolver. Na época em que a fez, seu pai ficara maravilhado. Era como se tivesse ganhado na loteria, mas Scorpius não entendia porque, e continuava sem entender. Mas aquela equação significava que o tempo não era linear como se acreditava, e sim curvo, completamente circular, e isso possibilitava o homem caminhar por aquele círculo infinito. Por serem tão banais, talvez aquelas histórias tivessem acontecido, e fossem relatos, narrativas verdadeiras de pessoas que existiram, e não meros personagens.
Imaginar aquilo fez a excitação de Scorpius ressurgir com mais fulgor. Então era isso! Seu pai escrevia sobre o passado das pessoas. Mas porque? E porque ele escolhia sempre casais que se desencontravam?
Scorpius desceu da poltrona e foi até o velho cabideiro, onde as ampulhetas douradas ficavam, sentindo-se livre por poder estar sozinho no escritório de seu pai, em plena madrugada, com tempo suficiente para explorar o que bem entendesse. Usou como apoio uma caixa perto da porta e puxou a correntinha da ampulheta, a trazendo para suas mãos. Seu pai lhe dissera que ele as herdaria quando ele morresse, mas isso ainda levaria muitos anos, e Scorpius não ia de modo algum esperar tanto para ver o que ela fazia.
Ele as olhou de perto. Eram três; uma muito pequena, outra grande, do tamanho de sua mão, e uma mediana. Todas estavam presas na corrente e não podiam ser tiradas, o que significava que deviam ser usadas juntas. Scorpius passou a corrente em volta do pescoço e a escondeu debaixo da camisa, depois pensou em como sair dali. A porta estava trancada por fora, seu pai sempre a deixava trancada, e a passagem pela qual ele viera desaparecera como se tragada pela parede. Mas a Mansão era cheia de passagens secretas, e ele tinha quase certeza que encontraria outra, então começou a procurar.
Afastou cortinados e tapeçarias, olhou atrás de quadros e empurrou paredes, e já estava cansado e suando quando finalmente teve a idéia de olhar o chão. Ela estava ali, camuflada pelas divisões do soalho, uma abertura de mais ou menos cinqüenta centímetros que dava para uma escada escura e estreita. Scorpius pegou o pesado livro sobre a mesa, triste em só conseguir carregar um, e desceu pela escada, fechando a passagem em seguida.
Depois de um lance contínuo e longo de degraus, ele chegou a uma espécie de corredor curto, iluminado toscamente pelo luar, que vinha lá da frente. Subiu novamente outra escada e saiu nos jardins de sua casa, perto do estábulo. Olhou para o céu e viu que o negro da noite clareava num anil estrelado. Dali a uma hora ou menos, amanheceria.
Gina virou na cama e gemeu baixo. Seu corpo amortecido e seus músculos doloridos, além do rastro quente de Draco ainda dentro dela, fizeram as últimas lembranças voltarem em sua mente com uma pancada estonteante. Ela roçou as pernas uma contra a outra, tentando reter aquela sensação luxuriante, ao mesmo tempo quente e dolorida, em seu ventre, mas isso só fez com que as lágrimas aflorassem em seus olhos novamente. No entanto, Gina não deu oportunidade para lamentações. Enxugou depressa os olhos e levantou da cama, nem um pouco surpresa em se achar sozinha na cama de Draco.
Passou os olhos depressa pelo chão e viu a camisola de Rebeka embolado ao pé da cama, mas não a vestiu, não havia tempo para isso, não havia tempo para mais nada. Enrolada no lençol, ela saiu do quarto e foi para o seu, pegou sua bolsa e a abriu sobre a cama. Frascos de Poção Polissuco rolaram pela colcha de veludo, mas ela não ia mais precisar daquilo, porque tudo ia acabar agora mesmo. Pegou sua varinha, puxou do guarda-roupa um vestido qualquer de Rebeka, sem prestar atenção no modelo e pegou o pedaço do espelho que Harry lhe dera para se comunicar em caso de emergência – e que ela só usara uma única vez até agora, numa situação que ela considerara de urgência –, e saiu do quarto.
Talvez pela raiva e aflição que estava sentindo, a certeza de que ia encontrar naquele exato momento o que fora procurar na Mansão a movia com uma obstinação cega. Seu raciocínio se desenrolava como um tapete jogado do topo de uma escada: a Mansão tinha passagens secretas para a casa de Salazar Slytherin, que por sua vez tinha passagens para qualquer lugar da Mansão. Elas eram interligadas como um único corpo.
Gina desceu as escadas e foi para o vão escuro atrás delas, no amplo saguão de entrada. Afastou a parede ali atrás com um movimento forte e ininterrupto e entrou no antigo elevador. Quando ele parou, ela saiu para a casa de Salazar. Só havia estado ali uma vez e vira coisas horríveis, cada lembrança lhe custara um ano de tratamento psicológico, e ela ainda tinha pesadelos com tudo o que presenciara no tempo que passou na Mansão Malfoy. Isso a prendia, a imobilizava como uma corrente em seus tornozelos, a impedindo de ir adiante, de fazer o que ela sabia que devia fazer: vasculhar tudo, absolutamente tudo, sem medo do que encontraria.
Só que isso já não importava mais. Nada importava mais e isso era maravilhoso. Ela se sentia sem rumo, sem lugar, e depois de tantos dias no corpo de Rebeka, se sentia até mesmo sem um corpo. Fosse como fosse, nada podia ser pior do que se sentir assim.
Nem mesmo a loucura.
Talvez por estar tão embebida na vontade de entrar no escritório de Malfoy, ela não viu nada de ruim. Se os quadros lhe provocaram com visões incestuosas ou coisas do tipo, ela não percebeu. Ela entrou em cada cômodo, cada aposento, afastando tapeçarias, empurrando paredes, procurando alçapões. Ela achou passagens infinitas, para a biblioteca da Mansão, para banheiros que ela nunca tinha estado antes, para a lavanderia, para o antigo quarto de Malfoy, no último andar da Mansão, para a Sala de Música, para os inúmeros quartos. Mas Gina abria as passagens desejando apenas ver do outro lado a mesa escura do escritório de Malfoy, e tudo que fosse diferente disso lhe era invisível.
A casa era grande e podia levar um dia inteiro.
Mas isso não perturbou Gina nem por um segundo.
Scorpius olhou para as ampulhetas e as comparou com as gravuras que o livro mostrava. Ali dizia que aquele era um tipo raro de vira-tempo, que dava ao usuário a oportunidade de voltar no tempo – e ao ler isso o coração dele deu um pulo de satisfação – horas, anos e séculos. Segundo o livro só existia um vira-tempo daquele em todo o mundo, e fora criado por um tal Salazar Slytherin no ano estipulado de 1235. Mas não explicava como ele tinha inventado o objeto, mas isso não importava; orientado pelo livro, Scorpius já sabia como usá-lo.
Abriu então o livro de seu pai na última história escrita, que começava em 1965, e leu os nomes Sr. e Sra. Granger nas linhas corridas. Segurando o livro debaixo do braço na página demarcada, com a outra mão ele manuseou as ampulhetas, dando quarenta e duas voltas na ampulheta média, tendo muito cuidado para contar o número exato de voltas, e quando terminou, teve a nítida impressão de que mundo tinha virado bruscamente de ponta-cabeça vezes sem conta, acreditando que seus membros iam desgrudar-se de seu corpo a qualquer momento.
Os internos estavam todos nos jardins. Era uma manhã branca e ensolarada como poucas no verão da Inglaterra, e eles recebiam visitas e passeavam às margens do lago e pelas árvores verdes e robustas.
Ela o viu quando ele ainda falava com um dos médicos, nas varandas do térreo. Ele demorou-se alguns minutos, provavelmente inventando alguma mentira para falar com ela, mas Narcisa não duvidou que ele fosse conseguir. Então ele deu as costas para o médico, que saiu na direção oposta com uma tabuleta na mão, e desceu as escadas, vindo em sua direção.
Era um homem alto para a estatura que ela lembrava dele, em meados da adolescência, mas ainda era Harry Potter, com os cabelos cor de piche espalhados pela cabeça, numa imitação desagradável do famoso e intragável Sirius Black. Ela estudara com ele em Hogwarts e se a visão de Potter não lhe trazia felicidade, aquela semelhança lhe enfadou. No entanto ela lhe deu um delicado sorriso quando ele chegou, porque apesar de não simpatizar com ele, também não tinha motivos para ter raiva, e tudo na vida de Narcisa se resolvia sem muitas reflexões.
"Senhora Malfoy", cumprimentou ele num tom cortês, mas distanciado.
"Porque demorou para ligar os pontos?"
Ele se sentou no banco comprido à frente de Narcisa.
"As coisas as vezes ficam por um triz, Narcisa", disse ele. Agora que ele estava mais perto, ela não via tanta semelhança com Sirius Black; os olhos verdes não eram tão selvagens e a pele era mais branca e fina, como a pele de uma criança, e o formato do rosto era mais firme, menos fino. Além do mais, com o passar do tempo, Harry Potter perdera aquele ar aventureiro de garoto, que Sirius Black, até onde Narcisa se lembrava, preservou até a morte.
"Mas eu já presumia que eu seria a última a ser interrogada", disse ela, puxando os cabelos para frente e os alisando.
"Eu estou aqui, Senhora Malfoy, porque seu filho é o principal suspeito das mortes que vêm ocorrendo", ele fez uma breve pausa,m e quando tornou, sua voz era baixa e precisa, "pelo mundo inteiro."
Ela ouviu e esperou.
"A última vítima foi Hermione Granger", ele disse o nome no mesmo tom formal que dissera as últimas palavras, mas Narcisa entreviu em seus olhos uma faísca pulsante de ódio, que apesar de estar sendo contida, ela soube que fora o motivo que o levou até ali e o levaria até o fim do mundo se fosse preciso.
Narcisa assentiu. "E você acha que tenho as respostas."
Harry Potter franziu a testa e olhou para o céu como se a pergunta o aborrecesse. "Senhora Malfoy, eu perdi minha mãe quando tinha um ano de idade", ele abaixou os olhos e os fixou nos dela, e Narcisa sentiu-se como que pregada no banco como uma folha de papel pregada numa cortiça, "mas ela fez tudo por mim até mesmo depois de morta. A minha mãe, Senhora Malfoy, foi uma das pessoas com quem menos convivi mas que foi e será a que mais tive intimidade. Entende o que quero dizer?"
Narcisa sorriu e assentiu novamente.
Ele se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e cruzando as mãos. "Eu tenho uma permissão do Ministério para tirar você daqui..."
"Isso não é..."
"Legal?"
"Sim. Não é lícito, Potter."
Ele colocou a mão no bolso da jaqueta e tirou um papel dobrado, passando para ela. Narcisa o desdobrou e se deparou com uma declaração. Um pedido de audiência assinado pelo Primeiro Ministro da Magia.
"Isso não me tira daqui", ela disse, "isso apenas me leva até o Ministério para depor."
Harry ficou a olhando esperando pacientemente que ela entendesse. Então Narcisa entendeu. Não seria uma saída temporária. Seria uma espécie de fuga.
Ela crispou os lábios e olhou ao redor, para os pacientes vagando pelos jardins em suas roupas decadentes e brancas como o limbo, parecendo mais loucas do que pareceriam se estivessem usando roupas normais nas ruas de Londres. Estava naquele lugar a mais de cinco anos, e embora fosse uma mulher extremamente lúcida, temia o dia em que enlouqueceria por conviver tanto tempo com desorientados. O papel em sua mão era sua carta de alforria.
Mas ela sabia o que Harry Potter lhe pediria em troca.
Ele esticou o braço e tirou gentilmente o papel da mão dela, o colocando novamente no bolso.
"Vou lhe fazer uma única pergunta", disse Narcisa. "Me diga o que Draco ganharia matando essas pessoas."
"É a única coisa que ainda não encaixou", confessou ele, parecendo cansado, "Sabemos mais ou menos como ele faria, mas não sabemos..."
"Porque você conhece meu filho, Potter", Narcisa falava aos sussurros, quase o repreendendo, "e sabe que Draco não perderia tempo com essas bobagens!"
Ele ficou a olhando, sem saber o que responder, mas visivelmente contrariado.
"E eu desafio você a achar um bom motivo para incriminá-lo", e dizendo isso, e se recostou no banco e tornou a alisar os cabelos.
Harry Potter fez o mesmo e começou a balançar uma perna numa espécie de tique nervoso, enquanto passava uma das mãos pela barba rala.
"Mas você está muito calmo para alguém que perdeu uma amiga", Narcisa o provocou.
"Porque tenho certeza que foi Draco quem a matou."
Ela sorriu, surpresa. "E isso o consola?"
"Isso me instiga."
Olhando para aquele rapaz, Narcisa compreendeu porque por tanto tempo o Lord das Trevas o perseguiu obsessivamente, o temeu e o admirou, mesmo a seu modo egoísta. Entendeu porque sua principal tática era atacar os que ele amava – aquilo era como acionar uma fera silenciosa e impassível em seu peito.
"Vou lhe dizer o que você precisa saber, Harry Potter, e você entregará essa declaração ao médico", Narcisa se endireitou no banco e cruzou as pernas. "Desde que aquela garota esteve na minha casa, ele nunca mais foi o mesmo."
Um brilho diferente perpassou aqueles olhos resolutos; foi como se uma rajada de vento balançasse um tanque de guerra.
"Ele mudou. Durante o dia Draco era um garoto comum, lia livros, jogava xadrez, cavalgava, brincava com os lobos, molestava as serviçais. Mas de noite ele saía pela Mansão, dormindo, caminhando pelos corredores como um zumbi, murmurando o nome dela, a procurando, e as serviçais o encontravam vagando pelos aposentos como uma criança perdida", Narcisa olhou para o lado com desprezo, "com uma febre de quase quarenta graus. Ele se casou com Rebeka Stern quase no mesmo ano, porque ela engravidou, mas ele teria se casado com ela mesmo sem isso, porque ele sabia dos pesadelos que tinha durante a noite, e embora Draco não seja de perder o controle, seus nervos estavam explodindo. Sem Lúcio na casa, ele não tinha mais rivais, comigo internada, declarada inválida, ele era herdeiro de uma fortuna sem dimensões, casado com uma das mulheres mais deslumbrantes do Reino Unido, mas os pesadelos continuavam, e ainda hoje continuam. Quando ele vem me visitar, vejo nosso segredo guardado nos olhos dele."
Harry Potter prestava atenção, respirando cada vez mais fundo, seu peito subindo e descendo debaixo da camisa branca.
"Draco não foi uma criança comum. Lúcio o criou para ter instinto másculo, e isso significava para ele ser superior em tudo, não tolerar fraquezas, imperfeições, vulnerabilidades. E Draco cresceu desprezando todos, subestimando qualquer um que cruzasse seu caminho, para ele nada nem ninguém tinha valor até que se provasse o contrário, e ninguém nunca conseguia lhe provar isso. Não sei o que ela fez para ter uma importância assim para ele, mas ele se apaixonou por ela naquele natal, a amou, do modo como seu espírito açoitado conseguiu, mas amou."
Narcisa fez uma pausa para avaliar o rapaz. Ele a olhava, por vezes mordendo os lábios, mas não disse sequer uma palavra.
"Só que amar, para Draco, é perder. E não é verdade? Abrimos mão de tudo que somos e temos, não porque queremos, mas porque não temos escolha. Deixamos de viver só por nós, vivemos também por outra pessoa, estamos ligados a ela como se por um cordão umbilical. Isso não cabia nos sensos de Draco, nunca coube. Ele sofria, sofria como jamais imaginei que meu filho pudesse sofrer, porque acreditava que Lúcio o ensinara a ser tão forte como um Deus, mas ele percebia que aos poucos, mesmo que ele não quisesse, ela estava com ele, no sorriso de Rebeka, nos corredores da Mansão, nos olhos dóceis das serviçais, nos seus pesadelos, e tudo isso o atormenta como nem você e nem eu somos capazes de compreender."
Harry balançou a cabeça.
"Sim," afirmou Narcisa, "Não tente entendê-lo. Apenas pense que uma criança criada por Lúcio Malfoy numa Mansão como aquelas só poderia se tornar um adulto intangível", ela alisou as pontas dos cabelos num ar sonhador, "Alguém que por amar tanto, pode cometer um crime", ela ergueu os olhos para ele, "a qualquer momento."
Uma brisa suave agitou as árvores atrás de Harry Potter. O verde claro de seus olhos irradiou uma tonalidade doentia de amarelo quando suas pupilas se contraíram de repente, e ele se levantou num pulo, correndo pelos jardins.
Quando Gina empurrou a porta da Sala de Armas para sair, achou-se subitamente no escritório de Malfoy. Olhou ao redor, seus olhos famintos incapazes de registrar tanta coisa num só tempo.
Uma cabeça de lobo enfeitava uma das paredes, os dentes arreganhados e brancos, os olhos cinzentos salpicados de amarelo, e as prateleiras em volta da sala tinham todo tipo de objetos; efígies entalhadas, pedaços arqueados de presas de elefantes, placas de casco de tartaruga ou um animal do tipo, taças de prata, ouro branco, uma concha gigante enrolada como um grande punho cor-de-rosa. Um globo amassado ocupava um canto da sala apinhada, a superfície gasta ornada com linhas cruzadas em vermelho e preto.
Os olhos de Gina pararam na mesa de carvalho no centro do aposento. Livros pululavam uns sobre os outros sobre ela, e Gina atirou-se sobre eles, quase derrubando a mesa ao escorar-se nela, abrindo avidamente os livros, os folheando, os lendo depressa, engolindo as palavras, quase chorando de ódio, alívio e espanto.
Estavam ali, todos os nomes das vítimas mortas nos últimos meses. Aqueles livros eram como obituários macabros.
Sem conseguir se concentrar mais, Gina deixou-se cair no chão, escorada ao pé da mesa, tremendo e soluçando. Seu coração deu um solavanco, sua garganta fechou.
Draco... Draco... Draco. O nome dele pulsava em sua mente no ritmo de sua respiração profunda,no ritmo do corpo dele sobre o dela na noite passada, e Gina puxava o ar sem conseguir achá-lo, quanto mais puxava mais parecia que seus pulmões inflavam, vazios.
Zonza, ela ficou de pé novamente, ignorando o mal-estar, olhou para a passagem por onde tinha vindo e praguejou, porque tinha desaparecido. Seus olhos bateram subitamente num espelho comprido num canto da sala, e ela foi até ele o examinar. Espelhos na Mansão Malfoy quase sempre eram passagens secretas, e aquele não era diferente: sua superfície refletia o outro lado, mas o verso mostrava uma porta. Gina a abriu, mas voltou, pegou com dificuldade dois livros sobre a mesa e os carregou consigo.
Quando passou para o outro lado um vento gélido arranhou suas faces e ela franziu os olhos para a claridade do sol. A escuridão da Mansão desacostumara seus olhos ao dia, mas Gina olhou ao redor reconhecendo uma enorme varanda com piso de mármore azul-noite rajado de cinza.
Era um terraço, e a julgar pela paisagem no horizonte, era o teto da Mansão Malfoy. Ela nunca tinha estado ali e não se lembrava de haver alguma escada que levasse para o terraço, mas não se deteve pensando nisso; tirou do bolso o pedaço de vidro para se comunicar com Harry. Ele estava um pouco sujo com pedaços de linha e lã do interior da bolsa em que ficara guardado, e ela o soprou antes de olhá-lo. Uma fina camada de névoa embaçou o vidro momentaneamente, que se desfez com o calor da manhã. Quando Gina o olhou, viu seu olho refletido nele, o amarelo da íris matizado a um verde claro vivo e...
Os pulmões de Gina trancaram novamente. O vidro refletia os olhos dela, os de Harry, e os de Draco, às suas costas. Com o susto, ela deixou os livros caírem.
Draco avançou sobre ela a segurou pelo braço, seus dedos potentes afundando na pele dela, a fazendo derrubar o pedaço de vidro, que se espatifou com um ruído tímido.
"Malfoy!" Gina viu o brilho faiscante de uma lâmina prateada na outra mão dele. "Você matou todas aquelas pessoas..."
A voz dela sumiu.
Estava tão atordoada que por mais que se debatesse não conseguia afastá-lo. As mãos dele tinham uma força impossível de se contornar; além do mais, a proximidade dele a as descobertas dos últimos minutos a anestesiavam.
Draco olhou para o chão e viu os livros caídos ali, abertos como corpos sem vida no piso gelado, e sua expressão se anuviou de forma sinistra.
Ela o empurrou como um gato desesperado, olhando fixo para a lâmina do faca que Draco segurava e agora erguia no ar. Num lampejo repentino, ela a reconheceu: era a faca de Salazar Slytherin, a mesma que ele mostrara secretamente a Pansy Parkinson anos atrás enquanto Gina assistia a tudo dentro do armário de vassouras. Na época, Draco exibia uma cópia da arma, mas ela teve a mórbida sensação de que ele finalmente conseguira a original.
Ela não sabia o que aquela arma era capaz de fazer, mas sendo projetada por Salazar, sem dúvidas não era para cortar maçãs.
Gina esperneou com mais força, virando-se de frente para Draco e tentando chutá-lo entre as pernas, mas ele ficou furioso e rosnou, impaciente, fazendo um movimento rápido e virando-a de costas. Com uma mão segurando-lhe os dois punhos, Draco passou o outro braço pelo pescoço de Gina e ela chegou a creditar que ele ia estrangulá-la.
A apertando contra si ele ergueu a faca, como se acariciasse o ar à frente deles com a ponta da lâmina. O sol irradiou sobre a superfície platinada da arma e um brilho intenso como um clarão pulsou no horizonte. Gina arregalou os olhos. Então, Draco moveu de leve a lâmina da faca para um lado e para o outro, como se procurasse um sinal ou algo de tipo, até que sua mão parou, retida por algo que Gina não via, e ele fez um corte – a boca de Gina se abriu – no ar. Como se fosse feito de folhas de papel manteiga, o ar se dividiu em camadas finas e transparentes, palpáveis. Draco continuou o cortando até fazer uma abertura razoavelmente grande, por onde um material cintilante como poeira ao sol fluiu. Em seguida ele dedilhou as camadas finas que ondulavam, num gesto muito parecido ao que se faz ao folhear as páginas de um livro, e as separou habilmente com os dedos longos.
O sol batia nas finíssimas camadas de ar e as fazia brilhar suavemente, espalhando uma luz porosa que cintilava ao vento. Ele empurrou Gina para frente, a impelindo a entrar pela fresta, mas ela pestanejou, mortificada, sem saber o que haveria do outro lado.
Até que finalmente ele a fez passar pela fenda, e a luz da manhã desapareceu antes que Gina perdesse os sentidos.
O que ele tinha feito de errado?
Olhou ao redor. Continuava em sua casa, com a diferença de que se sentia nauseado, um tanto imaterial. O ar da manhã entrava pelos janelões da biblioteca e douravam a madeira das estantes, fazendo os nomes em ouro no dorso dos livros faiscarem.
Scorpius levantou do chão, contorcendo o rosto numa careta quando logo em seguida vomitou. Sua cabeça girava sem parar, seus olhos doíam como se alguém os pressionasse sobre as pálpebras, e suas mãos estavam dormentes. Segurando-se na mesa, ficou de pé. Talvez fosse a luz do sol, mas os livros pareciam estranhamente mais novos, o couro de suas capas ainda brilhava como escamas de peixe.
Ele se recompôs depressa, correndo para a porta e a abrindo. Havia um corredor comprido à frente, imerso numa meia-luz alaranjada de entardecer. Pessoas conversavam alto lá em baixo, no saguão, vozes que ele desconhecia, e Scorpius esgueirou-se pela parede até chegar ao corrimão das escadarias. Via apenas as lareiras apagadas, os jogos de sofá e a tapeçaria cor de sangue, como o soalho, mas sombras longas se moviam no canto, em baixo das escadas, onde ele não podia enxergar. Como o timbre das vozes se alterava o tempo todo, as sílabas como que se perdiam entre uma palavra e outra, de modo que Scorpius não entendia o que estavam conversando.
Queria se aproximar mais, estava tendo a ligeira sensação de que enfim funcionara, e começou a descer em silêncio os degraus da escada, pisando sobre o tapete vermelho de veludo pregado aos degraus por bastões de ouro. Era como estar no interior de um navio recém entregue ao porto: tudo brilhava, o dourado era quase amarelo de tão vivo, o vermelho vibrava, e os veios da madeira no piso tinham o reflexo espelhado como a superfície lise de um lago.
Não precisou descer todos os degraus; de repente viu pés caminhando à esquerda. Scorpius espichou a cabeça, encolhendo-se entre as hastes do corrimão, e viu dois homens conversando. O mais alto tinha uma corpulência de marinheiro, usava um terno escuro e calças elegantes, tinha os cabelos cor de avelã e maneiras duras; o segundo era mais baixo, porém não necessariamente menos imponente. Seus cabelos longos eram da mesma cor dos de Scorpius, embora mais grossos e lisos, e quando ele virou o rosto de lado para soprar a fumaça do charuto, Scorpius viu seu perfil selvagem e obstinado, o nariz cinzelado o fazendo compreender que estava vendo seu avô.
Sorrindo, Scorpius recuou. Tinha dado certo. Finalmente descobrira o segredo de seu pai! Ele voltava no tempo, para a data que quisesse – era isso, por mais que isso ainda não explicasse os nomes dos desconhecidos e as histórias sem sentido.
Ele subiu e correu para o corredor da ala leste, em direção ao seu quarto. Sabia que ele ainda não existia, mas queria conhecer sua casa como ela era antigamente, cada detalhe.
Mas em sua frente surgiu uma mulher. Pelas vestes de cor cinza, era uma serviçal.
Scorpius sorriu maliciosamente.
A moça ficou o olhando, sem entender de onde ele surgira.
"Quem é você, meu rapaz?", perguntou ela com um sorriso terno, deslizando os olhos pelas ondas cor de areia dos cabelos de Scorpius.
"Sou o neto de Lúcio Malfoy", disse ele a olhando nos olhos. "E você deve ser a mãe de Corelina e das outras meninas."
Diante daquela declaração, ela sorriu ainda mais. "Certamente você não é neto do Senhor Lúcio, isso seria impossível, não é mesmo?", ela franziu as sobrancelhas claras e finas. "Mas me pergunto como você acertou o nome de minha primogênita..."
"Na verdade", disse Scorpius, cruzando os braços e encostando-se à parede, "eu não conheci meu avô. Mas meu pai é um pirata! Ele navega mares onde você jamais pensaria ir, onde ondas escuras engolem uma tripulação inteira! Ele domina sereias, manipula tesouros, e", ele estreitou os olhos como se fosse lhe contar a melhor de todas, "controla o tempo."
A moça não piscou. Estava olhando fixamente para o garoto, e Scorpius sentiu-se poderoso por conseguir tal atenção.
"Espere um pouco...", ela abaixou-se diante dele, o segurando delicadamente pelo queixo e o olhando atentamente. "Não sei quem você é, mocinho, nunca o vi nesta casa antes, e nunca soube que o senhor Lúcio Malfoy tivesse um filho, ou um irmão mas novo, mas você definitivamente é desta família", ela o soltou, mas permaneceu o fitando, intrigada, "Eu poderia acreditar em magia agora mesmo, porque desde os dez anos de idade escolhi para minha primeira filha o nome de Corelina, e isso ninguém nunca soube."
"Revistem o segundo andar."
O barulho que a enorme porta de madeira fez ao ser arrombada chamou a atenção dos criados. Logo, algumas meninas chegaram ao saguão de entrada, seus rostos juvenis estarrecidos e confusos. Eram difusamente parecidas, como se projetadas em laboratório: louras, seios robustos, cinturas finas. Elas olhavam para o bando de estranhos com lascas de madeira erguidos em suas direções e pareciam se perguntar se era apropriado rir.
Harry logo compreendeu que elas não tinham conhecimento da magia. Mas ele tinha de fazer o trabalho dele.
Ergueu o distintivo. "Quartel General de Aurores. Esta casa está agora sob jurisdição do Ministério da Magia", ele avançou alguns passos, olhando firme para cada uma das garotas. "E se isso fosse uma brincadeira, teria acabado aqui."
Elas se entreolharam, e fosse o que fosse que estivessem pensando, as fez permanecer imóvel.
Tonks e os outros aurores se espalharam pelos aposentos do térreo, correndo por cada corredor e vasculhando cada porta, enquanto Rony e a outra metade da equipe cuidavam do segundo andar.
Harry nunca tinha estado na Mansão Malfoy antes, e mesmo naquela situação tensa e decisiva, ele reparou no quanto ela era magnífica. Tinha um pé direito abusivamente alto, e lá em cima um lustre inutilizado se acumulava nas sombras como o lustre apagado de uma ópera, com teias de aranha se entrecruzando nos pingos de cristal como renda francesa.
"O que está havendo?", perguntou a voz frágil de uma das garotas.
Harry voltou a atenção para a cena. "Vocês trabalham para os Malfoy", era uma afirmação e nenhuma delas sentiu necessidade de se manifestar, "e seu patrão está sendo acusado de genocídio."
Poucos pareciam saber o que significava a palavra, mas as que sabiam, chocaram-se.
"Vocês não têm provas."
Harry olhou para o lado. Uma outra garota, um pouco mais velha que as demais, estava em pé perto da escada. Tinha um olhar penetrante e esverdeado como a mágoa, e embora fosse tão idêntica quanto as outras, sua expressão era obscura, forte e impenetrável como a de um Malfoy.
Harry nada lhe disse. Tonks retornou para o saguão coma equipe às suas costas e balançou a cabeça.
"Talvez esteja no segundo andar", Harry olhou para cima, se deparando pela primeira vez com o gigantesco quadro no topo da escada. O olhar hostil do homem no retrato o desafiava a ficar onde estava. "revistem os Jardins", murmurou Harry o encarando de volta, "e lancem feitiços bloqueadores em todo o terreno", ele não desviou os olhos do quadro, mas o que disse não pôde ser indiferente aos que ouviram: "A partir de hoje, essa casa não tem mais Senhor."
