Moira

Segunda Parte

Capítulo 6 – São os seus olhos

Ela estava olhando pela janela de seu antigo quarto na Mansão Malfoy, o quarto que ela ficara como Pansy Parkinson a quase 8 anos atrás, mas a paisagem lá fora era outra, não era o bucolismo frio das planícies do norte da Escócia. Na verdade, não havia paisagem, apenas um borrão branco que incidia sobre seu corpo como um holofote e também atingia os olhos dele. Ele piscava para a luz que queimava seus olhos, e ela sentia, de alguma forma, a agonia dele e a indiferença dela diante disso.

Ela os via como quem assiste a uma encenação teatral, embora não estivesse exatamente no lugar da platéia. Ele se aproximou dela, tocando a curva de seu pescoço e acariciando o oco entre suas clavículas. Ela estava nua e sentir a pele dela era como puxar o ar pela primeira vez depois de passar cinqüenta anos imerso em piche. Ele aspirou perto da orelha direita dela e ela piscou.

"Você está me machucando", ela disse.

Ele levantou a mão da pele dela, mas não afastou o rosto.

"Você sempre faz isso", Gina disse, cruzando os braços ao redor do corpo.

As palavras ficaram engatadas na garganta dele como pílulas atravessadas e ele começou a lagrimar por causa da claridade. Ele não tinha muito tempo, logo acabaria, aquela imensidão branca na janela avisava; aquilo não era normal.

"Me desculpe."

"Não posso."

"Porque não?"

"Porque estou sangrando."

Ele voltou a tocá-la, dessa vez com mais força, não por querer feri-la, mas por não conseguir se controlar. Abraçou-a e colocou a mão sobre seu ventre, sentindo algo viscoso escorrer por entre seus dedos.

"O que há de errado?", ele perguntou.

"Você quer dizer, com isso?", Gina continuou olhando pela janela, inexpressiva. "Ei, você se lembra quando brincávamos no jardim? Eu, você e os vizinhos, na casa de praia..."

"Essa lembrança não é nossa..."

"É, sim. Você não se lembra?"

"Nunca brincamos quando criança. Não nos conhecíamos."

Ela riu um riso entristecido.

"Gina, os seus olhos."

Havia uma tremulação pouco familiar na voz dele, que fazia com que não parecesse a voz dele, mas com a de um homem confuso sofrendo alucinações. A claridade se transformou num som agudo e contínuo que só ele ouvia e que ia rasgando seus tímpanos devagar.

Gina não pôde mais ignorar o corpo dele contra o dela e teve uma crise de asma desencadeada pela excitação. Virou-se para ele.

"Fique comigo", ela dizia enquanto via fios de sangue saírem pelo nariz dele.

"São os seus olhos!"

Ele virava o rosto para os lados, afastando-o das mãos dela. A dor que ele sentia não era física; era uma dor de sonhos, das que só se pode ter porque faz parte de um sonho e que quando acordamos ainda a sentimos dentro da alma, uma dor de outras eras, que mesmo como recordação é capaz de nos enlouquecer. O sangue, Gina sabia, não queria dizer nada. Não é?

Ela procurou os olhos dele, esperando ver aquele azul sedoso e triste que a aliviava, mas quando o fez viu apenas duas frestas cristalinas imersas em luz e sangue, que descia pelo rosto dele cada vez mais pálido, e Draco disse:

"Não", antes que Gina pudesse compreender que a claridade irradiava o tempo todo dos olhos dela.

"Meu Deus", ela acordou murmurando, suada e com o rosto molhado de lágrimas, ainda degustando o nome dele na boca.

Ela chorava, sentindo uma dor tão grande no peito que a sufocava. Os rastros da dor de Draco em seu sonho. Gina levou uma mão à boca abafando os soluços e tentou enxergar onde estava através da bruma de lágrimas. Era uma sala antiquada e impessoal, como uma sala de espera de consultório psiquiátrico, com tapeçarias antigas e porcelanas enfeitando a bancada da lareira. Um relógio grande que mais parecia uma cristaleira batia suavemente encostado a uma parede, e o ar matinal tinha um gosto desagradável sobre o efeito da dor que ainda pulsava no corpo de Gina.

O som de algumas crianças brincando entrava pela janela, e Gina se levantou para ir até lá. Quando o fez, olhou para o divã em que estivera deitada, de veludo cor de damasco com almofadas rematadas de dourado. Aquela sala tinha algo muito errado que ela ainda não conseguia atinar, mas a incomodava imensamente, tanto ou mais do que o sonho que acabara de ter.

E o tique taque daquele relógio tinha uma nota macabra, como um aviso...

Ela se aproximou da janela devagar, escutando agora alguém contar até dez em meio a risadas animadas, mas antes de chegar ao batente uma movimentação na sala ao lado a fez se voltar para a esquerda. Havia uma pequena ante-sala e em seguida um espaço maior como a área de um living ou algo parecido, e todos os cômodos eram ligados por uma porta ampla de madeira escovada a ponto de parecer feita de ouro. A movimentação no entanto não era na ante-sala ao lado, e sim na próxima sala. Gina via sombras suaves se movendo no soalho, e a voz de uma mulher alteando volta e meia em picos de excitação.

"Garanto que sim", dizia ela, "muitas das meninas que chegam aqui levam algum tempo para se adaptarem, mas nossa área e nossas acomodações são muito agradáveis, como o senhor pôde verificar. Nancy não terá problemas."

A pessoa respondeu, mas Gina não conseguiu ouvir porque tinha uma voz muito baixa e linear. Passou para a ante-sala e seu coração quase parou ao ouvir a voz de Draco do outro lado da parede:

"...os pais. Não tem irmãos."

Um misto de alívio e medo a fez voltar a lagrimar outra vez. Estava começando a entender parte de tudo. Por que aquela sala incomodava, por que Draco estava ali com ela...Gina olhou ao redor novamente. Porcelanas chinesas. Móveis coloniais. Lustres e alcatifas orientais e uma estante de livros antigos. Cortinados de veludo e seda, papel de parede azul claro com pequenos detalhes em marrom, como bordados. O tique taque do relógio de pêndulo...

Draco apareceu na porta, usando uma capa e segurando na mão uma cartola que afirmaram todos os receios de Gina. Estavam no século XIX. Uma senhora de preto veio logo atrás dele, tinha os olhos muito brilhantes e a pele meio emplastrada de pó-de-arroz, e adiantou-se para Gina com um sorriso que uma enfermeira dá a um doente.

"Como se sente?"

Os olhos de Gina no entanto ainda não tinham se desviado de Draco. Ambos mantinham uma comunicação muda e discreta; os dela, muito abertos e perspicazes, diziam: "seu filho da mãe", e os de Draco, estreitos e impassíveis, replicavam algo como "e o que é que você vai fazer?" em meio a um leviano sorriso falso.

"Seu primo está de saída", dizia a mulher, a voz começando a ficar estridente de novo, "mas ele..."

"Senhora Lock", Draco a interrompeu, desviando os olhos dos de Gina, "posso falar com Nancy em particular?"

"Ah, mas receio que ela esteja ainda um pouco abatida", a senhora Lock se adiantou para Gina, colocando-lhe as costas das mãos geladas no pescoço, "Ainda está um pouco febril, seria melhor..."

"Estou bem", Gina disse, para surpresa de Draco, e encarou a mulher. "Nos dê um minuto, por favor."

A senhora Lock sorriu forçadamente, lançando um olhar avaliativo aos dois como se temesse deixá-los sozinhos, então saiu, fechando a porta às suas costas, e mal o ferrolho havia girado quando Gina avançou em Draco.

"Então, Malfoy", disse ela o segurando pela lapela, "essa é sua idéia de me manter fora do seu caminho, me trancando no passado!"

Ele olhou ao redor. "Você gostou?", perguntou como quem pede à esposa opinião sobre o novo apartamento, mas ficou subitamente sério e fechou as mãos em torno dos punhos de Gina. "Não pense em fugir daqui, Weasley. Há lugares piores no século dezenove."

"Não há nada que em século algum possa ser pior do que a suaprópria casa!"

"Ah, minha Mansão..." ele murmurou, quase sorrindo, afastando as mãos de Gina de sua lapela, "sim, sim, é um lugar excelente. Então talvez você ache melhor experimentar...o manicômio?"

A respiração de Gina começou a acelerar. A visão de um corredor branco sem fim com infinitas portas veio em sua mente sem que ela pudesse impedir, o gosto de remédios estalou em sua língua como pão velho, enroscando-se em sua garganta como uma serpente grossa, paralisando seus membros, sua mente, descendo para o estômago...

Draco a observou.

"Você não é uma garota burra, Weasley", disse, e havia um tom franco em sua voz, quase íntimo, que fez Gina voltar a si devagar, "Não fará nenhuma besteira. Você foi mais longe do que eu apostava que iria e..."

"Você sabia o tempo todo."

Ele não respondeu.

"Porque não me matou? Você podia ter me matado assim que entrei na sua casa, você esperou até que fizéssemos..."

Ele balançou a cabeça

"Você sabia como me ferir, estava esperando a melhor hora, o..."

"Você não entende."

"...momento certo, você sabe fazer isso como ninguém, Malfoy! Meu Deus, você sabe como machucar uma pessoa!"

"Claro que sei."

"Eu não vou parar!", Gina puxou-o pelas lapelas novamente, ficando na ponta dos pés para o olhar nos olhos. Sentia seu corpo tremer de raiva e humilhação. "Não vou parar enquanto não o ver enlouquecendo em Azkaban!" ele desceu os olhos para as mãos dela, como se se perguntasse como elas haviam ido parar ali outra vez, e Gina lembrou de como ele a evitava em seu sonho, e de como os olhos dele eram diferentes na vida real, e de como isso doía. "Olhe nos meus olhos."

Draco a olhou. Gina esperou que ele a empurrasse, que falasse alguma coisa ruim, ofensiva, mas ele ficou em silêncio, sustentando-lhe o olhar.

"Consegue ver neles minha vingança?"

A expressão no rosto dele mudou, e Gina viu um de seus olhares raros que o rejuvenesciam dez anos e o faziam parecer ingenuamente desnorteado. O mesmo olhar que ela vira enquanto faziam amor e no seu sonho, um olhar que era tão frágil que podia nunca ter existido e ser apenas a imaginação dela. Naquele mesmo estante o olhar não estava mais ali, havia se solidificado numa muralha de vidro impenetrável. Ela teve a sensação de que ele ia dizer algo, alguma coisa importante, e ficou olhando para a boca dele, concentrada, esperando que ela se abrisse, se abrisse um pouco mais...

"E você", ele murmurou de repente, "o que vê nos meus?"

Aquilo era uma pergunta que não podia ser respondida, e sendo assim, era um enigma. Draco recolocou a cartola de cetim sobre a cabeça e abriu as portas, saindo. Gina escutou o solado de seus sapatos batendo na madeira das escadas até que só houvesse novamente o silêncio e o tique-taque do relógio.

Gina correu atrás dele, seguindo sua sombra que deslizava pelo último degrau da escada, depois outra escada e um corredor longo, interminável, uma porta de vidro trabalhado e madeira escura, e então mãos firmes a agarraram no meio do caminho como se ela fosse um gato arisco, e Gina gritou o nome dele o mais alto que pôde, e outra vez, até sua garganta doer, até seus braços se cansarem de relutar.

"Calma, menina!", disse uma senhora, mas não era a senhora Lock. Era mais baixa e mais forte, usava um avental claro e uma touca. "Calma!"

Gina se deixou ser contida, ofegando, imaginando o que seria dela agora, presa naquela casa, com aquelas mulheres desconhecidas, num tempo desconhecido.

"Vai ficar tudo bem, criança", disse a mulher com carinho.

O olhar que Gina lhe lançou talvez tenha sido mais hostil do que desejava, porque a mulher ficou muito séria e a soltou sem modos.

"Você tem muita sorte em ter um primo como o seu! Muitas pessoas não teriam tido piedade e deixado você na miséria."

"Ele não é meu primo!"

"Pouco interessa se não for", a mulher tornou a pegar Gina pelo braço, "Agora, escute, mocinha, aqui não é a sua casa, entendeu? Não vai ficar dando gritos, quebrando suas bonecas, chorando e tendo faniquitos. Isto é um colégio interno e não admitimos esse tipo de comportamento, está ouvindo?"

"Colégio...?"

"Já vejo porque seu primo não a suporta", a mulher olhou para Gina e deu um muxoxo, "tem mesmo cara de ser geniosa."

"Me solte!", Gina puxou o braço e ficou olhando, indignada, para a outra. "Eu não vou ficar aqui!"

Ao ouvir aquilo, a mulher sorriu de modo afável. "Sua anuidade já foi paga, meu bem. Creio que vai ficar sim. Para onde uma garota da sua idade iria, sem dinheiro, sem nada?"

"Quantos anos você acha que eu tenho?" Gina estava cada vez mais afrontada.

A pergunta foi genuinamente estranha para a mulher, que olhou para Gina como se a achasse louca. Então, devagar, o olhar de Gina encontrou um espelho oval atrás da mulher, sobre uma bancada de mármore rosa. Aquilo era fabuloso. Era...como Malfoy havia conseguido? Ele não apenas tinha forjado uma história totalmente falsa para ela, um nome falso, como também conseguira fazer com que ela regredisse no tempo. Porque Gina via no espelho o reflexo de si mesma aos quinze anos de idade, embora aos vinte e quatro ela não fosse tão radicalmente diferente. Mas o formato de seu rosto era mais redondo, seus ombros eram mais estreitos e seu nariz era mais arredondado na ponta, como o nariz de uma adolescente e não o de uma mulher. Sua boca não era tão volumosa, a curva abaixo do lábio inferior não era muito acentuada e sua pele era revestida por um aveludado suave como algodão. Além disso, seus olhos brilhantes e suas sardas castanhas no dorso de seu nariz não ajudavam em nada a lhe dar uma aparência mais madura.

Ela devia ter notado quando precisou ficar na ponta dos pés para se aproximar do rosto de Malfoy e ainda assim parecia uma criança tentando escalar um armário. Devia ter percebido quando ele fechou as mãos em torno de seus pulsos, seus dedos longos dando a volta facilmente sobre eles.

Gina se apoiava no fato de ser maior de idade para sair daquele lugar, ou fazer qualquer coisa. Mas agora ninguém acreditaria que ela não tinha quinze anos, porque Draco armara tudo perfeitamente. Provavelmente planejava aquilo a meses, talvez anos, porque não havia uma falha no plano dele, e Gina sorriu amargamente ao pensar que não esperava mesmo que houvesse alguma.

A mulher olhava para Gina com os lábios crispados. Um grupo de meninas se encolhia perto da escada, rindo, coradas, usando tranças patéticas.

"Agora, vamos", disse a mulher, pegando Gina pelo braço novamente, mas com gentileza, "vamos trocar esse vestido. Quem teve a idéia bizarra de vesti-la com isso? Está horrível!"


Bom, aquilo não tinha muita graça, não é mesmo? Sua casa não tinha mudado muita coisa, não havia nada de grandioso para ver ali. Depois que a servente o deixara nos corredores, Scorpius se escondeu na Sala de Leitura que seu pai costumava usar. Ele ficara curioso sobre seu avô, seu pai jamais falava dele e tudo que Scorpius sabia era porque sua avó tinha contado. Ela lhe dissera que Lúcio Malfoy era um homem intolerante, dono de um senso crítico quase perverso. Mas Lúcio Malfoy não era interessante o suficiente – pelo menos não mais do que o novo brinquedo de Scorpius: os vira-tempos.

Ele estava ansioso para usá-los novamente, e ficava imaginando até onde poderia ir com eles.

Queria ver o mar. Mas aqueles objetos só voltavam o tempo, não eram capazes de transportá-lo para outra região, outra cidade. Scorpius foi até a janela e a escalou, sentando no batente largo. Aquelas planícies eram vastas, abertas, mas eram como muralhas. Ele nunca iria além delas, cresceria ali, ninguém jamais o levaria para ver o que havia adiante, depois do horizonte. Não importava quantos anos ele voltasse, ou avançasse, no fim, ele estaria sempre no mesmo lugar.

Preso no tempo.

Scorpius ficou olhando para os vira-tempos na palma da mão. Queria voltar para casa, para seu pai e sua mãe, para Corelina e os cavalos, mas também queria saber o que havia ali antes de sua Mansão. Haveria um castelo? Um pasto? Uma fazenda?

Ele se animou um pouco, virando todas as ampulhetas várias e várias vezes, sem contar. E a comichão em seus membros recomeçou.


Harry tinha dezoito anos quando começou a ouvir seu sexto sentido. Geralmente ele não lhe dizia nada muito importante, eram coisas como olhar para o semáforo com a sensação de que ele ia ficar vermelho antes que ele chegasse na faixa de pedestre, ou então sair de casa pensando em encontrar um amigo na rua e esse amigo aparecer. Coincidências, ele pensava.

Quando se mudou para a casa do Largo Grimmauld definitivamente, aos vinte e um anos, costumava ir dormir tarde. Fosse por ficar lendo ou escrevendo no escritório até o dia amanhecer ou por passar a noite toda na cama com Gina, o caso é que ele se acostumara a ir dormir quase de manhã. Então passava a manhã toda acordando em intervalos de meia hora, entre um pesadelo e outro, com a boca com gosto de sangue, sangue que ele via escorrendo pelas paredes de seu quarto antes de abrir as pálpebras. Sangue que estava na pele dele mesmo que ele tomasse banho e esfregasse o corpo até se ferir. O sangue de seus amigos mortos na guerra com Voldemort, o sangue de Sirius Black e de Lílian Evans, o sangue vermelho coagulado de Tiago Potter e Remus Lupin, o sangue aveludado do batom de Gina Weasley.

Ele já estava começando a acreditar que Deus não queria que ele dormisse nunca mais na vida. Então Harry levantava e ia até a cozinha beber água, e foi numa dessas vezes que ele parou ao lado da geladeira e olhou para o pano de prato estendido ao lado do fogão, pensando que deveria afastá-lo dali. Podia causar um acidente. Mas o pensamento desapareceu assim que ele piscou e deixou o copo na pia, voltando pra cama. Sonhou com fogo, acordou lembrando do maldito pano de prato e tornou a esquecê-lo, para lembrar dele novamente dois dias depois quando ele pegou fogo enquanto Gina fervia verduras no fogão.

Harry decidiu dar mais ouvidos ao seu sexto sentido. E nunca mais se arrependeu. Naquele momento ele estava tendo a sensação de que Gina Weasley não estava na Mansão, e isso era ruim. Era como levar um soco no estômago, ficar sem ar e não poder sequer gritar.

Quando ela lhe chamou pelo vidro ele viu os olhos dela refletidos nele e os de Draco Malfoy logo atrás, matizados de um azul luminoso que indicava que estavam em algum lugar aberto onde a claridade do sol os banhava. Mas não estavam nos jardins ou nos terrenos da Mansão, e isso não era boa coisa.

Ele olhou para as criadas, encolhidas num canto, o observando como se ele fosse um pirata prestes a mandá-las andar na prancha.

"Aqui tem um terraço", ele disse, olhando para o rosto de cada uma delas.

Nenhuma delas esboçou reação.

"Escutem", ele disse, sorrindo, "ninguém vai machucar vocês. São perguntas, e eu sei – nós sabemos – que vocês sabem responder todas elas."

Uma das moças piscou, olhou para baixo e molhou os lábios. Harry se aproximou, inclinando-se para frente e encostando a mão na parede atrás dela, de modo que seria idiota fingir que ele não estava ali. Ele esperou que ela erguesse os olhos para ele e quando o fez, ele disse:

"Qual o seu nome?"

"Livy."

"Olá, Livy. Você vai me dizer como se faz para chegar ao terraço?"

Ela balançou a cabeça, mas quando Harry moveu a cabeça para o lado ela disse depressa: "Você tem que ir pelo escritório."

Harry olhou para Tonks, que estava encostada na escadaria junto com o resto do pessoal. Alguns fumavam, esperando ordens, outros encaravam as garotas, o que Harry imaginou ser a causa do medo delas. Tonks ergueu as sobrancelhas. Rony ainda não tinha voltado da inspeção no segundo andar.

"Mas aposto como o escritório está trancado, Livy", disse Harry.

"Sim."

"Então você não me contou o segredo por inteiro."

"Nós não sabemos como entrar", foi uma voz às costas dele quem falou. Harry se virou. Era a outra garota, a que embora fosse idêntica a todas as outras, tinha no olhar uma certa obstinação obsessiva. "Só o Senhor Malfoy tem a chave, e a porta é protegida contra feitiços."

O modo como ela falava senhor Malfoy deixava Harry com a ligeira sensação de que ele a levava para a cama.

Harry riu. "A porta é protegida contra feitiços... a porta."

Tonks riu também, e ele fez para ela um sinal indicando que subisse. Ela subiu as escadas e ele ficou olhando para as garotas, até que uma voz gritou lá de cima "bombarda!" e uma explosão fez a Mansão estremecer, assustando as criadas e tilintando o lustre.

"Bem, a parede não era", disse Harry, balançando a cabeça.


O grupo de Rony chegou logo atrás, atraído pelo barulho, e começaram a revistar o escritório que ainda estava um tanto nublado pela poeira da parede demolida. A primeira coisa que chamou a atenção de Harry foram os livros sobre a mesa.

"Sabe", disse Rony ao se aproximar da mesa, "eu também não acho que Draco Malfoy seja um escritor."

Harry mordeu o lábio. Seu sexto sentido lhe dizia que o que ele procurava estava ali, naqueles livros. Com cuidado, ele abriu um deles com a ponta da varinha, virando a capa de couro, que levantou poeira ao cair para o outro lado. Rony e Harry passaram os olhos pela letra corrida, e a princípio entenderam pouca coisa, até que seus olhos se acostumaram com a caligrafia e então ambos prenderam a respiração.

"É isso mesmo que estou pensando?", disse Rony, coçando a barba do queixo.

"Sim. Acho que é mais ou menos isso."

"Filho da puta."

Harry virou-se para Livy, que havia subido com eles. Ela indicou o espelho ao canto do escritório. Harry foi até o espelho, o examinando.

"Do outro lado", disse ela timidamente.

Ele olhou o verso do espelho. Havia uma passagem, como uma porta aberta, que mostrava uma escada estreita e mal iluminada.

"Rony, venha comigo. Lock, recolham tudo o que puderem, principalmente os livros, e esperem meu sinal."

Harry pensou em Gina Weasley. Lembrou do modo como os dentes dela apareciam, brancos e pequenos, quando ela sorria, fazendo covinhas em seu rosto. E subiu as escadas ouvindo o farfalhar da roupa de Rony logo atrás.

Draco era um homem perigoso, e Harry não era burro para subestimá-lo. Se fosse em outra ocasião, talvez tivesse chamado mais uma pessoa, mas naquele momento Rony era como uma bomba relógio prestes a explodir, tamanha era a ira que guardava em si desde que Hermione morrera, então Harry não podia se sentir melhor acompanhado.

Ao chegarem no terraço, a claridade da tarde faiscava no piso bem escovado e no gradeado de aço, criando pontos cintilantes ao redor deles. Havia dois livros jogados no meio do terraço, cacos pequenos de vidro perto deles, e nada mais.

"Ele não pode ter sumido", disse Rony, examinando os livros e os cacos de vidro.

"E não sumiu", Harry olhou para o horizonte, a relva muito verde ondulando à brisa suave. "Ele pegou Gina no pulo. Algo aconteceu que foi mais urgente do que esconder as provas", ele apontou os livros, "mas ele vai voltar, e não vai demorar muito."

Rony olhou ao redor, como que procurando uma explicação, algo que o amigo enxergava e ele não.

"Fico imaginando", disse Harry num sussurro, "o que poderia ter sido mais importante para Malfoy do que esconder as provas de seus crimes..."

"Acho que ele cometeu um erro", disse Rony, acariciando a borda do caco de vidro.

Harry fez que sim.

"Um baita erro..."


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