Moira
Segunda Parte
Capítulo 7 – O ponto fraco
Rony viu o caco de vidro passar na pele de seu polegar e o sangue brotar numa linha fina, cada vez mais profunda. Ele não queria admitir, mas estava perdendo o bom senso. Era como uma doença que corroía seus nervos a cada hora que passava desde que Hermione caíra sem vida na porta do banheiro de sua casa. Não fazia sequer dois dias, e ele pensava se iria suportar uma semana, se iria conseguir chegar no mês seguinte, se havia, para além daquele pesadelo, uma realidade.
No velório de Hermione, naquela manhã, Gui tentara conversar com ele daquela forma pacífica e sólida que é comum aos irmãos mais velhos:
"Sei como se sente."
Rony olhou para o caixão de madeira branca em que Hermione estava e molhou os lábios. Hermione, uma mulher brilhante, a mulher que era dele, que fora sua melhor amiga, sua amante, presa naquele caixão sem exalar cheiro, som, nada. Distante dos lençóis de algodão da cama deles, da água morna do chuveiro que embaçava os vidros do banheiro, distante das calçadas úmidas das ruas da cidade, por onde eles caminhavam, causalmente, indo para o Ministério, indo visitar os amigos, indo ao supermercado, ao Beco Diagonal, à livraria da esquina.
Rony olhara para o caixão de madeira branca e vira Hermione se vestindo para ir trabalhar. Ela escolhia tonalidades de roxo, azul e cinza claro, usava um perfume marcante floral, amarrava os cabelos fartos com um lenço de seda, e ria dos comentários que Rony fazia. Seu sorriso era franco, leve, como um sonho distante que a gente esquece logo depois de abrir os olhos. Sua pele era quente e latente e lembrar disso tudo poderia ter feito Rony gritar, se tivesse forças para isso.
Olhou para Gui e não sentiu simpatia pelos olhos marejados do irmão.
"Eu poderia lhe dizer qualquer coisa", Rony murmurara, sem conseguir conter um sorriso amargo, "poderia lhe dizer que eu a amava e que ela era a pessoa mais importante para mim, mas não é isso que quero dizer a ninguém, porque isso eu dizia a ela, apenas para ela", ele pegara o braço do irmão e se aproximara, abaixando ainda mais a voz, "O que eu tenho para dizer é um grito. O grito de dor que o culpado vai dar quando eu enfiar minha mão no peito dele e lhe arrancar o coração", Rony estreitara os olhos para a expressão desconcertada de Gui, lhe dera um tapinha no ombro e fora embora.
Rony acariciou a lâmina de vidro novamente, dessa vez com o outro polegar. Quando ergueu os olhos, Harry estava o olhando, observando em silêncio seus dedos sangrando.
"Dizem que a mente de um psicopata é genial", Rony comentou, olhando o horizonte.
Harry deu de ombros. "Então Draco Malfoy não é um psicopata."
"Ele cometeu um erro", Rony ponderou, "mas há um motivo aí. Ele não iria falhar por descuido."
"Vejamos: Gina achou as provas no escritório dele, subiu para o terraço e tentou se comunicar comigo. Ia avisar que completara a missão. Mas então Malfoy chega e a impede, e ambos somem como areia no vento."
"Porque, Harry?", Rony virou-se para o amigo.
"É o que estou tentando descobrir."
"Não. Porque Gina veio para o terraço?"
"Talvez para fugir, uma vez que tinha conseguido as provas. Mas ela não teria feito isso sem uma ordem do Quartel, mas suponhamos que ela tenha achado aquela passagem no espelho e subido para ver o que tinha aqui em cima? Você também não teria vindo dar uma olhada?"
Rony deixou o caco de vidro de lado e abriu um dos livros. Folheou-o por um instante, sem entender nada, e vagueou os olhos pelas palavras e nomes desconhecidos.
"A criança também não está aqui", disse por alto.
"O filho dele?"
"O quarto está vazio, todos os quartos estão."
Harry assentiu. "Ele está sempre um passo à frente."
Rony fechou o livro e ficou de pé, olhando novamente ao redor como que se perguntando o que ainda estavam fazendo ali.
"Harry", a voz de Tonks veio das escadas. O cabelo rosa ganhou tons alaranjados quando o pôr-do-sol bateu em seu rosto, dourando seus olhos castanhos. Ela ergueu a mão enluvada a mostrou para eles um pequeno arco cor de cobre. "Hoodwood achou isso no escritório."
Rony e Harry olharam o objeto. Era leve e bem feito como uma jóia. Nas mãos de Tonks, parecia tão delicado que emanava nela uma aura de feminilidade magnética. A luz incidiu na curva do arco e fez brilhar minúsculas letras gravadas ali, que Harry tentou entendê-las, mas eram pequenas demais.
"Que acha?", perguntou Tonks.
"Fica bem em você", disse Harry, em seguida balançou a cabeça para o próprio comentário.
"É, estou pensando em confiscá-lo depois que Erick o analisar", gracejou ela, "Pelo menos vamos levar algo para ele, não é?"
Harry a olhou, sério, e Tonks o encarou.
"Não achamos mais nada, Harry," disse ela em voz baixa, como se tivesse vergonha em admitir as próprias palavras.
"As coisas de Gina?"
Tonks balançou a cabeça. "Nada."
"Filho da puta!", exclamou Rony descendo as escadas correndo.
"Merda", disse Harry, descendo atrás do amigo com Tonks no encalço.
"O desgraçado armou uma armadilha para que perdêssemos tempo."
Harry atravessou o escritório apinhado de aurores e poeira enquanto Tonks gritava para eles:
"Vamos embora, ele não vai voltar!"
Quando desceu as escadarias do hall e viu as criadas enfileiradas lá em baixo, uma onda de fúria fez Harry ordenar que as amarrassem.
"Vamos levá-las para o Quartel", disse para os aurores que conjuravam cordas ao redor dos punhos das moças, passando por elas e traçando uma linha reta até as portas da Mansão – onde Rony, tendo retirado todos os feitiços bloqueadores, desaparatara – mas então deu meia volta e ouviu Tonks dizer:
"Quero uma vigília de guarda aqui."
"Sim", Harry, sentia no peito a sensação de ter areia escoando pelas mãos como um vira-tempo perto do fim, "Quinze homens é o suficiente. A Mansão está interditada pelo Quartel até segunda ordem."
"Tudo que se mover será suspeito", Tonks apontou para o enorme quadro no topo da escadaria, "Revistem os quadros, revistem cada parede, essa casa é cheia de passagens secretas, mapeiem tudo", ela se aproximou de Harry e ambos desceram para os jardins, os olhos estreitando-se para a claridade da tarde, acostumados com a penumbra da casa. "Harry, sabe o que Hermione diria se estivesse aqui?"
Harry a olhou. Sua expressão era tão arguta que ele se condenou por não estar percebendo o mesmo que ela.
"O quê?"
Ela sorriu como se estivesse ganhando uma partida de poker no blefe.
"Eu acho que descobri."
***
Estava começando a acontecer.
Draco virou uma esquina e entrou numa rua escura e deserta. As ruas de Londres no início do século dezenove, eram de paralelepípedo, estreitas e irregulares, com casas de dois andares e janelas quadradas. Mas a que ele escolhera era particularmente sombria àquela hora do dia, em que o sol incidia num ângulo fechado, formando escuridões compridas no chão e nas paredes. Provavelmente era a rua dos fundos de alguma casa noturna, e ele se escorou na parede sem janelas, tossindo.
Sua mente escureceu, sua visão se turvou e ele sentiu que seu corpo se rasgava por dentro. Era uma dor lancinante, mas ele não gritou. Ao invés disso mordeu os dentes e esperou, ofegando.
Me dê um tempo.
Não foi esse o acordo.
Draco caiu no chão de joelhos, sua cartola rolou para longe e sua capa comprida resvalou na umidade da calçada.
Seu tempo está se esgotando, Malfoy...
Preciso dos livros. Não posso realizar as mortes sem os livros!
Pegue-os.
Se eu voltar para a Mansão serei pego!
Corra o risco!
Draco sentiu uma pontada no coração tão forte que achou que iria morrer naquele momento. Perdeu o ar e sua mente se fechou como se ele tivesse perdido os sentidos – tudo parou de funcionar por um segundo. Então ele abriu os olhos e a dor passou subitamente, deixando somente uma lembrança que o fazia tremer e suar. Ele se sentou e encostou-se à parede, tentando se concentrar. Queria limpar a mente e entrar no estado hipnótico da legimência, mas não conseguia.
Me deixe em paz.
Ah, não, não, Malfoy. Você não nasceu para ter paz.
Me deixe respirar.
Você não tem direito a essas coisas, meu rapaz.
Draco rilhou os dentes novamente, não de dor, mas de ódio.
Não vou mais fazer isso.
Não vai mais? Tem absoluta certeza? Posso desfazer nosso acordo nesse exato momento.
Ele olhou para a frente, para o muro cinzento do outro lado da ruela. Quase foi capaz de sentir cacos de vidro em sua pele, perfurando, penetrando aos poucos, milhares, mas era apenas o frio, um frio que vinha de anos atrás, numa noite de inverno em que ele tivera o encontro, o maldito encontro que mudara sua vida para sempre e o condenara. Desde aquela noite ele tentava encontrar uma saída, mas não havia nenhuma. Ele não tinha escolha, ele não tinha vida. Não tinha paz, e admitia – isso não era uma coisa adequada para ele.
Então vamos desfazer nosso acordo...
"Não!", Draco gritou, agarrando o ar à sua frente como se puxasse uma lapela invisível. "Não", ofegou, "não, não, não faça isso, não..."
Mas você é um sujeito delicado, Malfoy, afinal. É comovente.
Draco tossiu novamente, borrifando sangue grosso nas vestes pretas.
"O que é isso?", ele ergueu diante dos olhos as mãos salpicadas de sangue "Porque isso está acontecendo?"
É um meu próximo aviso não será em você. Seu tempo está se esgotando.
Um coche passou na rua transversal, o galope do cavalo era lento como se passeasse, e o som das rodas batendo de leve nos paralelepípedos chegava aos ouvidos de Draco como batidas de um coração descompassado.
Não permita que aconteça, por favor, imploro que não deixe...
É claro. Não acontecerá. Cumpra o trato.
Draco fechou os olhos, sentindo gosto de lama na língua, notando que começara a cair uma chuva fina e gelada. Olhou para os respingos de sangue em sua roupa, em suas mãos brancas como cal, agarrando com força a borda da capa sobre a perna. Sentia-se zonzo e sem forças como jamais se sentira antes. Esticou a mão para a cartola, levantou-se, escorado à parede. Passou as mãos pelos cabelos para afastá-los para trás, passou a mão pelo rosto, lavando-o com a chuva, e esperou que suas pernas parassem de tremer. Tornou a tentar se concentrar e conseguiu. Sua mente passou para um estado onírico com facilidade e ele logo conseguiu sentir a presença maciça de Salazar Slytherin.
"Eles estão aqui", disse a voz homogênea e grave de Slytherin em sua mente. Era um alívio ouví-la susbtituir a voz anterior, fria e pesada.
Scorpius?
Slytherin riu, mas não havia som, e sim uma sensação ondulante de ter algo estremecendo em suas têmporas.
"Seu filho tem uma sorte que faria os deuses antigos o adularem", disse o homem lentamente, "Ele descobriu minha casa durante a madrugada e chegou ao seu escritório. Deve estar brincando de girar vira-tempos."
Draco assentiu. Era melhor do que ele esperava.
Salazar, pode...
"Ele está agora no ano de 1734, caminhando pelos campos do Norte da Escócia. Está com um pouco de fome, sozinho, com frio, mas está bem. Está começando a se enjoar da brincadeira. Quer voltar para casa. Deixou um dos seus livros na biblioteca da Mansão no ano de 1965, o livro foi achado por uma serviçal e colocado junto aos outros livros da coleção, onde permanece até hoje. O livro foi o último que você escreveu."
Sim, o livro que ele havia relatado o desencontro dos antepassados dos Granger. Naquela noite iria completar um dia que ele não escrevia, que ele não cumpria o acordo.
"Vou trazê-lo de volta", informou a voz de Slytherin na mente de Draco.
Traga-o para cá.
"Para você?"
Draco engoliu em seco quando uma bola de sangue subiu até sua garganta. Para ela.
"Você a prendeu num colégio interno para meninas."
Nós dois sabemos que ela não vai ficar lá muito tempo. Faça com que encontre Scorpius...e...
As têmporas de Draco latejaram suavemente outra vez.
"Aquilo? Está adiantando os planos, meu caro. Isso não é boa coisa."
Draco abriu os olhos, as cores tomando foco novamente, sua mente voltando bruscamente à realidade como se saísse de um breve coma. Ele caminhou pela calçada reajustando aos poucos sua postura altiva e, saindo para a rua transversal, misturou-se aos transeuntes que andavam depressa, fugindo da chuva.
***
"Nancy", disse uma voz. Gina estivera por tantas horas imersa em pensamentos que esquecera que dividia o quarto com outras garotas, o que não era de fato muito importante. "Aquele era seu primo?"
Gina olhou para a garota. Estava sentada numa poltrona com um livro nas mãos, era magra, de cabelos loiros cacheados e pele muito branca e aveludada. Tinha uma pinta perto da boca carnuda, o que lhe dava um ar atraente demais para uma menina de apenas quinze anos. Seu vestido de linho listrado azul claro e branco frisava ao redor de seus pequenos pés calçados em botas de couro muito brilhoso. Fizera a pergunta num ar burguês de desinteresse e casualidade, sem tirar os olhos de seu livro.
"Não", Gina não via porque mentir.
A garota ergueu os olhos para ela. "E ele é o quê seu?"
"Não é nada."
A outra pestanejou. "Vocês pareciam íntimos."
"Ah, é? E você esteve ouvindo atrás das portas ou coisa assim?"
A menina fechou o livro e o pousou no colo. "Eu não sou boba, querida. Vi o modo como se olhavam. Basta isso para dizer..."
Mas Gina não estava mais ouvindo. Acabava de ter uma idéia um tanto absurda e que não tinha a menor possibilidade de dar certo, mas se desse, ela podia voltar para o seu tempo, sair dali.
"Como se chama?", perguntou para a garota.
"Alicia."
"Vocês não saem?"
Alicia reabriu o livro, como se a pergunta fosse desinteressante. "Podemos ir onde quisermos, a hora que quisermos. Isso depende do que seu tutor ordenou."
"Como sabemos o que ele ordenou?"
"Geralmente eles lhe dizem, não? Madame Lock sempre sabe. Pergunte a ela."
Gina levantou da janela e saiu do quarto. A casa era uma construção antiga, mas majestosa, com corredores longos e espaçosos, salas amplas, quartos que pareciam salões, portas duplas e móveis coloniais. As meninas se vestiam sempre com roupas de passeio – vestidos de cores leves, botas e cabelos presos com cachos nas pontas. Gina não tinha roupas assim, mas Draco dera um jeito de providenciar isso, como tudo o mais. Então ela usava agora um vestido bege claro com detalhes em branco, mas a roupa a incomodava por ser um tanto pesada e abafada. Não fora necessário moldar cachos em seus cabelos, mas a Senhora Tompson, acompanhante de algumas meninas, tivera trabalho para manter presos os cabelos muito sedosos de Gina no alto da cabeça.
Quanto mais tempo passava ali, incorporada àquele ambiente como se tivesse mesmo nascido naquele século, mais Gina se indignava com a cautela impecável que Draco tivera ao deixá-la ali, planejando cada detalhe, aguçando ainda mais a curiosidade dela em saber por que, afinal, ele se empenhara tanto em fazer isso.
O escritório de Madame Lock ficava no térreo, no final de corredor ao lado da escada. Gina bateu duas vezes e uma voz lá dentro a mandou entrar. Era um aposento grande com uma pequena biblioteca acoplada ao lado, iluminada por um grande janelão em arco. Madame Lock estava em pé perto de uma das estante de livros, aparentemente organizando títulos, e ergueu os olhos brilhantes para Gina, dando um breve sorriso casual.
"Olá, minha querida."
Gina respondeu com outro sorriso. Ficou parada na porta entre a biblioteca e o escritório da mulher, esperando que ela perguntasse o que Gina desejava.
Madame Lock empurrou os óculos pequenos e redondos – que Gina não vira ou não percebera nela mais cedo – para cima do nariz, olhando a garota intensamente.
"O que há, meu anjo?"
"Gostaria de saber se Dra...se meu primo deixou ordens para que eu pudesse sair."
A mulher assentiu dando outro sorriso. "Ah, claro. Ele não fez restrições."
Você é um caso grave, Malfoy, pensou Gina, entendendo cada vez menos os planos de Draco.
"Então vou...", Gina pensou depressa no que inventar, "dar uma volta...ir, ali, na...tomar um chá."
Madame Lock voltou-se para a organização dos títulos. "Temos chá aqui, minha cara."
"Sei disso, mas eu costumava ir com...com meu primo tomar chá no...na..."
Madame Lock a olhou novamente. "No Maison Paris?", sugeriu, ligeiramente nervosa.
Gina agarrou a oportunidade. "Sim. No Maison. Paris. Íamos todas as tardes."
"Vá, Nancy. Mas não demore."
Gina fez uma mesura desajeitada e saiu. Atravessou o corredor e saiu para o pátio do colégio. Ao olhar para a enorme avenida em sua frente, sentiu pânico. Não sabia para onde ir. Os prédios à sua volta eram tão desconcertantes que pareciam fazer parte de um mundo literário, extraterreno, imaginário. Eram parecidos, senão iguais, com os que ela via em alguns bairros tradicionais de Londres, mas estranhamente conservados, a tinta impecável, o brilho dos brios das janelas como novo. As mulheres andavam nas ruas com sombrinhas que seriam bregas em outra época, luvas de renda, e os homens usavam cartolas como as de Draco, capas, bengalas e sobretudos longos que fantasticamente não cheiravam a bolor.
Vamos pensar como Malfoy. Gina começou a caminhar pela rua, inicialmente sem rumo. Ele sabia o tempo todo que ela não era Rebeka Stern, e não fizera nada a respeito disso. Depois, ele a flagrara com os livros, as provas para incriminá-lo, e sendo ele um assassino, não a matara, mas a levara para o século dezenove, num colégio interno, e a deixara livre para sair dali quando quisesse, como se planejasse que ela escapasse. Como se quisesse que ela fizesse alguma coisa...Mas o quê? O que ele queria, porque não era mais claro? Gina pensava, pensava, pensava, mas Draco escondia suas pistas em detalhes mínimos, imperceptíveis.
Ela parou na esquina e olhou ao redor. Londres respirava um fim de tarde calmo. As nuvens no céu estavam rajadas de dourado e rosa, que aos poucos se tingia de vermelho sangue.
***
Tonks bateu o dedo indicador sobre a foto recortada de uma manchete de jornal em que policiais trouxas rondavam o Hyde Park numa área demarcada de faixas amarelas.
"Encontramos registros de que Tarter Allen, o mordomo e cocheiro misteriosamente desaparecido da Mansão Malfoy, seria supostamente o indigente achado por um gari no Hyde Park em 1972, exatamente 28 anos antes de seu assassinato. O que prova que os Malfoy lidavam com o tempo e esconderam as provas do crime no passado."
Harry, fez uma nota em voz alta: "Gina contou que numa conversa com Malfoy e o cocheiro substituto, Conley Arroway, houve a menção de que Tarter trabalhara com os Riddle e sabia de muitas coisas."
Tonks assentiu de leve, molhando os lábios. "Um dos motivos pelo qual teria sido morto", ela se virou Harry e Rony. "Na época, Draco Malfoy tinha dezesseis anos. Seu pai era aliado de Voldemort, e pelo que se sabe, queria que o filho também fosse, mas Draco se recusou."
"São suposições", Neville Longbottom relembrou, do fundo da sala. Estava sentado em sua mesa, lendo um livro fino que exalava um cheiro forte, as botas suspensas, os pés balançando distraidamente. Não estava envolvido naquele caso, era de outro departamento, mas como ficava na mesma sala que eles, inevitavelmente ouvia as conversas.
"Suposições muito lógicas", falou Rony.
Neville não pareceu ter ouvido.
"Então", Tonks tornou, "Gina vai para a Mansão Malfoy atrás de uma solução para a Marca Negra que aparecera em seu pulso, volta sem lembrar de nada uma semana depois e alguns meses depois lembra de tudo e é internada às pressas numa clinica de tratamento psiquiátrico para trouxas."
"Os tratamentos eram mais diretos", acrescentou Harry em tom de desculpas.
"O que quer que ela tenha vivido naquela casa, a abalou. Então, anos mais tarde, ela sai curada, e nos conta o que aconteceu: Os Malfoy tinham uma máquina, uma... coisa, que extraia sangue das pessoas e isso era usado em Magia Negra para manipulá-las. Não temos provas de que isso de fato existiu, só o relato de Gina. Ela também nos contou que havia uma segunda casa em baixo da Mansão, supostamente a casa de Salazar Slytherin..."
"É mesmo?", Neville perguntou. Quando eles o olharam, ele havia deixado o livro de lado. "Esse caso que vocês pegaram é bizarro. Vou te contar. É mesmo de mandar o cara pro sanatório."
Ele balançou a cabeça e voltou para o livro.
"Não pudemos revistá-la", Rony murmurou, coçando a barba, olhando evasivo para o quadro de fotos que ficava atrás da mesa de Tonks. "Não achamos a passagem secreta que Gina dizia ser atrás da escada."
"Vão achá-la", disse Harry, "Há aurores explorando a casa vinte e quatro horas. Um dia, vão achá-la."
"Vocês acham que tem alguma coisa importante lá?"
"Pode ser que não tenha" respondeu Tonks, "Mas se o acesso está tão bem lacrado, não é um lugar qualquer."
"Então mandamos Gina para a Mansão, para investigar Draco de perto..."
"E quando ela acha as provas que queríamos..."
"Eles somem", disse Rony, no que Neville os olhou novamente, mas não disse nada.
Harry abaixou a cabeça, evitando o olhar dos amigos. Havia uma lógica tão óbvia naquilo tudo que era vergonhoso não terem ainda concluído o caso. E ele sabia qual era a peça que estava faltando. Mas ele gostaria de fingir que ela não existia.
"Você provavelmente acha que ela está correndo perigo, não é?", perguntou Tonks com um meio sorriso.
Harry balançou a cabeça.
"Não, não acha", Tonks ficou o olhando, depois olhou para Rony. "Sabe por que você não acha? Porque não é assim que age um assassino, não é? Ele poderia ter matado Gina Weasley a qualquer momento, ele já desconfiava dela. Malfoy a evitava como esposa, por mais que ela tivesse o corpo de Rebeka Stern. Ele matou friamente linhagens inteiras, e não matou a pessoa que tinha tudo nas mãos para o incriminar."
"Tonks, você está deduzindo sem argumentos concretos.", Harry se mexeu na poltrona.
"Um assassino mata todos os dias e deixa o inimigo vivo e livre para o entregar", disse Tonks com certa selvageria. "Como não está em cogitação que Malfoy seja burro, presume-se claramente que ele está poupando Gina."
"E qual a razão que ele teria para isso?" desafiou Rony.
Tonks olhou de Rony para Harry como se eles fossem seres acéfalos, numa imitação tão perfeita de Hermione que os dois amigos ficaram por alguns segundos abalados. Os olhos de Rony se desfocaram de uma forma que ele pareceu não ter alma.
"Ela é o ponto fraco dele", disse Tonks simplesmente.
Um barulho seco os distraiu quando Neville deixou cair o livro que lia, o apanhando em seguida.
"Estamos na pista errada", Tonks continuou, dando as costas para o painel de fotos e anotações. "Estivemos todo esse tempo nos perguntando o que havia de errado em pensar que Draco estava matando pessoas que ele sequer conhecia, quando deveríamos nos perguntar por que ele não matou a que mais o incomodava."
Harry balançou a cabeça.
"Ele matou o pai, internou a mãe..."
Harry continuou balançando a cabeça.
"Mas não fez absolutamente nada com Gina Weasley."
"Não."
"Draco abandonou a Mansão, deixou as provas de seus crimes para trás."
"Tonks."
Rony passou as mãos nos cabelos como se quisesse abafar o próprio raciocínio.
Tonks olhou para ele. Parecia querer acrescentar mais alguma coisa, mas então olhou para Harry e crispou os lábios.
"Temos que procurar Gina Weasley", disse ela por fim, batendo nas coxas numa tentativa de trazê-los de volta para a realidade do caso.
Harry se levantou e apanhou a capa e a varinha. Antes de sair da sala, disse para ela: "Essa foi a única coisa sensata que você disse aqui."
A porta bateu às costas de Harry e Rony suspirou.
"Porque se a acharmos, ele virá até nós", disse ele.
Tonks deu um sorriso cansado. "Que bom que você concorda comigo."
Rony levantou devagar, parecia mais velho, mais lento, mais abatido, mas estranhamente audaz. "Não se trata de concordar", disse, erguendo o olhar para ela.
Quando Rony enfiou a varinha no bolso interno do colete, parecia estar guardando uma peixeira. Os nós de seus dedos estavam brancos, seus olhos azuis não brilhavam, mas eram intensos como os olhos de um cachorro treinado para atacar. Ele acenou para Neville e saiu da sala.
