Capítulo 9: O tio de Daphne
Tanto Daphne quanto eu ficamos calados enquanto caminhávamos meio sem rumo pelo castelo.
A conversa com Astoria foi muito reveladora, mas não tenho certeza se não acabei me metendo demais. Tipo, foi uma conversa pra lá de pessoal. Gostaria que Astoria não sentisse tanto receio deu saber sobre sua vida, mas o fato é que ela tem, então tenho medo de que minha presença numa conversa que envolveram tantos tópicos sensíveis possa ter piorado seu estado de espírito.
Daphne por outro lado parecia pensar intensamente enquanto caminhávamos. Me pergunto o que será que passa por sua cabeça nesses momentos.
— Harry — me chamou ela num baixo tom de voz. — Você acha que minha família é amaldiçoada?
Eu instantemente parei de caminhar e segurei sua mão delicadamente a fazendo parar também.
— Pensei que você disse que não acreditava nisso.
Daphne negou com a cabeça olhando para seus sapatos.
— Eu preciso que Astoria acredite nisso. Será melhor se ela mantiver uma esperança, mas eu estaria mentindo se eu dissesse que acredito 100% em minhas próprias palavras sobre o assunto.
Eu terminei de entrelaçar nossos dedos enquanto me aproximava até quase colar nossos corpos.
— Por que não? Quando você disse me pareceu realmente só mais uma lenda passada de ouvido em ouvido por gerações.
— Não é completamente verdade Harry. O conceito pode ter sido criado pelos povos antigos, mas eles tinham sim muitos motivos para pensar assim. Você tem que entender que os membros "amaldiçoados" na minha família serem raros é algo extremamente recente. Antes disso, a uns 500 ou 600 anos, posso dizer que minha família era extremamente problemática.
Eu gentilmente peguei seu queijo e a fiz me olhar nos olhos.
— Que diferença isso faz? Quem se importa com pessoas que viveram a mais de meio milênio atrás? Você está bem e Astoria também. Acho que isso que é importante.
Ela confirmou com a cabeça e embora estejamos num corredor, ela selou nossos lábios de forma lenta e carinhosa. Quando nos separamos ela pareceu ter percebido o que estava fazendo.
— Desculpa Harry, me empolguei
Eu neguei com a cabeça antes de selar novamente nossos lábios da mesma forma lenta que ela fazia a pouco.
Essa sensação nunca fica velha. Quando eu já começava a puxá-la pela cinturada ela se afastou com um sorriso divertido no rosto.
— Pensei que você não quisesse anunciar nossa relação a todos.
Eu devolvi o sorriso enquanto entrelaçava nossos dedos.
— Foi você que começou. — Respondi rindo — Mas você está certa! Aqui está arriscado de alguém nos ver e preciso falar com você.
Ela sorriu maliciosamente.
— Conversar sobre o que Harry? Se quer conversar ou ir a um lugar privado comigo?
Eu neguei com a cabeça mantendo meu sorriso.
— É tentador Daph, mas realmente preciso falar com você. Depois a gente pode tirar um tempo pra nós.
Ele concordou com a cabeça rapidamente.
— Então vamos logo, fiquei curiosa.
Confirmando com a cabeça voltei a caminhar lentamente com Daphne em meus calcanhares. Não demorou muito para encontrarmos uma sala vazia aleatória. Afinal, esse corredor que estamos já é meio aleatório por ser final de semana.
Quando entramos ela tratou de se sentar na mesa geralmente usada pelo professor e me olhou apreensivamente.
— Diga, Harry.
Tanto a posição quanto seu tom eram meio fofo, mas tive que ignorar esse fato enquanto balançava a cabeça e puxava uma das carteiras para me sentar de frente pra ela.
— A saga continua Daph, e por mais loucura que seja, acho que tenho uma nova pista.
— Hum — Disse ela colocando a mão no queijo interessa — Com o que você sonhou?
Eu me ajeitei na mesa pronto para começar a narrar. A essa altura, é cada vez menos estranho contar essas maluquices pra ela.
— Foi mais uma visão daqueles momentos mais complicados, eu acho que era natal ou algo parecido com isso. Você acordou no meio da noite e me encontrou enchendo a cara. Estávamos escondidos numa casa trouxa toda destruída, não tenho ideia de onde fica. Você aceitou beber comigo e começamos a conversar. Pelo jeito a situação naquele momento não estava nada boa, pois dei uma ideia de fuga tão ruim e desesperada que até mesmo Rony notaria as falhas — Ela riu do meu comentário antes enquanto eu continuava fingindo nem notar — Em resumo, foi só mais uma conversa com temas pesados e atmosfera triste. Pelo que vi você-sabe-quem estava cada vez mais próximo de nos capturar e não tínhamos muitas esperanças, a não ser...
Eu dei uma pausa para recolher o máximo de ar possível antes de falar o que de fato eu queria quando pedir para conversar.
— Harry, sem pausa dramática! Continue.
Eu dei uma risada enquanto confirmava com a cabeça e continuava de onde tinha parado.
— ... Aparentemente tínhamos um plano de invadir o banco Gringotes, mais precisamente o cofre de Bellatrix Lestrange... Acho que você conhece a figura.
Ela confirmou com a cabeça retraindo um pouco seu semblante alegre e substituindo por um levemente preocupado.
— Mas isso é impossível! Não dá para invadir o Gringotes. Nenhum bruxo conseguiu até hoje.
Eu confirmei com a cabeça.
— Na visão nos dois parecíamos ter isso em mente também. Em diversos momentos relatamos ser uma missão suicida e que certamente não voltaríamos dela.
Daphne levou sua mão esquerda até queijo num ato involuntário enquanto pensava. Então me olhando apreensivamente perguntou.
— Eles disseram o que estariam buscando lá dentro? Tem que ser algo grande para eles arriscarem tanto.
— Disseram ao mesmo tempo que não disseram. — Daphne ergueu uma sobrancelha, mas expliquei antes dela perguntar — Eles disseram que iam encarar essa por causa de um rumor que uma das horcrux de você-sabe-quem estava escondida dentro do cofre de Bellatrix.
Supreendentemente o rosto de Daphne ficou pálido instantemente após eu terminar. Ela piscou algumas vezes como se repetisse minhas palavras na sua cabeça. Então respirou fundo e perguntou lentamente.
— Horcrux? tem certeza disso?
Eu engoli em seco diante de seu tom alarmado. Agora que ela perguntou dessa forma não tenho certeza nem do meu nome.
— Não tenho certeza se pronunciei certo, mas sim, é isso! Você sabe o que é?
Ela confirmou com a cabeça meio receosa, mas logo na sequência subsistiu essa confirmação por um gesto de mais ou menos com as mãos.
— Esse termo é complicado Harry. Sei mais ou menos do que se trata, mas conheço alguém que saberá 500 vezes melhor do que eu.
Sua pele continuava um pouco pálida, mas também tinha um certo desgosto a falar sobre o assunto. Deve ser algo no mínimo polemico, então perguntei com certo receio.
— To vendo que esbaramos em algo sério novamente. Conte, quem seria essa pessoa que entende do assunto, e o que mais ou menos se trata isso que estaríamos indo buscar no cofre de Bellatrix?
Ela suspirou organizando suas ideias, mas não demorou para me dar um retorno.
— Não sei muito sobre Horcrux Harry, é um assunto extremamente delicado no mundo bruxo e você quase não encontra nenhuma informação sobre isso em livros ou algo semelhante. Bom... pelo menos não nos livros que estão aqui em Hogwarts. — Ela suspirou profundamente. — Estamos falando de magia das trevas Harry, mas muito profunda. Não conheço nada mais sombrio do que isso.
Eu me ajeitei na mesa prestando bastante atenção no que Daphne falava. Era de se esperar que Voldemort fosse apelar para artes das trevas pouco conhecidas, mas pela reação de Daphne não parecia ser só isso. De qualquer forma ela continuou como se não tivesse dado uma longa pausa.
— Como eu disse: Não sei os detalhes sobre o assunto, mas sei o suficiente para te dar uma prevê. Aparentemente o ato de fazer uma Horcrux se trata de transferir um pedaço da própria alma para outro lugar ou objeto. Não me pergunte como ou porque, mas é isso. Esse assunto é considerado tabu na nossa sociedade porque envolve partir a própria alma. Essa história de romper a própria alma é considerado por muitos como o ato mais desumano que alguém poderia fazer. É como se você deixasse de ser um humano a fazer uma Horcrux! Mas não tenho ideia do porquê exatamente alguém faria isso.
Eu passei a coçar meu cabelo um pouco inquieto com tudo aquilo.
— Bom, se eu imagino alguém que apelaria para algo tão profundo esse alguém seria você-sabe-quem. Precisamos saber mais sobre o assunto, você disse que conhecia alguém?
Ela confirmou com a cabeça.
— Conheço, mas a pessoa não é muito agradável.
— Para saber sobre isso eu não imaginava que fosse. Quem é?
Ela suspirou e abaixou levemente a cabeça.
— Meu tio. — Respondeu ela como se estivesse envergonhada — Tudo o que sei sobre o assunto descobri em livros que acabei pegando dele. Acho que ele estudou o sobre isso a vida inteira.
Eu me levantei lentamente e caminhei até ela.
— Como ele é?
Ela moveu seu maxilar para a esquerda num gesto de desgosto.
— Irmão do meu pai, nada agradável a comentar, mas também nunca me fez mal. Na verdade, ele raramente aparecia em festas ou algo semelhante a isso. É literalmente o isolado da nossa família.
Eu até que fiquei aliviado. Alguém neutro já é mais fácil de lidar do que se fosse o pai de dela ou alguém próximo dele.
— Onde ele mora? Poderíamos mandar uma carta ou visitá-lo em algum momento?
Somente depois que perguntei notei o quanto é uma ideia estupida. Como Daphne explicaria mandar uma carta do nada para seu tio que ela tem pouquíssimo contato sobre o talvez mais estranho assunto que alguém poderia puxar? Isso é suspeito para caramba e aposto que o homem vai notar independente de quem ele seja. Daphne pareceu discordar da minha opinião, pois ergueu a cabeça e disse em baixo tom de voz.
— Ele tem uma loja na Travessa do Tranco, poderíamos ir hoje em invés do Gringotes que tínhamos combinado.
— Ele tem uma loja? Não seria estranho aparecermos lá do nada?
Daphne negou com a cabeça finalmente deixando um sorriso aparecer novamente em seu rosto.
— Vai ser estranho se eu aparecer com Harry Potter como acompanhante. — Disse ela rindo — Você pode ir com a capa da invisibilidade. Eu por outro lado posso dizer que preciso de um favor dele, e como vamos usar a Freda para nos levar, ele não irá achar estranho. Pelo menos não até eu perguntar sobre o assunto que fui discutir.
Eu concordei com a cabeça entendo seu ponto e levemente indignado que ela possa sair de Hogwarts a hora que quiser embora ninguém possa.
— Ele vai achar estranho quando você perguntar sobre Horcrux?
Ela concordou com a cabeça.
— Com toda certeza! Mas vou dar um jeito, fica tranquilo.
Eu concordei meio receoso. Infelizmente não vi nenhuma outra opção.
— Certo, mudamos nossos planos então, quando você quer ir?
Ela ficou pensativa por uns 10 segundos antes de responder.
— Por mim podemos ir agora! Conversamos com ele rapidinho e voltamos a tempo de verificar Astoria.
Eu concordei com a cabeça.
— Certo, já que eu pensei que íamos ao Gringotes pensei que seria útil a capa da invisibilidade para caminhar pelo beco diagonal, então ela está aqui comigo.
Daphne concordou com a cabeça sorrindo.
— Acho que está na hora de você conhecer pessoalmente o elfo da nossa família.
Eu dei uma risada enquanto tirava a capa do bolso só para me certificar que eu estava com ela mesmo. Enquanto eu fazia isso Daphne chamou o elfo num tom alto de voz.
— Freda
No mesmo instante a mesma elfa das minhas visões apareceu na frente de Daphne meio perdida. Assim que viu uma de suas donas abriu um sorriso e a abraçou pelas pernas.
— Senhora, em que posso ser útil?
Daphne fez um pequeno carinho na cabeça da elfa antes dela a soltar e observar Daphne com expectativa.
— Preciso ir até a loja do tio John, pode me levar?
A elfa concordou com a cabeça parecendo um pouco receosa.
— Freda pode sim senhora, mas devo adverti-la que se o senhor descobrir ficara furioso com Freda e com a senhora.
Daphne concordou com a cabeça.
— Fica tranquila, a ideia é ele não descobrir! Consegue esconder isso dele?
A elfa concordou com a cabeça novamente.
— Freda pode manter o segredo da senhora por tanto que o senhor não pergunte especificamente sobre o assunto.
— Perfeito, só mais uma coisa... — Daphne olhou para mim fazendo a elfa imita-la e me perceber na sala pela primeira vez — Harry vira conosco, mas usando uma capa de invisibilidade. Tem problema?
A elfa me olhou de cima a baixo, então assim como em minha visão, puxou Daphne para baixo e sussurrou numa altura que eu conseguir ouvir perfeitamente.
— Tem certeza disso senhora? Esse aí é...
— ...Tenho certeza — interrompeu Daphne rindo — Eu sei quem ele é, mas também é um bom amigo, mesmo com todos os defeitos.
Eu revirei os olhos fazendo Daphne se levantar rindo novamente.
— É um prazer te conhecer Freda, Daphne fala muito de você.
Os olhos da elfa brilharam olhando para Daphne.
— A senhora fala sobre Freda?
Eu não esperei Daphne responder, a interrompi fazendo a garota dar risada com minha frase.
— O tempo todo! Depois vou fazê-la te invocar só para contar tudo a você.
Aparentemente eu ganhei a simpatia da elfa, pois ela confirmou com a cabeça sorrindo radiantemente.
— Freda consegue levar a senhora e seu amigo para a loja do irmão do senhor.
Daphne concordou com a cabeça e se virou pra mim.
— Veste a capa.
Eu concordei com a cabeça e me cobrir num rápido movimento. Daphne continuou olhando pra onde eu estava impressionada.
— É surpreendente que você consegue me considerar privilegiada por ter um elfo enquanto você tem essa capa junto do mapa do maroto.
Eu botei só o rosto pra fora e respondi.
— Eu ainda estou preso ao castelo mesmo com a capa ou o mapa.
Daphne rolou os olhos e me respondeu antes de direcionar seu olhar a Freda.
— Em compensação você pode espionar uma pessoa por horas sem que ela nunca saiba. Não é o tipo de item que um aluno deveria possuir, quem dirá dado pelo próprio diretor.
"Acho que eu não deveria ter contado detalhes de como obtive a capa" pensei rindo e me cobrindo novamente. Daphne respirou fundo assim que desapareci e alertou Freda que estava pronta. A elfa simplesmente estendeu a mão para a garota, assim Daphne esticou a mão na direção que ela sabe que estou esperando que eu segure sua mão.
Assim que peguei suavemente na mão esticada de Daphne ela a apertou de forma confortável e usou sua outra mão para pegar a mão aberta da elfa, então no mesmo momento desaparecemos.
Dizer que a sensação era horrível era um eufemismo enorme. Era idêntica a sensação que senti quando desaparatei na minha visão, mas me senti 10 vezes mais enjoado dessa vez.
Coberto pela capa da invisibilidade tive que segurar para não vomitar quando aquela sensação de sucção terminou.
Daphne por outro lado parecia está mais do que acostumada com isso, tanto que soltou da minha mão e sorriu pra mim mesmo não podendo me ver. Ela olhou para Freda e disse num tom baixo de voz.
— Eu te chamo quando terminar de falar com ele, obrigado Freda.
A elfa concordou com a cabeça e fez uma reverencia para a garota antes de desaparecer. Então Daphne se virou pra mim e sussurrou.
— Vem me seguindo de perto, não faça barulho e toma cuidado onde pisa.
Eu concordei com a cabeça embora ela não possa ver e já fui a seguindo pela rua estreita.
O lugar era realmente muito estranho. Devemos estar bem no fundo da Travessa do Tranco. Só isso já me fez torcer bastante o nariz.
Esse lugar é bem perigoso e o tio dela ter uma loja aqui junto ao fato que ele estuda artes das trevas tão profunda me fez questionar que tipo de pessoa ele é. Ou melhor, se ele é ou não um perigoso pra Daphne mesmo sendo parente.
Embora meus questionamentos, Daphne não precisou caminhar muito para chegar em seu aparente objetivo.
Era uma lojinha literalmente caindo aos pedaços. Ela era pequena e ficava no cantinho da rua. Era toda de tijolos, mas muitos deles estavam quebrados ou com marcas de sujeira. A porta estava decadente também, era para ter um vidro, mas o mesmo estava quebrado e substituído por uma simples placa de "aberto".
Se trata de uma loja bruxa, como pode estar nesse estado? Não é só ele fazer meia dúzia de feitiços para reparar tudo isso? Parece que é intencional. Toda loja nesse lugar tem que ser estranha e destruída.
Daphne ignorou completamente a fachada feia da loja e entrou sem nenhuma cerimônia. Eu só a seguir e notei que ela segurou a porta durante mais tempo que o necessário. Provavelmente só queria se certificar que eu conseguiria passar sem problemas.
Após um tempinho ela fechou a porta e se aproximou do balcão.
Podemos dizer que por dentro a loja era tão malcuidada quanto por fora. Tinha objetos suspeito por toda parte, objetos que certamente seria inteligente não tocar de jeito nenhum.
A loja era pequena, talvez um pouco maior do que meu quarto nos Dursleys, mas tinha uma porta atrás do balcão que deve levar até o fundo.
O balcão em si era a coisa mais preservada do lugar. Era de madeira fosca e não tinha nenhuma marca de descaso ou sujeira. Nela só tinha uma plaquinha com uma bandeira preta e cinza e uma daquelas campainhas de hotéis trouxa para chamar atenção do funcionário.
Eu achei muito estranho um objeto como esse numa loja por aqui, mas Daphne não parecia supressa, foi até o balcão e apertou três vezes na campainha.
— Já vou.
Gritou uma voz masculina lá no fundo da loja. Daphne sorriu e encostou no balcão de costas para a porta de onde provavelmente o homem viria.
Nessa posição, encostada no balcão distraída olhando para as unhas enquanto espera, me lembrou de uma das minhas visões, só mudando que na visão em questão ela estava fumando.
— Em que eu posso aju... — A voz do homem surgiu inesperadamente fazendo Daphne se virar, e assim que o homem a viu de frente se interrompeu num susto — Daphne? O que faz aqui?
O homem que apareceu atrás do balcão era bem diferente do que eu imaginava. Ele era alto, bem magro e tinha as costas levemente curvadas. Seu rosto era um pouco fino e seu nariz era um pouco maior do que eu imaginava. Ele vestia uma roupa com capa verde escura e usava um chapéu que mais parecia um capuz.
— Não posso vir visitar meu tio?
Ele negou com a cabeça.
— As regras de Hogwarts, do seu pai, da sua mãe e de sua avó dizem que não. E você nunca veio me visitar.
Daphne manteve seu sorriso e apoiou os as mãos no balcão.
— Você me pegou, preciso de um favor.
— Hum-hum — falou ele enquanto dava a volta no balcão e de forma muito aleatória, ia até porta de entrada e olhava a rua pela parte do vidro quebrado que não foi tampado pela placa — Quem sabe que você veio aqui?
Daphne encostou as costas no balcão novamente observando seu tio olhar a janela como se verificasse se ninguém a seguiu.
— Eu contaria pra quem?
Ele bufou enquanto aparentemente mexia algo na porta e retornava para sua sobrinha.
— Como veio até aqui?
— Você sabe como eu vim, Freda.
Ele tirou a varinha das vestes me fazendo ficar alerta, mas Daphne não mexeu um musculo. O homem usou a varinha para conjurar uma cadeira de frente para Daphne que somente observou.
— A elfa não vai contar para seu pai?
Ela negou com a cabeça.
— A não ser se ele descobrir e perguntar pra ela. Sabe como funciona.
Ele confirmou com a cabeça e suspirou. Eu me pergunto por que tanta preocupação sobre esse assunto.
— Então nesse caso, o que posso fazer por minha sobrinha?
Daphne que estava encostada no balcão se sentou nele e cruzou as pernas.
— Preciso um pouco de sua sabedoria tio, tenho perguntas que só o senhor saberá responder.
Ele estreitou levemente seu olhar parecendo curioso.
— Não tenho ideia do que você está falando, seja mais clara.
— Posso ser, mas você ficara supresso.
Ele negou com a cabeça.
— Já estou supresso Daphne! Você fugiu de Hogwarts para vim me pedir um favor, só consigo imaginar que deve ser algo grave.
Ela concordou com a cabeça um pouco seria.
— Eu me interesso muito por coisas estranhas tio, outro dia eu estava na biblioteca estudando na sessão reservada e me deparei com um assunto interessante — Ela puxou um pouco de ar como se tomasse coragem para concluir e continuou — Eu estava lendo e me deparei com o assunto horcruxes, aí lembrei que já tinha lido sobre em um dos seus livros a anos atrás.
O homem pareceu congelar durante uns instantes após Daphne tocar no assunto. Isso deve realmente ser um assunto delicado para os bruxos.
Ele demorou vários segundos para se recuperar totalmente, tempo esse que Daphne esperou como se nem tivesse notado o espanto de seu tio.
— Deixa eu ver se eu entendi: Você leu sobre horcruxes num livro aleatório e questionável que esteja em Hogwarts, aí se lembrou que eu possa saber sobre o assunto e quebrou mais de 15 regras de pessoas diferentes para vim aqui perguntar?
Daphne confirmou com a cabeça ignorando que o homem claramente estava sendo irônico.
— Você sabe como eu sou tio! Sede por conhecimento as vezes pode ser um carma.
— Curiosidade sobre os assuntos errados pode te matar Daphne! E tenho certeza de que você sabe que esse assunto se enquadra nisso.
Daphne confirmou com a cabeça, mas antes que pudesse responder seu tio a cortou um pouco impaciente.
— E não insulte minha inteligência. Nem a maior cede de conhecimento do mundo faria você vim aqui pergunta especificamente sobre isso. Ou me fale o porquê você quer essa informação ou pode ir embora.
Daphne suspirou profundamente antes de responder.
— Talvez eu seja a primeira na história do mundo bruxo que se interessou pelo assunto por um motivo nobre.
As sobrancelhas dele se ergueram levemente.
— Motivo nobre?
Daphne confirmou com a cabeça.
— Digamos que tenho várias perguntas sobre o assunto para ajudar um amigo, já que como você mesmo disse: É questionável que qualquer informação sobre o assunto esteja num livro em Hogwarts.
— E você sendo ambígua dessa forma acha que vou te ajudar?
Daphne concordou com a cabeça.
— Por que tanta resistência? Onde está sua curiosidade como um pesquisador?
Ele deu uma pequena risada.
— Curiosidade de pesquisador? Tem razão Daphne, realmente estou curioso do porquê a herdeira da nossa família poderia estar interessada num assunto tão moralmente questionável. — Ele respirou fundo enquanto pensava. — Porém, tenho quase certeza de que você não vai me contar o motivo que quer as informações ou vai mentir descaradamente, então vou direto ao ponto: Preciso de um favor também.
As palavras dele me impressionaram profundamente. Ele basicamente mostrou que toda a preocupação que ele mostrava anteriormente não passava de teatro. Aparentemente ele se lembrou que precisa de algo e não se importa nem um pouco em compartilhar informação obscura e provavelmente perigosa a sua sobrinha por tanto que ela o ajude também. Lamentavelmente já era de se esperar. Eu estava me perguntando como Daphne o convenceria a falar, mas pelo jeito ela o conhecia bem, pois quase sinto que ela esperava pelo momento que ele pediria algo em troca das informações.
— Esse é o espírito! Em que posso te ajudar?
O homem expressou um pouco de desconforto antes de dizer o tal favor.
— Você se lembra Richard?
Daphne concordou com a cabeça parecendo confusa.
— Meu primo? Lembro! As vezes encontro com ele pelos corredores.
— Bem... — Ele se ajeitou na cadeira — Podemos dizer que ele não está se dando bem nas aulas e eu posso ter um pouco de culpa nisso. Ele pegou alguns dos meus livros e hoje perde muito tempo com as mesmas coisas inúteis que desperdicei minha vida.
Daphne repetiu seu tio e se ajeitou no balcão.
— Aonde quer chegar tio?
— Ele é meio introvertido e tem reprovado em diversas matérias. Quero que você o ajude a estudar e fique de olho nele. Acho que tem uns alunos que estão o infernizando.
Daphne suspirou profundamente antes de concordar com a cabeça.
— Feito! Eu fico de olho no meu primo e você responde as minhas perguntas.
Ele confirmou com a cabeça receoso.
— Que fique claro que irei negar caso você conte a alguém que escutou sobre o assunto comigo. Sobre livros ou qualquer coisa semelhante você pode esquecer! Ele são até proibidos.
Daphne confirmou com a cabeça sorrido.
— Não vou precisar de livros por tanto que você responda minhas perguntas. E pode ficar tranquilo que não vou contar a ninguém que você vai me passar informação ilegal.
Ele confirmou com a cabeça ignorando o quanto parece horrível quando Daphne descreve dessa forma.
— Quais são suas perguntas?
Daphne demorou uns segundos enquanto organizava seus pensamentos. Nós deveríamos ter pensado no que íamos perguntar.
— Eu sei que fazer uma horcrux tem a ver com romper a própria alma, mas não sei qual a utilidade de fato.
— Não é obvio? — Perguntou ele supresso. — Você dividi sua própria alma em duas partes e a coloca em outro lugar. Assim, caso você morra fica preso a vida, já que uma parte de sua alma ainda está intacta em outro lugar.
— Entendi, então se trata de imortalidade?
O homem negou com a cabeça.
— Não exatamente. Se torna muito mais difícil te matarem, mas existe meios de você conseguir destruir a horcrux. Assim a pessoa volta a ficar mortal igual todo mundo. Até um pouco mais fraca, já que metade de sua alma já está morta.
— Isso é interessante! Como se destrói esses objetos que possuem a alma de alguém? Imagino que não deve ser qualquer feitiço que consiga tal feito.
— Não, com certeza não! Estamos falando de magia das trevas profunda. Somente alguns feitiços seriam fortes o suficiente para fazer algum efeito em uma horcrux. Feitiços das trevas claro, Secare, dilacerant, esse tipo de feitiço. Se não me falha a memória o fogo maldito também consegue destruir junto de alguns outros que foca na força bruta do bruxo. Tem também algumas espécies de animais que possuem venenos tão concentrados que podem ser capazes de destruir uma horcrux também, mas não vou me lembrar as espécies que o veneno possui esse nível de poder.
Daphne o ouviu atentamente e eu também. Se é tão complicado de destruir acho que agora sei do que se tratava o tal medalhão que Daphne tomou de mim em uma das minhas visões.
— Você citou que certas magias das trevas funcionariam certo? — O homem concordou com a cabeça lentamente — A maldição da morte seria o suficiente?
Ele retraiu seu maxilar enquanto pensava.
— Depende. Você pode colocar um pedaço de sua alma dentro de um corpo vivo ou simplesmente um objeto. Se a horcrux estiver dentro de uma pessoa viva, uma simples maldição da morte já é o suficiente para resolver. Até porque se está num corpo vivo só basta matar o portador que a parte da alma morre junto. Por isso a maioria que pensa em partir a própria alma quer colocar num objeto comum. Se torna quase indestrutível! Nesse caso a maldição da morte não irá funcionar.
Daphne abaixou seu olhar um pouco decepcionada, mas logo na sequência já voltou a perguntar.
— Vamos supor que você tenha feito uma horcrux e eu queira destrui-la para te matar. Como eu encontraria tal objeto?
O homem respirou fundo parecendo notar alguma coisa, mas respondeu.
— Aí é que está o problema Daphne, não dá para encontrar. — Ele se ajeitou numa pequena pausa e continuou — Claro, se você se aproximar de um objeto parecido você irá sentir. É muita magia das trevas concentrada, você irá sentir repulsa do objeto no mínimo. Quanto mais próximo de um, maior a sensação como se ele te corrompesse ou sujasse. Os trouxas classificariam como se você estivesse sentindo nojo do objeto mesmo sem sequer toca-lo.
Daphne fez uma pequena careta que seu tio ignorou completamente enquanto continuava.
— Mas tem um problema, dificilmente você irá conseguir se aproximar de um objeto parecido. Deixa-me explicar: vamos usar o seu exemplo, imagina que eu fiz uma horcrux, obviamente eu não ia deixar esse objeto tão valioso em qualquer lugar. Isso sem contar que eu posso colocar minha alma em literalmente qualquer objeto, fazendo você não ter ideia de onde procurar ou o que exatamente procurar. A questão da informação também é um problema, já que se eu fiz uma horcrux, por questão de segurança eu nunca vou contar que fiz. Até porque se meus inimigos souberem sobre isso irão atrás dela. Ou seja, quem faz uma horcrux não se torna imortal, mas é a condição que mais se aproxima disso até onde sabemos. Digamos que se a pessoa for cuidadosa ela fica presa a vida pra sempre.
Daphne passou a roer as unhas enquanto pensava no que seu tio falava.
— Tudo isso parece um jeito muito eficaz de evitar algo desconfortável e inevitável como a morte. Por que não é algo comum entre os bruxos? Por que é um tabu tão grande?
O homem se ajeitou novamente nitidamente desconfortável.
— Dois motivos: O primeiro é o método para se criar uma horcrux. Como eu disse: Estamos lidando com magia das trevas muito específica, tem umas coisas no meio do processo que você ficaria enojada e não são as piores partes. Na real, é uma parte pior que a outra, mas a que ficou popular entre os bruxos é o fato que é necessário você matar alguém para conseguir romper a própria alma. O segundo motivo para isso não ser ensinado em Hogwarts é exatamente essa parte de romper a alma em dois.
Mesmo excluindo a necessidade de matar alguém, o ato de dividir a própria alma te torna repulsivo aos olhos da maioria. É como se você deixasse de ser humano a fazer isso. Você não ta mais completo.
Daphne analisou tudo que foi dito durante vários segundos. Seu tio somente aguardou parecendo curioso. Após quase um minuto pensando sozinha ela voltou a falar para fazer sua última pergunta.
— So mais uma dúvida... — Ela se levantou da mesa e encarou seu tio — Uma pessoa pode fazer só uma vez?
— Você pergunta se é possível partir a própria alma mais de uma vez? fazendo duas ou mais Horcrux? — Daphne confirmou com a cabeça — Até é possível, mas duvido muito que exista um ser humano capaz de fazer uma coisa dessa. Digo, para fazer tal coisa é preciso de muito mais do que poder magico, então não tenho certeza se é realmente possível. Em teoria não existe limite, mas nenhuma alma aguentaria ser partida mais de uma vez. Bem... Eu consigo pensar em somente uma pessoa que conseguiria tal feito.
Daphne confirmou com a cabeça provavelmente sabendo de quem o homem falava. Então esticou os braços com um sorriso descontraído.
— Obrigado pelas informações tio. Como combinado ficarei de olho no meu primo.
Ele confirmou com a cabeça também se levantando.
— É só isso? Não quer saber nada sobre como fazer ou do que precisa?
Daphne que já caminhava na direção da porta a abriu antes de olhar pra trás e responder rindo.
— Não sou esse tipo de pessoa tio.
Acho que a ideia era falar isso e ir embora, tanto que eu já começava a sair pelo espaço que ela propositalmente deixou disponível, mas seu tio voltou a falar num tom alarmado.
— Então acho melhor você tomar cuidado — Seu tom era baixo, mas extremamente claro. Daphne olhou pra trás novamente e seu tio concluiu — Só existe dois tipos de pessoas que procuram informações sobre esse assunto: As interessadas em fazer e as que querem matar alguém que fez. Se você se enquadra nesse segundo é melhor tomar cuidado. Não tenho ideia no que você se meteu, mas ninguém que é capaz de romper a própria alma é uma pessoa boa. Não! As pessoas capazes disso são cruéis e vão matar ou machucar quantos for necessário para manter sua própria sensação de imortalidade. Se você realmente está com problemas com alguém assim eu posso afirmar com 100% de certeza que esse alguém é perigoso e que não pode ser derrotado por você. Desisti disso Daphne! Viva um pouco mais.
Aposto que ele não ideia do qual preciso acabou sendo. Daphne engoliu em seco antes de responder rispidamente pela primeira vez.
— Você estudou isso sua vida inteira, qual dois exemplos é o seu caso?
— Você sabe a resposta para essa pergunta.
— Sei sim, então a não ser que você queira que o ministério também saiba, esquece as perguntas que te fiz e não tenta me proteger como se me conhecesse ou se importasse.
Ele concordou com a cabeça abaixando levemente a cabeça e Daphne se virou para ir embora.
— Até mais tio.
Ele acenou uma última vez antes de Daphne ir embora e eu a seguir de perto agora novamente pelas ruas estreitas.
Notas:
Só um detalhe. Entre os muitos erros de português tem um persistente durante toda a história que eu quero explica.
Eu tenho total ciência que não existe a palavra "Elfa" na língua portuguesa. O correto a ser usado é sempre "a elfo"
Eu até tentei editar dessa forma, mas soava muito mal e não conseguir substituir por algo melhor ou semelhante.
Então optei pelo errado mesmo, me desculpem.
(Principalmente para a galera que está lendo em inglês usando a tradução, deve estar medonho para vocês toda vez que a Freda é citada.
Então sorry realmente.)
No fim estou criando uma história e novas palavras para a língua portuguesa.
Estou revolucionando.
