Disclaimer: Os personagens de Inuyasha não me pertencem, e sim a Rumiko Takahashi.
Sinopse:Rin Robinson é uma órfã desamparada que cuida dos três filhos pequenos de sua prima Kagura em troca de casa e comida. Mas sua vida toma outros rumos quando ela conhece Sesshoumaru, o Lorde d´Arenville. Sesshoumaru deseja ter uma família. Por isso pede para Kagura apresentá-lo a debutantes que estivessem a altura de ser sua esposa, e principalmente, mãe de seus filhos e dona de seu coração. As coisas, porém, não acontecem de acordo com os planos da anfitriã. O Lorde ignora todas as convidadas, e, impressionado pelo modo amoroso com que Rin cuida dos filhos da prima, decide que ela é a única mulher com quem realmente deseja se casar...
Rate: T - Por conter cenas pesadas.
~O Cavaleiro e a Dama~
Capítulo I
Londres, fevereiro de 1803
— Eu preciso encontrar uma mulher, Gura.
— Oh, claro. Você está procurando a mulher de quem? — respondeu Kagura, petulante.
— Eu estou falando de uma esposa. Sou capaz de encontrar minhas próprias aventuras, obrigado.
— Uma esposa? Você? Eu não acredito, Sesshoumaru! Há anos que você nem mesmo dirige a palavra a uma mulher respeitável!
— É por isso que quero sua ajuda agora. Quero que o casamento aconteça o mais rápido possível.
— O mais rápido possível? Céus! Você vai deixar as casamenteiras agitadas! — disse ao primo. — Posso perguntar o que o levou a isso? Quero dizer, procurar uma esposa já é excepcional. Você deverá estabelecer sua prole logo, logo, mas tal pressa imprópria me parece... Não há... ah... nenhuma necessidade financeira neste casamento, há, Sesshoumaru?
— Não seja ridícula, Gura. Na realidade, é o que você acha. Decidi ter minha família.
— Você quer ter herdeiros, Sesshoumaru. Precisa de filhos homens. Você não gostaria de um bando de meninas, não é?
Um bando de meninas até que não soava mal, mas também seria bom ter filhos homens, pensou, lembrando-se do menino de pernas fortes de Inuyasha, Shippou.
A questão de ter um herdeiro fora, de fato, sua última preocupação, mesmo sendo o último de uma linhagem muito distinta. Até a sua viagem para Yorkshire, Sesshoumaru era totalmente indiferente ao fato de seu nome e título terminarem com ele. Só lhe deram, afinal, infelicidade durante a sua infância e juventude.
Era muito mais fácil, porém, deixar a sociedade acreditar que d'Arenville precisava de um herdeiro do que contar que uma linda criancinha grudenta achara uma fenda em sua armadura. Ele não precisava de nada nem de ninguém. Aprendera esta lição ainda muito jovem.
Era uma pena que ele precisasse pedir ajuda a Kagura. Nunca gostara dela, só a encontrava quando o dever ou uma coincidência o exigia. Mas alguém precisava apresentá-lo a uma moça adequada, droga! Se ele queria filhos, teria que suportar o processo complicado e desagradável de adquirir uma esposa, e Kagura poderia ajudar a apressar o processo com um mínimo de tumulto e incômodo.
— Você me ajudará, Gura?
— O que exatamente você tem em mente? A sociedade londrina? Bailes, festas elegantes e visitas matutinas? — ela riu. — Eu preciso confessar, não consigo imaginar você fazendo o papel de bonitinho com todas as mamães orgulhosas olhando, mas valerá a pena, mesmo que seja só pela diversão.
Ele tremeu por dentro à imagem que ela invocara, mas sua expressão permaneceu impassível.
— Não, nem tanto. Eu pensei que uma house party poderia resolver o assunto.
— Uma house party! — ela estremeceu delicadamente. — Eu detesto o campo nesta época do ano.
— Não precisa ser por muito tempo. Uma semana, mais ou menos, será suficiente.
— Uma semana! — Kagura quase gritou. — Uma semana para fazer a corte a uma esposa!
Sesshoumaru cerrou os maxilares. Se houvesse outra maneira de fazê-lo, ele a teria preferido. Mas sua prima era uma jovem e, aparentemente, respeitável matrona da sociedade — exatamente o que ele precisava. Ninguém mais poderia apresentá-lo tão facilmente a moças adequadas. E ela poderia ajudá-lo a contornar o tédio da busca por um casamento, fazendo a corte sob os olhos de centenas de pessoas. Ele tremeu por dentro novamente. Kagura poderia ser uma cabeça-de-vento e ele não gostava de lhe pedir ajuda mas ela era sua única opção.
— Você fará isso? — ele repetia.
— Sair da cidade pode ser complicado para mim. A temporada ainda não começou, mas nós temos muitos compromissos... — deu um olhar significativo para o espelho acima da lareira, em cuja moldura dourada estava pregada meia-dúzia de convites impressos. — E para organizar uma festa deste tipo em Mannigham, com tão pouco tempo... — ela suspirou. — Bem, é bastante trabalho, e eu precisaria de uma ajuda extra, você sabe... e Naruku pode não gostar disso, pois será muito car...
— Eu cobrirei todas as despesas, é claro — Sesshoumaru interrompeu-a — e farei com que valha a pena para você também, Kagura. Diamantes lhe tomariam mais fácil perder seus bailes e festas elegantes por uma semana ou duas?
Kagura fez beicinho, contrariada por sua rudeza, mas incapaz de resistir à isca.
— Colar, brincos e bracelete. — Seus olhos frios encontraram os dela com indiferença cínica.
— Oh, Sesshoumaru, como você é vulgar! Como se eu quisesse dinheiro para ajudar meu primo.
— Então você não quer os diamantes?
— Não, não. Eu não disse isso. Naturalmente, se você quiser me presentear com alguma lembrancinha...
— Bem, então está decidido.
Uma careta desconcertada perturbou a impassividade de sua expressão.
— Eu acho que assim será melhor. De qualquer jeito, você convida algumas moças, e eu escolherei uma.
Kagura estremeceu delicadamente.
— Tão sangue-frio, Sesshoumaru. Não me espanta que eles o chamem de Iceber... Você já está querendo ir embora? — disse Kagura.
— Por que não? Está tudo decidido, não?
— Mas quais moças você quer que eu convide?
— Que droga, Gura, eu não sei. Este é o seu trabalho.
— Eu não acredito! Você quer que eu escolha uma esposa para você? — ela gritou estridentemente.
— Não, eu a escolherei dentre as moças que você convidar. Meu Deus, Gura, você não entendeu ainda? Sobre o que estamos falando há quinze minutos?
— Existe... quer dizer, você tem alguma exigência especial? — disse, finalmente.
— Ela deve ser sadia, é claro... de boa linhagem, naturalmente. Umm... bons dentes, razoavelmente inteligente, mas com um temperamento plácido... e quadris suficientemente largos, para a maternidade, você sabe.
Kagura rangeu os dentes.
— Nós estamos falando de uma dama, não estamos? Ou você só está atrás de uma égua reprodutora?
— Mais ou menos isso, eu acho. Tenho pouco interesse na dama, somente em sua prole.
— Você nem mesmo se importa com sua aparência?
— Não especialmente. Apesar de pensar que prefiro alguém de boa aparência, ao menos passável. Mas não linda. Uma mulher bonita seria problema demais. Eu já conheci esposas bonitas demais para não me conscientizar da tentação que elas são... para os outros.
Kagura não deixou de captar sua referência sutil.
— Eu farei o melhor possível — disse secamente.
O cavaleiro negro debruçou-se, pegou-a pela cintura e a içou para seu galante cavalo de batalha, longe do alcance dos lobos com as bocas cheias de baba que tentavam morder seus calcanhares.
— Dêem o fora, malditas bestas cruéis! — Ele gritava com uma excitante e profunda voz varonil. — Este bocado não é para vocês! Agüente firme, minha querida, você está segura comigo agora — murmurou em seus ouvidos, o hálito quente movendo os cabelos em sua nuca. — Agora eu tenho você, Rin, meu amorzinho, e nunca a deixarei.
Apertando-a estreitamente contra seu amplo e forte peito, abaixou sua boca em direção à dela...
— Miss, Miss Rin, a senhora está bem?
Rin saiu de seus devaneios com um sobressalto. Os botões que ela havia separado estavam espalhados pela mesa, e então ela se abaixou rapidamente para catá-los.
— Oh, sim, sim, perfeitamente. — Rin, enrubescendo, apressou-se em acalmar o mordomo e a governanta. — Eu estava em um devaneio tolo, a milhas daqui, infelizmente.
O mordomo estendeu uma carta em uma bandeja.
— Uma carta, Miss Rin. Da patroa.
Rin sorriu. Bankotsu ainda se comportava como se fosse responsável pela grandiosa mansão de Londres, em vez de estar enfiado na casa de campo que pertencia à prima de Rin, Kagura. Rin pegou a carta da bandeja e agradeceu. Querido Bankotsu — como se ela fosse a senhora da casa, recebendo correspondência na sala de estar, e não uma parenta pobre, tendo sonhos tolos, junto a uma jarra de botões velhos.
— Oh, não! — Ela fechou os olhos, após ler a carta. Havia pensado que, já que o Natal passara, e Kagura e Naruku haviam voltado para a cidade, ela e as crianças ficariam em paz por vários meses.
— O que é, Miss Rin? Más notícias?
— Não, não... ou ao menos nada trágico, de modo nenhum. — Rin acalmou a velha governanta. Deu uma olhada rápida para Bankotsu e explicou: — A prima Kagura escreveu para dizer que fará uma house party aqui. Nós devemos tomar todas as providências para receber seis ou sete moças, e suas mães, e um certo número de pais e cinco ou seis cavalheiros também, ela ainda não decidiu. E haverá um baile em duas semanas.
estivera fazendo as contas.
— Acomodação e divertimento para até vinte cinco ou vinte e seis do grupo, e mais quase o dobro deste número de empregados, se nós só contarmos com um criado ou criada para cada cavalheiro ou dama. Por Deus, Miss Rin, eu não sei como faremos.
Ela assentiu, com uma expressão de mau pressentimento em seus olhos.
— Os hóspedes chegarão na próxima terça-feira. A prima Kagura chegará na véspera.
— Na próxima terça-feira? Na próxima terça-feira! Meu Deus, Miss, o que faremos? Providências para sessenta ou mais pessoas se hospedarem, chegando na próxima terça-feira! Nós nunca conseguiremos, nunca!
— Sim, nós conseguiremos, Mrs. Kana. Nós não temos escolha, a senhora sabe disso. Minha prima, contudo, considerou todo o trabalho extra que isso acarretará para vocês dois e para todos os empregados.
— E para a senhora, Miss Rin — acrescentou Bankotsu.
Ela sorriu. Sabia que ele estava certo.
— Ela me deu permissão para contratar toda a ajuda extra que precisarmos e para não pouparmos despesas, apesar de eu precisar manter o cálculo minucioso de todas elas.
— Não poupar despesas...
Rin tentou se manter séria. O fato da prima Kagura mostrar consideração suficiente por seus empregados, e contratar ajuda extra já era bastante surpreendente, mas não se preocupar com as despesas surpreenderia a qualquer um que a conhecesse.
— Não, pois ela diz que a house party é para seu primo, lorde d'Arenville, e ele deve pagar tudo.
— Ahh! — Bankotsu fechou a boca e fez uma expressão sábia.
— Lorde d'Arenville? Meu Deus, o que ele quer com uma house party cheia de moças? Oh, eu compreendo! Fazer a corte.
— Como? — disse Rin, admirada.
— Ele está cortejando alguém, lorde d'Arenville. Deve estar interessado em uma destas moças, e quer passar algum tempo com ela antes de fazer o pedido.
— Bem, bem, então é isso. Um casal namorando na velha casa mais uma vez. — A face de Bankotsu se abriu em um sorriso sentimental.
— Por Deus, Mr. Bankotsu, o senhor é um romântico incurável, se é que eu já vi um — disse Mrs. Kana. — É tão difícil imaginar lorde d'Arenville perdido em um jovem sonho de amor quanto me ver voando pelos ares em um de meus pães-de-ló!
— E pôr que isso, Mrs. Kana? — perguntou.
— Por quê? Oh, sim, a senhorita nunca o encontrou, já, querida? Eu estou sempre esquecendo, a senhorita é parente pelo outro lado da família da madame. Bem, não perdeu muito... Eles o chamam de iceberg, sabia?
— Mas eu pensei que todas vocês, mulheres, o achassem tão bonito — começou Bankotsu.
— Bonito ele é, eu sempre disse — falou a governanta, sombria. — Mas apesar de ser tão bonito quanto a estátua de um deus grego, é tão quente e vivo quanto esta estátua, também! — balançou a cabeça e cerrou os lábios de maneira desaprovadora.
Mesmo intrigada, Rin sabia que não deveria estimular a fofoca sobre os hóspedes de sua prima.
— Bem, então — ela disse —, ainda bem que nós não temos que nos preocupar com Lorde d'Arenville, a não ser gastar o seu dinheiro e presenteá-lo com as contas. E se nós não precisamos nos preocupar com os gastos, os empregados podem ser contratados na aldeia.
Mais tarde, naquela noitinha, enquanto ela saía vagarosamente dos aposentos das crianças, deixando seus três protegidos bocejando sonolentamente em suas camas, beijos amorosos de boa noite ainda úmidos em sua face, Rin decidiu que deveria se controlar mais. Não podia continuar assim.
O grau de ressentimento que sentira naquela manhã a chocara. Era muito errado sentir-se assim. Deveria ser grata a Kagura pelo muito que ela fizera — dando-lhe um lar, deixando-a cuidar das suas crianças... e esta era a casa dela, eram os filhos de Kagura. Ela tinha o direito de visitá-la quando quisesse.
O problema era com Rin. Sempre fora. Com suas pretensões extravagantes e seu faz-de-conta tolo e infantil. As coisas estavam fugindo do controle, e ela fingia, dia após dia, que as três adoráveis crianças eram suas. E que o pai delas, uma figura elegante e romântica, estava longe em alguma esplêndida aventura, lutando contra piratas. Sonhara freqüentemente com a maneira pela qual ele chegaria em casa em seu corcel negro como o carvão, trazendo presentes exóticos para ela e para os filhos. E quando eles tivessem colocado as crianças na cama, ele a tomaria nos braços e a beijaria carinhosamente e lhe diria que ela era sua bela...
Não. Isso precisava acabar. Ela não era a bela de ninguém, a querida de ninguém. O pai das crianças era o enfadonho Naruku, um blefe, que bebia demais e tocava o traseiro de Rin cada vez que ela se distraía um pouco e passava perto dele. Ele nunca chegava perto das crianças, a não ser no Natal, quando dava a cada uma delas um ou dois shillings, e afagava suas cabeças. E a mãe delas era Kagura, a bela, egoísta, charmosa; um ornamento da elite londrina.
Rin Robinson não era ninguém — uma prima distante sem um centavo em seu nome. Uma garota simples e comum, com nada a recomendá-la; uma garota que deveria ser grata por ter recebido uma casa no campo e três amáveis crianças para cuidar.
Nunca haveria um cavaleiro elegante, ou um belo príncipe, ela disse para si mesma asperamente. A sua maior esperança era que um fazendeiro e cavalheiro gentil a quisesse. Um viúvo, provavelmente, com filhos que precisassem de cuidados maternos e que a notasse na igreja.
Rin olhou para suas mãos e sorriu com orgulho de suas unhas macias e elegantes. Este era um defeito, pelo menos, que corrigira desde que deixara a escola. Seu fazendeiro carinhoso ficaria orgulhoso... Que droga! Estava fazendo isso de novo. Tecendo fantasias com o mais fino dos fios. Perdendo tempo, quando havia mil e uma coisas a fazer na preparação da house party do primo de Kagura. Rin correu escada abaixo.
O Príncipe Russo estalou o seu chicote nas ancas arqueadas de seus belos cavalos, incitando-os a uma velocidade ainda maior. A carruagem oscilou perigosamente, mas o Príncipe não se importou — Não! Lorde d'Arenville não era um príncipe, Rin disse a si mesma, asperamente. Ele era real. Ele não poderia aparecer em nenhuma de suas fantasias tolas.
Mas Mrs. Kana tinha razão — com certeza era bonito. Rin esperou que sua prima a chamasse e a apresentasse ao seu hóspede de honra. Ele chegara apenas há alguns minutos, vestido com uma capa de viagem sem mangas e um chapéu alto de abas largas e onduladas, chegando pelo caminho em uma carruagem vistosa puxada por dois tordilhos bem combinados.
Ela o vira apear-se, jogando as rédeas para o cavalariço, e adiantando-se para inspecionar seus cavalos suados antes de se voltar para cumprimentar os anfitriões. Estas eram, então, suas prioridades — os cavalos antes das pessoas.
Porém, era absurdamente belo. Cabelos escuros, espessos e macios, cortados curto em volta de uma cabeça bem formada. O rosto claramente esculpido, duro em sua austeridade, o nariz longo e reto, e lábios firmes, sérios, finamente moldados. Seus maxilares também eram longos e quadrados, saindo do queixo de maneira brusca e descomprometida. Era alto, com pernas longas e duras de cavaleiro, e uma constituição física forte. Assim que tirou seu sobretudo, ela pode ver que os ombros largos não eram o efeito do estofamento, mas de uma musculatura bem desenvolvida. Um esportista, não um almofadinha... um rei pirata... Não! Um hóspede arrogante de sua prima arrogante.
Rin observou-o cumprimentar Kagura — um leve inclinar-se, uma sobrancelha arqueada e um mero toque dos lábios na mão. Ele não era um dos seus... namoricos, então. Rin suspirou de alívio. Bom. Ela odiava quando sua prima a usava e as crianças para encobrir o que ela chamava de seus "pequenos flertes".
Kagura voltou-se para apresentá-lo àqueles da criadagem cujos nomes ele poderia precisar — o mordomo, a governanta etc. Rin o observava, notando o modo como seus olhos de pestanas espessas passavam indiferentemente por Bankotsu e Mrs. Kana.
— E esta é uma prima distante, Miss Rin Robinson, que mora aqui e toma conta das coisas para mim.
Rin sorriu e fez uma reverência. Os frios olhos dourados pousaram sobre ela por meio segundo somente, e continuaram. Este não é um cavaleiro galante, mas um conde cruel, calculando friamente a desgraça da heroína. — Basta!
Mrs. Kana estava certa. O homem agia como se esperasse que o mundo todo caísse aos seus pés. Ela se questionava sobre qual das jovens damas era sua futura esposa. Não tinha preferência por nenhuma delas, mas não podia imaginar ninguém querendo se casar com este arrogante Iceberg.
— Rin! — Sua prima tinha um tom contrariado. Rin correu para dentro.
— Você me chamou, prima Kagura? — ela não se permitiu olhar para lorde d'Arenville, apesar de estar muito consciente de sua presença ali perto.
— Eu pensei que havia sido clara!
Sua prima gesticulava, irritada. Rin olhou para cima. Três pequenas cabeças apontavam através dos balaústres em completo desafio às ordens que Kagura dera em relação às crianças. Elas não deveriam ser ouvidas nem vistas durante a house party.
— Seus filhos, Gura? — sua voz era profunda e ressonante. Em um homem de natureza mais quente, isso poderia ser muito atraente, pensou Rin insolentemente. — Eles não querem descer? — acrescentou.
Rin parou, enquanto o olhava, surpresa. O Iceberg estava interessado nos filhos de sua prima?
— Não, eles não querem — disse Kagura, rapidamente. — Já passou da hora de eles irem para a cama, e esta é uma das pequenas tarefas de Rin, certificar-se de que eles o façam. Rin! Por favor!
Rin correu escada acima. Hora de eles estarem na cama, com certeza! Às cinco da tarde? E uma de suas pequenas tarefas? Entre outras cem, mais ou menos, que sua prima exigia dela diariamente em troca de casa e comida. Alcançou o segundo patamar, onde duas menininhas e um menino estavam sentados. Observada por dois pares de olhos, ergueu a menor, que apenas aprendera a andar, pegou a outra pela mão e dirigiu-se ao quarto, o menino pulando e saltando à frente.
— Agora, Sesshoumaru — disse Kagura — Bankotsu lhe mostrará o seu quarto, e você pode se preparar para encontrar meus outros hóspedes no salão de jogos aproximadamente às seis.
— Uma bandeja de lanche já foi providenciada, Madame, com chá quente e café, sanduíches e conhaque — disse Bankotsu — e a água quente já está esperando lorde d'Arenville.
— Oh, bem, está bom, Bankotsu — disse Kagura.
— Miss Rin já providenciou isso para todos, madame. Ela fez o mesmo para todos os hóspedes — disse Bankotsu, escondendo um sorriso. — Apenas mais uma de suas pequenas tarefas. Faça o favor de me seguir, milorde. A madame o colocou no Quarto Azul.
— Rin, você deverá comer à mesa nesta noite. O patife do Onigumo Fairfaz trouxe dois amigos com ele, e nós temos falta de damas. E você disse à cozinheira que devemos ter gansos além de frangos? Eu não tenho tempo de discutir o cardápio com ela, então você deve verificar isso. E providencie para que os hóspedes adicionais tenham as suas camas feitas. Estou exausta e preciso descansar antes do jantar. Meu Deus, eu espero que Sesshoumaru esteja grato pelo esforço que estou fazendo por ele. Ficarei feliz quando tudo tiver terminado.
— Eu não tenho nada para vestir para o jantar, prima.
— Meu Deus, menina, como se alguém fosse se importar com o que você veste. Você só vai completar o número de convidados.
— Eu só tenho um vestido de noite, prima, aquele que você me deu há muitos anos, e deve saber que ele não cabe em mim.
— Então o aumente, pelo amor de Deus! Ou vista um xale ou algo parecido sobre ele. Não espere que eu pense em tudo! Agora, me deixe imediatamente!
— Está bem, prima. — Rin murmurou entre os dentes. Era contra a sua natureza submeter-se assim tão facilmente à grosseria de sua prima, mas a pobreza a ensinara a ter uma visão mais pragmática das coisas. Era insuportável ser tratada daquele modo. Por outro lado, Kagura raramente estava presente, e a maior parte do ano só Rin, as crianças e os empregados permaneciam em Maniúgham. Na verdade, tinha uma vida encantadora. Uma órfã sem um centavo deveria ser grata por ter um teto acima de sua cabeça. Não sentir-se grata era, sem dúvida, uma deficiência em seu caráter.
Rin desceu as escadas correndo. Falou com a cozinheira sobre o cardápio, com Mrs. Kana sobre as providências para os hóspedes inesperados, e com Bankotsu sobre os vinhos para o jantar, depois correu novamente escada acima para cuidar de seu vestido.
Dez minutos mais tarde estava desesperada. Kagura era menor do que ela, com uma imagem extremamente delicada de sílfide. O vestido verde pálido de musselina era muito decotado no peito e nos ombros, e caía frouxamente a partir de uma cintura alta. Em Rin, o decote profundamente cavado ficava apertado, fazendo com que seus seios se tornassem incomodamente salientes. A cintura estava apertada demais.
Não era uma costureira exímia e, mesmo se o fosse, não poderia aumentar o que estava pequeno demais. Conseguiu encher o decote com renda velha, de maneira que este pelo menos a cobria decentemente, apesar de ainda estar apertado demais. Alinhavou um babado na bainha. Parecia bastante ridículo, mas ao menos cobriria seus quadris.
Finalmente se envolveu em um grande xale estampado para esconder o vestido apertado. Com certeza, seria suficiente para sobreviver ao jantar. Olhou-se no espelho e fechou seus olhos em um tormento momentâneo. Ela parecia um perfeito quebra-cabeça! — Ainda assim, disse a si mesma, Kagura estava certa. Ninguém nem a notaria.
Sesshoumaru tomou outro gole de armagnac, e se questionou por quanto tempo ainda agüentaria o alvoroço de moças ao seu redor. Sua paciência estava no limite, e ele só poderia culpar a si mesmo por isso. A house party estava sendo um desastre.
Dez dias na companhia constante de moças distintas já teria sido suficientemente ruim — ele havia se preparado para esta penitência. Mas deveria ter pensado que Kagura selecionaria um bando barulhento de damas como ela — mimadas, vãs, insípidas e tolas. Sesshoumaru estava quase rígido de tanto tédio.
E irritação — pois esperara poder observar as jovens de maneira não explícita, fazer uma seleção discreta e providenciar tranqüilamente um casamento. Ah! Que piada! Sua desprezível prima tinha tanta discrição quanto um papagaio!
Bustos leitosos erguiam-se, e estremeciam sob seu nariz a cada oportunidade. Ancas arredondadas saíam subitamente de seu esconderijo. E cada vez que ele entrava em um cômodo, pálpebras batiam tão fervorosamente que quase criavam uma corrente de ar. Ofereceram-lhe amostras de virtuosidade em harpa, piano e flauta, teve aquarelas colocadas sob o nariz, sua inspeção de especialista timidamente solicitada. Sua opinião masculina superior fora procurada e deferida em relação a todo tópico possivelmente existente, e seus pronunciamentos muito relutantes saudados com suspiros bajuladores e admiração melosa.
Elas o abordavam de manhã, ao meio-dia e à noite — no jardim, no salão de jogos, na sala de café da manhã — até mesmo, uma vez, atrás dos estábulos, onde um homem tinha o direito de esperar alguma paz e tranqüilidade. Mas não adiantava — as damas elegíveis o emboscavam, aparentemente, em todo canto da propriedade.
Ainda assim, apesar da aversão opressiva à tarefa em suas mãos, Sesshoumaru estava determinado a escolher uma esposa.
O problema era que Sesshoumaru não conseguia imaginar nenhuma delas como mãe de seus filhos. E, como Kagura, todas elas desprezavam a vida rural.
Isso era um problema. De certo modo, esperava que sua esposa vivesse em d'Arenville, com as crianças. Mesmo sabendo que poucas assim faziam. Sua própria mãe não o fizera.
A mulher de Inuyasha vivia aparentemente feliz, durante o ano todo, nas regiões selvagens de Yorkshire com seu marido e filhos. A felicidade óbvia das crianças provocara uma profunda impressão em Sesshoumaru — seus próprios pais vinham para casa em intervalos raros, cujas visitas eram a ruína de sua jovem existência.
Mas a mulher de Inuyasha parecia verdadeiramente amar seus filhos. A própria mãe de Sesshoumaru parecia amá-lo — na presença de outros. Assim, a mulher de Inuyasha poderia estar fingindo, mas ele não acreditava nisso. Ela também parecia amar ao marido. Mas Inuyasha era, Sesshoumaru sabia, uma pessoa digna de amor.
Não era assim com Sesshoumaru. Fora claramente uma criança indigna de amor, e, por isso, era um homem indigno de ser amado. Mas faria tudo ao seu alcance para assegurar a seus filhos uma chance de serem dignos de amor. E com isso de serem amados.
— Oh, que tarde acolhedora e deliciosa! — exclamou Kagura. — Vamos passear no terraço antes do jantar. Venha Sesshoumaru, como meu hóspede de honra, você deve escoltar a dama de sua escolha.
Olhares femininos se voltaram para ele. Sesshoumaru amaldiçoou sua prima por tentar forçá-lo. Ela queria claramente o fim da house party para poder voltar à cidade e às milhares diversões por lá. Sorriu. Não dançaria conforme a música de nenhuma mulher.
— Então, como bom hóspede, eu devo estar sob os cuidados de minha charmosa anfitriã.
— Será que deveríamos, primo?
Ele tomou o seu braço, não lhe permitindo escolha.
Rin seguiu sem graça o cortejo, se sentindo totalmente envergonhada. Várias das jovens olhavam seu vestido, sussurrando e dando risinhos sufocados com olhares de deboche. Suas mães a ignoraram completamente, e dois dos homens convidados fizeram sugestões impróprias.
Estava zangada, mas disse asperamente a si mesma que pouco adiantava expressar seus sentimentos — logo eles iriam embora, e seria deixada em paz novamente.
A pálida jovem marquesa mantinha seu queixo altivo, ignorando os vis insultos lançados a ela pelos canalhas ignorantes, enquanto a carroça rodava.
Rin esgueirou-se discretamente para o canto do terraço, e olhou por cima da balaustrada de pedra para a área de grama recentemente cortada e para os bosques mais além. Era uma vista verdadeiramente encantadora...
— Aargh! Sai, besta nojenta! — os gritos de Kagura enchiam o ar. — Alguém tire isso de mim! Aargh!
Rin correu para ver o que acontecera.
O filhinho de sua prima, Kenzo, obviamente fugira do seu quarto e fora passear com o cachorrinho que Rin lhe dera várias semanas antes. Ele estava diante de sua mãe, estendendo pateticamente um buquê desordenado de galantos em sua direção, os sapatos e calças cor de nanquim cobertos com lama, assim como seu cachorrinho. Esta era a causa do barulho — marcas de patas enlameadas sujavam o vestido de seda amarelo claro de Kagura.
Rin ainda estava tentando abrir passagem entre a multidão de hóspedes, quando lorde d'Arenville pegou o cãozinho, o suspendeu pelo cangote para o garotinho. Ela alcançou a criança no momento em que o discurso furioso de sua mãe se desencadeou sobre ele.
— Como você ousa trazer este animal imundo para perto de mim, garoto mal-educado! Está vendo o que ele fez? Este vestido está arruinado!
O rostinho empalideceu em desespero. Sem dizer nada, Kenzo oferecia o pequeno buquê de galantos. Kagura o arrancou impacientemente de sua mão e o jogou no chão.
— Não tente me agradar, Kenzo! Veja o que você fez? Olhe para este vestido! Foi usado pela primeira vez hoje, é de um dos mais finos estilistas de Londres, e custou o olho da cara! Por que um garoto mal-educado trouxe um animal nojento para um encontro civilizado? Quem lhe deu a permissão de sair do quarto?
As faces do menininho empalideceram ainda mais. Seu corpinho tremeu de terror ao sentir o veneno na voz de sua mãe. Seu rosto se franziu de medo e ele apertava fortemente o cãozinho contra seu peito, em desespero. Este chorou e se debateu, tentando se soltar.
Sesshoumaru observava, tenso como nunca estivera desde a época em que era um menininho. Sentiu pena do menino, mas não era seu papel interferir na disciplina de uma mãe a seu filho.
Seria difícil para o menino perder seu querido cãozinho, mas era provavelmente melhor para Kenzo que ele aprendesse agora, e não mais tarde. Os animais de estimação eram com certeza usados como chantagem para o bom comportamento de alguém. Uma vez que o menino tivesse aprendido a não se importar tanto, sua vida seria mais fácil. Sesshoumaru com certeza o descobrira deste modo... apesar da aprendizagem ter sido muito dura... três animais de estimação morreram por causa de sua desobediência quando ele tinha oito anos.
Polly, sua companheira constante e sua melhor amiga, fora a última. Um dia a levara para caçar, em vez de terminar suas lições de grego, e seu pai mandara sacrificar Polly para ensinar a seu filho uma lição de responsabilidade. Sesshoumaru aprendera bem esta lição. Aos oito anos, aprendera a não se ligar a animais de estimação. Nem a mais nada.
— Eu sinto muito pelo acidente infeliz, prima.
— Você sente muito? — Kagura continuou. — Sim, eu farei com que você sinta muito! As crianças são sua responsabilidade, então como pode ser que uma delas tenha tido a permissão de fugir do quarto?
Sesshoumaru encostou-se em uma grande urna de pedra, cruzou os braços e observou friamente a cena. Notou o modo como a deselegante priminha usou seu corpo para cobrir o da criança, protegendo-o de sua própria mãe. Era uma manobra interessante — para uma parenta pobre.
O menininho se apertava contra suas saias, o cãozinho enlameado ainda em seus braços. Sesshoumaru observou como a mão da moça repousou discretamente na nuca da criança. Ela a acariciou com pequenos movimentos tranqüilizadores. Ele notou o menininho relaxar sob sua proteção. Rin o segurou mais firmemente contra o corpo, ao mesmo tempo mantendo a fúria de sua prima focalizada em si. As palavras eram de desculpas, mas sua atitude sutilmente desafiadora.
Fascinante, pensou Sesshoumaru. Será que a moça não tinha consciência do que arriscava ao desafiar sua prima? E a criança nem era sua.
— O acidente foi minha culpa, prima — disse —, você não deve se zangar com o pobre Kenzo, pois ele tinha a minha permissão para sair do quarto. E eu sinto muito por seu vestido estar sujo. Mas eu não posso permitir que o cãozinho seja morto.
— Você? Você não pode? — gaguejou Kagura.
— Não, pois o cãozinho não pertence nem a Kenzo, nem a você.
A criança olhou para a moça.
— O cãozinho é meu. Ele... foi um presente do... do pároco, e eu não posso permitir que destrua um presente por causa de um pouco de nervosismo...
— Você não pode permitir?
— Sim, cãezinhos serão sempre cãezinhos, e meninos e cães parecem atrair um ao outro, não é? É por isso que eu fiquei tão grata a Kenzo, neste caso.
— Grata?
— Sim, muito grata, na realidade, porque eu tenho estado por demais atarefada ultimamente para exercitar cãozinho, e Kenzo assumiu esta tarefa para mim, não é, querido Kenzo?
Ela balançou a cabeça para cima e para baixo de maneira encorajadora, e ele, confuso, assentiu de volta.
— Sim, e qualquer dano que o cãozinho tenha feito em seu vestido deve ser posto em minha conta.
— Mas...
— Agora, Kenzo, eu acho que você e o meu cãozinho já tiveram bastante excitação por uma noite, mas será que você faria mais uma coisa para mim?
Ele assentiu com a cabeça.
— Você poderia levar, er... Rover...
— Satan — Kenzo a corrigiu.
— Sim, é claro, Satan. Você poderia por favor levar, er... Satan, para o canil e lavar a lama nele para mim? Como você vê, estou vestida para o jantar, e as damas não devem ir ao canil com seu melhor vestido.
Suas palavras tiveram o efeito infeliz de atrair a atenção de todos para o seu "melhor vestido". Ouviram-se alguns risos de escárnio, que ela ignorou com o queixo em pé.
— O que é, meu amor? — disse.
Sentindo-se culpado, ele estendeu um dedo imundo e apontou para a lama que agora riscava o seu vestido. Ela olhou para baixo e riu, em um caloroso tom de despreocupação.
— Não se preocupe com isso, meu querido, quando a lama estiver seca, eu a escovarei até que saia. Agora, pelo amor de Deus, leve este cãozinho atentado, e limpe a vocês dois antes que outro acidente aconteça.
Aliviado, o menininho saiu correndo com o cãozinho apertado no peito.
— Você acha que é bom para você estar ao ar livre de noite em um vestido úmido e enlameado, prima? — interrompeu Rin. — Não gostaria que você pegasse um resfriado, e você sabe que é extremamente suscetível a isso...
Batendo o pé, e com um safanão do vestido de seda amarelo-claro, Kagura deixou o terraço, ordenando que sua criada fosse enviada a ela imediatamente.
Rin dobrou-se, juntou as flores destruídas de Kenzo e só então notou lorde d'Arenville.
Sua expressão era ilegível, e seus olhos dourados de pestanas espessas a observavam impassivelmente. Que homem horrível, pensou. Esperando para ver se há mais atração por vir. Levantou o queixo com frio desprezo e passou por ele sem dizer uma palavra.
Continua...
Yo!! Pequeno avisinho, o Inuyasha aqui não é irmão do Sesshoumaru, por isso não estranhem XD
Gomen a demora, eu realmente estava sem tempo para postar, porem resolvi colocar antes pois neste sabado vou ter prova ;-; e não vou ter tempo pra postar depois disso, vida de estudante é assim.
Agradeço os 6 comentarios, não sabes como fico feliz em ver que as pessoas curtem realmente do que escrevo.
Respondendo-as:
pequena rin: Obrigada pelo seu comentario, fiquei muito alegre em ler seu comentario, espero que goste desse capitulo, bjs.
Kuchiki Rin: Muito obrigada, espero que curta este capitulo maior, bjs.
tenshiraissa: Peço desculpas pela demora, espero q acompanhe este capitulo também, bjs.
sandramonte: Não mesmo XD Você vai ver que Sesshoumaru vai estar longe de ser um principe encantado e a Rin não é aquela bonitinha de contos de fadas, porem ainda vai acontecer muita coisa, bjs.
XDeia: Gomen a demora de postar i-i Porem admito que postei esse capitulo antes graças a você, muito obrigada por gostar do que escrevo, bjs.
Andréia: Espero que esse capitulo maior, faça você me perdoar pela demora XD bjs.
Bom agradeço a todos que leram.
E prometo postar logo se as pessoas me mandarem reviews ^^
Ja ne... Yami
