Três Lestranges e um Grifinório 2.0
O antes
—Capitulo 1
O garoto de olhos azuis
—Seth...está na hora de dormir...—Murmurou docemente a senhora de cabelos brancos como a neve, face bondosa e enrugada pelo tempo, os olhos maravilhosamente azuis. Estava sentada à beira da cama de um garotinho de olhos tão azuis quanto os dela e cabelos negros que não parecia estar nem um pouco com sono.
—Ah, vovó! Eu não quero dormir! A senhora vem tão pouco aqui...me conta uma história?—Os grandes olhos pidões do garotinho amoleceram ainda mais a bondosa senhora que apenas balançou a cabeça positivamente.
—Tudo bem...qual livro quer hoje?—Perguntou enquanto levantava-se com certa dificuldade, indo na direção da porta.
—Ah, Chapeuzinho Vermelho!—Exclamou o animado Seth, sentando-se na cama, observando enquanto a velha senhora arrastava os pés até a porta.
Seu rosto enrugado esticou-se num sorriso sincero antes que ela se virasse na direção da porta. Esticou a mão lentamente e girou a maçaneta, abrindo-a. Então, um vento gelado invadiu o quarto fazendo as luzes se apagarem. Uma figura trajando negro esperava do lado de fora. Não era possível ver seus olhos, mas um sorriso diabólico estava formado em seu rosto. Lentamente ergueu a varinha que trazia na mão ossuda, de dedos longos com unhas pintadas de negro. Um brilho verde ondulava na ponta de sua varinha, deixando um rastro no ar como uma névoa.
— Avada...—Seu tom de voz era tão gelado quanto o vento que adentrava o quarto agora.—Kedavra!!
A luz verde ofuscou todo o quarto. O grito de agonia do pequeno Seth forçou o jovem Seth, anos no futuro, a acordar-se assustado. Sentia o rosto molhado e a respiração dificultada, como se tivesse corrido por muitos quilômetros depois de um bom tempo sem praticar esportes. Suas mãos se fechavam com força no lençol, deixando as juntas dos dedos um pouco brancas. Lentamente foi relaxando de todo aquele estado de tensão, deixando o corpo cair pesadamente para trás.
—Foi só um sonho...—Murmurou por fim, passando a mão pelo rosto suado. Virou-se de lado e abriu o cortinado que envolvia sua cama, puxando o despertador para si, olhando os ponteiros demoradamente até decifrar as horas.—Ah, droga...
Com o ultimo xingamento, levantou-se rapidamente, jogando os lençóis para o lado. Aos tropeços, enrolando-se no tecido do cortinado várias vezes, consegui encontrar seu malão que estava devidamente colocado embaixo da cama. Tirou desajeitadamente o material da frente e conseguiu pegar uma toalha quase no fundo.
Um banho demorado, escovar os dentes. Tudo o que ele precisava agora era um café da manhã para esquecer aquele maldito pesadelo e agüentar o dia de aulas que estava por vir. Ajeitou cuidadosamente a gravata vermelho e dourada antes de observar atentamente o próprio reflexo.
Sim, com certeza não era mais o garotinho de pele sardenta e branca como leite, com cabelos sempre bem cortados do sonho. Agora seu cabelo estava um pouco maior, cobrindo-lhe as orelhas. Ele continuava branco, mas não sardento.
Com um suspiro demorado pegou a mochila ao lado e seguiu na direção da porta.
O salão comunal da Grifinória já estava apinhado. Pessoas se aglomeravam ao redor do quadro de avisos, checando possíveis trocas de figurinhas de sapos de chocolate, avisos sobre livros perdidos e os horários para o teste do time de quadribol. Ainda havia ali um aviso de Luna Lovegood sobre seus tênis perdidos e uma ressalva embaixo de que ela REALMENTE estava precisando deles.
Quando conseguiu passar por toda a agitação dos alunos, empurrou lentamente o quadro da mulher gorda, lançando-se ao corredor.
—Bom dia, Sr. Ashford...— Saudou a guardiã da sala comunal grifinória assim que girou mais uma vez nas dobradiças, fechando-se.
—Bom dia senhorrrrr...ita...—Corrigiu-se logo ao ver o olhar severo da Dama Rosa.
O caminho pelos corredores não estava tão abarrotado quanto o lado de dentro do Salão Comunal. Alguns alunos caminhavam aos pares, conversando alegremente ou sonolentos e solitários, arrastando os pés na direção do Salão Principal. Aqui e ali haviam cumprimentos breves, principalmente de alunos da Corvinal e da Grifinória. Seth correspondia tudo com um breve sorriso e um aceno de mão.
O Salão Principal estava definitivamente mais movimentado do que os corredores. Vários alunos entravam e saiam já com seus horários em mãos, alguns carregando um complemento do café da manhã na outra mão, mordendo distraidamente.
—Bom dia...—Disse Seth, dando um tapa na nuca de um garoto de cabelos castanhos, magricelo, logo depois saudando com um aperto de mão o rapaz loiro, alto e forte que estava ao seu lado e, por ultimo, dando um beijo no rosto de uma garota de cabelos castanhos e olhos verdes.
—Hey, bela adormecida...—Saudou o garoto magricelo, de cabelos negros.—O príncipe encantado te despertou de seu longo sono?
—Vai à merda, Richie...—Riu Seth, esticando a mão para pegar a jarra de suco, colocando um pouco no copo à frente.
—Sono agitado, Seth?—Perguntou Adam, apoiando o cotovelo no tampo da mesa, mordiscando lentamente uma torrada.—Vi você se revirando a noite inteira...
—É...apenas...alguns pesadelos...—Murmurou Seth, fazendo um gesto leve com a mão, como se preferisse deixar aquilo para lá.
Virou rapidamente o olhar para flagrar a preocupação dançando nos olhos da garota. Allyson McBean era sua amiga desde antes de nascerem. Suas mães fizeram pré-natal, exames juntas. Apenas o parto havia sido diferente. Allyson nasceu em setembro, enquanto Seth nasceu apenas em outubro. Mas desde então não se desgrudavam. E ela sabia muito bem a provável razão dos pesadelos do garoto.
Imerso em todos aqueles pensamentos, apenas o assobio admirado de Richard chamou sua atenção. Ergueu o olhar a tempo de ver o que todos – ou grande parte – dos alunos do salão principal, principalmente do sexo masculino, olhavam.
"Ah, claro...as irmãs Lestrange..." pensou Seth, encarando as garotas com um certo asco, expressão diferente da dos garotos que as seguiam com o olhar.
Tão belas quanto malvadas. Tão admiradas quanto temidas. Era o que melhor definia as três filhas de Bellatrix Lestrange. Cobiçadas por grande parte dos homens do castelo, não pareciam se interessar por alguém. Deviam achar que ninguém era bom o suficiente para elas. Então, o mundinho Lestrange em Hogwarts seguia firmemente fechado.
Mas havia algo mais sobre elas. E era esse "algo mais" que incomodava Seth a ponto de reagir diferente frente a presença das três garotas. Na noite do aniversário de seu pai, anos atrás, sua casa foi invadida por uma comensal da morte. Uma das rebeldes que não se renderam após a queda do lorde das trevas. Bellatrix Lestrange. Como resultado, a família Ashford foi completamente aniquilada, sobrando apenas ele, obviamente, seus pais e Adam, primo de Seth, mas que não carregava o Ashford em seu sobrenome.
—Patético...—Murmurou Seth, bebendo o resto do suco e levantando-se, pegando a mochila que havia colocado embaixo da mesa.
—Ah, cara...eu sei que você odeia elas e tudo mais, mas...—Dizia Richie, levantando-se e pegando a mochila também, inclinando a cabeça levemente para o lado, para "observar" melhor as três garotas que sentavam-se juntas num canto da mesa.—você tem que admitir...
—A única coisa que eu preciso admitir é que você precisa urgentemente de um banheiro, Richard...—Interrompeu Seth, rindo logo depois.—Nos encontramos depois pessoal...—Acenou brevemente para Adam e Allyson, que permaneceram na mesa do café-da-manhã.
O caminho na direção das masmorras foi pontuado por alguns comentários breves sobre assuntos completamente banais ou sobre o carregado horário que eles tinham agora no ano dos NIEM's. Do lado de fora ainda não havia nenhum aluno. Largaram as mochilas no chão e sentaram-se de lado.
—A Alexia veio te procurar ontem...—Murmurou Richard, parecendo repentinamente tenso.
—Ah, sim...—Murmurou Seth, não muito interessado no assunto.
Alexia Hale, sua ex-namorada. Já havia um bom tempo que não se falavam. Na verdade Seth não fazia a menor questão de lhe procurar ou de manter contato. O jeito um tanto egoísta da garota acabou levando o relacionamento de dois ao fundo do poço.
—Você não voltaria com ela...voltaria?—Perguntou Richard, inseguro sobre a ultima parte.
—Não se preocupe, Richie...ninguém que deixa meu amiguinho careca merece o meu coração...—Disse Seth, rindo de uma maneira debochada, fazendo um gesto com a mão para que ele deixasse para lá.—Apesar de ter sido bem engraçado.
—Aaah, muito engraçado para você e para o Adam!—Richard revirou os olhos, mas apesar de tudo não parecia irritado.—Nunca vou me esquecer...foram os piores dias da minha vida.
Seth riu de leve e balançou a cabeça negativamente, empurrando a cabeça do amigo meio para o lado. Então, o som de passos chamou a atenção de ambos. Viraram o rosto lentamente para ver quem estava chegando.
Então, suas mãos fecharam com força pela segunda vez naquela manhã, de modo que as juntas de seus dedos embranqueceram. Sentiu os lábios formarem uma linha única enquanto ele tentava impedir que seu queixo começasse a tremer.
A garota de cabelos negros, levemente ondulados, caindo sobre os ombros elegantemente, com um porte impecável, o nariz ligeiramente empinado que aumentava ainda mais o ar arrogante de seus olhos cinzentos.
A pior e a mais temida entre as três irmãs. Lauren Lestrange. Por um instante seus olhares se encontraram, mas ela não demorou-se ali. Rapidamente passou por eles e encostou-se num ponto da parede, distante dos dois.
—Cara, eu...
—Calado.—Interrompeu Seth, repentinamente mal-humorado até de mais. Tão mal-humorado que Richard nem ousou contestar.
O clima tenso no corredor perdurou até que Slughron chegasse, girando a chave da sala no dedo, cantarolando alguma música enquanto arrastava consigo o restante da turma. Entrou na sala e, enquanto os alunos se acomodavam, deu alguns toques no quadro-negro, fazendo algumas letras aparecerem como se uma mão invisível estivesse escrevendo ali.
—Bem, iremos prosseguir no preparo da poção do mata-cão...aqui estão os objetivos do dia...—Virou-se para a turma com um ar professoral, enquanto os alunos tiravam de suas mochilas penas e pergaminhos para escreverem as instruções.—e lembrem-se. Vocês agora são alunos nível NIEM's...não vou aceitar nada mais do que a perfeição...
E, com um tapinha em sua enorme barriga, virou uma ampulheta e sentou-se em sua cadeira, observando a debandada de alunos na direção de seus armários para pegar o caldeirão fumegante com a poção que estavam preparando desde a semana passada. Rapidamente a fumaça azulada e de cheiro acre-doce espalhou-se pelo local, torando-se até um pouco sufocante. Com o braço sobre o nariz para tentar abafar aquele cheiro tão forte, Seth seguia separando com uma faquinha de prata os ingredientes, picando o que era necessário e as vezes usando o cabo para amassar as substâncias.
—Richie, me empresta sua balança?—Murmurou Seth, terminando de cortar bem sua raiz de acônito.
—Tá em cima da mesa, pode pegar...—Respondeu Richie, oculto pela fumaça.
Com um bufo cansado, Seth passou a mão pela testa, arregaçando as mangas que insistiam em cair o tempo inteiro. Tateou a mesa ao lado, procurando a balança, até encontrar uma mão delicada sobre o tampo da mesa.
—Você tem mãos bem femininas, Richie...—Riu Seth, debochado, afastando a mão rapidamente.
—É porque é a minha mão...—Respondeu uma voz cheia de azedume.
Por um instante, Seth franziu a testa. Então, pôde ver o contorno difuso entre a fumaça. Mas não havia duvida. Com um "tsc", virou o rosto, limpando discretamente a mão nas vestes.
—Desculpe...—Resumiu-se, virando de costas.
Seth teve quase certeza de escutar um "Grifinório idiota" às suas costas, mas achou que não valeria a pena discutir com Lauren Lestrange em plena aula de poções. Esticou a mão na direção contraria, ainda irritado e acabou esbarrando a mão na balança de Richard, que, antes de cair no chão, arrastou consigo alguns frascos contendo misturas para a poção.
—Ah, droga...—Resmungou Seth, sentindo que todos pararam de murmurar sobre seus caldeirões para tentar enxergar o que havia acontecido. A voz do professor sobrepôs-se à dos alunos e, rapidamente, a fumaça dispersou-se.
Por um instante Seth sentiu-se sob holofotes, quando todos olharam para ele e logo depois para a bagunça que estava no chão. Rapidamente abaixou-se, tentando meio desajeitado pegar a balança de Richard que estava desmontada no chão. Sentiu o amigo abaixar-se ao seu lado, pegando as coisas rapidamente.
—Me desculpa cara, eu...
—Não se preocupa com isso, Edric...—Murmurou Richard. Seth odiava quando ele o chamava por seu segundo nome. O mesmo de seu pai. Mas no momento sentiu que não podia ficar irritado com o amigo.
Terminaram de recolher tudo sob o olhar dos alunos e as risadinhas de deboche dos sonserinos. Slughron suspirou pesadamente e bateu as enormes mãos na barriga mais uma vez, virando o olhar para a ampulheta.
—Bem, a aula já está no fim memso...guardem seus materiais e os caldeirões...a poção precisa maturar até a próxima Lua cheia, que deve ocorrer na ...—E, com um pequeno calculo mental, voltou a falar.—Semana que vem...até lá quero uma redação completa sobre o uso dos dois acônitos e as funções que exercem em suas poções...classe dispensada...—Com um suspiro aliviado, os alunos começaram a recolher todo o material para levar ao armário.—E, Sr. Ashford...—Seth, que já estava com a mochila nas costas, terminando de juntar tudo no estojo de poções para guardar junto com o caldeirão, virou-se com as sobrancelhas erguidas.—limpe essa bagunça...
E, sem esperar respostas, saiu da sala, rodeado de seus "pupilos". Depois de guardar tudo em seu armário, murmurou um "a gente se fala depois" para Richie, que saiu em passos arrastado da sala. Então, sem o menor animo, Seth largou a mochila sobre a bancada e pegou um paninho que havia sobre a mesa do professor. Jogou-o sobre o liquido derramado e deixou que absorvesse grande quantidade de poção antes de pegar-lo novamente. Tocou brevemente o tecido com a ponta da varinha e aspirou todo o liquido, colocando-o num pequeno frasco. Então, voltou a jogar o pano sobre o restante do material. Abaixou-se novamente para apanhar o pano, quando uma risada debochada chamou sua atenção.
—Pensei que tivesse coisa melhor para fazer...—Murmurou secamente, sem precisar virar-se para saber quem era. Sua risada era igual à de sua mãe. E a risada de Bellatrix assombrava seu sono noite após noite.
—Para mim é hilário o todo importante monitor-chefe sendo rebaixado à um simples zelador...—Disse Lauren, debochada.
Seth suspirou demoradamente e retirou o liquido do pano pela segunda vez. Jogou-o no chão pela terceira e – ele esperava, ao menos – ultima vez, antes de virar-se para Lauren.
—Eu sou obrigado a ser civilizado com você...—Murmurou, os olhos estreitos de raiva.—Por você ser uma menina...por eu ser monitor-chefe...mas não é bom abusar da minha paciência...
—Aaaah, estou morrendo de medo...—Debochou Lauren, cruzando os braços sobre o peito, olhando para o garoto com as sobrancelhas erguidas.—Nunca ameace uma Lestrange, Ashford...você sabe muito bem do que somos capazes...
Sentindo todo os músculos do corpo enrijecerem, Seth fez um movimento brusco com a varinha. Lauren não moveu-se um milímetro se quer, apenas erguendo uma sobrancelhas. O paninho que estava no chão voou até a mão do grifinório, que apertou com força de mais, fazendo algumas gotas pingarem. Então, com um movimento agressivo, jogou o pano no lixo, dando as costas e puxando a mochila, fazendo a cadeira cair no chão. Sem parar para levantar-la novamente.
Sim, era definitivo...ele odiava...
