Capítulo II: O Limbo

A passagem pelo véu foi como sentir uma brisa fresca num dia mormacento de verão: uma leve e rápida sensação refrescante que logo foi embora, dando lugar às sensações e aos sentimentos da batalha que ainda permeavam os sentidos de Sirius.

O sorriso triunfante de Bellatrix e a expressão aterrorizada de Harry permaneceram gravados nas retinas de Sirius, mas ele não ouvia mais a gargalhada da prima nem o grito do afilhado. Precisou piscar mais algumas vezes até as imagens de Bellatrix e Harry finalmente desaparecerem.

Arrependeu-se instantaneamente: enquanto as imagens permaneciam, pelo menos, ele via alguma coisa. Agora, tinha apenas o completo nada à sua frente. O lugar, seja lá onde fosse, era de uma brancura desconhecida e infinita. Não era a cândida brancura que acometia os terrenos de Hogwarts nos invernos mais rigorosos. Não era a brancura ofuscante criada pelo excesso de luz. Era apenas a ausência de tudo, exceto luz.

Com essa estranha consciência, Sirius testou seus outros sentidos. Tentou ouvir algo, ao menos um longínquo barulho, alguém se aproximando, alguém, ao menos, respirando... Mas, outra vez, nada. Não havia som algum a ser ouvido, assim como não havia forma ou contorno algum a ser visto. Era apenas o nada.

A confusão o preencheu. Que raios seria aquilo?! Tocou o próprio corpo com as mãos, mas também seu tato estava danificado. Sabia, ou tinha a forte impressão de, que estava apertando o antebraço esquerdo com a mão direita, mas não o sentia. Seu faro apurado, devido há tantos anos se transformando em cachorro, não foi capaz de captar algo, nem mesmo seu próprio cheiro tão característico. O lugar estava inquietantemente vazio.

Sem compreender exatamente como, tinha a consciência de que permanecia vestido e estava em pé, mas não era capaz de ver as roupas que vestia nem de sentir o chão sobre seus pés. Com grande sensação de impotência, ele compreendeu: tinha morrido. Seria a única explicação para toda esta estranheza...

Esperou. Alimentava a certeza de que logo algo iria acontecer. Morrer deveria ser "bom" ou "ruim" e não apenas este "nada" absurdo. Continuou esperando, mas sua situação parecia não se modificar. Nenhuma forma ou contorno, nada se destacava naquela brancura irritante, nem um mísero som se propagava naquele vazio. Ele começou a duvidar da própria existência, ao notar-se envolvido por tal excesso de inexistência.

Fechou os olhos, ou assim pensou ter feito. Era difícil ter certeza de alguma coisa. Enfim, compreendeu que, ao menos, ainda tinha olhos para fechar, ao perceber a brancura dar lugar à escuridão de suas pálpebras fechadas. Reabriu os olhos esperando rever a irritante e interminável brancura, mas se surpreendeu. Não estava mais sozinho.

Ele resolveu piscar mais algumas vezes, na tentativa de fazer sumir também aquela estranha figura à sua frente. Porém, quanto mais abria e fechava os olhos, mais nítida e inusitada tornava-se a criatura, com seus contornos diminutos e suas asas ágeis a bater. Resolveu, para o bem de sua supostamente ainda existente sanidade mental, ignorá-lo.

_ Olá, Sirius Black! – cumprimentou, com um sorriso divertido preenchendo o rosto redondo e alegre.

Sirius apenas estreitou os olhos, obrigando-se a reparar melhor na criatura que, atrevidamente, lhe dirigia a palavra. Se a idéia não lhe parecesse tão absurda, teria achado que era um dos presentes idiotas que costumava receber das garotas no Valentine's Day, nos tempos de Hogwarts. Pensando bem, era irritantemente semelhante a um bichinho de pelúcia que certa vez uma Ravenclaw lhe dera...

_ Seja bem vindo ao Além... – falou o animal, frente ao silêncio do moreno.

Sirius continuou ignorando-o. Não, verdade fosse dita, o ursinho que ganhara não era assim tão cabeçudo. A criatura à sua frente tinha um rosto extremamente redondo, olhos muito pequenos e um nariz menor ainda. Só percebeu que aquele bichinho tinha boca, quando a abriu para falar, pois os lábios eram apenas um risco, ainda menor do que os da McGonnagall quando se irritava com as brincadeiras dos Marauders e lhes dava sermões.

O ursinho que ganhara também não tinha um rabinho frenético e desproporcionalmente idiota como esse. Ainda por cima, com um pompom - muito mais idiota – na ponta. E também não tinha asinhas idiotas como essas. Sirius decidiu que nenhum dos presentes que ganhara era tão idiota quanto aquela criatura, nem mesmo o ursinho da garota Ravenclaw, cujo nome lhe fugia agora.

O moreno desviou o olhar desinteressado. Recusava-se a falar com um bichinho de pelúcia. Principalmente um tão estúpido. Logo apareceria algo digno e ele receberia as respostas que desejava. Era só esperar e continuar ignorando...

_ Vocês, favoritos de Láquesis, são sempre tão orgulhosos... – comentou placidamente o animal, cruzando uma perna sobre a outra, como se estivesse sentado numa poltrona invisível. – não lhe ensinaram a responder quando falam com você, Sirius Black? – inquiriu, com um sorriso irônico nos lábios minúsculos.

_ O que é você? – Sirius finalmente conseguiu perguntar, mal humorado, quando se deu conta que a criatura não desistira da conversa.

_ Pergunta errada, Sirius Black... – respondeu, enigmaticamente. A maneira como o bicho pronunciava o nome completo do moreno irritava-o ainda mais. – Quem sou eu e o que eu estou fazendo aqui são perguntas muito mais interessantes...

_ Vá pro inferno! – retrucou Sirius, aborrecido, cruzando os braços de maneira emburrada.

Sirius preferiria morrer a receber ordens de um "serzinho" como aquele. Com irritação, deu-se conta que não tinha mais essa opção: se sua intuição estivesse certa, já estava morto.

_ Eu morri?! – Sirius perguntou com tanta grosseria e incredulidade que fez o animal rir, satisfeito.

_ É claro que sim! – respondeu, executando uma graciosa acrobacia aérea que Sirius considerou idiota e desnecessária, para sair da posição em que estava e voltar a voar na altura dos olhos do moreno.

_ A-aquele véu... – lembrou-se o moreno, subitamente, como se a memória fizesse parte de uma época distante.

_ Sim, foi ele que trouxe você para cá... – confirmou.

_ Então eu posso voltar por ele! – exclamou, confiante, olhando em volta como se procurasse o Arco do Véu em algum lugar por ali.

_ Hmmm, eu acho que não... – zombou, sorrindo enigmático.

_ Por que não?! Eu quero voltar! Eu preciso voltar! – exclamou Sirius, exasperado.

_ Sem chances... – retrucou, rapidamente.

_ Como assim "sem chances"?! Afinal, quem é você e o que é que nós estamos fazendo aqui?!

_ Até que enfim as perguntas certas... – falou o animal, agitando as asas freneticamente para manter-se à frente do rosto de Sirius. – Uma pena que, na verdade, elas não sejam tão simples assim... Tente pensar em milênios multiplicados por eras infinitas e descobrirá a quanto o tempo que eu existo. O elemento mais perpétuo e significativo de toda a existência...² – começou a explicar, mas frente ao visível desinteresse de Sirius, ele mudou de tática. – Tenho muitos nomes, sabe? Pode me chamar de Kerberus3 ou apenas de Kero...

_ Que tal se eu chamasse você de "bichinho-de-pelúcia-idiota"? – zombou o moreno.

_ Não acho que seja adequado... – replicou, um brilho estranho preenchendo seus olhinhos negros.

_ Eu acho... Me diga como voltar! – exigiu Sirius.

_ Você não vai voltar... – replicou Kerberus, ainda sorrindo.

_ Só me diga onde eu acho o véu e como eu faço para voltar por ele... – rosnou Sirius, cada vez mais irritado. Estava precisando de muito autocontrole para não chacoalhar aquela coisinha irritante e insignificante e arrancar dele as respostas que queria.

_ Eu já disse: você não vai voltar. – havia um tom diferente na voz dele, uma certeza que Sirius achou difícil acreditar que estava presente na voz de um ser tão pequeno. – E, se eu digo que você não vai voltar, então você não vai...

Sirius riu, aquele seu riso que parecia um latido. Olhou incrédulo e desafiante para Kero.

_ Vocêvai me impedir? – retrucou o moreno, sarcástico.

_ Só se você me obrigar, mas eu não gosto de resolver as coisas assim... – respondeu Kero, de maneira tão simples e singela que faria qualquer garota como Ginny ou Hermione querer apertar o bichinho nos braços.

_ Olha aqui, Ker-qualquer-coisa... – começou Sirius.

_ Você pode me chamar de Morte também, caso seja mais fácil para fazê-lo compreender a sua situação... – concedeu Kerberus de maneira ainda mais fofa, que fez Sirius reprimir uma careta.

_ Você não é a Morte! – exclamou, indignado.

_ Sou, sim! – confirmou Kero, sorrindo feliz e batendo as asas, meigamente.

_ Não! Você é, no máximo, o bichinho de pelúcia muito idiota da filha da Morte! – retrucou.

_ Ah, Láquesis, por que os seus são sempre os mais difíceis? – suspirou Kero, fazendo uma nota mental de reclamar com a Moira sobre a quantidade de teimosia que ela dava a seus favoritos. – Ok, Sirius Black, foi você quem pediu por isso...

Com um estalo, a pequena criatura sumiu no ar. Uma fração de segundos depois, em seu lugar uma outra criatura apareceu. Sirius precisou piscar mais algumas vezes para assimilar a drástica mudança. Bem à sua frente se encontrava uma criatura enorme, majestosa e alada. Ainda atônito, Sirius percebeu que, na forma, o novo ser lembrava muito um imenso tigre, mas não tinha as listras características. Poderia ser um leão, mas não tinha juba. Talvez fosse uma leoa, então...

_ Ainda não me acha digno de sua atenção, Sirius Black? – perguntou Kerberus, abrindo, imponente, as asas enormes.

Aquela voz grave e forte fez Sirius ter certeza de a criatura, seja lá o que fosse, era "macho". A segunda constatação foi que a idéia de "obrigá-lo" a dizer o caminho de volta pareceu ligeiramente mais distante. Sirius era um Gryffindor e, portanto, corajoso, mas não era estúpido. Seria mais sensato tentar conversar.

_ Ok, vamos começar de novo... – arriscou Sirius, demonstrando um pouco mais de respeito. – Você não entende... Eu preciso voltar! Eu estava numa luta importante, eu deixei alguém para trás... – explicou, tentando ignorar o aperto em seu estomago ao pensar no que poderia ter acontecido a Harry enquanto o garoto corria em sua direção.

_ Estágio 3: Pechinchar...4 – comentou Kerberus, revirando os olhos. – vocês mortais estão sempre envolvidos em "coisas importantes", estão sempre "deixando alguém"...

_ É diferente! – insistiu Sirius, tendo pela primeira vez a consciência de que muito tempo poderia ter se passado desde que ele atravessara o véu. - É uma batalha importante, estávamos lutando contra Voldemort!

_ A luta acabou... – falou Kero, com uma simplicidade fez o sangue de Sirius ferver, irritado.

_ A LUTA NÃO ACABOU! – bradou, desesperado. Cada segundo que passava aumentava seu desespero: Harry poderia estar em perigo...

_ Acabou para você. – concluiu, sem parecer notar a alteração do moreno. – Entenda: em toda batalha, existem baixas dos dois lados. Existem pessoas que nada têm a ver com esta guerra e, ainda sim, também estão morrendo neste exato momento...

_ Então vá cuidar dos Death Eaters mortos e me faça voltar! Vá atrás de todas essas pessoas que estão morrendo e... – exasperou-se.

_ Ah, mas eu estou lá! – riu-se, como se Sirius tivesse dito algo muito óbvio e divertido. – A Morte é a única coisa inevitável da vida, Sirius Black... – fingiu filosofar, ainda rindo.

A consciência de que tudo aquilo não passava de uma piada para o outro não ajudou Sirius a se controlar.

_ Harry! Ela precisa de mim! – tentou o moreno, verdadeiramente desesperado.

_ Harry Potter também precisava dos pais, mas isso não me impediu de levá-los... – respondeu Kerberus, serenamente. "Embora James Potter também não tenha facilitado as coisas...", completou apenas mentalmente. "Só espero que o próximo Marauder dê menos trabalho..."

_ Harry precisa de mim, agora! – insistiu. Cada precioso segundo fazia o aperto em seu estômago aumentar.

_ Ele precisou de você nos 12 anos em que você ficou em Azkaban, mas O-Menino-Que-Sobreviveu se saiu bem, apesar disso... – provocou Kero. A teimosia de Sirius estava quase acabando com sua paciência milenar. – Pense bem, você morreu em batalha, defendendo seu afilhado e a causa pela qual lutava... – continuou, voltando a controlar-se. Sabia que tinha mais chances se convencesse Sirius pacificamente.

_ E-eu... – faltavam-lhe palavras para argumentar, mas sabia que não podia simplesmente abandonar Harry e os outros membros da Ordem.

_ Se pesarmos bem... – completou, fingindo não notar a tentativa de interrupção do moreno. – você vai concordar comigo que é uma morte muito mais digna do que você merecia pela vida que você levou. Aliás...

_ E o que acontece se eu me recusar a "seguir em frente"? Se eu me recusar a morrer? – desafiou Sirius, confiante.

_ Você já está morto, Sirius Black. – corrigiu-o, brandamente. Seus olhos exprimiam um divertimento contido. – O que estamos discutindo aqui é o destino de sua alma. A parte da vida que realmente interessa: a vida eterna.

_ Não estou interessado, obrigado... – desdenhou o moreno.

_ Eu não posso te obrigar a nada... – falou Kerberus, dando a Sirius a impressão de que a criatura articulara bem demais cada uma das sílabas, fazendo os muitos dentes afiados ficarem mais à mostra do que o normal, mas o moreno não se intimidou. – Mas se você se recusar a me obedecer, vai ficar aqui para sempre... – indicou o amplo vazio que tanto inquietara a Sirius.

_ Ótimo! Para um Black, tanto branco vai ser uma ótima mudança de perspectiva... – retrucou, insolente.

_ Pode não parecer tão ruim agora... – cedeu Kero, sorrindo paciente, como um adulto que tenta convencer uma criança birrenta. – mas em breve esse nada vai começar a irritá-lo. – explicou, a sinceridade em sua voz irritando Sirius cada vez mais. – Em pouco tempo você vai enlouquecer e perder todas as lembranças ou então, se preferir, pode virar um fantasma e viver apenas delas. Agarrado inutilmente a memórias e recordações, sem poder revivê-las, amargurado...

_ Não me parece tão ruim assim... – mentiu, a idéia de tornar-se um fantasma era impensável. – sempre quis saber a sensação de atravessar as paredes!

_ Uma pena, então, que você não tenha morrido nos arredores de Hogwarts. Com sorte você poderia ter ficado como ajudante de Nearly-Headless-Nick – retrucou Kero, usando a ironia para contra-atacar. – Mas, tendo morrido no Ministério, dentro da Câmara da Morte, tudo o que lhe resta é este "nada" onde nos encontramos agora...

Sirius refletiu chocado. A consciência da morte e a perspectiva de permanecer preso naquele "nada" eram assustadoras demais, até para ele, um Gryffindor tão corajoso. Aquele imenso desconhecido apertava-lhe ainda mais a boca do estômago e parecia limitar o funcionamento de seus pulmões, ainda que, teoricamente, eles já não funcionassem mais.

_ Então acabou mesmo? – murmurou, ainda sem se convencer. – O que vai acontecer agora?

_ Qual seria a graça se eu revelasse o final da piada? – retrucou Kerberus, apreciando, pela primeira vez a falta de reação de Sirius. – E além do mais, quem disse que a piada já chegou ao final? – sorriu, enigmático.

_ Como assim? – perguntou, prontamente. Aquele sorriso não lhe pareceu anunciar boa coisa.

_ Só vêm para esse... vamos chamar de "limbo"... aqueles que não estão prontos para partir... – explicou Kero.

_ "Aqueles que não estão prontos"? – protestou Sirius. – Eu sabia! Eu não deveria estar aqui! Me manda de volta! Eu preciso voltar! – exigiu, berrando.

_ Você é surdo, rapaz?! – rosnou Kerberus, sua paciência por um fio. Cansava bancar o papel de "Morte-boazinha-e-compreensiva". Por que é que esses humanos gostavam tanto de complicar?! – Você não pode voltar! - repetiu, firme e convictamente. - Mas antes de seguir em frente, tem que merecer...

_ "Merecer"? – indignou-se o moreno. – E todo aquele blábláblá sobre uma morte digna?

_ Estou começando a achar que seu problema não é surdez, e sim burrice... – replicou Kero, revirando os olhos, irônico. – Embora tenha lutado no lado que considerava certo, você fez muita coisa errada e tem uma dívida enorme que precisa sanar antes de receber o merecido descanso eterno...

_ E o que é que eu tenho que fazer para "sanar essa dívida"? – perguntou, brusco. Gostava cada vez menos dessa história toda. Por que é que não podia só morrer e pronto?! – Suponho que não haja uma moeda de troca para almas...

_ É claro que existe! – corrigiu-o mais uma vez Kero, o que aumentou a irritação do moreno. – Mas o que é esperado de você está muito além do que qualquer ouro ou moeda poderia comprar. E então, você está disposto?

_ Como se eu realmente tivesse escolha... – respondeu, emburrado.

Antes que Sirius terminasse a última frase, o nada havia sumido.

Notas:

2- "Explicação" adaptada do filme "ENCONTRO MARCADO" (Meet Joe Black), na cena entre Brad Pitt (a Morte) e Anthony Holpkins (Bill Parrish) na biblioteca. perfect!

3- Kerberus, apelidado carinhosamente de "Kero", é uma espécie de guardião presente no Anime Sakura Card Captor. Ele geralmente assume a forma de um bichinho de pelúcia laranja com asas brancas, para despistar os amigos de Sakura de seu segredo, mas sua forma original é uma imponente mistura de tigre e leão com asas. Por sua tarefa de guardião, é bastante crítico e, quase sempre, abusa do sarcasmo e da ironia.

4- Adaptado da Season Premiere, "In My Time of Dying", da 2ª Temporada do Seriado SUPERNATURAL, cena entre Jensen Ackles (Dean) e Lindsey McKeon (Tessa-Morte) 2perfect