Capítulo III: Caronte
Antes que Sirius terminasse a última frase, o nada havia sumido. Em seu lugar, agora, uma estranha paisagem se desenhava. O moreno nunca tinha estado dentro de um vulcão, mas, se precisasse descrever como imaginava ser o interior de um, então seria o que estava diante de seus olhos naquele momento. O chão estendia-se, rochoso e irregular, abaixo de seus pés num declive acentuado. Por todos os lados, imensas rachaduras liberavam o que parecia ser um forte vapor metálico de aparência muito quente e perigosa. Em alguns pontos, a própria rocha parecia incandescente e instável, da qual escorria uma espécie de magma, porém, vermelho como sangue.
_ O-onde estamos? – murmurou Sirius mais para si mesmo, ainda tentando capturar toda imensidão do novo panorama.
_ Onde você acha? – perguntou Kerberus, sarcástico. – Aposto que, com sua inteligência excepcional, você é capaz de adivinhar que aqui não é o Paraíso, então...
_ Isto é o inferno?! – exasperou-se o moreno.
_ Uma minúscula parte dele... – Kero deliciou-se com o espanto de Sirius. Ele não podia negar que era divertido ver alguém tão arrogante sentir-se tão impotente. – É mais o Hall de Entrada do Inferno, para falar a verdade... – provocou, maldoso.
_ Você está se divertindo demais com isso para o meu gosto... – rosnou Sirius, ainda tentando apreender toda a imensidão à vista. – E por que você me trouxe aqui? Desistiu de "salvar a minha alma" e resolveu me jogar direto no inferno?! Literalmente! – protestou.
_ É claro que não... – debochou Kero, revirando os olhos. – você nem entrou no verdadeiro Inferno ainda...
Um calafrio percorreu a espinha de Sirius. Instintivamente, ele desejou que James e Lily não tivessem passado por isso quando morreram. Com certeza, Lily teria passado vergonha se James desmaiasse – como o veado que era – na frente da Morte... Como sempre, um sorriso torto e saudoso apareceu ao pensar nos amigos. E, principalmente, por debochar de Prongs. Mas, também como sempre, o sorriso foi logo seguido pelo forte aperto na boca do estômago que sentia todas as vezes que pensavam nos amigos mortos.
Mortos. Assim como ele próprio. Um estalo de felicidade e esperança preencheu seu coração. Se ele conseguisse realizar o que quer que esse tal Kerberus – recusava-se a chamá-lo de "Morte" conscientemente – estivesse propondo, será que finalmente se encontraria com James e sua esposa? Se conseguisse o "merecido descanso em paz", poderia rever seu inseparável amigo Prongs e a doce Lily? Se não havia mesmo volta, e pelo jeito realmente não havia, então, essa era mesmo a melhor coisa em que ele poderia pensar...
_ O seu caminho ainda é longo, Sirius Black... – Kero interrompeu o fluxo de pensamentos do moreno, sua voz profunda ecoando na imensidão da paisagem à frente deles. – mas, sim. Ao final da sua jornada e se você tiver êxito nela, você reencontrará seus amigos...
_ Mesmo? – havia um tom de esperança tão irrefreável na voz de Sirius que quase amoleceu Kero. Apesar de tudo, amizade e lealdade eram virtudes que ele admirava muito nos seres humanos.
_ Sim. Você pode até encontrar mais do que espera... – acrescentou, enigmático. – E fique despreocupado: os Potter não vieram para cá. Ambos tiveram vidas e mortes dignas o suficiente para poupá-los da pequena odisséia que o espera. Embora eu realmente achasse que seria engraçado ver um homem como James desmaiar...
O animal soltou um som que poderia ser vagamente tomado por uma risada, caso não se assemelhasse tanto a um rosnado profundo. Foi então que Sirius deu-se conta que Kerberus era capaz de ler, ou de ouvir, seus pensamentos, pois tinha certeza absoluta de não ter sequer pronunciado o nome de James.
_ Não é o que eu sou capaz de fazer que realmente interessa aqui, Sirius Black... – alertou Kerberus, respondendo a dúvida que esteve apenas em nos pensamentos do moreno. – você deve seguir em frente o mais rápido possível e consertar o único erro que os anos de Azkaban não redimiram.
_ Que seria? – testou Sirius, já prevendo a resposta evasiva.
_ Você vai saber quando chegar lá... Sua alma está tão prejudicada porque os seus piores erros acabaram repercutindo drasticamente sobre a vida de outras pessoas. E, antes que você se martirize por isso, eu não estou falando apenas da traição do segredo dos Potter. Você precisa compensar uma falta ainda anterior a esta...
_ E você não vai mesmo me dizer qual foi, certo? – ironizou Sirius, frustrado.
_ Você sabe que não. – confirmou Kero, sem esconder um sorriso irritante.
_ E nem pretende me dizer o que eu devo fazer para sair daqui? – continuou, controlando-se para não perder a paciência. Embora sem muito sucesso já que a cada resposta evasiva, Sirius sentia-se mais frustrado e impotente. Sentimentos que ele definitivamente não apreciava.
_ Bom, eu não tenho pressa. – retrucou, simplesmente. – Primeiro porque não é a minha alma que está em jogo. E segundo por eu tenho todo o tempo do mundo, literalmente... – riu da própria piada infame, irritando ainda mais Sirius. – Como o interesse é seu, eu só estava esperando você perguntar...
_ Então, me diga logo! – exasperou-se. Kero apenas sorriu, calmamente.
_ Você terá que descobrir que falta é essa, Sirius. E vai ter que consertá-la. Para isso, só vai precisar passar por alguns obstáculos. Quanto mais rápido você chegar ao fim, mais rápido vocês terão o descanso que merecem...
_ "Vocês" quem? – perguntou, surpreso. A leve idéia de que mais alguém estava passando por aquilo não o agradava nenhum pouco.
_ Já disse que nada teria graça se eu lhe contasse o final da piada, Sirius Black... – Kero respondeu, esquivando-se da pergunta e sorrindo presunçoso – mas seria bom você se apressar, agora que sabe que existe mais alguém aqui e que precisa de sua ajuda...
_ O que eu devo fazer? – perguntou, ainda indeciso.
_ Seguir em frente é a primeira coisa a ser feita, mas você terá que descobrir sozinho o que são e como vencer os desafios do caminho...
_ Qual o seu problema em responder perguntas de maneira clara e objetiva? – reclamou o moreno.
_ E perder a oportunidade de ver a sua frustração? Eu acho que não... – novamente aquele ruído, uma risada que mais parecia um rosnado – Não é todo o dia que alguém tão orgulhoso e arrogante como você se encontra numa situação dessas. É preciso aproveitar o momento... – debochou, rindo novamente.
_ Quem faz as regras por aqui tem um senso de humor bem problemático... – retrucou Sirius.
_ Era exatamente isso que muitas pessoas pensavam de você, mas isso não o impedia de se divertir às custas delas... – lembrou Kero, mordaz.
_ É, ok, já entendi o recado! – concordou, praguejando baixo enquanto olhava, ainda indeciso, para a estranha paisagem a sua frente.
_ Mais alguma pergunta ou comentário que deseje fazer? – instigou Kero.
_ Nada que você já não tenha lido na minha mente... – zombou Sirius, irritado pela sensação de impotência e indecisão que o controlava.
_ Então, boa sorte! – desejou a Morte e, com um leve estalido, desapareceu.
_ EI! – chamou Sirius. Kerberus com certeza não era a melhor companhia possível, mas ficar sozinho não parecia nada bom. – Grrr... Ótimo! – rosnou, exasperado.
A paisagem a frente dele continuava ameaçadora. O chão parecia cada vez menos sólido e firme, exalando cada vez mais aquele estranho magma cor de sangue e vapores metálicos. Fixando seus olhos atentos num ponto muito abaixo, Sirius distinguiu uma borda escura que se destacava nitidamente do solo rochoso e irregular que preenchia todo o espaço que seus olhos podiam alcançar.
Contudo, não foi capaz de saber o que poderia ser exatamente. Dessa forma, resolveu que a melhor - aliás, a única! – coisa a fazer era descer até lá e verificar. Talvez fosse uma fenda na qual a tal pessoa perdida estivesse presa e tudo o que ele teria que fazer seria ir até lá e puxá-la de volta, para que os dois pudessem sair dali o mais rápido possível. Nada que ele não fosse conseguir dar conta, Sirius se convenceu.
Nada podia ser tão difícil assim. Com certeza, Kerberus só havia dito aquilo tudo para tentar confundi-lo e fazer a situação parecer muito pior do que realmente era. E ele mal podia esperar para ver aquele focinho idiota ser obrigado a levá-lo embora daquele lugar horrível depois de que ele resgatasse quem quer que fosse "o" - ou "a" - idiota que estava preso na fenda abaixo.
Com a convicção gerada por esses pensamentos, Sirius finalmente começou a se mover, descendo apressadamente pelos irregulares degraus de pedra semi-incandescente. Uma vez em movimento, e num declive tão acentuado, Sirius começou a ganhar uma velocidade inesperada. Nem que quisesse ele conseguiria parar, pois a inércia obrigava-o a continuar se movendo e cada vez mais rápido e descontrolado.
As rachaduras abaixo de seus pés ampliavam-se devido ao peso de seu corpo, e Sirius se deu conta de que era uma sorte ele estar tão rápido, pois poderia ser facilmente tragado para o interior de um dos pequenos abismos que se abriam no caminho atrás de si. Mas se, por esse lado a velocidade era boa – uma vez que o impedia de ser tragado para dentro de uma daquelas perigosas rachaduras –, ela também o fazia avançar de maneira totalmente descontrolada, numa rapidez quase alucinante, esquivando-se a esmo de rochas soltas e pequenos escorrimentos de magma incandescente.
A descida continuou ficando cada vez mais alucinada, até que as pernas de Sirius não conseguiram mais acompanhar. Depois de um forte tropeço, ele se desequilibrou e acabou caindo. A velocidade em que ele estava e o declive acentuado do terreno não o permitiram parar, fazendo-o começar a rolar pelo chão, ainda mais descontroladamente, ladeira abaixo. Cortes e arranhões logo surgiam por todo o seu corpo, a cada vez que seus braços tentavam proteger a cabeça de um impacto maior ou suas pernas tentavam, inutilmente, parar.
Os degraus de pedra ficavam cada vez mais altos e os impactos das quedas ininterruptas de Sirius eram cada vez mais perigosos. Depois de longos e dolorosos minutos, ele finalmente parou, esparramado, numa parte mais plana do terreno. Com dificuldade, ele se levantou, cambaleando devido à tontura provocada pelo rolamento. Ainda zonzo, ele olhou a volta e percebeu estar num plano muito mais baixo do que onde estava anteriormente.
Até mesmo ar estava diferente. Ali parecia ser mais difícil de respirar ainda que, teoricamente, ele já não precisasse mais fazê-lo. Ou talvez fosse apenas conseqüência da queda e dos sucessivos impactos de pedras soltas contra o seu corpo durante a descida, ele não saberia dizer. Só o que sabia era que havia chegado à borda escura que, do ponto alto em que estava, ele imaginou ser uma fenda.
Mas instantaneamente ele percebeu que a linha longa e escura que ele distinguira lá de cima definitivamente não era uma fenda, e sim um rio. Escuro e longo, estendendo-se para além de onde os olhos de Sirius conseguiam divisar. As águas pareciam calmas, como se onduladas apenas por uma brisa leve, mas que Sirius sabia não existir, pois o local tinha um calor ainda mais sufocante.
Espanando inutilmente o pó das roupas, Sirius olhou mais atentamente para rio. Era comprido o suficiente para Sirius não conseguir ver de onde vinha ou para onde ia, mas não era tão largo a ponto de impedi-lo ver a outra margem. Aparentemente, o outro lado do rio parecia ser bem diferente do lado em que ele estava, ao invés dos diferentes níveis como uma escada rochosa, havia apenas uma parede de aparência infinitamente alta e sólida. Apenas uma pequena claridade destacava-se num ponto indistinto daquela imensidão rochosa, como uma estranha abertura.
Com um forte sentimento de frustração, Sirius concluiu que talvez a pessoa que ele deveria resgatar não estivesse simplesmente presa numa fenda, afinal. E para "seguir em frente" ele obviamente deveria atravessar aquele rio. Apesar do calor intenso, a água não parecia nem um pouco convidativa e nadar definitivamente não estava em seus planos. Mas antes que ele pudesse pensar em algo mais a respeito, uma figura estranha destacou-se no seu campo de visão.
Da margem o oposta do rio, um minúsculo ponto movimentava-se lentamente em direção a Sirius. A margem oposta com certeza estava mais longe do que ele imaginava, pois até então não havia notado a movimentação do que parecia ser uma pequena embarcação que se aproximava timidamente. Aos poucos, Sirius foi capaz de visualizar um barco a remo de madeira. A proximidade permitiu que Sirius visse que era muito antigo e maltratado. A madeira parecia carcomida e apodrecida em vários lugares dando uma aparência nada segura.
A pessoa que o conduzia parecia ser tão velha que Sirius não saberia adivinhar sua idade nem que esta fosse a "pergunta de um milhão de galeões". Não que um milhão de galeões valesse alguma coisa naquele lugar, é claro. O homem, apesar de permanecer em pé, vinha curvado e encolhido sobre o remo lateral, vestindo uma túnica de tecido grosseiro que lembrava ligeiramente os sacos usados por elfos domésticos.
Mais algum tempo e ele estava próximo o suficiente para que Sirius visse seu rosto, emoldurado por um emaranhado de cabelos brancos. Os olhos eram pequenos, claros e úmidos, posicionados tão fundos dentro das órbitas cobertas de rugas que pareciam prestes a perder-se dentro das dobras de pele acinzentada; a boca não passava de um risco, como um talho torto e mal feito na madeira, completava o semblante triste e cansado.
_ Bem-vindo ao Aqueronte5... – saudou o velho, quando o barco chegou à margem em que Sirius estava. – Eu sou Caronte5, seu barqueiro... – apresentou-se.
Por alguns segundos, Sirius havia imaginado se não seria aquele homem a pessoa a quem ele deveria ajudar, o que teria sido ainda mais fácil do que resgatar alguém de uma fenda, já que o homem tinha simplesmente vindo em sua direção. Mas, pela apresentação, ficou bastante óbvio que não era nada assim, fazendo a impaciência e a frustração do moreno aumentarem.
_ Eu sou Sirius Black e preciso "seguir em frente"... – retrucou o moreno, impaciente.
_ Certamente... – concordou o barqueiro, tirando a pequena trouxa de pano do cinto e estendendo-a diante do moreno.
Ambos permaneceram parados, de frente um para o outro, esperando. Passaram-se alguns segundos até que Sirius entendesse tal gesto. De fato, Caronte precisou sacudir a trouxa, fazendo sair de lá de dentro o som de moedas retinindo umas nas outras, para que ele compreendesse que o barqueiro esperava "pagamento adiantado" pelo transporte.
E, embora tivesse total consciência de que todos os galeões deixados pela herança de seu tio Alphard estavam seguramente guardados no Gringotts Bank – totalmente indisponível para saques póstumos –,Sirius revirou os bolsos, tentando, inutilmente, encontrar dentro deles alguma moeda perdida. Convencido de que não tinha um único knut – quanto mais um sickle ou um galleon! – consigo, Sirius olhou novamente para o barqueiro, tentando forçar o seu cérebro a arranjar uma desculpa.
_ Hm... será que eu posso pagar depois da travessia? – tentou, sem tirar as mãos vazias dos bolsos, para que elas não o denunciassem.
_ Não. – o barqueiro respondeu de maneira seca, mas não necessariamente ríspida. – Pagamento sempre adiantado.- avisou com uma voz monótona.
_ E se eu pagar adiantado e você sumir com o meu dinheiro? – tentou argumentar Sirius, inutilmente. Seu cérebro parecia não estar funcionando direito devido à pressão. Ou talvez tivesse sido a queda. Ou mesmo toda aquela coisa de morte, ele não saberia dizer...
_ E para onde eu fugiria? – indagou o barqueiro, irônico. – Você não acha que se eu tivesse a possibilidade de sair daqui, eu já não teria feito isso muito antes? – retrucou, amargo, abandonando a monotonia e começando a elevar a voz, irritado. – Eu faço esse trabalho desde o maldito instante em que o primeiro de vocês, mortais idiotas, começou a existir...
_ Ok, Ok... – interrompeu Sirius, percebendo que o homem não pararia de reclamar tão cedo. – Já entendi que você não é o que podemos chamar de "realizado profissionalmente", mas eu preciso mesmo seguir em frente. E, como eu morri, caso você não tenha percebido, não tenho nada com que possa pagar a travessia...
_ Sem dinheiro, sem passagem. – reforçou.
_ Não, você não está entendendo... Eu preciso passar para o outro lado, tem uma coisa que eu preciso fazer... – ele tentou explicar, em vão.
_ Sem dinheiro, sem passagem. – insistiu, voltando a mesma monotonia inicial.
_ EU... PRECISO... PASSAR! – rosnou, num claro tom de ameaça.
_ Ah, é? – questionou, transbordando de ironia. – E o que você vai fazer se eu não levar você? Me bater? Me matar? – zombou, rindo da própria piada. – Vocês mortais são mesmo muito esquisitos. Demoram tanto para entender que "acabou". Juro que se eu ouvir mais um "você tem idéia de com quem você está falando?", eu me jogo na água...
_ Eu não estou sendo arrogante ou orgulhoso... – Sirius argumentou, impaciente. - O que eu tenho de fazer é salvar uma outra pessoa...
_ Como se eu me importasse. – Caronte revirou os olhos, zombando. – Volte de onde veio e consiga uma moeda para o pagamento, ou nada feito...
_ "Você não acha que se eu tivesse a possibilidade de sair daqui, eu já não teria feito isso muito antes?" – repetiu, sarcástico, fazendo o velho, exprimir uma careta que lhe enrugou, se é que era possível, ainda mais o rosto.
Inesperadamente, o velho começou a rir, divertindo-se com a frustração de Sirius. De tempos em tempos, sempre aparecia alguém que o fazia despertar do torpor monótono de milhares de anos fazendo a mesma coisa por causa da relutância em aceitar as regras. Mas nenhum deles o havia ganhado na conversa, e nunca iria.
_ São as regras. – explicou o barqueiro, quando parou de rir. – O barco simplesmente não aceita levar dois passageiros se o pedágio não for pago. Eu não poderia levá-lo nem mesmo que quisesse...
Do nada, outro vulto se materializou ao lado deles. Sirius olhou para o lado e viu uma senhora muito idosa, tão enrugada e curvada que ele considerou que ela quase poderia ser uma versão feminina do próprio Caronte. De aparência muito frágil, ela vinha apoiada numa grossa bengala de madeira e trazia uma pequena bolsa, presa embaixo do braço. Aparentemente confusa com a chegada abrupta num lugar desconhecido tão estranho, ela olhou de Sirius para o barqueiro, tentando entender a situação.
_ Bem-vindo ao Aqueronte... – tornou a saudar o velho, ignorando totalmente a presença de Sirius. – Eu sou Caronte, seu barqueiro... – ele se apresentou para a senhora, estendendo a trouxa de pano com moedas em direção a ela.
A mulher, que até então olhava atentamente para Sirius, provavelmente estranhando a presença dele ali, voltou a olhar para o barqueiro. Ao escutar o tilintar das moedas dentro da trouxa, a velha entendeu o gesto. Com certa dificuldade, que Sirius atribuiu à idade, ela tirou a pequena bolsa debaixo do braço e abriu. De lá de dentro, tirou um porta-níquel de pano florido e bordado de miçangas que combinavam – de maneira feia e brega – com a estampa da bolsa.
Ainda olhando de lado para Sirius de maneira estranha, a senhora remexeu o pequeno porta-níquel, procurando por uma moeda para pagar a travessia. Por um breve momento, o moreno cogitou tomar a moeda da velha e pagar a própria travessia com ela, mas desistiu ao lembrar que estava no Inferno e que roubar uma velha e indefesa senhora não o ajudaria a redimir-se e, provavelmente, só pioraria a sua situação.
A idosa parecia pensar a mesma coisa, pois continuava a lançar olhares de esgueira para Sirius, enquanto procurava pelo dinheiro. Depois de revirar muitos bolsos e compartimentos da bolsa, a velha finalmente achou uma moeda – grande e prateada, cuja nacionalidade Sirius não reconheceu – num bolso interno do casaquinho de lã puído que usava como xale. Quando fez menção de entregá-la ao barqueiro, parou no meio da ação, virando-se novamente para Sirius.
_ Você também é barqueiro aqui? – perguntou, num tom de voz que Sirius achou ser inocente e maternal. – Acho que você poderia pilotar o barco melhor que ele, seus braços parecem ser mais confiáveis do que os dele... – especulou, espreitando os olhos para tentar ver mais do que a capa de Sirius permitia do corpo do moreno.
_ Er... não... – respondeu, surpreso, vendo a careta do barqueiro acentuar-se ainda mais diante daquela suposição. – Sou passageiro também, mas não tenho dinheiro para pagar a travessia...
_ Ah, mas que pena! – exclamou, olhando cada vez mais intensamente para Sirius, ignorando a presença de Caronte. – Se eu tivesse uma moeda extra, pagaria para você poder vir comigo...
_ Hã... o-obrigado... eu acho... – respondeu, desconcertado com o olhar da velha que agora Sirius finalmente percebera não ter nada de "inocente" e nem "maternal".
_ A senhora vai embarcar ou não?! – interrompeu Caronte, irritado.
_ Seu barqueiro, – chamou ela, voltando, a contragosto, sua atenção para o velho. – Será que não existe uma maneira de ajudar este belo rapaz? Não podemos deixá-lo aqui, sozinho... Seria um desperdício...– continuou, ainda lançando olhares furtivos em direção a Sirius, que o deixaram ainda mais surpreso e fazendo o imaginar os motivos pelos quais aquela mulher tinha ido parar no Inferno.
_ Não há! – respondeu Caronte, rispidamente. – O barco só leva duas pessoas de cada vez e uma delas tem de fazer o pagamento pela travessia...
_ Só "duas pessoas"? – Sirius repetiu, com uma súbita idéia surgindo.
_ Só duas pessoas! Um condutor e um passageiro pagante! – insistiu o barqueiro.
_ Então não há nada que impeça de você levar um cachorro, há? – perguntou, triunfante.
E, sem esperar pela resposta de Caronte, Sirius transformou-se um enorme cachorro preto.
Notas:
5- Aqueronte - http(dois pontos)/pt(ponto)wikipedia(ponto)org/wiki/Aqueronte
5- Caronte - http(dois pontos)/pt(ponto)wikipedia(ponto)org/wiki/Caronte
