Capítulo IV: Cerberus
E, sem esperar pela resposta de Caronte, Sirius transformou-se um enorme cachorro preto. O barqueiro e a velha olharam espantados para o enorme animal a frente deles. Obviamente, o outro não esperava por aquilo e a tentativa de Sirius de trapaceá-lo só o irritou ainda mais. A velha, por outro lado, achou a transformação uma demonstração maravilhosa, mostrando-se ainda mais interessada.
_ Ah! Eu sempre quis um animal de estimação... – a velha suspirou, olhando cobiçosa para o cão. – Melhor ainda se você conseguir voltar àquela sua forma humana esplêndida... – completou, piscando marotamente em direção ao animagus.
Sirius preferiu ignorar a "cantada" e deu dois passos em direção ao barco. Fez menção de embarcar, mas foi barrado por Caronte que tentou enxotá-lo com o remo. O barqueiro encarou Sirius, seus olhos faiscando de raiva pela tentativa de enganá-lo, e ergueu o remo, ameaçador. Sirius não pareceu se incomodar com a raiva do condutor e fez mais uma tentativa de entrar no barco, dando mais uns passos à frente, fazendo a velha sorrir satisfeita com sua ousadia.
Porém o barqueiro, que não estava para brincadeiras e não ia aceitar o desrespeito de Sirius, barrou-o novamente, empunhando o remo como um bastão pronto para o ataque e olhando de maneira ainda mais ameaçadora para o cão. Sirius sentiu o perigo, mas não era de seu feitio acovardar-se. Fez mais um movimento rápido para a esquerda, tentando confundir Caronte e subir pela lateral do barco. Mas o homem estava atento e Sirius precisou se afastar ainda mais rápido para evitar a pancada que o teria acertado quando o barqueiro rebateu o remo em sua direção, errando por muito pouco.
_ Você não vai embarcar! – berrou furioso, ignorando a velhinha que reclamava ao seu lado por ele quase ter acertado Sirius.
Sirius, que se afastara um pouco do barco para evitar ser nocauteado pelo remo do barqueiro, rosnava irritado. Os pêlos de suas costas estavam todos eriçados, reforçando ainda mais a sua aparência feroz. Caronte, que existia há milênios incontáveis, não se intimidou. Ergueu novamente o remo, numa atitude que claramente dizia: "não se aproxime!". Sirius sempre fora teimoso e ousado e não seria agora que um velho caquético e retravado que o impediria de fazer o que queria – ou melhor, precisava – fazer.
Ele fez mais uma investida, agora pela direita, e desviou-se de outra rebatida do remo com o qual Caronte tentou acertá-lo. Mas, dessa vez, Sirius não apenas esquivou-se do remo, mas abocanhou sua ponta, puxando-o com força. O barqueiro, pego de surpresa pela resposta do cachorro, começou a sacudir o remo, tentando, a todo custo, fazer Sirius soltá-lo. O cão, por sua vez, rosnava feroz com os dentes cravados na madeira do remo, tentando tirar o remo de Caronte.
Os dois ficaram alguns segundos nessa luta, até que Sirius conseguiu fazer as mãos velhas e tortas do barqueiro soltarem o remo. Como um cachorro que acabou de ganhar um osso novo de presente, Sirius sentou-se nas patas traseiras a uma boa distância do barco, balançando o rabo com satisfação e olhando desafiante para Caronte.
O barqueiro, teimoso e arrogante como todo velho ranzinza, não tolerava desobediência e decidiu que aquele cachorro tinha ido longe demais. Com dificuldade, devido ao tempo incalculável desde que pisara em terra firme, ele desceu do barco para tentar recuperar o seu remo. Suas pernas, desacostumadas a sustentar o peso do corpo em movimento, trançavam-se e faziam o corpo do velho cambalear em direção ao animal, ainda parado estático a alguns passos de distância.
Caronte se aproximou lentamente, a raiva faiscando em seus olhos pequenos e profundos. Cambaleou e mancou até chegar a apenas um passo do remo caído entre as patas do cachorro, que olhava para os lados de maneira displicente, e abaixou-se para tentar puxar o remo sem precisar se aproximar mais do animal. O movimento brusco e inusitado fez suas costas estalarem e o barqueiro soltar um urro de dor ao não conseguir voltar à posição semi-ereta habitual.
Aproveitando-se da situação, Sirius usou toda a rapidez e agilidade que seu corpo de cachorro possuía, pegando o remo do chão com a boca e correndo em direção ao barco, enquanto o velho berrava de dor e praguejava. Entrou no barco e transformou-se novamente em humano, para a felicidade da velhinha que acompanhava embevecida o combate, ainda parada na margem do rio.
_ Suba logo! – ele ordenou, ao perceber que a posse do remo não faria o barco se movimentar.
_ Ah, que magnífico! Você é o melhor barqueiro que eu poderia querer! – exclamou, tentando entrar apressada no barco. – Mas é muito alto... eu não vou conseguir subir... – choramingou, manhosa.
_ Me dê a sua mão... – Sirius instruiu, revirando os olhos, impaciente. Era óbvio que ela conseguiria subir sozinha se quisesse, mas estava fazendo o que só ela poderia achar que era "charme". – Agora, sente-se aí e fique quieta, enquanto eu tento descobrir como fazer essa joça... – começou a falar, depois de ajudá-la a sentar-se e virando para pegar o remo. – SE MOVER! – assustou-se, quando sentiu levar uma bela apalpada ao abaixar, de costas para a velha, para pegar o remo que estava colocado no chão do barco.
Sirius virou, olhando incrédulo para a velha, que apenas retribuía o olhar, sorrindo de maneira maliciosa. Apesar da vontade de jogar aquela velha tarada na água, ele decidiu ignorar isso também, pois sabia que precisava da moeda com a qual ela pagara a travessia. Depois do que havia feito para o barqueiro, nem mesmo toda a fortuna do mundo seria capaz de fazer o velho levá-lo ao outro lado, então a única maneira era aturá-la durante a viagem.
Assim que Sirius fez o remo tocar água, tomando a precaução de permanecer de frente para sua estranha passageira, o barco começou finalmente a se movimentar. Caronte gritava e esbravejava ainda mais à medida que seu pequeno barco se afastava da margem em direção ao portal do mundo dos mortos. Logo, a voz dele ficou para trás e só o que se podia ouvir era o ritmado som do remo penetrando a imensidão de águas escuras e calmas.
Ignorando totalmente o tagarelar da velha, que não parava de tentar seduzi-lo, Sirius viu a parede rochosa da outra margem agigantar-se ainda mais cada segundo. A pequena claridade que se destacava muito indistintamente da margem em que estivera agora parecia, cada vez mais, um imponente arco de entrada. Ao poucos, conforme o barco se aproximava da outra margem, Sirius viu que havia algo no meio do arco e que, o que quer que fosse, movia-se formando um estranho contraste de luz e sombras.
Uma figura ainda vaga começou a surgir e, quando o barco finalmente atingiu a margem, Sirius decidiu que lidaria com ela em forma de cachorro, para evitar qualquer conversa desnecessária. Num salto, ele saiu do barco e tocou o chão já com quatro patas, ignorando os protestos da velha que queria ajuda para desembarcar, provavelmente desejando ter mais uma oportunidade para tentar agarrá-lo.
Sirius rumou determinado para a abertura na pedra, cuja parte de baixo era preenchida por uma enorme quantidade de massa escura e ainda disforme, mas Sirius ainda não era capaz de adivinhar o que estaria por vir. A cada passada larga de suas quatro patas, mais da passagem ele conseguia distinguir, compreendendo que o brilho intenso vinha de enormes pedras reluzentes incrustadas no arco, que era uma porta cravejada de gigantescos diamantes.
A imponência e beleza da porta hipnotizaram Sirius e o distraíram da criatura que a guardava. E foi somente quando chegou perto o suficiente para ouvir sua ressonante respiração que o cachorro voltou seu olhar para ela. Quando o fez, suas patas pareceram congelar e ele parou abruptamente, chocado.
Sempre achara que sua forma animagus era acima da média para a família dos caninos, uma vez que possuía praticamente o tamanho de um urso médio, muito acima do tamanho qualquer outro cachorro que tivesse visto, e sempre se orgulhara disso. Porém, sua idéia de transformar-se não parecia tão boa quanto no momento, pois bem à sua frente estava o maior cachorro5 que ele jamais sonhara existir.
O animal, deitado e aparentemente sonolento, era maior que qualquer homem comum que ele conhecera,incluindo até mesmo o gigantesco guarda-caças de Hogwarts, Hagrid. Mas não era o seu tamanho que mais preocupava Sirius, porque, como se tudo aquilo de músculos e pêlos não fosse suficiente, o bicho ainda possuía três cabeças! Duas delas estavam apoiadas no chão, viradas na lateral do corpo, enquanto a central descansava entre as duas patas da frente.
A visão era simplesmente aterradora demais. A cada ressonar sonolento das três cabeças juntas, várias dezenas de dentes enormes e extremamente afiados apareciam por detrás das bocas igualmente imensas. As patas, que, com o animal em pé, seriam maiores do que o próprio Sirius, eram grossas como tronco de árvores. Apesar de sua capacidade de cálculo espacial estar seriamente afetada pelo choque, ele teve certeza que o corpo todo do animal teria o tamanho mais próximo de um dragão do que de um cachorro.
E, então, a consciência o atingiu num baque forte: se aquele animal acordasse, ele é que ia precisar ser salvo! A parte de baixo da porta estava totalmente bloqueada pelo corpo do bicho e, com aquele tamanho, não havia chances de passar por cima dele. Ele teria que bolar um plano para afastar o monstro da entrada o suficiente para que pudesse esgueirar-se para dentro. O problema, claro, era que plano seria esse...
_ Não foi muito educado de sua parte me deixar lá sozinha para desembarcar! – a velha ralhou, assim que chegou aonde Sirius estava.
Ainda em forma de cão, Sirius saltou para o lado, assustado. A chegada repentina e silenciosa da mulher o havia tirado dos planos para passar pelo enorme cachorro, surpreso. Na pressa de sair do barco, ele praticamente havia se esquecido dela. Mas, claramente, ela não havia se esquecido dele, pois continuou a tagarelar.
_ Sabe, eu sou uma Lady! – prosseguiu, sua voz esganiçada e estridente ecoando pelo ambiente amplo. – O mínimo que você poderia fazer era me ajudar a descer daquele barco velho e imundo...
Ele lançou um olhar reprovador para a senhora, indicando o enorme cachorro dormindo à frente deles. Se não estive em forma de cachorro, provavelmente teria retrucado e mandado-a calar aquela boca, antes que a dentadura caísse. Mas a velha não parou de falar, dizia-se desapontada e decepcionada com as atitudes dele e continuava reclamar. Será que ela tão gagá que não percebia o perigo que corriam?!
_ E você não deveria ficar assim feito um cachorro enquanto eu falo com você, é uma falta de respeito muito grande! – continuou, falando tão alto que fez o monstro começar a despertar levemente.
Antes que o animal acordasse por completo, Sirius voltou à sua forma humana e avançou sobre a velha, tapando-lhe a boca com a mão.
_ Você louca ou o quê? – perguntou, irritado, enquanto olhava para o cão colossal começando a despertar. – Se esse bicho acordar, estamos acabados!
_ Em primeiro lugar, caso você tenha esquecido, nós já estamos mortos... – retrucou, irônica, por entre os dedos de Sirius. – E, em segundo, se você estiver mesmo com tanto medo, eu tenho certeza de que posso fazê-lo dormir de novo...
_ Eu não estou com medo! – replicou, ofendido. Era óbvio que estava, mas não seria uma velhinha tarada e caquética que o faria admitir isso. – Só acho que seria melhor se nós passássemos sem acordá-lo... – explicou, amansando a voz e enfatizando a palavra "nós", o que, obviamente, fez os olhinhos da velha se acenderem.
_ E como é que você pretende fazer isso, garotão? – perguntou, mudando o tom de voz e caindo na jogada de Sirius.
_ Você acha mesmo que consegue mantê-lo dormindo?
_ É claro que consigo! Não houve uma só missa em toda a minha vida que os meus cantos no coral não fizeram alguém dormir! – gabou-se, para a surpresa do moreno.
"Missa"?! Aquela velha indecente e aproveitadora freqüentava igreja? E ainda cantava no coral? Talvez ele realmente estivesse ali só de passagem, já que certamente havia pessoas com problemas muito piores que os dele. Fosse qual fosse a culpa que ele ainda carregava não poderia ser pior do que a hipocrisia daquela mulher!
_ Ok... – ele concordou, exasperado demais com a situação para discordar. – Só o que eu preciso é que você cante para ele não acordar enquanto eu tento arrastá-lo para o lado... – explicou, ao mesmo tempo em que uma das três cabeças do animal soltou um leve rosnado.
O som de uma cabeça rosnando, ainda que adormecida, fez um arrepio percorrer a espinha de Sirius. E aquilo não era nada bom. Um membro da Casa do poderoso e destemido Gryffindor não deveria sentir-se assim. Mas era muito pouco provável que Godric tenha enfrentado um cão imenso de três cabeças guardando a porta do Inferno...
Antes mesmo que Sirius pedisse, a velha começou a cantar, fazendo sua voz aguda entoar cânticos de louvor estridentes e desafinados. Como aquela "cantoria" costumava fazer os fiéis da igreja caírem no sono, Sirius não soube explicar. Pois, na verdade, o efeito provocado foi exatamente o contrário. Depois de poucas notas esganiçadas, a cabeça do monstro que estava mais próxima da velha – e mais longe de Sirius – pareceu despertar totalmente, enquanto as outras duas ainda piscaram sonolentas.
O movimento das cabeças pegou Sirius desprevenido. Com a torturante cantoria da velha, logo as três cabeças estavam acordadas e chacoalhavam-se atordoadas devido ao barulho insuportável. Feições de extremo desagrado preencheram as faces monstruosas do animal, fazendo Sirius agradecer por realmente já estar morto. Certamente, seu corpo teria reagido involuntariamente, e de maneira bastante embaraçosa, diante da situação.
Mas, ao contrário do que o moreno imaginava, o animal não os atacou. Remexendo-se desconfortavelmente, o cachorro gigantesco parecia realmente incomodado e não era difícil imaginar o motivo: com três pares de ouvidos caninos aguçados, aquela cantoria deveria ser um verdadeiro martírio. Quando o animal começou a choramingar, chacoalhando as cabeçorras e uivando infeliz, Sirius agradeceu mentalmente por ter voltado à sua forma humana e realmente teve dó do pobre animal, que sofria visivelmente.
_ Ok, ok! – Sirius berrou, agitando os braços para tentar interromper aquela tortura auditiva. – Acho que ele não vai nos atacar! Pode parar de cantar!
A velha, que já tinha alcançado os versos finais da canção, decidiu que uma vez que tinha começado, deveria terminá-la e continuou cantando por mais alguns segundos, até atingir o "final apoteótico". Quando ela finalmente parou, Sirius desejou intensamente que ela não estivesse morta, só para ter o prazer de açular uma daquelas três cabeças para cima da velha.
O pobre animal parecia realmente aliviado com interrupção. As três cabeças traziam feições da típica felicidade canina, sempre impregnada de devoção e alegria como se tivesse acabado de rever os donos ou coisa do tipo. Sirius, apesar de confuso com o desenrolar da situação, sentiu uma forte compleição de afeto em relação ao animal, como se ele não passasse de um filhote brincalhão, carente e abandonado.
A velha também parecia sentir-se assim e aproximou-se do animal, esticando-se o máximo que suas pernas velhas e fracas conseguiam, para tentar tocar uma das cabeças e para fazer-lhe um pequeno e desajeitado cafuné. Entendendo a intenção da mulher, o animal abaixou a cabeça mais próxima da velha até uma altura em que ela pudesse tocá-lo sem esforços, enquanto as outras duas cabeças olhavam carentes e pesarosas por não receberem o mesmo tratamento.
Antes que Sirius conseguisse compreender tudo o que se passava ali, a cabeça do lado oposto também se abaixou, inclinando-se em direção a ele e deixando claro – pelo olhar pidão e choroso – o quanto gostaria de um agrado. Atônito, o moreno estendeu a mão e tocou a enorme cabeça do animal, sua mão espalmada era fazendo-o ronronar levemente de satisfação. A cabeça do meio lentamente abaixou-se e começou a lamber os próprios pés, num gesto claro de dolorida reclusão por não estar sendo acariciada também.
_ Hmm... ei, você ai do meio... – Sirius chamou, ainda incerto. Era surreal que ele estivesse sentido pena de um monstro que poderia facilmente engoli-lo sem esforço nenhum. – Vem aqui... – completou, ao ver os enormes olhos da cabeça do meio úmidos, como se estivesse prestes a chorar.
Com dificuldade e esforçando-se para esticar os braços, Sirius deu conta de acariciar as duas cabeças, enquanto a velha agradava a terceira. Logo o gigantesco animal balançava o rabo em sinal de felicidade, fechando os olhos e latindo com satisfação. Cada latido fazia Sirius estremecer levemente, não mais de medo, mas pela força do som amplificado pelo eco das paredes de pedra.
Mais alguns minutos e os braços de Sirius já estavam cansados da tarefa de acariciar as enormes cabeças do cachorro. Abaixando-os, ele resolveu fazer uma tentativa de passar, dando alguns passos em direção à passagem localizada atrás do animal. Ao perceber a intenção do moreno, o cão desviou-se mais para o lado da velha, liberando o quanto pôde da passagem até então bloqueada por seu corpo descomunal.
Vendo que o animal não o impediria de seguir em frente, Sirius decidiu que era hora de continuar. As duas cabeças que ele acariciara soltaram grunhidos entristecidos por verem seu "novo-melhor-amigo" ir embora. Ainda não acreditando na mudança surreal da situação em tão pouco tempo, o moreno cruzou o arco da porta cravejada de diamantes, finalmente entrando no Inferno.
Continuou caminhando, sem olhar para trás e ainda ouvindo ao longe o choramingar do animal. A paisagem à frente era diferente do primeiro vislumbre que teve do Inferno, quando Kerberus o tirara do imenso nada que era o limbo. O chão era ainda era rochoso, mas não mais incandescente, e, no lugar dos degraus irregulares – porém visíveis e discerníveis – de uma enorme escada, havia um semi-abismo, escuro e profundo.
Não havia outra margem para se atingir e nem escada para descer. Olhando para os lados e depois para cima, Sirius compreendeu que o caminho só podia ser para baixo, pois paredes enormes e completamente sólidas cercavam-no por todos os lados. Enquanto ele ainda refletia sobre isso, a velha o alcançou.
_ Você é mesmo um menino muito mal educado... – resmungou. – Eu demonstro os meus dotes artísticos para salvar a sua pele e você nem me agradece... – tagarelava sem parar.
Sirius preferiu ignorá-la mais uma vez. Novamente, tinha preocupações muito maiores do que pensar em algo desagradável para dizer e não perderia mais tempo discutindo com uma velha tarada e completamente gagá. A mulher continuou a falar, reclamando do tratamento que Sirius estava dando a ela e censurando-o por não aproveitar adequadamente o "enorme privilégio" da companhia dela.
_ Eu vou pular... – ele falou, interrompendo o irritante falatório. – É o único jeito de continuar...
_ Eu não vou pular! – guinchou em resposta. – Você está louco?!
_ "Em primeiro lugar, caso você tenha esquecido, nós já estamos mortos..." – ele repetiu, irônico. – E, em segundo, eu não falei nada sobre você vir junto... – retrucou. – Se você quer tanto uma companhia, volte lá fora e fique com aquele... sei lá o que aquilo é... mas tenho certeza de que ele vai adorar sua companhia eterna!!
_ Pois é isso que eu vou fazer! – respondeu, arrogante. – Além do mais Cerberus6 é um cachorro muito maior e mais carinhoso que você! – acusou, como se fosse uma verdadeira ofensa.
Sirius revirou os olhos, impaciente, nem se dando ao trabalho de perguntar o porquê dela ter chamado o cachorro por aquele nome estranho. Ele deu alguns passos à frente, aproximando-se da perigosa borda do abismo e preparando-se para saltar. Ao ver a total indiferença do moreno, que sequer olhou para ela, a velha deu meia-volta e seguiu, pisando firme e batendo o pé, indignada e ofendida com o desrespeito do moreno.
Considerando que, quanto mais esperasse, mais difícil seria, Sirius se afastou alguns passos da borda para pegar impulso. Respirou fundo algumas vezes para reunir coragem, enquanto ouvia a velha retornar ao local em que o cachorro estava. Ao começar a correr com todas as forças em direção ao abismo, Sirius achou ter ouvido um poderoso e furioso rosnado vindo da abertura. Quando ele finalmente se lançou na escuridão, pulando da borda, um grito agudo e aterrorizado preencheu o ar. Sem tempo nem interesse para pensar sobre aquilo, concluiu que talvez fosse apenas o som do vento passando rapidamente pelos seus ouvidos devido à velocidade da queda.
Nota:
6- Cerberus http(dois-pontos)/pt(ponto)wikipedia(ponto)org/wiki/Cérbero
