Capítulo V: Inferi

Sirius continuou caindo por alguns segundos. A cada mudança de nível o ar, ficava mais pesado e repleto de gases metálicos, fazendo Sirius respirar com cada vez mais dificuldade. Antes que o moreno pudesse realmente aproveitar a sensação de queda livre, ele colidiu com o chão extremamente úmido do novo nível. Este, ao contrário dos anteriores, não era ressecado e rochoso e nem tinha rachaduras liberando gases e magma a todo o momento. Estava, na verdade, alagado. Quando Sirius conseguiu ficar em pé, com alguma dificuldade por causa do terreno altamente escorregadio, a água chegava-lhe aos tornozelos.

Olhando curiosamente em volta para tentar absorver a nova mudança, Sirius constatou que se encontrava numa espécie de câmara arredondada, como uma caverna. As paredes altas eram rochosas e secas de uma cor escura como piche. Ele não fazia idéia do que o esperava ali, estava novamente sozinho e desorientado pela queda. A única luz era apenas uma nesga que vinha do alto e quase não se propagava na escuridão.

Sirius achava tudo ainda muito absurdo. Quando finalmente tudo aquilo faria sentido? A ansiedade começou a corroer por dentro muito mais do que os machucados e hematomas espalhados por seu suposto corpo. Embora ele soubesse que, na verdade, ele já não possuía mais um corpo, as dores pareciam reais e eram difíceis de ser ignoradas. Mas nem mesmo a dor era capaz de superar a crescente sensação de desespero que tomava o seu peito. Era como se ele soubesse que algo ou alguém o estava realmente esperando e precisando dele no fim daquela jornada insana e que cada minuto de atraso seria um minuto a mais naquele sofrimento infernal.

Andando com cuidado pelo chão irregular e escorregadio, ele tentou visualizar algum tipo de passagem. Tateando com os pés, buscou achar algum declive que indicasse uma porta ou coisa parecida, mas não achou nada parecido. Aproximou-se lentamente de uma das paredes, mas nem todo o cuidado foi capaz de evitar que ele se desequilibrasse, só não caindo por ter apoiado a mão direita na parede de rocha áspera. Mais rápido do que ele conseguiu compreender, em torno do local onde sua mão permanecia apoiada apareceu um arco branco e fulgurante, como se houvesse uma forte luz por trás da fresta de uma porta7.

A inesperada descoberta fez a ansiedade e a excitação de Sirius aumentarem ainda mais. Finalmente, depois de todo o azar até ali, alguma coisa estava dando certo para ele. Permanecendo com a mão direita espalmada na parede, Sirius levantou a esquerda para tocar a borda luminosa do arco, na tentativa de achar alguma maneira de fazê-lo se abrir. Porém, a pedra continuava rígida e imóvel, sem mostras de qualquer tipo de abertura. Tão repentinamente quanto apareceu, assim que Sirius afastou a mão direita do local onde estava apoiada para poder procurar com melhor por aberturas na pedra, o arco de luz sumiu, deixando a rocha mais nua e sólida do que antes.

A frustração de Sirius voltou, exponencialmente aumentada. Talvez sua sorte não tivesse mudado, afinal. Quanto finalmente ia descobrir a razão para tudo isso? Quando aquela sensação imensamente incômoda de estar muito atrasado para algo importante ia se dissipar? Ele sentia a importância dessa nova etapa, sabia que estava cada vez mais próximo e impacientava-se com sua própria demora e ineficiência. Como Kerberus dissera, alguém estava pagando por seus erros...

Esse pensamento acendeu uma leve luz na mente obscura de Sirius. A palavra "pagar" parecia repetir-se no fundo de sua mente, como se tentando revelar-lhe quase inconscientemente a resposta para suas dúvidas. Como se uma voz, etérea e distante, lhe sussurrasse: "Sim, você deve pagar". Ele soube que deveria pagar para passar, como em um pedágio. Para prosseguir, teria que deixar algo para trás.

Mais o que ainda existia com ele que pudesse valer alguma coisa? Não tinha mais o ouro dos bruxos, não tinha nem mesmo sua varinha. Estava ali, morto, já não sabia mais há quanto tempo, vagando por aquele inferno como um corpo indistinto, com muitos de seus sentidos humanos defasados. Um corpo ferido e machucado, mas que ainda sangrava como se hesitasse em abandonar sua humanidade.

Mais uma vez ele se surpreendeu. A resposta veio novamente de dentro de sua própria mente. Era isso que ele deveria deixar para trás: sua humanidade. Por isso a sensação crescente de ansiedade e de excitação. Porque estava perto, muito perto. Agora tinha certeza de que era através do arco de luz que estaria a pessoa que procurava e que, antes de atravessá-lo, precisaria deixar para trás o pouco que lhe restava de si mesmo, de seu antigo eu que ainda existia. Para receber o perdão, deveria libertar-se do corpo pecador.

Instintivamente, Sirius abaixou, tateando com ambas as mãos a água fria sobre o chão. Poucos segundos de procura foram necessários para que ele encontrasse o que buscava: uma lasca de pedra bem afiada. Levantou-a brevemente na altura dos olhos e, antes que a idéia pudesse parecer mais insana do que tudo pelo que ele já havia passado até então, passou-a pela palma da mão, com força.

Como uma faca afiada, a pedra rasgou a pele da mão de Sirius, fazendo brotar do corte um jorro de sangue vermelho escuro. Com uma determinação que ele próprio não conseguia compreender de onde vinha, espalmou a mão ensangüentada na parede e esperou. Um segundo depois, o arco fulgurante reapareceu e a rocha, alimentada lentamente pelo sangue que corria da mão de Sirius, começou a sumir. O arco de luz começou a engrossar, como se corroesse a pedra da parede da caverna e, depois de mais alguns segundos, sumiu completamente.

Junto com a parede de caverna, sumiu também toda a luz. O arco talhado na rocha era uma abertura para uma absoluta escuridão. Depois de alguns passos para dentro da passagem recém aberta, ele encontrou-se à beira de um grande lago negro, tão vasto que era impossível enxergar o lado oposto, numa caverna tão alta que o teto também era impossível de se ver. Uma luz verde e indistinta brilhava longe, talvez no meio do lago, refletindo-se na água imóvel abaixo. O brilho longínquo e esverdeado era a única coisa que quebrava a completa escuridão, mas seus raios pareciam não ter o alcance necessário para iluminar nada além.

Aos poucos, seus olhos começaram a se acostumar com a escuridão, que parecia ser mais densa que o normal. Embora a água permanecesse calma e imóvel, com certa dificuldade, Sirius reconheceu um pequeno barco parado à margem do que parecia ser uma pequena ilha localizada no centro do lago. E, para seu espanto, havia alguém desembarcando dele. A escuridão ainda era muito envolvente para que ele pudesse divisar quem era a pessoa, mas sons ecoavam pelas paredes de pedra e parecia que ela estava falando.

_ Mostre-me... – a voz dizia, tão longe e distorcida que Sirius não sabia se ela pertencia a um homem ou uma mulher – eu preciso saber exatamente o que ele fez... o que você fez...

Mas não havia mais ninguém lá. Quem quer que fosse, a pessoa falava sozinha, caminhando na pequena ilha do centro do lago. Sirius sentiu um enjôo forte quando a viu aproximar-se da luz; aquilo com certeza não era bom sinal. Algo lhe dizia que aquela luz não era boa coisa e que ninguém deveria aproximar-se dela.

_ Afaste-se! – Sirius gritou para o nada – Saia de perto da luz! – Ele berrou, angustiado por aquela pessoa desconhecida estar tão próxima daquela luz estranha.

_ Você deve trocar... troque e depois vá embora... não, não importa... vá embora e destrua-o! – a voz continuou a falar para seu companheiro inexistente.

Sirius tinha certeza de que o companheiro era imaginário, porque a cada momento sua visão acostumava-se mais e mais com a escuridão, e seus sentidos, antes adormecidos, agora pareciam aguçados. Com surpresa, ele se deu conta de que não sentia mais dores. Olhou para a mão que havia sido cortada tão recentemente, mas ela estava perfeita. Ainda mais perfeita do que estivera por muitos anos.

Suas unhas e dedos não continham um único traço do descarnado dos anos de Azkaban. Acompanhou o olhar pelo seu braço, não mais flácido e mal recuperado dos anos de subnutrição, mas sim forte e musculoso como fora há ainda mais tempo. Os ferimentos pelo corpo também não existiam mais, estavam todos curados, e Sirius sentia-se cada vez mais forte e rejuvenescido. Seu olfato também havia melhorado e agora ele sentia o forte cheiro de enxofre do lugar a queimar suas narinas. Mas foi a volta de sua audição, tão aguçada pelos muitos anos se transformando em um cachorro, que realmente chamou sua atenção.

_ Sirius... – ele ouviu alguém chamá-lo, fazendo seu desespero e angústia aumentarem ainda mais – não vá...

Agora ele sabia, pela voz e pelo que conseguia ver, que a pessoa era um homem. Não havia como tentar reconhecê-lo, mas ele com certeza o havia reconhecido. Ele estava agachado, cada vez mais próximo da luz, e Sirius conseguiu ver seus cabelos negros.

_ Prongs?! Harry?! – Sirius chamou, confuso. Tinha a certeza de que conhecia aquele rapaz de algum lugar, mas ainda não tinha conseguido identificá-lo.

_ Sirius, por favor... – o rapaz gritava, sua voz agora era estrangulada e assustada – não vá! Por favor!

_ Eu estou indo! – Sirius berrou com urgência.

Precisava chegar até aquela ilha, até aquela pessoa, fosse ela quem fosse. Sabia, no fundo do seu íntimo, que tudo terminaria se ele o salvasse. E só havia um jeito de chegar até lá: ele teria que nadar. Sem se preocupar com mais nada, ele saltou para o lago negro. A água estava congelante e arranhava sua pele rejuvenescida, enquanto ele nadava o mais rápido que conseguia, porém avançava lentamente pela imensidão de águas negras.

_ Não me deixe aqui sozinho! O que eles vão fazer comigo sem você aqui?! Volte, Sirius... por favor! – o tom suplicante naquela voz fez Sirius tentar nadar ainda mais depressa e ele sabia que estava prestes a reconhecer o dono daquela voz.

Ele continuou nadando, seus músculos recém-readquiridos gritavam com o esforço para se locomover na água gelada, mas havia algo mais naquela água do que apenas o frio. Ao olhar para baixo, ele viu que, na verdade, o que lhe arranhava a pele não era o gelo da água, mas mãos humanas submersas. Centenas delas, pálidas e translúcidas que tentavam agarrá-lo, arranhando-o a cada tentativa frustrada.

Para seu espanto, ele viu que havia braços também. E, depois, pessoas inteiras submersas naquela água medonha. Inferi. Eles o puxavam para baixo, tentando afogá-lo. Ele lutava e voltava à superfície, sorvendo o máximo de ar que conseguia, antes de ser novamente puxado para baixo. Havia cada vez mais deles ao seu redor, impossibilitando-o de respirar com freqüência e forçando-o a permanecer embaixo d'água. A falta de ar queimava os seus pulmões, mas não havia tempo para o pânico. Com um olhar rápido para o rapaz na ilha, Sirius viu que ele vinha em direção ao lago, rastejando pelo chão.

_ Água... eu preciso de água... – a voz agora era suplicante e agoniada.

_ Não! – Sirius berrou ainda mais alto, quando conseguiu emergir, chutando freneticamente os braços que tentavam agarrar-lhe as pernas – Afaste-se da água! Volte para a luz! Volte, volte!

Mas ele não o ouviu. Sirius, ainda nadando e lutando com o número cada vez maior de Inferi tentando agarrá-lo, subindo e descendo, quase se afogando e voltando a superfície, viu o homem aproximar-se da beira do lago e abaixar-se, colocando uma mão pálida na água e, após, levando-a até a boca. Esse parecia ser o sinal que os mortos-vivos estavam esperando. Muitos deles, com exceção daqueles que tentavam a todo custo manter Sirius afastado da ilha, rumaram para a margem. Impotente e angustiado, Sirius observou várias mãos brancas e molhadas saírem da água, agarrando o rapaz e puxando-o para dentro da água.

Sirius respirou fundo, dando aos seus pulmões um pouco do ar que lhes estava sendo negado até então, e mergulhou, tentando a todo custo se aproximar da margem da ilha, que ainda estava muito longe. Embora os Inferi ainda tentassem atrapalhar seu progresso, agarrando e arranhando-o, ele lutava e nadava continuou nadando. Ao abrir os olhos embaixo d'água, ele finalmente reconheceu, chocado, o rapaz. "Regulus". O som não saiu quando ele abriu a boca para falar, e mais água fria e cortante entrou por sua garganta, sufocando-o.

O choque de ver seu irmão o paralisou por alguns segundos, a água penetrando em seus pulmões e nublando seus pensamentos. Regulus parecia frágil e desacordado, sendo manipulado como uma boneca de trapos pelas mãos enrugadas dos Inferi. Mas algo estava errado: eles não o estavam arrastando para o fundo como tentaram fazer com Sirius. Eles o estavam levando de volta, desacordado, para a margem.

Sirius emergiu novamente, respirando com dificuldade e expelindo toda a água para fora. Seus pulmões queimavam ainda mais, seu cérebro ainda em choque. Regulus? Por que diabos tinha passado por tudo aquilo por Regulus? Por que não podia ter a chance de reencontrar Prongs ou Harry, em vez do irmão? Por que, entre tantas pessoas no mundo, tinha que escolher exatamente aquela que o fazia se sentir mal por ter deixado a Mansão Black? A urgência de encontrar as respostas para aquelas perguntas foi o que o fez nadar ainda mais rápido ao encontro da ilha.

A distância estava sendo vencida lentamente, devido à resistência dos Inferi. Ainda confuso e desnorteado pela presença de Regulus ali, Sirius viu o irmão ser levado por aquelas mãos mortas e enrugadas de volta a superfície, e a idéia de elas estarem tocando seu corpo frágil e indefeso provocou em Sirius um espasmo de nojo e ódio. Embora ainda não soubesse o motivo, estava claro que era Regulus quem ele deveria salvar e esta idéia lhe causou um forte aperto no peito que nada tinha a ver com a falta de ar. O que ele tinha feito a Regulus?

Agora que estava cada vez mais perto da ilha, ele constatou que o lugar era, na verdade, um amontoado de pedras pretas e lisas, como se polidas propositalmente para refletir a luz verde, que parecia cada vez mais forte, posicionada no centro. A luz, ao contrário do que ele imaginava, não vinha de uma lanterna ou coisa parecida, mas sim de um estranho recipiente largo feito de pedra – como uma bacia – equilibrado sobre um pedestal.

Antes que ele pudesse se perguntar o que poderia haver dentro da bacia de pedra para emitir tal luz, ele viu os Inferi jogarem casualmente o corpo inerte e desacordado de Regulus dentro do pequeno barco ancorado à margem da ilha. Ainda tentando aproximar-se da ilha, Sirius viu, segundos depois, Regulus levantar-se e desembarcar. Com passos trôpegos e olhos baços, o jovem Black saiu do pequeno barco e imediatamente começou a falar.

_ Mostre-me, Kreacher. – Regulus pediu, num tom urgente que deixou Sirius ainda mais confuso. Primeiro Regulus, e agora Kreacher?! – Eu preciso saber exatamente o que ele fez e o que ele mandou você fazer... me conte tudo! – ele pediu, ainda mais urgentemente.

Sirius esperou ver o pequeno elfo doméstico que ele tanto odiava – principalmente depois que o maldito havia enganado Harry e colocado o garoto em risco mortal –, nada mais o surpreenderia agora, mas a criatura não apareceu. Regulus continuou falando sozinho, exatamente como Sirius o vira fazer da outra margem do lago minutos atrás.

_ Ele trouxe você até aqui e então o fez beber daquela poção? É isso, Kreacher? – Sirius ouviu Regulus perguntar, no mesmo tom cuidadoso, e até amável, que o irmão sempre usava para se dirigir ao elfo, mesmo ele não estando realmente ali.

Quantas vezes Sirius o havia repreendido por isso, dizendo que o elfo não merecia tanta cortesia? Mas o garoto sempre alegara que o elfo era um bom serviçal e que seria inteligente saber lidar com ele... Lembrar-se de como Regulus sempre fora tão educado e cortês só aumentou o desespero de Sirius para chegar logo à margem. Mesmo sabendo tudo o que o irmão tinha se tornado depois que ele tinha saído de casa, era impossível não se preocupar com ele agora que o via em iminente perigo.

_ Ok, então você bebeu toda a poção... – Regulus continuou falando, após uma breve pausa, na qual supostamente Kreacher deveria estar, em sua alucinação, respondendo – é, eu sei, Kreacher, sei que foi ruim... muito ruim, eu sei... Me desculpe por isso... mas você tem que me ajudar agora... Me conte o que o Lord das Trevas fez depois que você bebeu a poção.

Sirius estava cada vez mais perto da margem, mas cada vez menos o que ele via e escutava fazia sentido. O que Voldemort tinha a ver com tudo isso?! A compaixão que Sirius sentia pelo irmão segundos antes diminuiu um pouco quando ele concluiu que aquilo deveria ser uma das missões como Death Eater. É claro que ele já ouvira falar que Regulus havia sido o Death Eater mais jovem a se juntar a Voldemort, quando tinha apenas 16 anos, mas sempre achou difícil imaginá-lo matando e torturando pessoas inocentes como os outros faziam com tanta facilidade.

Apesar da pose de filho ideal para os padrões dos Black, Sirius sabia que Regulus nunca fora adepto de violência e, embora valorizasse o sangue puro e tivesse ido para Slytherin, ele não era nem de longe cruel e desalmado como os Death Eaters eram, sendo a maldita Bellatrix o maior exemplo de todos. Não era de se admirar que ele não tivesse agüentado a pressão das missões e, segundo constava, tivesse sido morto por tentar desistir...

_ Certo, Kreacher... não, não se preocupe, eu não vou fazer você beber a poção, não se preocupe... – a voz de Regulus soava quase doce enquanto ele parecia tranqüilizar o elfo imaginário, e o que quer que ele estivesse fazendo ali não impedia Sirius de querer salvá-lo, de querer tirá-lo dali, de sentir-se compelido a ajudá-lo... – Preste atenção, Kreacher. Isto é muito importante e é uma ordem...

Sirius, ainda nadando e lutando contra os Inferi, sentiu o que restava do seu ar sumir ao ouvir aquilo; Regulus nunca dava ordens. Ele sempre soubera falar com o elfo de maneira a conseguir o que queria, na hora que queria, sem nem ao menos precisar mandar, apenas pedindo... Com certeza o que estava por vir era algo muito sério.

_ Eu vou bebê-la... não, Kreacher, me escute! Isso, fique calmo... – Sirius estava certo, era sério. Aparentemente, o elfo imaginário estava relutante em fazer o que ele pedia e, pelo que ele se lembrava dos anos vividos na Mansão Black, o elfo tinha verdadeira adoração por Regulus – Eu vou bebê-la e, quando a bacia estiver vazia, você deve trocar os medalhões. Você estendeu? Troque os medalhões e depois vá embora, é uma ordem, Kreacher! – o tom de voz doce foi substituído pelo angustiado. Obviamente estava sendo difícil para ele fazer o que quer que ele estivesse planejando – Não, não importa o quanto é ruim, é o que eu vou fazer...

A mudança no tom de voz de Regulus fez Sirius se apressar ainda mais. O desespero e ansiedade fizeram seus músculos se moveram com mais força e rapidez, tentando libertar-se das mãos pálidas e decrépitas que tentavam afogá-lo. Se Kreacher não queria que Regulus bebesse da tal poção, então Sirius sabia que deveria impedi-lo. A margem ainda estava consideravelmente longe, e Regulus parecia simplesmente não ouvir nada que Sirius dissesse, preso à própria alucinação, sempre caminhando em direção a perigosa luz verde.

_ Depois que você trocar os medalhões, vá embora e destrua-o! Entendeu? Faça tudo o que você puder... você deve ir para casa e destruir o medalhão, Kreacher... – agora Regulus dava instruções num tom de voz inconfundivelmente autoritário, de forma que, se o elfo realmente estivesse presente, ele não poderia escapar da obrigação de fazer o que ele lhe estava pedindo – Esta é a única maneira de parar o Lord das Trevas, o único jeito de permitir que, depois, outras pessoas possam derrotá-lo... – ele completou tristemente, tirando uma taça das vestes e mergulhando na bacia.

Mais uma vez o cérebro de Sirius entrou em choque. "Parar Voldemort?" Regulus estava ali, prestes a fazer algo que, aparentemente, Kreacher teria dado a vida para impedir, para "parar Voldemort"? Ou melhor, para dar a possibilidade de alguém, depois, poder derrotá-lo. Uma onda de culpa e arrependimento percorreu o corpo semi-submerso de Sirius e, por alguns segundos, os Inferi levaram a melhor sobre ele, conseguindo afundá-lo. Depois de lutar e chutar mais um pouco, ele conseguiu se livrar das mãos mais próximas e continuou avançando em direção à ilha.

_ Eu estou bem, não precisa se preocupar... – tranqüilizou Regulus, depois de beber uma taça cheia da poção verde e tornando a enchê-la – Não é tão ruim assim... Você só deve me manter bebendo, – ele bebeu a outra taça e a mergulhou na bacia novamente – depois trocar os medalhões e então ir embora... – instruiu, ao levar a terceira taça aos lábios.

Mesmo afastado, Sirius via a luz da bacia diminuir a cada taça que Regulus enchia. Depois da quarta taça, Regulus precisou apoiar-se na beirada do pedestal, visivelmente abalado e fraco, mas nem assim parou de encher as taças e levá-las à boca, apesar das mãos trêmulas. Quanto mais Sirius se aproximava, mas ele via o quanto a poção estava fazendo mal a Regulus, e isso o impelia a nadar e lutar ainda mais, avançando nas águas geladas por entre o mar de mãos raivosas.

Agora Regulus estava quase caído no chão, sua voz não tinha mais o tom urgente e autoritário, havia apenas o desespero. Ele balbuciava coisas que Sirius, ainda dentro da água – embora cada vez mais próximo –, não conseguia distinguir. Toda a convicção havia desaparecido, mas ele continuava a levar a taça vazia à boca, mecanicamente, uma vez que não tinha mais forças para levantar o braço acima do pedestal e enchê-la com o líquido da bacia.

_ Sirius... por favor... – a voz de Regulus soou mais alta e clara, ecoando pelas paredes da caverna – não vá, Sirius! Por favor! – ele reconheceu as mesmas palavras que havia ouvido na outra margem do lago, o mesmo tom de voz estrangulado e assustado – Não me deixe aqui sozinho! O que eles vão fazer comigo sem você aqui?! Volte, Sirius... por favor!

Mas havia algo ainda mais sobre aquelas palavras. Sirius sabia que já as tinha ouvido antes de chegar até ali. Até mesmo muito antes de morrer. Aquele mesmo tom suplicante, aquelas mesmas palavras. Regulus estava numa posição estranha, entre sentado e caído, no chão, seu rosto meio escondido para a distância e a direção em que Sirius estava. Mas o moreno sabia exatamente qual era a expressão no rosto do irmão. Sabia que havia lágrimas escorrendo dos olhos cinza – baços de desespero e angústia –, marcando uma enxurrada pelo rosto alvo do garoto.

Descuidado pela lembrança que as palavras de Regulus haviam suscitado, Sirius foi mais uma vez puxado para baixo. Quanto mais próximo da ilha ele estava, mais as mãos se esforçavam para impedi-lo de chegar até lá. Novamente, foram necessários muitos segundos para que ele se recuperasse e conseguisse voltar à tona, respirando com dificuldade e expelindo dolorosamente a água fria e negra pela boca.

Quando olhou novamente para Regulus – ainda em sua posição meio sentado, meio caído –, e seu cérebro finalmente conseguiu voltar a funcionar na velocidade normal, ele sentiu-se confuso com tudo aquilo. Por algum motivo que Sirius desconhecia, a ilusão do irmão que incluía Kreacher e a estranha missão sobre Voldermort havia sido substituída pela lembrança do dia em que ele tinha ido embora do número 12 de Grimmauld Place. Da mesma maneira como antes Regulus parecia certo de que estava falando com o elfo doméstico minutos antes, agora ele revivia a partida do irmão mais velho, com toda a dor e a agonia, como se fosse real.

Aquela visão era ainda mais perturbadora para Sirius. Tal lembrança sempre fora para ele um misto de emoções: a alegria, alívio e felicidade por finalmente conseguir sua tão desejada liberdade dividiam-no com a tristeza, a culpa e uma pontada de arrependimento por deixar Regulus, a única pessoa por quem ele tinha alguma consideração naquela casa, para trás, à mercê de todas as loucuras que a doutrina dos Black impunha cruelmente aos seus membros.

Naquele dia, tantos anos atrás, por breves segundos, ao ver Regulus ali tão frágil e desesperado, Sirius quase desistira de ir para casa de James. Teria desistido só para ficar com Regulus e ter a oportunidade de levá-lo junto, de convencê-lo a ir com ele, mas fora egoísta a ponto de não se permitir pensar nisso. Sabia que, se ficasse, não sairia mais, mesmo que simplesmente não agüentasse mais aquela casa. Com facilidade, convenceu-se de que Regulus ficaria bem, que ele, de um jeito ou de outro, pertencia àquele mundo e àquela casa... àquela família.

_ Água... eu preciso de água... – a repetição da voz suplicante e agoniada de Regulus chamou novamente a atenção de Sirius, tirando-o daquelas lembranças incômodas.

Atordoado com as lembranças e com a falta de sentido de toda aquela repetição, Sirius continuou tentando chegar até a margem, ainda lutando com o exército de Inferi que tentavam cada vez mais afundá-lo. Quanto mais ele se aproximava, mais mãos e braços tentavam impedi-lo de prosseguir e, ainda que não pudessem realmente "matá-lo afogado", a sensação de afundar e não poder respirar era horrível e dolorosa.

Quando voltou mais uma vez à tona, expelindo grande uma quantidade água, ele viu Regulus se aproximar lentamente da beira do lago. Trôpego e visivelmente desnorteado, ele se abaixou, colocou a mão pálida na água e a levou, tremendo, até a boca. Antes mesmo que acontecesse, Sirius sabia o que viria a seguir.

Como um filme se repetindo, ainda que agora num ângulo muito mais próximo, Sirius viu os Inferi, com exceção daqueles que tentavam impedi-lo de se aproximar, rumarem em direção a Regulus. Tão impotente quanto e ainda mais angustiado que na primeira vez, ele assistiu os muitos pares de mãos brancas e molhadas saírem da água e puxarem Regulus, confuso e indefeso, para dentro da água.

Ele não precisou submergir para saber o que acontecia embaixo da superfície, apesar da escuridão da água. Sabia que Regulus, frágil e desacordado, estava novamente sendo levado para a margem. A idéia daquelas mãos pútridas tocando o corpo cansado e indefeso do irmão fazia Sirius sentir ainda mais ódio e nojo daquelas criaturas infernais. E, exatamente como antes, poucos segundos depois, os Inferi emergiram o corpo mole e desacordado de Regulus, jogando-o de volta no pequeno barco ancorado à margem da ilha de pedras.

E, então, com um estalo, Sirius compreendeu. Tudo estava se repetindo porque Regulus estava preso naquela espécie de alucinação, revivendo aquela agonia infinitas vezes sem conseguir distinguir a realidade. Sem compreender que já estava morto e que tudo aquilo não passava de uma série de ilusões de sua mente atormentada por antigas memórias.

A verdade atingiu Sirius com muito mais força do que qualquer soco ou golpe dos Inferi. Da mesma maneira como a alucinação em que Regulus relembrara sua partida do Grimmauld Place era uma memória real e idêntica ao que tinha acontecido, assim deveria ser o restante dela, a missão de Kreacher com Voldermort e a tentativa de Regulus de derrotar o antigo mestre que, obviamente, lhe causara a morte...

Com seus músculos reforçados pela nova compreensão, vencendo a barreira de Inferi que o agarravam e tentavam, cada vez mais inutilmente, impedi-lo de chegar ao irmão, Sirius ainda nadava freneticamente, quando visualizou Regulus sair do barco com passos trôpegos e olhos baços.

_ Mostre-me, Kreacher. – Regulus repetiu, no mesmo tom urgente de todas as outras vezes. – Eu preciso saber exatamente o que ele fez e o que ele mandou você fazer... me conte tudo!

A cada nova repetição, Sirius nadava ainda mais. Agora que estava tão próximo, nem todos os Inferi juntos conseguiriam pará-lo. Não agora que ele finalmente sabia o que deveria fazer e porque estava ali, quando tinha compreendido o mal que causara a Regulus ao abandoná-lo na Mansão dos Black e o quanto julgara mal o irmão por tantos anos, considerando-o um fraco e traidor.

_ Ele trouxe você até aqui e então o fez beber daquela poção? É isso, Kreacher? – Sirius o ouviu mais uma vez, quando as pontas de seus pés tocaram o solo depois de muito tempo nadando. Alguns Inferi ainda agarravam suas pernas e pés, mas, com um pouco mais de esforço, ele conseguiu continuar se movendo.

_ Ok, então você bebeu toda a poção... – Regulus continuou falando, enquanto os pés de Sirius procuravam apoio no chão escorregadio do lago. – É, eu sei, Kreacher, sei que foi ruim... muito ruim, eu sei... Me desculpe por isso... mas você tem que me ajudar agora... Me conte o que o Lord das Trevas fez depois que você bebeu a poção...

Aos poucos, o terreno abaixo dos pés de Sirius foi subindo e subindo. Logo a água lhe batia na altura do peito, em seguida um pouco acima da cintura. Mesmo com a quantidade de Inferi aumentando a cada passo que dava, ele não desistiu nem retrocedeu um único centímetro.

_ Eu vou bebê-la... não, Kreacher, me escute! Isso, fique calmo... – Sirius já estava com água pouco acima do joelho quando ouviu Regulus falar, com a mesma mistura de docilidade e agonia na voz. – Eu vou bebê-la e, quando a bacia estiver vazia, você deve trocar os medalhões. Você entendeu? Troque os medalhões e depois vá embora, é uma ordem, Kreacher!

O moreno sabia, agora mais do que nunca, que tinha de impedir o irmão de chegar à bacia e beber do que quer que tivesse lá dentro. Já tinha sido doloroso demais reviver aquelas lembranças e não queria ver Regulus suplicar-lhe, mais uma vez, para não ir, para não abandoná-lo...

_ Esta é a única maneira de parar o Lord das Trevas, o único jeito de permitir que, depois, outras pessoas possam derrotá-lo... – ele completou tristemente.

Sirius, na tentativa de sair totalmente da água, acabou escorregando nas pedras lisas e molhadas enquanto assistia, angustiado, o irmão mergulhar a taça na bacia pela primeira vez. Os Inferi que ainda lutavam contra ele se aproveitaram da queda para tentar puxá-lo de volta. Mas moreno continuou, chutando e se arrastando, agora com ainda mais força e determinação.

Regulus encheu a segunda taça e continuou a falar, "Eu estou bem, não precisa se preocupar... Não é tão ruim assim... Você só deve me manter bebendo, depois trocar os medalhões e então ir embora...", enquanto levava a terceira taça aos lábios. A quarta taça fez o garoto precisar apoiar no pedestal, fraco e desorientado. Sirius sabia que, a qualquer segundo, o irmão iria voltar a chamar por ele e, lutando com mais raiva e desespero do que nunca, conseguiu se livrar do último par de mãos brancas e molhadas.

Ele correu até onde o irmão estava mergulhando a taça na bacia mais uma vez, e impediu que o líquido verde tocasse os lábios sofridos do garoto. Ainda que a quinta taça não tivesse realmente sido ingerida, as milhares de repetições daquela cena, durante tanto tempo, haviam condicionado Regulus e o efeito foi o mesmo. Suas pernas perderam o equilíbrio e ele só não caiu porque Sirius puxou seu corpo frágil e debilitado contra si, num abraço urgente.

_Sirius... – ele murmurrou, ainda preso na ilusão.

Nota:

7- Adaptado do capítulo "A Caverna", HP6, no qual Harry e Dumbledore vão até lá atrás da (falsa) Horcrux e do capítulo "A história de Kreacher", HP7, no qual Kreacher conta o que aconteceu com Regulus.