Capítulo IV: Reencontro
_Sirius... – ele murmurrou, ainda preso na ilusão.
_ Ah, Regulus! – ele suspirou, ainda agarrado firmemente ao irmão, como se soltá-lo pudesse fazer com que todo aquele sacrifício fosse em vão.
_ Não vá, Sirius... por favor! – repetiu, mais uma vez.
_ Sou eu, Regulus! Eu estou aqui... – falou, apertando desesperadamente o garoto em seus braços. De tão perto, Sirius sentiu-se ainda mais angustiado em ouvir novamente aquelas palavras. A dor do irmão parecia ainda maior agora que ele podia ver claramente o sofrimento nos olhos vagos e desfocados do rapaz.
_ Não me deixe aqui sozinho... – ele pediu, fraco e indefeso, com lágrimas brilhantes umedecendo os olhos cinza.
_ Eu não vou, Reg! Acabou, agora eu estou aqui... – Sirius insistiu, chacoalhando os ombros do irmão levemente, para tentar libertá-lo da alucinação.
_ O que eles vão fazer comigo sem você aqui?! – Regulus continuou, ininterruptamente.
_ Olhe para mim, Regulus! – Sirius suplicou, sua garganta fechada pela dor.
Vendo que o garoto não respondia nem dava sinais de estar ouvindo o que dizia, ele pegou o rosto do irmão entre as mãos, forçando-o a olhá-lo nos olhos. E o encontro dos dois pares de olhos cinza foi arrasador. Havia muita dor e desespero, ainda que por motivos diferentes, em ambos os olhares. Regulus revivia pela enésima vez o sofrimento da partida de Sirius, enquanto o irmão mais velho compreendia, finalmente, o peso de suas escolhas e atitudes.
Sua saída do Grimmauld Place havia deixado o garoto desprotegido e desamparado, totalmente a mercê dos ideais distorcidos e das péssimas influências da família Black. Sem sua presença lá, Regulus fora tragado para dentro do problemático e perigoso lado das Artes das Trevas, tendo sido, muito provavelmente, aliciado a se tornar o mais novo dos Death Eater, apenas para apagar a vergonha da deserção do filho mais velho.
Conhecendo bem a odiosa família Black como Sirius conhecia, não era difícil de imaginar a pressão que Orion e Walburga despejaram sobre o garoto depois de sua fuga. E Regulus definitivamente não fazia o gênero rebelde, para, seguindo o exemplo do irmão, contrariá-los e seguir seu próprio caminho. Mas nem de longe isso fazia de Regulus o covarde que por tantos anos Sirius pensou que ele fosse.
E a prova disso tinha se desenrolado, diversas vezes, bem à frente de seus olhos. A decisão de trair Voldemort, mas continuar próximo o suficiente para descobrir seus segredos mostrava um sangue frio muito maior do que Sirius poderia imaginar. Enganar Voldemort, conquistar sua confiança a ponto de, pelo que havia entendido, "emprestar" Kreacher para uma missão tão importante como a de testar as armadilhas que guardavam o tal medalhão.
Segundo tudo o que havia presenciado, Regulus havia sacrificado sua vida para dar a alguém a chance de derrotar Voldemort. E aquela atitude era muito mais concreta e corajosa do que as dezenas de batalhas que ele próprio, e a maioria dos membros da Ordem, tinham lutado contra Death Eater, sem nunca chegar, realmente, perto de destruir Voldemort.
_ Volte, Sirius... – ele balbuciou.
_ Ah, Regulus... Eu estou aqui. Olhe para mim... – ele suplicou, sua voz embargada por arrependimento e remorso.
_ Por favor... – implorou.
Sirius, ainda com o rosto de Regulus entre suas mãos, encostou sua testa na do irmão, olhando ainda mais profundamente dentro daqueles olhos vagos. Seus narizes estavam colados e por apenas milímetros seus lábios também não se tocavam. A respiração entrecortada pelo desespero de Sirius misturava-se com os soluços de desamparo de Regulus.
Com os polegares, Sirius tentou limpar as lágrimas que lavam o rosto do garoto, manchando sua pele alva. Os olhos dele continuavam desfocados, sem conseguir distinguir a ilusão repetitiva do rosto que tinha a frente.
_ Regulus! – Sirius exclamou, sentindo mais dor do que jamais sentira. Nem mesmo quando sua alma quase foi sugada por Dementors, ele tinha sentido tanto desespero. – Me desculpe... – pediu, fechando os olhos úmidos e cansados e soltando um suspiro agoniado.
_ S-Sirius? – a voz de Regulus, antes agoniada e sofrida, soou apenas confusa.
_ Eu estou aqui, Regulus, olhe para mim!! – insistiu, sem se dar conta da mudança.
_ O-o que aconteceu? Onde estamos? – o caçula perguntou, ainda mais confuso diante da resposta do irmão.
_Regulus?! Você está me ouvindo? – Sirius perguntou, num misto de surpresa e alívio.
_ Hã... sim... – respondeu, rindo da pergunta aparentemente tola do irmão. – Não deveria? – questionou, incerto, ao ver o brilho cansado e abismado nos olhos do outro.
Sirius não se deu ao trabalho de responder, apenas abraçou o irmão ainda mais forte. Como gostaria de ter feito muito tempo antes, ele apoiou a cabeça no vão do pescoço de Regulus, tentando agora confortar-se a si mesmo e não mais ao irmão. Com crescente alívio, ele inalou aquele cheiro doce e refrescante, que agora ele se lembrava de maneira tão forte e nítida que era como se nunca tivesse esquecido. Aquele abraço apertado e repleto de sentimentos, que deveria ter acontecido há tanto tempo, finalmente tinha se tornado real...
A respiração entrecortada do irmão em seu pescoço fez Regulus arrepiar-se e, pela primeira vez, tomar consciência plena do estranho cenário que os cercavam. Como uma enxurrada incontrolável, as memórias assolaram-lhe a mente e ele se lembrou de tudo. De quase tudo, na verdade, pois muitas lembranças estavam confusas e distorcidas...
Ele lembrava-se da nitidamente partida de Sirius, da dor e do sofrimento que o haviam preenchido quando se deu conta de que ele nunca mais voltaria e da raiva que nasceu com esses sentimentos; lembrava dos anos seguintes, da pressão dos pais para se alistar no exército de Voldemort e da clara consciência de que assim estariam em lados opostos da guerra...
Essas lembranças despertaram um pouco de ressentimento em Regulus, que tentou se afastar do irmão, inutilmente, pois Sirius ainda o apertava forte. Havia muita dor e raiva naquelas lembranças, mas o desespero na voz e no abraço de Sirius fez com que Regulus não se esforçasse para sair dali. Sem que o irmão precisasse dizer, ele sabia que aquele gesto era um pedido de desculpas infinitamente mais profundo do que palavras seriam capazes de expressar.
Quando chegou a essa conclusão, retribuiu o abraço com igual fervor e sentimento. Durante todos aqueles anos de separação, sentira tanta falta dele... A palavra "anos" se repetiu no fundo de sua mente, como se quisesse despertar mais lembranças. Quanto tempo teria se passado? Outras lembranças vieram num fluxo incontrolável: a Marca Negra em seu antebraço esquerdo; as primeiras missões; a raiva por ser obrigado a fazer tudo aquilo; a vontade de sair em conflito com a certeza de que morreria se tentasse...
Essas novas recordações trouxeram consigo a vergonha de se sentir um fraco e covarde. Lembrava-se bem até demais do ódio que sentia de si mesmo por não ser forte e corajoso como o irmão, que havia rejeitado tudo aquilo. Lembrou-se também da difícil decisão de ficar do lado das Artes das Trevas e da tola idéia de tornar-se espião...
Sabia muito bem que Voldemort também tinha espiões e, portanto, logo seria descoberto. Veio-lhe a dura consciência de que teria que fazer tudo sozinho, sem contar a ninguém, nem mesmo ao irmão. Teria que, mais uma vez, manter as aparências e seguir em frente, representando o papel que escolheram para ele. Mas havia a certeza de que, dessa vez, ele teria a chance de decidir o final...
Instantaneamente, ele reconheceu o local onde estavam. Lembranças ainda mais vívidas, dolorosas e sombrias surgiram em seu cérebro e ele tornou a arrepiar-se. Ainda apertado entre os braços de Sirius, para quem o tempo parecia estar passando diferente, como se fizesse apenas 2 segundos que tinha começado a abraçar o irmão, Regulus lembrou-se, finalmente, de tudo.
_ E-estamos mortos? – perguntou, confuso com a sucessão de lembranças e perguntando-se como Sirius teria chegado ali.
_ Sim... – respondeu, simplesmente, desapertando o abraço e olhando fixamente para rosto do irmão. – Quando eu morri, você já estava morto há dezessete anos... – tentou explicar.
_ "Dezessete anos"? – repetiu, surpreso. – Eu me lembro desse lugar, dessa ilha... dos Inferi... – falou, mais um calafrio percorrendo sua espinha. – Mas o que você está fazendo aqui?
_ Ora, não é óbvio? - zombou. - Vim salvar você... – completou, soltando sua risada tão característica e bagunçando os cabelos do irmão, como costumava fazer para aborrecê-lo quando eram crianças.
_ E demorou dezessete anos pra isso? – retrucou, também zombando. – Sorte minha não poder morrer, de novo, esperando... – riu. – Mas estou impressionado, não achei que você fosse durar tanto...
_ Bom, ficar em Azkaban por doze anos atrasou um pouco a minha vinda... – replicou, sarcástico.
_ A-Azkaban? – espantou-se. – Você ficou DOZE ANOS em Azkaban?
_ Eu era inocente, antes que você pergunte... – respondeu, revirando os olhos. – Mas isso é história para depois... quero sair daqui o mais rápido possível! – disse, finalmente soltando-se do irmão e levantando.
_ E como fazemos isso? – perguntou, aceitando a mão que Sirius estendeu para ajudá-lo a levantar. Suas pernas ainda estavam bambas e seus sentidos muito confusos.
_ Hm... boa pergunta! – respondeu, passando a mão pelos cabelos. - Esqueci de perguntar a Kero...
_ "Kero"? – repetiu, intrigado.
_ Pois não? – Kerberus respondeu com a voz meiga e suave de sua forma inicial de bichinho de pelúcia.
_ Como saímos daqui? – Sirius perguntou, sem rodeios, enquanto Regulus olhava curioso para o minúsculo animal voador.
_ Também é bom ver você novamente, Sirius Black... – retrucou. – Fico feliz por ter tido sucesso em sua jornada...
_ Hã... com licença... – Regulus interrompeu, educadamente, fazendo Sirius sorrir da sempre presente cortesia do irmão. – Mas quem é você? – perguntou, olhando-o desconfiado.
_ Ah, jovem Black... – sorriu, diante da possibilidade de apresentar-se devidamente. – Tente pensar em milênios multiplicados por eras infinitas e descobrirá a quanto o tempo que eu existo. Sou o elemento mais perpétuo e significativo de toda a existênc...
_ Ele é a Morte! – Sirius cortou, bruscamente. – Quando eu morri, ele disse que eu tinha mais uma tarefa a cumprir e me mandou até aqui sem nem me dar uma idéia do que poderia ser... – acusou.
_ Eu disse que você deveria salvar alguém... – Kero se defendeu.
_ É, disse... E isso foi realmente muito útil... – retrucou, irônico.
_ Você reclama demais, Sirius Black! – replicou, revirando os olhos. – O importante é que seu irmão está livre e vocês podem seguir em frente para o merecido descanso em paz... – lembrou, antes que o moreno voltasse a reclamar.
_ Então, por favor, será que você poderia nos tirar daqui? – Regulus interrompeu, ávido por sair daquele local que ainda lhe provocava más lembranças e arrepios.
_ Nem todos os Black são casos perdidos, afinal... – Kero respondeu, sorrindo.
E, antes que Sirius pudesse retrucar, os dois desapareceram, deixando para trás toda a dor e o sofrimento, rumando para o descanso eterno, juntos.
***
_ Satisfeita? – perguntou.
_ Sim... – sussurrou em resposta, ainda de olhos fechados, mas esboçando um leve sorriso.
_ E eu que pensava que só as suas irmãs gostavam de se meter com a vida dos mortais... – Kerberus acusou, voando com sua forma minúscula e indo pousar levemente no ombro de Átropos.
_ Bom, teoricamente, eu não me intrometi na "vida" deles... – a moira respondeu, calmamente. Sua voz era apenas um leve murmúrio. – Minhas irmãs gostam de bagunçar a vida dos mortais, escolhendo seus favoritos...
_ Achei que você não tinha "favoritos"... – ressaltou, surpreso, pois, desde sempre, Kerberus servia Átropos, a moira da Morte, e achava que a conhecia bem.
_ É certo que não me apaixono por eles como Clótos e Láquesis... Para mim, os mortais são apenas fios e meu trabalho é parti-los quando chega a hora... Mas como posso negar minha afeição por aqueles que de livre e espontânea vontade escolhem a morte?
_ Ah sim, os mártires... – ele entendeu. – E, tendo abraçado a Morte tão decididamente por uma causa que não viu concluída, seria mesmo injusto deixar o menino Black preso lá para sempre... – concluiu, sorrindo impressionado com a recém descoberta afeição da moira por mártires. Mesmo os seres mais antigos e, supostamente, imutáveis não estavam livres de sentimentos tão humanos como admiração e carinho...
_ Agora vá... – Átropos pediu, serena como sempre. – Eu tenho uma reputação a manter... – zombou, ampliando ligeiramente o sorriso, mas sem deixar que as irmãs vissem. – E também tenho trabalho a fazer... – finalizou, empunhando a tesoura dourada e abrindo os olhos.
FIM.
N/A: Ahh.... meu Merlin poderoso!! Nem acredito que acabei essa fic! O.o' E eu ainda tinha mais idéias para ela – que pretendo acrescentar assim que meu trauma de quase não conseguir entregá-la passar! – mas eu nunca ia conseguir fazer as cenas que eu queria, do jeito que eu queria... Então "encurtei" um pouco a fic – que ainda assim, está com mais de 30 páginas! :roll: – e fui direto para o final... =/ Mas foi realmente delicioso misturar a mitologia grega e outras referências para escrever essa história, que acabou como uma verdadeira colcha-de-retalhos! Huiaua Mas espero ter conseguido "costurar" bem as coisas e deixar a fic minimamente coerente!
Super agradecimentos à Just, mestra do Challenge, que por sinal é a única que consegue me fazer ter insônia literária e despertar em mim uma necessidade absurda de escrever... Super beijos, dear!! À Maf Black, que primeiro leu as linhas gerais dessa fic e palpitou sobre elas, me incentivando a não desistir da idéia abstrata e confusa que eu tinha no momento... ;D e também à Giuli Miadi Black, minha beta-toddynho, que topa qualquer loucura, me ajuda nos momentos de bloqueio mais terríveis, me elogia quando meu ego está lá embaixo e eu acho que está tudo uma bela m**** sem sentido e ainda arranja tempo de betar super em cima da hora para eu não ser desclassificada do Chall por atrasar o prazo... Thanks, flor! Por tudo!
Nota da Beta: Ah, cara... *seca uma lágrima* Essa fic foi um parto. E foi um prazer poder te ajudar a fazer ela sair. Porque eu simplesmente amei cada detalhezinho louco que vc inventava, e eu me diverti mais tentando arranjar MAIS um obstáculo pro Sirius do que eu imaginei. É uma pena, sim, ter sido preciso cortar uns pedaços. Mas eu sei que vc um dia vai terminar ela de verdade. E, quando isso acontecer, eu vou ver todos os seus planos loucos e maravilhosos na tela do meu computador. Muito obrigada, toddynho, por mais uma oportunidade!
Renard Delacour
2008-03-25 . chapter 1
Nossa, parabéns, tá aí uma coisa que eu nunca vi, muito criativa, muito bem bolada, transcorreu com perfeição, sem ser massante.
Já está favoritada.
e haa, só uma dúvida, até onde eu saiba as irmãs só tinham um olho e revesavam entre sí, eu me lembro disso, mas se eu estiver errada me corrija :)
=**
