PARTE II

Um ano passara como dias, rápido e sem grandes novidades. Lillian tornara-se um pouco mais sociável e trocava uma ou outra palavra com alguns poucos colegas. Malfoy, desde a conversa no salão comunal, não mais a procurara, e vinha muito estranho no novo ano letivo, como se os seus pensamentos estivessem sempre dispersos, muito longe de Hogwarts. Lillian fingia não reparar nesses detalhes, mas não conseguia mentir a si mesma. Um dia vira-o sumir dentro da Sala Precisa, e desde então passara a espreitar o lugar.

Com a mudança de comportamento, a curiosidade de uma vida inteira despertara em Lillian, e ela passava a ver e se deslumbrar com cada detalhe que antes lhe passava indiferente. Era essa uma desculpa que ela inventava para se autoiludir, para não assumir que estava preocupada com Malfoy e suas mudanças e sumiços. E também tentava não pensar que sentia a sua falta...

Um dia estavam ela e Georgina voltando para o salão comunal , rindo das ameaças de Umbridge e do castigo que ela recebera na Floresta ao final do ano letivo anterior. O sorriso de Lillian murchou ao avistar Malfoy em sua direção. Georgina parou de falar, e ergueu uma sobrancelha ao ver o rapaz passar como um raio, fingindo não vê-las. Entraram caladas no salão, e Georgina retomou a conversa no dormitório, ao ver que o rosto de Lillian começava a ficar um pouco mais triste que o de costume.

— Queria saber o que os centauros fizeram com ela em sua estadia na Floresta Proibida — dizia Georgina em um tom animado, enquanto despia as vestes — embora ela estivesse um tanto necessitada, eles eram muitos.

Os olhos de Lillian dilataram-se de espanto ao descobrir que a amiga tinha também as pernas marcadas por cicatrizes profundas.

— E você sabe — ela prosseguiu, sem se dar conta do que se passava — pelo que falam por aí sobre cavalos, não deve ter sido fácil.

Lillian reparou ainda que as cicatrizes se estendiam pelas costas, braços, colo e barriga da garota. O seu corpo inteiro era marcado por cortes.

— Se bem que centauros são orgulhosos — ela disse, agora procurando a toalha de banho — acho que não seriam capazes de violentar alguém como Umbridge. Por Merlin! — Vou tomar banho e tentar esquecer essa conversa, Lillian. Estou com medo de acabar sonhando com isso.

— Está bem — ela assentiu — vou pensar nos detalhes da estadia de Umbridge na Floresta e te digo quando você voltar.

— Isso é maldade.

Georgina deu dois passos e parou, voltando-se para a amiga.

— E antes que você me pergunte, ou fique sem graça de perguntar e morra com a curiosidade, eu consegui esta vasta quantidade de cicatrizes em um acidente de carro nas férias de Natal do quarto ano. Veículo trouxa, sabe? Isso que dá tentar entender o mundo deles. Vassouras são bem mais seguras, acredite.

E desta feita realmente partiu para o banheiro. Lillian, que tinha certeza quase absoluta que aquelas cicatrizes eram resultado das punições de Umbridge, se admirou com a justificativa acerca do acidente de carro. Não conhecia a fundo o veículo trouxa, e depois do que ouviu, sentiu menos vontade ainda de conhecer. Apesar de que Georgina poderia, muito bem, subverter a real origem das cicatrizes por vergonha de assumir que fora tão castigada pela antiga professora. Mas esses pensamentos não perturbaram Lillian por muito tempo, uma vez que a imagem de Draco em sua direção invadiu-a sem pedir licença.

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Após aquele incidente, Malfoy só se fez mais estranho. Sem se dar conta disso, Lillian começou a segui-lo, e muito sutilmente. Com seus passos leves e movimentos muito bem estudados, Draco jamais percebia que estava em seu encalço.

Em um tarde fria de domingo, não longe do Natal, cismou Lillian que Malfoy entrara no castelo com um semblante muito suspeito. Estava ela andando com Georgina no jardim, e esta comentava o tempo frio. Lillian, que já não desprendia muita atenção à conversa, parou de ouvi-la completamente ao avistar o rapaz.

— Eu volto logo, Georgina.

E saiu sem perceber que a amiga a olhara com uma expressão intrigada, em seguida dando de ombros e se colocando a fitar o Lago Negro.

Lillian entrou no castelo e seguiu Malfoy discretamente, como das demais vezes. Misturou-se entre os outros alunos ao subir as escadas, e ao chegar ao sétimo andar, esgueirou-se nas paredes, sempre com um andar cauteloso. Mas ao ver que Draco atingira a Sala Precisa, da qual ela apenas havia ouvido falar, distraiu-se e esqueceu de se esconder quando ele olhou à sua volta, para inspecionar se ninguém o estava seguindo. E qual não foi a sua surpresa ao dar com Lillian! A garota ficou paralisada, como se a houvessem petrificado. Seria inútil correr, inútil e desagradável. Antes que pudesse abrir a boca para se justificar, o sorriso de Malfoy a desarmou.

— Está me seguindo, Lillian?

— Não — ela disse imediatamente — só estava passando por aqui, coincidentemente.

— Sabe que não acredito em coincidências?

Ele deu mais três voltas em frente à porta ali materializada, murmurando algo que Lillian não conseguiu ouvir. Ela pretendia sair de lá o mais depressa possível, mas a curiosidade enraizou-a ao chão.

— Venha — falou o rapaz de forma imperativa, puxando-a para dentro da sala antes que ela pudesse contestar.

Tratava-se de um ambiente circular, pequeno e tépido, a despeito do lado de fora do castelo. Apenas uma poltrona mais ou menos larga e uma mesa de pernas curtas faziam a decoração da sala. Lillian olhou à sua volta assombrada.

— Então isso realmente pode tomar a forma que a pessoa quiser? — indagou mais a si mesma do que a Malfoy.

— Dependendo da sua necessidade — ele respondeu — para a nossa, por exemplo, esta poltrona é mais do que suficiente.

— Eu não vejo porque uma poltrona atenderia às minhas necessidades, mas já estou de saída.

— Não, não está — e puxou-a pelo braço — será que não podemos esquecer o passado?

— É fácil pra você.

Encostou os lábios aos da garota, e ela não se esquivou.

— É muito mais difícil do que você pensa — sussurrou — porque eu fui o culpado.

— Então assuma a sua culpa e se conforme.

Os gestos de Lillian contradiziam as suas palavras, porque ela se deixou levar por Malfoy até a poltrona. Ele posicionou-a sobre si e rapidamente ergueu-lhe a saia, repetindo os gestos e os movimentos que fizera em Hogsmeade, naquele dia tão remoto. Ela se entregou ao desejo, mesmo que a razão lhe dissesse o oposto, e, tremendo de prazer, entre um gemido e outro, agarrou os cabelos do rapaz e beijou-o sofregamente, enquanto ele se movimentava dentro dela, com um misto paradoxal de ternura e violência.

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Lillian entrou no dormitório e fechou-se na cama de dossel, agradecendo que Georgina ainda não estivesse de volta, então não precisaria dar satisfações acerca de seu rosto banhado por lágrimas. Arrependia-se, odiava-se por se entregar daquela forma. O perfume de Malfoy em seu corpo a incomodava, como se ainda pudesse senti-lo. Arrancou, então, o uniforme com raiva e abraçou-se às pernas. Chorou, cerrando os olhos e os dentes, sentindo a mácula em seu orgulho. Odiava-se. Odiava-o.

Ignorando completamente o que ocorrera na Sala Precisa, Lillian, na manhã seguinte, sequer olhou para o rosto de Malfoy, e esquivou-se quando ele lhe foi falar.

— Eu pensei que estivesse perdoado — ele disse em seu encalço, à caminho da sala de Transfiguração — porque ontem...

Ela acelerou o passo, obrigando-o a praticamente correr para alcançá-lo.

— Lillian...

Nada. Ela entrou na sala e sentou-se ao lado de Georgina, que fitava tristemente a mão mais danificada por cicatrizes.

— Maldito acidente — Lillian comentou, buscando qualquer assunto para se livrar do pensamento em Draco.

Georgina suspirou.

— Já foi pior. À época ficou tão feio que ninguém queria chegar perto de mim. Uns poucos riam, mas a maioria me olhava temerosa. Bom, depois veio o caso de Digorry, e todos se esqueceram de mim.

— Eu nunca reparei. Na verdade, eu não costumava reparar em nada.

— Melhor para você. Não era nada bonito, sabe? Bom, ainda não é, mas está bem melhor. Felizmente tenho apenas uma no rosto — e indicou a bochecha esquerda, atravessada diagonalmente por um talho avermelhado, que ia da altura dos olhos até perto dos lábios — se bem que é bastante grande. Bom, o máximo que me acontecerá agora é nunca arrumar um namorado. Mas eu não me importo muito com isso, não.

— Que besteira, Georgina! É claro que você vai encontrar alguém que não se importe com as suas cicatrizes.

— Que homem sentiria prazer ao se deitar com uma mulher cujo corpo é inteiramente marcado por cortes?

Aquela conversa remetera Lillian às lembranças do dia anterior, e ela balançou a cabeça discretamente, visando desvencilhar-se dos pensamentos.

— Mas como eu disse — Georgina prosseguiu — não tem importância. Já me abstive desses desejos.

Lillian agradeceu por McGonagall entrar na sala e pedir silêncio, e ela, então, não ter de responder. Involuntariamente virou-se para o lugar que Draco geralmente ocupava e não o encontrou. Seu coração acelerou desagradavelmente, mas ela tentou prestar atenção à aula e não obteve nisso nenhum sucesso.

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Havia meses do último encontro de Lillian e Malfoy, e este se tornava cada vez mais sombrio. Além disso, o desespero era visível em seu rosto, e Lillian não era ingênua o suficiente para acreditar que tamanho transtorno se dava por sua causa. Havia algo mais grave por trás daquela perturbação.

Era quase hora do jantar, mas ao invés de se encaminharem ao Salão Principal, Lillian e Georgina subiram para o sétimo andar, à procura de McGonagall. As garotas, que haviam perdido a última aula de Transfiguração, precisavam das instruções para o próximo trabalho e não confiavam muito nos colegas, uma vez que ambas já haviam sido motivo de chacota um dia. Não seria nada bom arriscar que fossem outra vez. Deu-se que não encontraram nem sombra de McGonagall no salão da Grifinória.

— Vamos pelo sexto andar — sugeriu Georgina — conheço um atalho bom para chegar ao Salão Principal sem ter de passar por essas escadas idiotas que ficam mudando de lugar e sumindo degraus.

Lillian deu de ombros, o que significava que a sugestão de Georgina fora aceita. Iam as duas conversando pelo corredor do sexto andar.

— Para mim aquele grifinório maldito mentiu — comentou Lillian, cuja voz não era mais que um sussurro cansado — McGonagall provavelmente estava no salão comunal.

— Ou o outro grifinório maldito mentiu, o que nos deu a informação de que ela estaria lá.

Ao dobrar o corredor, a discussão foi interrompida por um barulho de vozes alteradas e coisas se partindo, que vinha de um dos banheiros. As garotas se entreolharam confusas e correram para lá.

O cenário era o de uma verdadeira batalha: Pias e azulejos partidos, e a água que esguichava das torneiras e encharcava o banheiro. Harry Potter e Draco Malfoy duelavam, e o fantasma da Murta-Que-Geme gritava histericamente.

SECTUMSEMPRA!

— POTTER, NÃO!!!

O grito de Georgina foi inútil. O sangue espirrou do rosto e do peito de Malfoy como se ele tivesse sido cortado por uma espada invisível. Ele recuou, vacilante, e caiu no chão inundado, espalhando água e deixando cair a varinha da mão direita frouxa.

Harry precipitou-se para Malfoy ao mesmo tempo que Georgina, e ambos ajoelharam-se ao lado do garoto, um de cada lado. Lillian assistia a tudo atônita, como se fora atingida por um Petrificus Totalus.

— Eu não queria — disse Potter com uma voz falhada que quase não lhe saía da garganta — eu juro... Não sabia para que servia esse...

— Cala a boca — Georgina censurou, enquanto segurava a mão de Draco sobre o peito. Ele tremia convulsivamente.

Murta gritava a palavra "crime" repetidas vezes.

— CALA A BOCA VOCÊ TAMBÉM, FANTASMA!

Por trás de uma Lillian paralisada, surgiu Snape, que adentrou o banheiro como um raio, por pouco não derrubando a garota, que sequer se deu conta disso. Empurrando Potter com violência, ele tomou o seu lugar ao lado de Malfoy.

— Sectumsempra — Georgina sibilou.

Ele olhou para a garota com um olhar de compreensão e em seguida retirou a varinha, passando-a sobre os profundos cortes causados pelo feitiço de Harry, murmurando um encantamento que parecia uma canção. Georgina levantou cuidadosamente e recuou para onde Lillian ainda estava parada. Potter, ao seu lado, parecia igualmente imóvel. Após executar o contra-feitiço pela terceira vez, Snape ajudou Malfoy a se levantar. O rapaz, embora conseguisse andar apoiado no professor, estava exangue e tinha no rosto uma expressão vazia e débil.

— Dê ditamno a ele — sugeriu Georgina, enquanto amparava a amiga pelos ombros.

— Não me dê instruções, Linton — respondeu Snape secamente — sei o que fazer.

E saiu levando Malfoy à ala hospitalar, mas não antes de ordenar a um Potter aterrorizado, que o esperasse exatamente onde estava.

Lillian permaneceu em silêncio todo o caminho até o salão comunal. Haviam perdido o jantar, e mesmo, obviamente não sentiam fome. Manifestou-se apenas quando ela e Georgina adentraram o dormitório vazio, e esta principiou a despir a camisa que sujara com o sangue de Malfoy.

— Você parecia conhecer o tal feitiço — ela disse com uma voz tão fraca que ameaçava se extinguir a qualquer momento — pelo jeito como falou com Snape.

Georgina assentiu.

— Eu estudei exaustivamente por todos esses anos de Hogwarts, e devo dizer que Feitiços sempre foi a minha matéria favorita. No entanto, eu não me lembro desse.

— Porque não é ensinado nem em Defesa Contra As Artes das Trevas. Isso é magia negra avançada.

— Harry Potter não me parece alguém que tenha contato com magia negra.

— Isso também muito me intriga. Mas pela cara dele, era óbvio que não conhecia o feitiço. Na certa leu sobre ele em algum lugar, e, no calor da batalha, acabou por utilizá-lo em Malfoy.

Lillian sentou-se à cama e assumiu novamente o seu ar de estátua.

— Mas não se preocupe — prosseguiu a outra — o risco de morte já passou. Ele apenas ficará na ala hospitalar para se restabelecer.

— Eu não estou preocupada — mentiu.

Após uma noite inteira em claro, Lillian decidiu pisar em todo o seu orgulho e visitar Malfoy na ala hospitalar pela manhã. Não estava convencida de que, após perder tanto sangue, ele realmente poderia estar bem. Com uma permissão meio contrariada de Madame Pomfrey, ela adentrou a ala, que exalava éter. Visualizou Draco adormecido à última cama, ao lado da janela. O rosto estava pálido como nunca, e os lábios descorados. Tinha o peito nu, coberto por faixas, e curativos no rosto. Lillian se aproximou e notou a respiração dificultada e a languidez no semblante. Foi tocada por um sentimento de ternura e compaixão, que a levou a afagar-lhe os cabelos cuidadosamente. Mas nem toda a cautela foi suficiente para que ele não acordasse. Draco abriu os olhos e fitou Lillian com certa curiosidade. Ela quis retirar a mão, mas ele a segurou.

— Só assim para ter você por perto — ele sussurrou com uma voz fraca e um sorriso apagado — acho que vou pedir para o Potter me azarar todos os dias.

— Não diga besteiras — ela repreendeu, mas não pôde negar que também sorria, ainda que muito mais discretamente.

— Fico feliz que esteja aqui. Pode não acreditar, Lillian, mas gosto de você de verdade.

— É, eu não acredito.

— Você não quer acreditar.

— Você está certo, não faço a mínima questão.

— Se eu morresse ontem, morreria sem obter o seu perdão?

— Provavelmente.

— Então não é de bom tom que você me perdoe agora? Sabe, eu ainda estou hospitalizado, e o meu caso é imprevisível.

Desta feita, Lillian quase sorriu.

— Acho que você precisa descansar — ela disse se afastando — e já constatei que você está melhor do que eu imaginava. Então tenha um bom dia.

— Não, Lillian, espera...

Ela não esperou, mas partiu com o coração mais aliviado, o que não durou muito tempo. Logo depois se deu conta, com uma certeza incômoda e devastadora, que não só se importava com Malfoy, como necessitava tê-lo por perto. Saber que não o veria nas aulas dos próximos dias, fê-la sentir um vazio imenso no peito. Impreenchível.

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— Adoro final de ano letivo — comentou Georgina enquanto vestia o pijama — acho que estamos todos precisando de férias.

— Porque você não tem tios insuportáveis. Trocaria, de bom grado, as férias por uma maratona de aulas de Poções ouvindo Slughorn falar sobre todos os bruxos influentes que conhece.

E riu. Georgina acompanhou-a, mas bastante intrigada.

— Caramba, Lillian — observou, sentando-se à cama — você fez uma piada. Estou percebendo algumas boas mudanças em você. Posso sugerir o motivo?

— Se vai falar de Draco Malfoy...

— Bom, eu ia falar sobre aulas de Poções, mas já que você insiste... Como é que vocês estão?

Lillian riu novamente.

— Nós não estamos, Georgina.

— Você não tornou a falar com ele desde o dia do incidente no banheiro?

— Mais ou menos. Respondo a algumas perguntas, e só.

— Quer parar de ser durona? Ele já está bastante arrependido da besteira que fez, e, convenhamos, Malfoy parece ter amadurecido bastante desde aquele dia.

— Que bom para ele.

— Ora, Lillian, não perca tempo. Aceite-o, seja feliz com ele. Deve ser tão bom amar e ser correspondido...

O semblante repentinamente triste de Georgina não passara despercebido.

— Você gosta de alguém, Georgina?

— Não, eu não — respondeu, corando até a raiz dos cabelos — já disse que me abstive desse tipo de sentimento.

— Eu não vejo motivo para tal.

Mas quando Georgina abriu a boca para responder, uma garota do quarto ano adentrou o dormitório, lívida e desesperada.

— Tragédia... — ela disse, parecendo que desmaiaria a qualquer momento.

— Que tragédia? — indagou Georgina alarmada, erguendo-se da cama.

— Snape...

A garota levou a mão ao peito, e tanto pareceu que não se manteria de pé, que Lillian se levantou e foi auxiliá-la, mas Georgina se recusou a sentar. A quartanista, então, alarmou-se ainda mais, e praticamente gritou:

— Snape matou Dumbledore.

Não se pode dizer que Georgina ficou aliviada, mas esta segunda notícia parecia um pouco melhor do que a primeira. Ainda assim, era bem horrível.

— Isso não é possível — ela disse, tendo recuperado a voz e o fôlego, com a mão ainda sobre o peito.

A voz da quartanista pareceu desengasgar, e ela disse apressadamente todas as coisas de que tinha conhecimento sobre o momento em Hogwarts:

— Estão travando uma batalha aí fora. Comensais, alunos... Tem gente machucada para todo o lado. Eu estou com medo.

E começou a chorar. Georgina pediu que a garota sentasse à sua cama e procurasse se acalmar.

— Snape está fugindo com Malfoy e outros comensais — desabafou.

Então, Lillian que até o momento parecera quase impassível, alarmou-se também, embora não demonstrasse como as outras duas. Apanhou as duas varinhas na mesa de cabeceira e puxou Georgina pela mão, e esta sequer teve tempo de calçar os chinelos. Atravessaram a porta do salão comunal e ganharam as masmorras. Correram em silêncio pelo imenso corredor lúgubre, até atingirem as proximidades do saguão de entrada. Lá foram surpreendidas por comensais e tiveram de revidar algumas dezenas de feitiços. Quando finalmente ganharam os jardins, esquivaram-se de feitiços e pessoas, e continuaram a correr na direção do fogo, que depois reconheceram vir da cabana de Hagrid. Respirando com muita dificuldade, as garotas puderam divisar Harry, que duelava — ou tentava duelar — com Snape. Mais à frente, estava Malfoy com uma expressão desolada. Lillian correu ao seu encontro.

— Mas o que está acontecendo? — indagou aos gritos, para que pudesse ser ouvida em meio à confusão.

— Eu preciso ir — ele disse com uma voz trêmula e apressada — e não sei se tornarei a vê-la. Por favor, diga que me perdoa.

Em questão de segundos, voltou à mente de Lillian a terrível imagem de sua infância, de ver mortas as pessoas que amava. Seria possível ou mesmo justo perder a parte que conseguira reatar de seu amor? As lágrimas caíram, não discretas como de costume, mas desesperadas, como o choro de uma criança. Segurou as mãos de Draco entre as suas pelo pouquíssimo tempo que lhes restava.

— Eu já lhe perdoei há muito tempo — balbuciou — e não quero que você vá embora.

Uma lágrima solitária correu pelo rosto pálido de Malfoy, e ele foi obrigado a soltar a mão de Lillian, porque Snape o puxara, levando-o para fora dos limites de Hogwarts. Lillian o viu aparatar e fechou os olhos, sabendo que provavelmente não o tornaria a ver.

— Acabou — sussurrou, mas não ouviu a própria voz.

Quando mais resignada, enxugou as lágrimas e pôs-se a procurar a amiga, encontrando-a perto de Potter e Hagrid. Georgina estava inclinada sobre Canino, o cão de caça do semi-gigante, e murmurava alguns encantamentos sobre os ferimentos e queimaduras que o animal sofrera quando estava dentro da cabana em chamas. Hagrid, ora ajudava Harry a extinguir o fogo, ora agradecia Georgina, com lágrimas enormes enroscando-lhe na espessa barba.

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Georgina jogou-se sobre a primeira poltrona que avistou ao adentrar o salão comunal, e gemeu de cansaço. Na poltrona à sua frente, estava uma Lillian que não escondia mais as lágrimas.

— Que horror! — exclamou Georgina, fitando as próprias mãos mais marcadas que de costume — Dumbledore morto, que horror! Sabe o que isso significa? Que Você-Sabe-Quem exercerá domínio absoluto sobre Hogwarts, já que a única pessoa a quem ele temia está morta. E Snape — ao proferir tal nome sua voz descera uma oitava — eu nunca poderia supor tal traição. Não, isso só pode ser um pesadelo muito extenso.

Mas Lillian nada ouvia. Todos os seus pensamentos, sentimentos e reflexões estavam na provável última vez que vira o rosto de Draco, naquela lágrima que o maculara. Como se sentia derrotada e desafortunada. Injustiçada.

— E agora? — indagou Georgina — O que é que nós iremos fazer?

— Nada — foi a única resposta de Lillian.

E ela estava certa. Nada havia a ser feito, ou desejado, ou esperado. Nada.