PARTE III

Hogwarts definitivamente não era mais a mesma. Uma boa parte dos alunos deixaram de frequentar a escola, e no Salão Principal ao começo do ano letivo, as mesas estavam vazias e silenciosas. Ao sentar-se ao lado da amiga e olhar à sua volta, Lillian sentiu-se fora do lugar, como se fosse transportada para ali enquanto dormia, e ao acordar, assustou-se por não estar em sua cama.

— É triste ver McGonagall abrindo o banquete de início do ano letivo — desabafou Georgina lançando um rápido olhar para a mesa dos professores.

— Você não está sentindo falta de Dumbledore — Lillian falou com uma voz que ia sumindo cada vez mais.

Georgina não entendeu — ou fingiu. Ao invés de responder, olhou à sua volta com um ar pesaroso. Lillian imitou a amiga, com uma esperança intrínseca de que encontraria Malfoy em algum canto da enorme mesa. Como isso não aconteceu, ela balançou a cabeça e voltou à realidade.

A primeira aula do dia seguinte foi Defesa Contra as Artes das Trevas. Como os professores não haviam sido apresentados ao banquete, os alunos nutriam uma natural curiosidade. Todavia, quando o novo professor entrou na sala, todos se calaram imediatamente, uma vez que a sua postura e expressão eram um tanto ameaçadoras. Georgina tornou-se lívida.

Amico Carrow passou os olhos pela sala com um intenso desdém estampado no rosto, depois reconheceu alguns jovens e sorriu para eles, que lhe sorriram de volta. Georgina abaixou a cabeça, de modo que os vastos cabelos negros lhe cobrissem o rosto, e embora estranhasse aquela atitude, Lillian não questionou. Mas o seu esforço foi inútil.

— Linton — falou o professor em um tom ainda mais sádico e animado, aproximando-se da mesa das garotas.

Georgina não ergueu o rosto, mas também não tentou escondê-lo mais. Manteve-se exatamente como estava. Carrow pegou a sua mão entre as dele, quase carinhosamente.

— Como não reconhecer essas cicatrizes? — sussurrou — Castigo por brincar com artefatos trouxas, não é, meu amor? De qualquer forma, devo cumprimentar-lhe por seus pais, que estão fazendo um ótimo trabalho.

A garota nada falou, mas sabia que não fugiria das indagações da amiga mais tarde. E estava certa.

— Os seus pais são Comensais da Morte? — perguntou friamente, sem dar muitas voltas no assunto, enquanto elas faziam o caminho para a sala de Poções.

— São, mas eu não sou como eles. Por isso eu não gosto de voltar para casa nas férias, entende?

— Acho que sim.

— Não se afaste de mim, Lillian, não posso levar uma culpa que é de meus pais.

— É claro que não. E já que é segredo por segredo, eu lhe conto o meu. Matei o gato de Umbridge.

Georgina estacou.

— Como? — indagou assombrada — Com a mente?

— Sim. Desde que entrei em Hogwarts comecei a treinar um pouco de magia negra com livros que consegui fazer entrar ilegalmente em Hogwarts. Dessa forma, desenvolvi essa habilidade. Posso até matar pessoas, se quiser.

— Não estrague a sua vida com isso, Lillian.

— Só se eu precisar muito. De outra forma, não, uma vez que já me senti horrível por matar o gato.

— Nós não precisamos lutar como eles — Georgina sussurrou — podemos vencer de outra forma.

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Aquelas lágrimas derramadas à partida de Malfoy, exerceram um efeito deletério em seu coração. O veneno o corroia a cada manhã que ela acordava e se dava conta de que teria de suportar as lembranças, e nunca mais sentiria o calor daquele corpo que se encaixava tão perfeitamente ao seu. Todos os dias antes de dormir, ela pensava que era um dia que perdia longe de Malfoy, ao passo que desejava que seus dias se encurtassem, uma vez que não suportava mais o peso de tantas perdas.

Alguns dias passaram dessa forma. Arrastando-se lentamente por cada dia mais tumultuado que o anterior, porque Hogwarts se transformara num verdadeiro inferno. As aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas tornaram-se simplesmente Artes das Trevas nas mãos de Amico Carrow, e nas de sua irmã Aleto, Estudo dos Trouxas era uma espécie de apologia explícita à aversão. E no meio de tantas tormentas, para mais indignação de uma maioria esmagadora de alunos e professores, Snape voltou a Hogwarts como diretor, nomeado por Lord Voldemort.

— Isso é um absurdo — Lillian ouviu uma grifinória reclamar, enquanto entrava com a amiga no Salão Principal — como é que ele assassina Dumbledore e se torna seu sucessor?

— Quieta, Sue — aconselhou o amigo, igualmente grifinório — se ouvirem não será nada bom para você.

— Ainda não sei o que estou fazendo em Hogwarts — comentou Lillian — isto aqui está um verdadeiro inferno. A cada dia que acordamos não temos precisão de voltar a dormir à noite, com dois comensais no corpo docente e um terceiro comensal como diretor.

— Todo o nosso mundo está assim — foi a resposta de Georgina — e, francamente, acho melhor estar aqui dentro do que no meio da guerra.

— Como se a guerra não se estendesse até aqui...

— Em Hogwarts temos segurança.

— Que segurança, Georgina? Tínhamos quando Dumbledore era o diretor, agora com Snape e Você-Sabe-Quem no comando, você acha que estamos seguros?

Georgina suspirou, mas absteve-se da resposta.

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Ia alta a noite e Lillian andava pelo corredor escuro das masmorras. Ultimamente sentia-se sufocada pelo salão comunal e mais ainda pelo dormitório, então saía fugida para andar pelas masmorras. Nunca se atrevera a ir além, porque as normas disciplinares andavam muito mais rígidas em Hogwarts. Mas mesmo assim, ela se aventurava a sair da cama e vagar como um fantasma pelo corredor escuro. No dia em questão, estava tão imersa em seus pensamentos que só ouviu os passos quando eles estavam bem próximos. Sabia que, na melhor das hipóteses, tratava-se de Filch, e o zelador andava ansioso por fincar as garras em um aluno, qualquer que fosse, porque obtivera permissão para colocar em prática toda a forma de tortura que sua mente maligna arquitetasse. Nem um pouco desejosa disso, Lillian entrou na primeira sala destrancada que encontrou, e nela permaneceu bem quieta até que os passos de Filch e de sua inseparável Madame Norra — ao ouvir uns resmungos ela teve certeza de que se tratava do par — tornassem-se muito distantes, até sumirem. E então a garota executou o feitiço Lumus, e à luz da varinha reconheceu o antigo escritório de Snape.

— Olha onde fui me meter — murmurou — será que espero mais um pouco para sair?

Decidiu-se por esperar, de fato, e nesse ínterim observava tudo à sua volta, desde os frascos com poções ameaçadoras e pequenos animais mergulhados em formol, até um peculiar objeto de pedra, em formato circular sobre a mesa. Aproximando-se, Lillian reconheceu uma penseira, cujo conteúdo prateado ainda brilhava. Seu coração disparou de medo e ansiedade. Deveria arriscar uma olhadela? E se, já que a substância ainda brilhava, Snape estivesse por perto e voltasse a qualquer momento? E se ele estivesse, por exemplo, ali, em algum canto mais escuro, esperando que ela apenas agisse ilicitamente? Novamente o seu coração ribombou, desta feita por uma excitação que raramente lhe acometia: A da curiosidade inevitável. Não que lhe interessassem as lembranças de Snape, mas agiria da mesma forma frente à penseira de qualquer outro bruxo. E como aquela era uma sensação rara para Lillian, não conseguiu se conter, e antes que pudesse pensar outra vez, já estava mergulhando na substância prateada da penseira.

Dentro de algum tempo que não se pôde medir — já que o fator tempo em uma lembrança é diferente do real — Lillian estava em uma rua escura e deserta. Ouvia um cachorro latir ao longe e o ciciar de grilos, nada além disso. Procurou Snape, já que era uma sua lembrança, e o encontrou à porta de uma casa antiga, quando o barulho de suas batidas rompeu o silêncio da noite. A garota esgueirou-se para o seu lado e por lá permaneceu durante alguns segundos, até que a maçaneta girou e a porta se abriu. Com um espanto que a levou a exclamar algo ininteligível, reconheceu Georgina, uns poucos anos mais jovem e sem cicatrizes. A garota, que vestia um robe negro, assumiu uma expressão intrigada ao dar com Snape à porta de sua casa.

— Professor? — indagou, e a curiosidade brilhava em seus olhos, tanto quanto nos de Lillian, que assistia à cena.

— Georgina Linton — ele respondeu com a voz fria de sempre — desculpe-me o horário avançado, mas necessito falar com os seus pais.

— É urgente?

— Quase isso.

— Eu sinto muito, mas eles saíram há pouco. Bom, como está frio, se não se importa de entrar e esperar...

— Eles demoram?

— Não me disseram a que horário retornariam, mas como já tem mais de duas horas que saíram, creio que não tardem, ou pode ser que eu esteja enganada. De qualquer forma, entre e espere.

E Georgina abriu a porta, dando passagem para Snape e Lillian,que entrou logo em seguida.

— Sente-se — disse a anfitriã — toma um vinho?

Lillian aproveitou para reparar no espaço ao seu redor enquanto Georgina buscava a bebida. Tratava-se de uma sala grande, decorada por móveis muito antigos e quadros de bruxos que ela ignorava a origem, tão apáticos que se assemelhavam aos quadros inertes dos trouxas. Além disso, havia aqui e ali relógios e outras espécies de relíquias, algumas até um tanto ameaçadoras, como uma cabeça de alce empalhada e objetos que, pelo aspecto, só poderiam servir à magia negra. À estante, alguns livros que deveriam tratar deste mesmo assunto, e uns bonecos de porcelana de expressões muito vazias. A sala era toda iluminada por alguns candelabros presos às paredes, cujas velas bruxuleavam, fazendo tremeluzir os macabros objetos. Era tão assustador o cenário, que Lillian se sobressaltou ao ouvir a voz da amiga, que voltava com um cálice de vinho. Georgina pôs-se a conversar com Snape, e a garota se aproximou para ouvir melhor o que falavam.

— ...realmente gelado. Teremos um Natal penoso este ano.

— Apesar de que eu gosto do frio — Snape comentou, mexendo distraidamente o cálice em sua mão.

— Eu também gosto, é tão mais confortável.

Snape quase se sobressaltou com as badaladas do grande relógio ao centro da parede da sala. Lillian, sim, deu um pequeno salto para trás.

— Três horas — ele disse — estou lhe privando as horas de sono.

— Não se preocupe — Georgina respondeu, sentando-se no sofá ao lado dele — se é por uma boa conversa, não faz mal. Ademais, eu não tenho mesmo hora para acordar nas férias.

Ele quase sorriu, ou seria impressão de Lillian?

— Bom — continuou a garota — ao contrário de mim, os campeões do Torneio Tribruxo devem estar tendo férias cansativas, aproveitando-as para treinar.

— Provavelmente. As tarefas exigem muito esforço.

— Ainda não entendo como o nome de Harry Potter acabou naquele cálice. Não acha que há maldade por trás disso?

— Potter nunca foi boa coisa, não duvido que tenha dado um jeito de enfiar o nome no Cálice de Fogo para aumentar a sua fama.

— Não sei, não acho que ele seria capaz de tal coisa...

— É idêntico ao pai — havia nojo em suas palavras — tolo e arrogante.

— Diferente da mãe, não é?

Georgina tornou-se lívida, aparentando um arrependimento imediato pelo que acabara de proferir. Snape estudou-a cuidadosamente e tentou usar Legilimência, mas ela evitou-lhe os olhos.

— O que conhece de Lily Evans? — ele indagou, por fim.

— Muito pouco — a garota respondeu com uma voz sumida —apenas o suficiente.

— Não imagino como.

— É uma longa história, sabe?

— Estou com tempo para ouvir.

— Bem, foi nas férias de verão passadas. Duas semanas antes do regresso, meus pais decidiram passar alguns dias em Godric's Hollow, onde temos uns parentes que mal visitamos. Bem, o senhor sabe, é claro, que Lily e James Potter moraram lá, e que lá se deu a tragédia. Pois bem, eu estava um dia passeando pela cidade de bicicleta, aquele veículo que as crianças trouxas costumam usar, sabe? A minha tia de Godric's Hollow me presenteou com uma encantada, e...

— Eu sei o que é uma bicicleta — ele interrompeu impaciente — prossiga.

— Então, eu estava passeando pela cidade em minha bicicleta, e quando me dei conta, passava em frente à casa dos Potter, cuja fachada sustenta algumas frases de saudades e protestos contra Você-Sabe-Quem... Bom, não foi difícil de identificar, e uma vez em frente ao lugar, não resisti e decidi dar uma boa olhada por fora, quando percebi que uma das janelas estava aberta. O senhor sabe, nós adolescentes somos curiosos como coelhos, e não pensei duas vezes antes de me esgueirar janela adentro. E caí exatamente no local da batalha mais famosa do mundo bruxo, quero dizer, uma batalha injusta, é claro. Parei em frente ao berço que fora de Harry e não pude deixar de me emocionar. Coitadinho... Chorei por ele, chorei por Evans que morrera em seu lugar, mas em meio às lágrimas, consegui enxergar uma falha no papel de parede. É claro que eu não pude me conter e rasguei-o de uma vez, descobrindo uma portinhola secreta, afixada na parede, e que, para meu maior espanto, não estava trancada. Lá encontrei uns frasquinhos que reconheci como as substâncias que são lembranças, dessas que a gente vê em penseiras. Bom, o senhor provavelmente sabe o que é uma penseira, não é? Pois bem, eu recolhi a caixinha com os frascos e os escondi até que retornasse à minha casa. Aproveitei um dia em que meus pais saíram, e então, usei a penseira que pertence a eles para ver as tais lembranças. Uma boa parte era de James Potter e suas aventuras adolescentes e idiotas com Sirius Black, e... Bom, eu não gostei de muito do que vi, e passei a detestar Potter sem mesmo conhecê-lo. Dessa forma eu vi também as lembranças de Evans, e é por isso que eu conheço um pouco sobre ela.

Snape olhou para Georgina com um ar grave de preocupação. Lillian praticamente se petrificara, tão concentrada estava, afim de não perder nenhum detalhe.

— E o que é que você viu nas lembranças de Evans? — indagou Snape, cuja voz ia ficando mais ríspida.

— Eu acho que não vai querer saber...

— Eu quero, Georgina.

— Bem, perdoe-me a indiscrição, mas o senhor gostava dela. E isso é uma afirmação, não uma pergunta.

Ele ficara mais lívido do que os cabalísticos bonecos de porcelana à luz das velas.

— E que autorização tem a senhorita para se infiltrar em minha vida dessa forma?

— Não foi intencional, eu vi nas lembranças dela. Ainda gosta de Evans, não é?

Abruptadamente, ele se ergueu e deixou que o cálice de vinho propositalmente caísse de sua mão. Ficou a fitar Georgina com um olhar desprovido de sensatez, mas mesmo assim ela arriscou prosseguir.

— Não vale a pena, sabe? Primeiro porque ela está morta, segundo porque nunca gostou do senhor em vida, e terceiro...

— CALE A BOCA!

Não foi só Georgina que arregalou os olhos de espanto, Lillian também, em sua condição de espectadora.

— Eu não digo por mal, é que vi Lily desabafar com uma amiga em algumas lembranças, dizendo que não suportava mais tê-lo por perto, que você era desagradável e nunca a deixava em paz, e estava sempre em seu caminho quando ela queria ficar a sós com Potter, e...

ESTUPEFAÇA!

Lillian deixou escapar um grito muito breve quando Georgina foi lançada para fora do sofá, colidindo com a escada de mármore. Voltou rápido do estado em que fora estuporada, e olhou para Snape cheia de terror, enquanto este, por sua vez, a fitava com ódio e desprezo, através de um semblante ensandecido.

— Quer me matar — ela indagou com a voz trêmula — porque digo a verdade? Pois continuarei dizendo, porque ela não o merecia...

Ele riu de um jeito nervoso e assustador.

— E quem é que me merece? Você? Eu acho que não, porque ao que vêem os meus olhos, não passa de uma criança absolutamente insuportável e bisbilhoteira, que nunca terá um décimo da beleza ou da inteligência de Evans.

As lágrimas pesadas caíram dos olhos de Georgina, que esboçou um sorriso muito forçado.

— Ela era realmente bem inteligente e esperta — falou com a voz embargada — para sair com Potter e Black de uma vez, não é? Tendo os dois rapazes mais bonitos e populares da escola, para que haveria de querer um garoto exilado, de atrativos tão peculiares e minguados, sem falar no sangue-ruim? Era isso que ela pensava sobre você, e era isso o que ela sentia: Desprezo. Des-pre-zo.

SECTUMSEMPRA!

Lillian, dessa vez, gritou verdadeiramente, vendo Georgina cobrir o rosto com os braços, e tê-los talhados em cortes muito profundos. Olhou horrorizada para a vasta quantidade de sangue que lhe vazava pelos braços e mãos, e voltou-se para um Snape absolutamente transtornado.

— Agora eu entendo — murmurou com a voz tão trêmula quanto os braços — porque ela lhe chamava desprezível. Olhe para o que me fez... Covarde! Que culpa tenho de que seus amores nunca passaram de quimeras?

Por um segundo Georgina deu-lhe as costas e por ela foi apunhalada, urrando de dor e caindo de joelhos. O robe negro partira-se em vários pedaços desiguais, e as costas nuas foram inteiramente dilaceradas. Caiu de bruços e cravou as mãos ensangüentadas no tapete, tentando se erguer. E fora erguida, afinal, e sustentada pelos cabelos.

— Pode me matar — balbuciou — mas meu sangue não lhe limpará a vergonha de toda uma vida.

— Mas quando estiver no inferno, você se dará conta das consequências que sofrem as pessoas demasiadamente curiosas. Desagrada-me, Georgina, desagrada-me deveras a existência de alguém que conhece os meus segredos mais recônditos.

E largou a garota, que se apoiou no chão, resistindo a tudo aquilo bravamente. Ele tomou distância e mais uma vez murmurou o feitiço. Georgina teve o tórax também lacerado, mas desta feita a dor foi tão intensa que o grito não lhe saiu da garganta. Caiu de costas ao chão, tremendo convulsivamente. Lillian gritou a plenos pulmões, embora soubesse que não poderia ser ouvida. Lembrou de Malfoy em semelhante situação, lembrou de seus pais. Sabia que Georgina obviamente não morreria, mas sentia-se incapaz de conter o desespero.

Snape, por sua vez, como um louco, não perdoou as pernas da garota. Não teria paz enquanto não a visse embebida em sangue, e, de fato, estava ela deitada sobre uma grande poça, revirando os olhos nas órbitas. Ele se aproximou o máximo que pôde de seu rosto.

— Triste fim para uma garota tão graciosa — sussurrou, enquanto Lillian tentava inutilmente afastá-lo — aliás, que lindo rosto você tem.

E fez o único talho na face esquerda de Georgina, que não reagia mais à dor. Olhou com orgulho o trabalho pronto, como um escultor que admira a sua obra. E então, ela reuniu tudo o que restava de suas forças e agarrou-o pela capa, falando-lhe, em seguida, com a voz extremamente fraca e alterada, que milagrosamente ainda estava lá:

Que castigo tamanho e que justiça fazes no peito vão que muito te ama.

Embora não possuíssem nenhum efeito mágico, as palavras funcionaram como tal. De repente, Snape, que parecera possuído, assumiu uma expressão de arrependimento, como se não acreditasse no que acabara de fazer. Se Lillian não se aproximasse tanto quanto o fez, não teria sido capaz de ouvir estas palavras:

— Fui cego pelo ódio, Georgina, mas agora já está feito.

E se ergueu, dando as costas para a garota que jazia ao chão, quase inanimada. Chegou à porta, colocou a mão sobre a maçaneta e estacou, fazendo o caminho de volta e ajoelhando-se ao lado de Georgina. Murmurou o mesmo contra-feitiço que Lillian presenciara em Malfoy, só que muitas vezes mais. Ao término, com todos os cortes fechados e todas as cicatrizes presentes, Snape tentou erguer a garota, que caiu como uma boneca de trapos, tão fraca estava por ter perdido imensa quantidade de sangue. Com um cuidado que não se podia acreditar vir da mesma pessoa de não mais que meia hora atrás, ele envolveu Georgina com a própria capa, e ia ergue-la nos braços, mas irromperam pela porta da sala, um homem e uma mulher. Esta gritou desesperadamente, jogando-se de joelhos ao lado da filha, e aquele sacou a varinha e apontou-a diretamente ao Snape.

— O que é que você fez à minha filha, desgraçado?

— Não — balbuciou Georgina, entre os braços de sua mãe e de Snape — não foi ele, papai. Três estranhos adentraram a casa, dizendo que os esperaram sair para cumprir em mim uma vingança. Cortaram-me o corpo inteiro com magia desconhecida, mas felizmente Snape estava aqui e conseguiu fechar os cortes, antes que eu morresse. Ele tentou lutar contra os malfeitores, mas foi imobilizado.

Lillian reparou que a expressão fria do Sr. Linton tornou-se atormentada, enquanto a mãe não cessava nunca de chorar.

— Vingança? — ele repetiu — Mas quem...

— Não importa, John — a mulher interrompeu — precisamos levá-la ao Saint Mungus.

— É claro. Vamos, vamos!

John Linton tomou a filha nos braços e pôs-se em marcha, mas não antes de agradecer a Snape por tê-la salvado.

Lillian ofegou de ódio, e o teria tentado atacar — mesmo tendo consciência da inutilidade desse ato — se não fosse puxada para fora da lembrança.

— Acredita que é a segunda vez que isso me acontece? Que graça vocês veem na penseira alheia?

De volta ao escritório de Snape, Lillian, sentindo ainda muitas vertigens, não experimentava nenhuma sensação de medo ou constrangimento ao ver-se frente ao próprio.

— Pérfido! — exclamou, recuando — Vil! Covarde!

Ele sacou a varinha.

— Vai me retalhar também? — o ódio se estampava cada vez mais no rosto de Lillian, e lágrimas desse mesmo teor umedeciam-lhe as faces — Ou vai me matar como fez com Dumbledore? Vamos lá, eu também estou desarmada, a minha varinha se encontra aí na mesa ao seu , já que é só assim que você sabe lutar. Covarde!

Mas ele não a azarou, fazendo um esforço sobre-humano para se conter.

— Fora daqui, Hazel — exigiu, indicando-lhe a porta.

Ela apanhou a varinha sobre a mesa e fez o caminho até a porta, mas não saiu.

— E saiba que por sua culpa ela terá para sempre uma existência solitária, porque nenhum homem ficará com ela após descobrir aquelas cicatrizes. Ela te amava, e você a desgraçou completamente.

Em um tom mais de desabafo que de conversa, ele, fitando o chão, deixou que as palavras saíssem:

— Ela deve saber que eu a amo sem me importar com tais detalhes. Que eu a amei a partir daquele desgraçado dia.

Lillian riu.

— Não, você não é capaz de amar alguém. Você é um monstro, Snape.

E saiu como um raio. Seria capaz de azarar Filch se ele aparecesse à sua frente, mas felizmente não precisou fazê-lo, e chegou ao salão comunal em segurança. Ao adentrar o dormitório, encontrou Georgina lendo em sua cama, e de um jeito que lhe era pouco usual, arrancou-lhe o livro sem aviso prévio.

— Você não sofreu nenhum acidente de veículo trouxa.

Georgina sorriu e olhou para a amiga com curiosidade.

— Como é?

— E não adianta mais mentir, porque acabei de vir do escritório de Snape, e tive acesso às lembranças dele.

— Como é que você...

— Não me pergunte nada, escute apenas. Era por isso que você conhecia Sectumsempra, não? Todas essas suas cicatrizes são resultado desse feitiço maligno. Não, Georgina, não negue,que eu vi. Eu sei que não deveria me meter com a vida alheia, não faz o meu feitio, mas já que comecei, vou até o fim. Como pôde mentir para os seus pais e não denunciá-lo? Snape deveria estar em Azkaban desde então, o que evitaria os últimos acontecimentos! Como pôde ser tão cega, Georgina? Ele quase a matou, e você abaixou a cabeça e ainda o defendeu! Ele é um monstro, Georgina!

— Foi um acesso de raiva — ela respondeu com a voz trêmula, ao lembrar com terror do fatídico dia — ele não queria realmente fazer aquilo.

— Um acesso de raiva? Eu vi tudo, e ele estava completamente sádico, porque é isso que ele é! Olha o resultado disso tudo, todas as cicatrizes que ele lhe deixou!

— Já disse que não me importo mais, Lillian, mas obrigada por se preocupar comigo.

— Eu não só estou preocupada, mas furiosa! Nunca vi nada tão horrível em toda a minha vida! Acredite, foi pior do que ver os meus pais e meu irmão mortos.

— Lillian...

— Isso não pode continuar dessa forma, ele não deve sair ileso.

— Eu não guardo mágoas dele, Lillian, acredite. O erro também foi meu, que provoquei. Por favor, se é minha amiga, esqueça essa história, está bem? Será muito melhor para mim.

Lillian ofegou e sentou-se à cama, recobrando o ar.

— E o patife ainda tem coragem de dizer que te ama!

Georgina levantou com uma velocidade quase humanamente impossível.

— O que você falou?

— Ele disse que te ama, mas é claro que não é...

— Ele falou isso? Como?

— Disse que te ama desde o dia em que quase te assassinou.

— Eu não acredito...

— É, nem eu.

E Georgina jogou-se à cama, com um sorriso imenso. Não parecia, de maneira alguma, que a amiga acabara de lhe relembrar o momento mais horrível de toda a sua vida. Lillian meneou a cabeça negativamente e fechou o seu cortinado. Deveria esquecer aquela história, já tinha seus próprios — e demasiados — problemas.

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As coisas só pioravam em Hogwarts com o passar do tempo, e logo a escola se parecia muito com um campo de treinamento de Comensais da Morte. As aulas de Artes das Trevas (que antigamente costumavam chamar Defesa Contra as Artes das Trevas) exigiam absurdos dos alunos, como azarar os próprios colegas com feitiços perigosíssimos, para fins de estudo.

Lillian havia resistido bravamente a todo aquele terror, até Amico Carrow exigir dela mais do que era possível: Pedira que a garota amaldiçoasse a amiga com Cruciatus.

— Eu não vou fazer isso — ela disse resoluta.

— Ah, você vai — falou Carrow com um sorriso maníaco — e não se preocupe, que Georgina Linton foi treinada para ser comensal.

— Não interessa, não vou fazer.

— É melhor obedecer, Lillian — Georgina cochichou.

— Não, eu não vou me tornar igual a ele. Até prefiro que...

— Acompanhe-me, Srta. Hazel — falou o comensal muito mansamente.

Carrow tomou a dianteira, saindo da sala. Lillian sequer hesitou, seguindo-o porta afora. Os demais alunos ficaram paralisados, temendo até o simples ato de respirar, exceto Georgina.

— Carrow — ela chamou, correndo na direção de Lillian e do comensal, que a levava para as profundezas das masmorras — Carrow!

Ele parou e fez a Georgina um gesto cortês.

— Carrow, deixe-a — pediu — liberte-a e conversamos nós dois.

— É uma proposta tentadora — ele falou suavemente — há tempos venho querendo conversar com você, Linton.

— Então deixe que ela volte para a sala.

— Não, querida, a minha responsabilidade vem primeiro. Com licença.

E levou a garota, deixando para trás uma Georgina que nada podia fazer. Entraram em uma sala muito escura, praticamente vazia, não fossem as correntes de aço presas à parede. A sala lembrava claramente uma prisão.

— Muito bem, Srta. Hazel, há algumas coisas que necessitamos esclarecer.

— Não hei de usar Maldições Imperdoáveis, senhor, não nasci nem fui criada para tal.

— É claro que não — o desdém em sua voz era agora absoluto — a sua família era assim, extremamente contra os ideais do Lord. Principalmente o seu pai.

— O que é que tem o meu pai?

— Você não sabe? Ah, querida, seu pai era filho de trouxas!

O rosto de Lillian empalideceu um pouco mais.

— Isso é mentira.

— Não, não é. Infelizmente não é. Tragicamente não é. Pense, Hazel, por que é que os seus pais e o seu irmão foram assassinados?

Fez-se a luz. Lillian recebera a resposta que procurava há tantos anos, e lágrimas pesadas caíram de seus olhos.

— E por que é que eu estou viva?

— Isso só lhe poderiam dizer os assassinos. O fato é que o seu prazo, que foi adiado, expirou, minha cara. As leis são claras, e devemos exterminar os sangues-ruins.

— Engana-se ao pensar que vou implorar por minha vida. Eu nem me importo mais, sabe?

— É bom que esteja resignada.

E com o aceno da varinha de Carrow, Lillian foi lançada à parede, e as correntes prenderam-lhe as mãos e os pés.

— Vai ficar aí por algum tempo — ele disse com um sorriso desprovido de sanidade, enquanto encaminhava-se para a porta — e morrerá de causas naturais. Ah, quase me ia esquecendo... Não adianta gritar, bonequinha, que a sala será protegida por Abaffiato.

Lillian tentou se desvencilhar das correntes, mas foi inútil. Gritou e constatou que realmente não adiantava. Restaram-lhe apenas as lágrimas amargas, de dor e ódio. Era verdade que não se importava em morrer, mas queria que fosse de uma vez. A tortura em uma sala fechada, sem água ou comida, era terrível e injusta. Ela não merecia acabar assim, depois de tudo o que passara na vida, mas sua revolta era inútil. Nada que ela fizesse adiantaria, era morrer, sem mais.

Mas o desespero da garota durou apenas dois dias, porque a porta da sala explodiu e a luz da varinha fechou os seus olhos de forma incômoda. Quando foi capaz de enxergar, pensou estar tendo alucinações. O rosto fino, pálido e doentio, que ainda assim não perdera a beleza, era praticamente utópico.

— Lillian — falou a voz arrastada, e só então ela pode se dar conta de que estava realmente acordada — que te fizeram?

Ela abriu a boca para responder, mas não teve tempo de articular as palavras. O feitiço hábil e certeiro de Malfoy arrebentou as correntes, e ela imediatamente pôs-se de pé, cambaleando. Ele a sustentou e afastou-lhe os cabelos do rosto.

— Você está bem? Ele lhe fez alguma coisa?

— Não, nada. Mas e você? O que é que está fazendo aqui, Malfoy? Pensei que estivesse foragido, ou...

— Você nem pode imaginar o que está acontecendo lá fora...

— Realmente não posso.

— A guerra, Lillian, ela estourou, e Hogwarts é o campo de batalha.

A garota perdeu momentaneamente a fala, e em seguida se adiantou, mas foi impedida por Malfoy.

— É melhor você ficar em algum lugar seguro...

— De jeito nenhum, eu quero lutar.

— Lillian, é coisa séria.

— Eu sei, e não me disporia a lutar se fosse brincadeira. Quero ter a chance de vingar os meus pais, que eu descobri terem sido mortos por comensais.

— Você nem sabe quem foram os comensais que mataram os seus pais, Lillian. Vai se sacrificar inutilmente.

— Não me diga que os meus ideais são inúteis, ou terei de esquecer a gratidão por ter me libertado.

— Não é isso, Lillian...

— Estou indo, Draco.

— Não vai a lugar nenhum, bonequinha.

O semblante de Amico Carrow parecia ainda mais insano, e a varinha em sua mão representava grande ameaça. Mas Draco foi mais rápido.

Estupefaça!

E correram dali antes que o bruxo se recuperasse.

Lillian se assustou ao ver o caos em que se encontrava Hogwarts. Gritos, sangue, corpos, paredes desmoronando, duelos para todos os lados. O cenário absoluto de uma guerra. Draco segurava a sua mão e tentava levá-la para algum lugar mais seguro, o que era praticamente impossível. Subiram as escadas, desviando de um garoto que vinha rolando pelos degraus. Atingiram o terceiro andar, e Draco esgueirou-se pelo corredor, sempre segurando com força a mão de Lillian.

— Pegaremos um atalho para o sétimo andar — ele falou rápido e ofegante — e você ficará na Sala Precisa até que isso tudo termine. Lá é seguro e, dependendo do que pedirmos, é praticamente impenetrável.

— Já disse que não vou me esconder, Draco.

— Lillian, por favor...

Mas foram surpreendidos por uma batalha entre, pelo menos, dez estudantes e quinze comensais, que vinham se movendo em sua direção. Tentaram correr, mas um comensal estuporou Draco, chamando-o traidor, e levou-o dali à força, deixando Lillian no meio da batalha, totalmente desarmada. Vários feitiços vieram em sua direção, dos quais ela se esquivou, e também foi ajudada pelos estudantes, mas isso não foi duradouro. Boa parte do grupo de comensais acercou-se dela, encurralando-a. Lillian se moveu para trás, até dar com a parede. Pensou que o seu fim, que por mais de uma vez havia sido adiado, finalmente chegara.

Avada Kedavra!

O comensal à sua frente tombou e caiu inerte ao chão. Enquanto a surpresa perpassava cada um dos outros, Georgina, ágil como uma corça, alcançou a amiga e lhe entregou uma varinha de marfim que ela bem conhecia. Afastaram-se as duas, bloqueando e revidando feitiços. Conseguiram, depois de alguns minutos, pegar o atalho que as levou ao Salão Principal, que já estava praticamente em ruínas.

— Eu preciso encontrar o Draco.

— E eu o Snape.

— Mas ele está em Hogwarts? Pensei que houvesse fugido...

— Estou sabendo que ele está nas propriedades do castelo, e para ser sincera, não estou sentindo bom agouro nisso.

— Tudo bem, então nos vemos depois.

Georgina hesitou, desviou-se de um feitiço e falou:

— Se não houver um depois, eu quero dizer, se eu acabar... Você sabe... Procure os pergaminhos no meu malão.

— Que pergaminhos?

— Eu não posso explicar agora, Lillian, não há tempo. Mas prometa-me que pegará.

— Você não vai morrer.

— Prometa-me.

— Tudo bem.

E as amigas se abraçaram antes de se afastarem. Lillian viu Georgina ir, sempre ágil, escapando dos feitiços e desferindo outros, por entre comensais e estudantes, até que seus cabelos negros sumiram no meio da confusão.

Lillian procurou um pouco mais por Draco no Salão Principal, mas mesmo que ele estivesse a poucos metros de si, seria impossível enxergá-lo no meio de tamanha balbúrdia. Decidiu procurá-lo nos jardins, mas quando ia passando pelo saguão de entrada, um Cruciatus a surpreendeu pelas costas, derrubando-a de bruços. Lillian gritou, porque a dor causada pela maldição era extrema, e teve de exigir de si uma força sobrehumana para se reerguer antes que a pisoteassem. O feitiço claramente era para outra pessoa e errara de alvo, porque não houvera insistência da parte do bruxo que o aplicou. E Lillian, bem mais fraca, prosseguiu com sua jornada, tendo como objetivo alcançar os jardins e encontrar Draco, que para ela era tudo o que restava de vida.

Finalmente tendo conseguido sair do castelo, ela pôs-se a procurar Malfoy pelo jardim escuro, até se dar conta de que fizera uma besteira sem tamanho, porque o rapaz poderia estar em qualquer lugar do imenso castelo. De qualquer forma, procurou-o por cerca de duas horas nos jardins, e visto que não o encontrara em parte alguma, decidiu que o melhor era retornar ao castelo e fazer uma busca mais detalhada por cada andar — se fosse isso possível.

Conseguira com sucesso adentrar o castelo, e, sem grandes problemas, atingir o segundo andar, mas neste foi surpreendida.

— Mas o destino realmente quer que nos encontremos, lindinha.

Amico Carrow sorria como o louco que era, e a guerra só havia aumentado a sua insanidade. Lillian recuou, a varinha em riste, caso precisasse fazer uso de qualquer feitiço ou mesmo maldição.

— Ah, o que é isso, garotinha? Não fuja como um coelhinho assustado...

Lillian recuou ainda mais, e Carrow tornou-se sério.

— Você não entende quando é hora de parar? — gritou — Avad...

SECTUMSEMPRA!

Carrow levou as mãos imediatamente ao rosto, caindo de joelhos e urrando de dor. O sangue esguichava para todo o lado, e Lillian correu, dobrou o corredor e ganhou as escadas. Ofegava, tremia, estava horrorizada consigo mesma por ter usado o feitiço que tanto condenara. O coração se debatia em seu peito, e o ar parecia lhe queimar a garganta e os pulmões, mas não cessava de correr. Via em sua mente a figura sangrenta e deformada de Carrow em seu encalço, e corria ainda mais rápido. Não sabia exatamente para onde ia, mas necessitava encontrar Draco, era essa a sua única meta. Lillian correu, meteu-se em batalhas, escondeu-se de comensais, e quando atingiu o último andar, parou à porta do salão comunal da Grifinória e, não sentou, mas se jogou ao chão. O cansaço havia lhe tomado por completo, e as lágrimas de desesperança misturavam-se ao suor no qual o seu rosto ia banhado. Respirava com dificuldade, tentando restabelecer essa função. Chegava a pensar que os pés lhe doíam mais que o corpo inteiro, embora os ossos parecessem esmagados. Lillian se sentia fraca, derrotada. Nunca encontraria Draco em meio à guerra, ao menos não com vida. Chorou, e chorou absurdamente alto, aos gritos, sem se importar que alguém a ouvisse e fosse liquidá-la. O tempo lhe parecia um fator desconhecido, e não sabia ela precisar quantas horas se haviam passado desde que Draco a encontrara na sala da masmorra que servia de prisão. O dia provavelmente estaria perto de amanhecer.

Foi aí que ouviu gritos, primeiro um, depois dois, cinco, dez, cem... Incontáveis gritos em um verdadeiro concerto. Reunindo coragem, levantou-se, dobrou o corredor e se pôs a descer as escadas. Os gritos ficavam ainda mais próximos, e o que lhe fora apenas uma louca ideia, parecia já real: Eram gritos de alegria, de vitória. E a certeza que Lillian tinha só se fez aumentar quando encontrou Gina Weasley à ponta da escada do térreo, e esta lhe falou com grande alegria:

— Vencemos! Harry Potter acaba de matar Voldemort!

Lillian prendeu a respiração, e em seguida soltou uma grande exclamação de alívio.

— Acabou — disse a garota ruiva para Lillian e outros que se juntavam a elas — a guerra acabou!

— Acabou — ela repetiu.

Os gritos de vitória se intensificavam à medida que a notícia se ia espalhando, mas, para Lillian, a guerra ainda não estava acabada ou vencida. Ela só se sentiria plenamente aliviada se encontrasse Malfoy. Mas a sorte lhe parecia ter encostado, e foi por ela que Lillian ouviu a conversa de Ron Weasley com sua irmã:

— ...foi socar Malfoy. Ele estava merecendo.

Ela não pensou duas vezes antes de interferir na conversa.

— Malfoy — falou com a voz alterada, dirigindo-se a um Ron completamente assustado — você o viu? Ele está vivo?

— Não sei — o ruivo respondeu completamente intrigado — mas na última vez em que o vi, ele estava nos jardins.

Lillian soltou um muxoxo. Sabia que não deveria ter saído de lá. Ouviu ainda alguém perguntar: "Onde é que está o Harry agora?", mas não quis saber, não lhe interessava em absoluto. Correu de volta para os jardins, agora desviando de pessoas que comemoravam exageradamente, e de comensais que também tomavam o mesmo rumo que ela, mas visando deixar as propriedades de Hogwarts, para que pudessem aparatar. Sabendo que o Mestre já não existia, necessitavam fugir antes que o Ministério e os aurores se restabelecessem e os caçassem. Ao cruzar a porta de entrada, Lillian não pôde deixar de reparar em um garoto e uma garota, com o uniforme de sua casa, que se lamentavam.

— ...também, e acabaram de me confirmar que Snape está morto, na Casa dos Gritos.

— Isso não pode ser verdade, eu simplesmente...

Mas a garota se afastou antes que pudesse terminar de ouvir a conversa, e, pessoalmente, também achava que não poderia ser verdade. Mas, se fosse, o que diria à sua amiga? E, aliás, por onde andaria ela? Em sua busca por Malfoy e todas as confusões que encontrara pelo caminho, ela a esquecera completamente.

— Eu a procurarei — murmurou consigo mesma — assim que encontrar o Draco.

Antes que pudesse dar continuidade à sua busca, porém, um homem que parecia ir apressado na direção que tomaram os comensais restantes da guerra, chamou-lhe a atenção, porque Lillian reconhecera nele Lucius Malfoy. Decidiu correr em seu encalço, e colocou-se à sua frente, sem se intimidar com o primeiro empurrão.

— Sr. Malfoy — ela insistiu — por favor, espere! É sobre o seu filho.

As palavras produziram em Malfoy o resultado almejado, e ele estacou.

— O que tem o meu filho? — indagou com uma voz que muito se assemelhava à e Draco

— Onde é que ele está? Há horas que eu o procuro...

— Eu não sei — ele disse sem pestanejar — sinceramente, não sei.

— E o senhor não se preocupa? Ele pode estar m...

Lucius Malfoy a ignorou e seguiu seu caminho às carreiras. O jeito era prosseguir com a incessante busca, mas antes que a retomasse, observou, um pouco mais adiante, em uma parte mais isolada dos jardins, uma imagem que lhe encheu de pavor. Meneou a cabeça negativamente e deu as costas, mas imediatamente se arrependeu. Aquela pessoa enforcada, presa em um cedro por uma corda, poderia ser qualquer um, até o próprio Malfoy. Teria de se aproximar ou, se nunca o encontrasse, morrer com a incerteza. Decidiu-se pela primeira opção, e caminhou lentamente até o local do provável suicídio. Conforme se aproximava, foi percebendo que a vítima tinha as formas de uma garota, embora só lhe fosse possível ver a cintura para baixo, porque as folhagens a cobriam. E quando chegou bem perto, o seu coração deu um salto. Os primeiros raios da manhã iluminaram o cedro, e ela pôde reconhecer aquelas pernas cobertas por cicatrizes. Lillian deixou-se cair de joelhos diante do cadáver da única amiga que tivera, evitando erguer o rosto. Queria lembrar-se de Georgina viva, e se aquela imagem da mesma enforcada lhe afixasse na memória, dificilmente sairia. Chorou, gritou e amaldiçoou a amiga pela atitude covarde do suicídio. Não soube precisar por quantos minutos se estendeu o seu lamento, mas apenas conseguiu calar a indignação quando sentiu mãos sobre o seu ombro, como naquele remoto dezembro de seu quinto ano escolar. Reconheceria aquele toque em qualquer lugar, mas, virou-se para ter certeza, e lá estava o rosto cansado de Malfoy, sujo de cinzas e algumas gotas de sangue. Ela o abraçou, empregando naquele gesto toda a força que lhe restava. Chorou de dor, de alívio, de medo e de cansaço.

— Vamos — ele falou — o mundo bruxo em breve estará em construção, e o mesmo se aplicará às nossas vidas. A mim e a você.

Lillian, hesitante, olhou para o cedro, onde jazia Georgina.

—Não a condenemos nem lamentemos a sua morte — Draco falou — ela soube o que era melhor para si, viu que a dor era maior do que poderia carregar sobre suas costas. Você já está sabendo sobre a morte de Snape?

Lillian assentiu, abraçou Draco pela cintura (ele lhe cingiu pelos ombros) e seguiu-o sem olhar para trás. Sentia-se hipócrita por ter, há pouco, condenado a decisão de Georgina. Abraçada ao rapaz que decididamente amava, sentiu como não poderia sobreviver se ele deixasse de existir. Era simplesmente impossível separar duas partes interdependentes. Assim fora com Georgina. Assim era com ela própria.

EPÍLOGO

Ela abrira a porta do dormitório para sair, arrastando o pesado malão. Suspirou, porque só voltaria a Hogwarts dali a dois anos, quando a escola estivesse reformada e apta para que pudesse refazer o sétimo ano. Ia já fechando a porta atrás de si quando se lembrou do pedido de Georgina sobre os pergaminhos em seu malão. Lillian refez o caminho e abriu o malão da amiga, evitando, o máximo possível, ver as coisas que a fariam lembrá-la. Não foi difícil encontrar o grosso rolo de pergaminhos. Lillian desatou a fita negra que os prendia, desenrolou e pôs-se a ler o primeiro:

"Querida Lillian, dir-te-ei, em primeiro lugar, o motivo que me traz aqui. Depois fica ao seu critério prosseguir com a leitura ou não. Aviso de antemão que não há de encontrar aí nenhuma grande obra, o que temos são relatos de minha vida desde que aprendi a me dar conta dela. Talvez tenha você a curiosidade de saber um pouco mais sobre a amiga fechada e cheia de enigmas e cicatrizes, que já não se encontra mais presente (porque se você chegar a colocar as mãos nesses pergaminhos, significa que já estarei morta, caso contrário, eu lhe contaria face a face tudo o que aqui há). Mas deixemos para lá as delongas. É mister que lhe diga agora o motivo pelo qual somos amigas. Lillian, foram os meus pais que mataram a sua família. Contava eu com os meus seis anos, como você. Eles me levavam para as suas missões para que eu aprendesse algo, mas felizmente nunca aprendi. Creio que já deve ter-se feito a pergunta: "Por que eu sobrevivi?"A resposta é simples: Porque eu me interpus entre meus pais e a porta do seu quarto, dizendo que, para matar a criança que ali dormia, teriam antes de fazer o mesmo a mim. Não sei ainda o que os levou a desistirem de você, talvez nunca venha a descobrir, mas desistiram, e isso é tudo. Depois de tal revelação, entenderia perfeitamente se você rasgasse esses pergaminhos, mesmo teria uma sensação de "missão cumprida". No entanto, gostaria de dividir com você, ainda que postumamente, os meus segredos mais recônditos. Se, por outro lado, você parar por aqui, fique sabendo que foi a melhor amiga que eu tive, e saiba também que se eu, por acaso, morresse em sua defesa aos seis anos de idade, teria ido satisfeita. Um beijo, G. Linton."

Lillian enlaçou os pergaminhos e guardou-os em seu malão. Uma lágrima solitária rolou por seu rosto, não exatamente de tristeza, mas de admiração e uma saudade precoce. Ergueu-se, pois, e arrastou o malão dormitório afora, desta feita, sem olhar para trás. Encontrou, no salão comunal, um Draco sorridente, que lhe tocou o rosto e beijou os lábios.

O mundo começa agora — disse — apenas começamos.

FIM

Notas

O excerto "Que castigo tamanho e que justiça fazes no peito vão que muito te ama", encontrado na parte terceira, foi retirado da obra Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, episódio d'O Velho do Restelo.

O mundo começa agora, apenas começamos, é parte integrante da canção Metal Contra as Nuvens, da Legião Urbana.

Certamente há incontáveis falhas com relação à batalha, mas ignoremos. xD