Nota da Autora: Olé na galera que esperava mais baby Harry nesse capítulo hahahaha Desculpa pessoal, eu falei que a fic era louca. Na verdade, isso era para ser uma one-shot, que eu resolvi dividir em capítulos. De qualquer forma, espero que vocês gostem.


Os contos de fadas são uma variação do conto popular ou fábula. Partilham com estes o fato de serem uma narrativa curta, transmitida oralmente, e onde o herói ou heroína tem de enfrentar grandes obstáculos antes de triunfar contra o mal. Caracteristicamente envolvem algum tipo de magia, metamorfose ou encantamento, e apesar do nome, animais falantes são muito mais comuns neles do que as fadas propriamente ditas.

Pelo seu núcleo problemático ser existencial, os contos de fadas podem também ser encarados como "uma jornada em quatro etapas, sendo cada etapa da jornada uma estação no caminho da autodescoberta".


Etapa nº1: TRAVESSIA - "leva o herói ou heroína a uma terra diferente, marcada por acontecimentos mágicos e criaturas estranhas".

Eu acordei muito, muito cedo naquele dia. De fato, era tão cedo que ainda estava escuro.

Como era muito cedo para me levantar - todo mundo estava dormindo àquela hora mesmo - me lembro de ter ficado horas deitado no escuro, olhando para o teto do quarto e imaginando figuras nos padrões da madeira (essa era uma atividade altamente tediosa que naquela época me ajudava a dormir, mas hoje me ajuda a não dormir - em vez de ficar vendo cavalos alados e dragões, começo a pensar em todas as coisas que estão erradas na minha vida, nas coisas que tenho que consertar, nas coisas que não posso consertar, nas coisas que eu posso fazer amanhã, nas coisas que não dependem de mim... enfim, você entendeu).

Foi a primeira vez que eu lembro de ter visto o sol nascer.

Bem, na verdade, eu não vi exatamente o sol nascer, mas sim as cores que ele refletia no teto do quarto irem mudando de tons, de escuro para azul, de azul para lilás, de lilás para rosa, de rosa para laranja e de laranja para claro.

E então, depois do que pareceram séculos em que o tempo parecia se esticar e se arrastar e se esticar mais um pouco, resistente demais à idéia de passar, tudo aconteceu tão rápido que eu só lembro de borrões. Minha mãe veio me acordar e tomou um susto ao ver que eu já estava acordado (até os onze anos, eu nunca tinha acordado antes das dez da manhã, a menos em caso de doenças; acho que eu meio que sabia que nos anos seguintes eu teria muitas noites mal-dormidas, então estava tentando compensar), eu não consegui comer nada no café da manhã de tão nervoso, nós fomos para a estação, borrão, outro borrão vermelho, mamãe quase chorando enquanto meu pai me recomendava juízo, novo borrão e a próxima memória coerente que eu tenho é a de estar sentando num vagão do Espresso de Hogwarts discutindo ardorosamente com um garoto de nome estranho que eu tinha acabado de conhecer (sim, é o Sirius, se é isso que você quer saber) sobre qual gol tinha sido o melhor da história do Puddlemere United (Harlington em 1967 versus Ashworth em 1970 - ambos concordávamos que Harlington tinha sido o melhor, não porque tivesse de fato sido o melhor, mas porque era o gol mais antigo que nós conseguíamos lembrar, e escolhê-lo como favorito fazia com que nós nos sentissemos velhos entendedores de Quadribol).

Além de nós, também estava no vagão uma garota, que eu só tinha notado porque ela tinha o cabelo da cor mais estranha que eu já tinha visto na vida. Ela era ruiva, mas era um ruivo diferente. Mais para o vermelho do que para o laranja, diferentemente da maioria dos ruivos.

Se eu sabia que eu iria acabar me casando com a ruiva do tom diferente? Jesus, não! Garotas não eram importantes naquela época. Para ser bem sincero, acho que acabei prestando mais atenção no Snape naquele dia do que nela. Deprimente, eu sei.

De qualquer forma, não dividimos a cabine por muito tempo.

Snape estava lá e - cara, o Snape de onze anos era assustador. Tudo bem, olhando em retrospectiva, todas as crianças de onze anos são mais ou menos assustadoras, em algum grau, mas ele batia qualquer recorde. Não que nós sentíssemos medo dele ou algo do tipo, mas ele era... assustador. Alguma coisa nele não era normal. Roupas largas, cabelo nojento, palidez, sei lá. Não era normal. Mas onde é que eu estava mesmo?

Ah, sim. O Snape de onze anos também dividia a cabine conosco. Aliás, que sorte podre essa a minha, hein? Por que essa podia ser uma história ótima sabe, do tipo 'pois é, então, aos onze anos, eu entrei naquela cabine, e o meu melhor amigo e a mulher da minha vida estavam lá, e minha vida mudou, blá blá blá', mas esse idiota do Snape tinha que se meter no meio. Enfim. O ponto que aquele projeto de morcego de repente disse: "É melhor você entrar para a Sonserina". E eu sabia que ele estava falando com a Lily e não comigo ou com Sirius, mas... Sonserina! A única coisa que eu podia pensar é que ele estava seriamente mal-informado sobre as casas de Hogwarts, porque pessoa nenhuma no mundo diria um absurdo desses conscientemente!

"Sonserina?" perguntei. Podia não ter entendido direto também, sabe. Afinal, eu não estava prestando tanta atenção assim na conversa antes. "Quem quer ir para a Sonserina?" Meu Deus, quem seria idiota a esse ponto? "Acho que eu desistiria da escola, você não?" perguntei para Sirius.

"Toda minha família foi da Sonserina."

"Caramba, e eu que pensei que você fosse legal!" Okay, vamos exclarecer um ponto aqui - não foi essa a educação que a minha mãe me deu. Em geral, sou uma pessoa bem educada, e não saio dizendo esse tipo de coisa para as pessoas, mas, hey, Sirius entendeu o que eu quis dizer, porque repondeu:

"Talvez eu quebre a tradição". Está vendo? Ele não se ofendeu. "Para qual você iria se pudesse escolher?"

Ergui uma espada invisível: "'Grifinória, a morada dos destemidos!' Como o meu pai." Naquela época eu ainda estava na fase 'meu pai, meu herói'. Não tinha entrado na adolescência ainda, ou seja, não tinha começado a ver meu pai como um ser humano, que faz as maiores cagadas do mundo como qualquer outra pessoa. Na verdade, parando para pensar agora, acho que meu pai se saiu excepcionalmente bem como pai, dadas as dificuldades da tarefa. Ao contrário do que a Lily diz, eu não tenho nem um trauma de infância - aliás, minha infância foi excelente, apesar da falta de irmãozinhos para brincar. Se bem que meus pais nunca me ensinaram 'Brilha Brilha Estrelinha', então não sei.

Snape reagiu a menção à Grifinória e ao meu pai com um muxoxo de descaso.

"Algum problema?" perguntei, com que imaginava ser um ar de superioridade.

"Não" ele sorriu debochado. Sério, que babaca. "Se você prefere ter mais músculo do que cérebro..."

"E para onde está esperando ir, uma vez que não tem nenhum dos dois?" Isso foi o Sirius. Ele tinha senso de humor já naquela época.

É óbvio que eu me dobrei rindo da cara do Snape. O que mais eu poderia fazer?

Então, Lily se levantou, e olhou de mim para Sirius com ar de desagrado. Eu sei, é meio decepcionante saber que não foi amor à primeira vista (nem à segunda, terceira, quinquagésima sexta...). Mas não é minha culpa se ela andava tão mal-acompanhada naquela época.

"Vamos, Severus, vamos procurar outro compartimento".

E foi mais ou menos aí que a coisa desandou. Nosso relacionamento, quero dizer. Meu e da Lily. Eu levaria quase sete anos para mudar essa má impressão deixada.

"Oooooo..." Sirius e eu selamos o início da amizade debochando juntos do tom de superioridade da Lily. Qual é, eu tinha só onze anos.

Mas talvez gritar "A gente se vê, Ranhoso!" quando a porta bateu tenha sido um pouco desnecessário, é fato.