Capítulo 2: Rivalidade
Depois do incidente na casa de banho, nem Seto, nem Joey tinham ido à última aula do dia. Seto ligara ao seu motorista, que o fora buscar de imediato à escola. Por seu lado, quando Joey saíra da casa de banho, vagueara pela escola. Queria muito desabafar com os amigos, apesar deles, com toda a certeza, ficarem chocados com mais uma das suas aproximações a Seto, depois de o terem avisado que estava a ficar obcecado. Joey decidiu aguardar até a aula terminar para falar com os amigos para que eles não faltassem e não fora à aula pois não estava com cabeça para ouvir a professora.
Quando a aula terminou, os alunos começaram a sair. Joey viu os amigos sairem da sala de aula, pois estava num corredor ali perto e esperou até que eles se encaminhassem para a saída. Depois, foi ter com eles.
"Joey, onde é que te meteste? Faltaste à aula." disse Téa. "Aconteceu-te alguma coisa?"
"Já falas connosco ou ainda estás zangado?" perguntou Tristan.
"Pessoal, eu explico-vos tudo, mas vamos conversar para outro lugar." pediu Joey.
"Está bem. Vamos todos até à minha casa." disse Yugi.
O tempo que durou a caminhada até à casa de Yugi não foi grande, mas Joey permaneceu sempre calado e os outros perceberam que algo grave se passaram. Ao chegarem a casa de Yugi, sentaram-se todos na sala de estar.
"Então Joey, o que se passa?" perguntou Yugi, preocupado.
"Eu fiz uma asneira… grande. Muito grande." disse Joey.
De seguida, Joey contou aos amigos o plano que tinha arquitectado e a reacção de Seto, bem como o que ele lhe dissera. Quando terminou, Joey parecia devastado e os seus amigos entreolharam-se antes de falarem.
"Joey, tu próprio já percebeste que não devias ter feito o que fizeste." disse Téa. "E eu já te tinha dito…"
"Eu sei, eu sei, mas não posso mudar o que está feito." disse Joey. "O que é que eu faço agora? Não quero perder o Kaiba."
"Tu nunca tiveste o Kaiba, Joey. Portanto, nem o podes perder. Esquece-o e pronto." disse Tristan.
"Tristan, as coisas não funcionam assim." disse Yugi. "Joey, primeiro, tens de te controlar. Tens feito tudo para te aproximares do Kaiba e isso é demais. Não podes continuar assim. Se não te conseguires distanciar, precisas mesmo de apoio psicológico."
"Custa tanto…" disse Joey.
"Mas tens de conseguir." disse Téa, de maneira firme, encarando Joey. "Eu acho que talvez ainda não seja preciso ajuda psicológica se agora tiveres calma e conseguires impor regras na tua aproximação ao Kaiba. Ele não vai querer-te a chateá-lo agora. Mas talvez no futuro, se tu fizeres as coisas com calma, ele venha a gostar de ti."
"Eu… não sei como explicar, mas eu sei que o Kaiba sente… ou sentia algo por mim. Então, estava a fazer tudo errado…"
"Sim, estavas. Mas estás ainda a tempo de corrigir os teus erros." disse Yugi. "Acho que a primeira coisa que tens a fazer, mesmo que o Kaiba te tenha dito para te afastares, é pedires-lhe desculpa pelo teu comportamento."
"E depois deixares passar algum tempo até te tentares aproximar dele novamente." disse Tristan.
"Agora tens de ter noção dos limites e ouvir-nos. Nós apoiamos-te, Joey. És nosso amigo, portanto, vamos estar atentos para te ajudar a controlares-te." disse Téa.
Joey suspirou e lançou um pequeno sorriso aos amigos.
"Obrigado pessoal. Eu vou começar de novo e desta vez hei-de fazer as coisas bem."
Água Mole em Pedra Dura…
No dia seguinte, quando Joey e os amigos entraram na sala de aula, viram que Seto já lá estava, sentado no seu lugar, a escrever no seu portátil. Os amigos de Joey lançaram-lhe olhares de encorajamento e Joey avançou. Aproximou-se de Seto, que desviou o olhar do seu portátil e o encarou.
"Eu disse-te para não te aproximares de mim." disse Seto.
"Eu sei. Mas tinha de vir para te pedir desculpas pelo que fiz." disse Joey. "Estou arrependido e sei que não devia ter usado aquele plano para te ver despir ou ter-te beijado à força nas vezes que já beijei e… bem, não devia ter feito o que fiz até agora. Peço desculpa."
"Há mais alguma coisa que me queiras dizer? Senão, vai-te embora e deixa-me em paz." disse Seto, friamente.
Joey sentiu-se magoado pela extrema frieza na voz de Seto, mas sabia que era tudo culpa sua.
"Era só isto Kaiba. Não te vou aborrecer mais."
Joey afastou-se de Seto e juntou-se aos amigos. Seto voltou novamente o seu olhar para o portátil, mas na realidade não se conseguiu voltar a concentrar.
"Pediu-me desculpa, o que já não é mau." pensou Seto. "Não pode continuar a fazer coisas daquelas. Quem é que ele pensa que é? Eu… já não sei o que se passa comigo. Penso que, talvez, só talvez, sentisse algo pelo Wheeler. Mas não assim. Não por alguém que arranja aqueles esquemas patéticos e que me obriga a fazer coisas que eu não quero. Se eu o quisesse beijar ou despir-me à frente dele, seria eu a tomar a iniciativa. Não me pode forçar a nada."
Seto lançou um olhar discreto a Joey e aos seus amigos e abanou a cabeça.
"Será que ele se vai afastar agora? Porque é que isto me preocupa, se fui eu que lhe disse expressamente para se afastar? Mas eu não queria realmente que ele se afastasse de todo… apenas que deixasse de agir daquela maneira." pensou Seto.
Água Mole em Pedra Dura…
Passaram-se três semanas desde o incidente na casa de banho da escola. Joey mantivera-se o mais afastado possível de Seto, apesar de isso lhe doer bastante. Gostaria de estar perto dele, de lhe sorrir, de o poder beijar, mas tinha-se mentalizado que era necessário afastar-se para não arranjar mais confusões. Não queria que Seto o ficasse a odiar ou que tomasse alguma medida drástica para o manter afastado.
Já Seto, apesar de a princípio não o conseguir admitir, sentia a falta de Joey. Apesar de o ver todos os dias na escola e de se sentar ao lado dele na aula de matemática, tudo tinha mudado radicalmente. Agora apenas existia um bom dia que Joey lhe lançava quando o via de manhã e mais nada. As aulas de informática eram agora totalmente e terrivelmente aborrecidas. Nem uma única mensagem tinha sido enviada através do programa do computador nas últimas três semanas.
Seto, por algumas vezes, estivera prestes a tomar a iniciativa de tentar começar uma conversa, mas acabara por desistir da ideia. Afinal, fora ele que dissera a Joey para se afastar e Joey estava apenas a fazer isso mesmo. Não podia agora dizer-lhe que afinal não se afastasse, até porque Seto queria uma aproximação lenta e não que Joey voltasse a ter as atitudes de antes.
A situação de se afastar de Seto estava a ser ainda mais difícil para Joey pelo facto de que, no momento, mais uma pessoa tinha tomado interesse por Seto. A maioria dos fãs de Seto, que também queriam namorar com ele, acabavam por se manter à distância, por timidez. Mas Duke Devlin não era tímido, tinha surgido para conquistar Seto e estava determinado a isso. Duke tinha andado envolvido com Espa Roba e quando se cansara dele, resolvera arranjar outra pessoa.
Por essa altura, Duke vira que Joey parara com as suas investidas sobre Seto e resolvera aproveitar para conquistar o presidente da Kaiba Corporation. Não que tivesse alguma vez temido competir com Joey pelo afecto de Seto, mas não tivera exactamente interessado nisso. Agora, estava interessado. Assim, agora Duke era companhia frequente de Seto, mas fazia tudo com muito mais subtileza que alguma vez Joey fizera.
"Ele vai roubar-me o Seto." queixou-se Joey.
Nesse momento, Joey, Yugi, Téa e Tristan estavam a almoçar no refeitório. Seto e Duke estavam sentados numa mesa afastada a comer. Duke ia falando, enquanto Seto apenas comia sem dizer nada.
"Tem calma, Joey." disse Yugi. "O Duke não vai ficar com o Kaiba."
"Como é que podes ter tanta certeza?"
"Não me parece que o Kaiba esteja minimamente interessado nele." respondeu Yugi.
"Ai não? Então porque é que ele deixa o Duke Devlin andar atrás dele, tal como eu fazia? Nem sequer se queixa nem nada. E vejam bem que o Kaiba está a almoçar no refeitório. Ele quase nunca faz isso! Mas está aqui, com o Duke…"
"Há que dizer que o Duke é mais subtil que tu, Joey. Não beija o Kaiba em lugares públicos, nem nada assim, mas de qualquer maneira, o Kaiba não está interessado nele. Eles têm ambos empresas, portanto pode ser por isso que o Kaiba o atura, para trocarem opiniões de vez em quando. O Duke está interessado no Kaiba, não há dúvida." disse Téa. "Mas o Kaiba não corresponde a esses sentimentos."
"Não sabes isso, Téa."
"Claro que sei. Vê bem que ele nem está a olhar para o Duke e nem me parece que esteja a prestar muita atenção. Havia mais possibilidades de o Kaiba gostar de ti do que do Duke, simplesmente porque a bem ou a mal, a ti ele não era indiferente na maioria das situações."
"Isso deixa-me mesmo muito mais seguro, Téa." disse Joey, revirando os olhos.
"Não sei se vocês partilham da mesma opinião que eu, mas se calhar está na altura de tu voltares ao jogo, Joey." disse Tristan. "Que é como quem diz, voltares a tentar conquistar o Kaiba."
"Acham que sim?" perguntou Joey.
O grupo voltou a olhar para a mesa onde se sentavam Duke e Seto. Duke sorriu intensamente e Seto continuava sem olhar para ele. Depois, Duke percebeu que estava a ser observado e lançou um sorriso maldoso na direcção do grupo de amigos, que se entreolharam.
"Definitivamente, há que fazer qualquer coisa." disse Yugi. "Mas nada extremo."
"Pronto, também concordo. Joey, tens de te aproximar do Kaiba outra vez, mas com calma. Nada de coisas forçadas." disse Téa. "Nós ajudamos-te se precisares."
"Obrigado pessoal." disse Joey, começando a sorrir. "Eu espero conseguir conquistá-lo. Não vou deixar que o Duke o faça. Ele namora tudo o que mexa e depois deita-os fora como se fossem lixo. Mas não deixo que faça isso ao Kaiba."
Água Mole em Pedra Dura…
Joey passou imenso tempo a pensar no primeiro passo que deveria dar para se voltar a aproximar de Seto. Acabou por ter uma ideia e passou algum tempo a escrever uma carta a Seto. No dia seguinte, Joey chegou bastante cedo à escola e conseguiu introduzir a carta no cacifo de Seto. Quando Seto chegou e se dirigiu ao cacifo, antes de ir para a sala de aula, abriu o cacifo e deparou-se com a carta.
Ao longo do tempo, Seto recebera muitas cartas de fãs seus e até algumas com insultos. Acabara por ler com atenção as primeiras cartas que recebera. Depois, fartara-se e agora sempre que recebia alguma carta, mandava-a para o lixo de imediato, sem a ler. Porém, no envelope onde estava a carta, estava escrito o nome de Joey e Seto não conseguiu deitá-la fora sem mais nem menos. Tinha de a ler.
Seto fechou o cacifo, olhou para o relógio de pulso e verificou que ainda tinha vários minutos antes da primeira aula do dia começar, pelo que se dirigiu à biblioteca. Ao chegar lá, escolheu uma mesa ao fundo, sem ninguém por perto, sentou-se numa cadeira e tirou a carta de dentro do envelope. A letra de Joey era muito aquém de perfeita, mas Seto não estava preocupado com isso nesse momento. Leu atentamente a carta.
"Kaiba, escrevo-te esta carta para te pedir novamente desculpa pelo meu comportamento. Sei que não me portei correctamente contigo e que fiz coisas que não devia ter feito e que te aborreceram. Sei que tens toda a razão para estares aborrecido comigo. Como viste, eu afastei-me de ti, mas na verdade, não o queria continuar a fazer. Eu já te tinha dito e escrevo-o agora. Amo-te, Seto Kaiba.
Compreendo que no passado tenha exagerado nas minhas acções, mas eu quero mostrar-te que consigo controlar-me, se me deixares. Gostava que me deixasses aproximar de ti novamente. Prometo não fazer cenas, nem te envergonhar, nem fazer nada que não queiras. Por favor, dá-me uma nova oportunidade."
Seto suspirou e voltou a reler a carta novamente. Abanou a cabeça quando terminou de a ler pela segunda vez.
"O Wheeler está a pedir-me desculpa novamente e quer que eu o deixe aproximar-se de mim." pensou Seto. "Na verdade, também é o que quero, mas se lhe digo isso, ele pensa que eu estou interessado nele ou interessado em que ele volte a estar perto de mim… e estou, mas devia continuar a parecer que não estou… isto é confuso."
Seto voltou a suspirar.
"O que devo fazer? Dizer-lhe para continuar afastado de mim? Dizer-lhe que o desculpo e que podemos voltar a estar juntos mais vezes?" perguntou-se Seto, pensativo. Depois de alguns segundos, tomou uma decisão. "Vou ter de lhe dar uma resposta que, ao mesmo tempo lhe diga que pode voltar a aproximar-se de mim, mas que em que não me mostre demasiado interessado que isso aconteça. Não posso dar parte de fraco. Tenho de manter a minha postura. Afinal, eu sou o Seto Kaiba e tenho uma reputação a manter."
Água Mole em Pedra Dura…
O toque da campainha assinalou o final da primeira aula da manhã e os alunos levantaram-se rapidamente, começando a sair da sala. Joey tinha passado a aula toda a olhar discretamente para Seto, tentando descortinar se ele já teria visto a carta que lhe escrevera e se a lera. Por seu lado, Seto estivera a preparar-se para falar com Joey quando a aula terminasse. Depois do toque de saída, Seto levantou-se e encaminhou-se para Joey.
"Temos de falar, Wheeler." disse Seto.
Joey acenou afirmativamente com a cabeça, enquanto sentia um nó no estômago, tal era o nervosismo. Será que Seto lhe diria para se manter afastado? Será que não? Yugi, Téa e Tristan apressaram-se a sair da sala de aula, percebendo que Joey e Seto tinham de resolver as coisas sozinhos. Quando o último aluno saiu da sala de aula, Seto fechou a porta, para ele e Joey poderem falar à vontade sem ninguém ouvir. Seto e Joey encararam-se.
"Li a carta que deixaste no meu cacifo." começou Seto. "E portanto, era necessário que falássemos sobre isso."
Joey não disse nada. O tom de Seto não revelava qualquer tipo de sentimento, pelo que não sabia o que esperar do outro rapaz.
"Tu tinhas prometido afastar-te de mim e deixaste de te atirar a mim e de me embaraçar a mim e a ti próprio com as tuas atitudes. Tenho de reconhecer que conseguiste realmente deixares de te comportar como um louco obsessivo." disse Seto. "E para tu escreveres uma carta, o que devo ser muito, muito raro, é porque o que escreveste é realmente verdade."
"Claro que é. Tudo o que escrevi na carta é verdade. Eu queria…"
"Aproximares-te de mim novamente. Eu sei." disse Seto. "Mas sabes, eu posso não querer que isso aconteça, certo?"
Joey mordeu o lábio. Não parara de encarar Seto e com aquelas palavras sentia-se ainda pior. Seto preparava-se para lhe dizer para se manter afastado de uma vez por todas?
"Mas pronto, se tu realmente te vais comportar, talvez, apenas talvez, não haja problema de tu te voltares a aproximar de mim." disse Seto. "Mas desta vez, cuidado com o que fazes. Não vou tolerar exageros."
"Eu prometo que não vou fazer novamente aquelas cenas. Prometo." disse Joey, sorrindo de seguida. "Obrigado Kaiba."
Joey aproximou-se mais de Seto e abraçou-o. Seto ficou surpreendido e paralisado durante uns segundos, sem saber o que fazer. Não costumavam abraçá-lo, a não ser Mokuba em alguns momentos. E tinha acabado de dizer a Joey para não exagerar e agora ele abraçara-o.
"Mas isto não é um exagero. É uma forma de mostrar a felicidade dele por lhe dares mais uma oportunidade." disse uma voz na cabeça de Seto. "E tu devias aproveitar o momento. Relaxa e deixa-te levar. Tu também queres estar próximo dele. Um abraço não tem mal nenhum."
Seto deu por si a abraçar Joey de volta. Quando Joey quebrou o abraço, exibia um dos seus sorrisos cintilantes.
"Posso ter esperança que um dia, talvez, possamos ficar juntos?" perguntou ele, encarando Seto.
"Eu não falei em ficarmos juntos… apenas estarmos próximos. Não é como se eu estivesse interessado em ti. Não penses isso! Não estou!" exclamou Seto.
Logo de seguida, a expressão de Joey ensombrou-se um pouco e Seto teve vontade de bater em si próprio. Dentro de si tinha um conflito de sentimentos, queria Joey por perto, queria dizer-lhe que não era indiferente e talvez fosse mesmo possível ficarem juntos, mas o seu orgulho dizia-lhe que não devia ceder assim. Nunca dependera emocionalmente de outra pessoa e não podia deixar que começasse agora, porque se poderia magoar. Joey poderia magoá-lo.
"Eu pensei que… como retribuíste o abraço… claro que fui precipitado outra vez." disse Joey. "Eu… desculpa, vou-me embora."
Joey, com um olhar ferido, preparou-se para abandonar a sala, mas Seto agarrou-lhe o braço.
"Espera." pediu ele, respirando fundo. A sua batalha interior continuava, mas um dos lados tinha ganho. "Eu nunca gostei de ninguém, Wheeler. Nunca namorei e fui criado a aprender a esconder os meus sentimentos. Nem sempre sei dizer o que devo e não magoar os outros. O que quero dizer é… sim, podes ter esperanças sobre nós os dois. Não sei se passará disso, mas podes ter esperanças."
"Isso quer dizer que tu sentes alguma coisa por mim? Ou não sentes nada e estás a dar-me uma nova oportunidade para te conquistar?" perguntou Joey.
"Acho que… um pouco das duas coisas." respondeu Seto, largando o braço de Joey.
Joey abanou a cabeça, compreendendo. Havia ali uma centelha de esperança. Seto poderia vir a gostar muito dele, mas como já ouvira alguém dizer, o amor construía-se. Depois lembrou-se de Duke Devlin e sentiu um grande desconforto. Se Seto estava ali a falar com ele agora e a dizer-lhe que poderia ter esperanças, então porque é que deixava Duke andar sempre atrás dele? Queria ficar com os dois ao mesmo tempo?
"E quanto ao Duke Devlin?" perguntou Joey.
"O que tem ele?"
"Ora, ele está sempre a andar atrás de ti para todo o lado. Tal como eu fazia, antigamente. E não te vi a afastá-lo nem nada do género, portanto… o que significa ele então?"
"O Devlin não significa nada. É apenas uma companhia. Falamos de negócios e afins, já que ambos temos empresas." respondeu Seto. "Nada mais. Não há, nem nunca houve nada entre mim e ele, se é isso que estás a insinuar. Apenas o mantinha por perto porque… bom, sem ti a andares a rondar-me sempre… digamos que as coisas estavam muito monótonas e assim sempre havia alguém com quem conversar, se me apetecesse. Mas na realidade, era o Devlin que falava mais e não eu."
"Portanto, ele era apenas um amigo normal?"
"Não direi amigo, mas um conhecido."
"Ele está interessado em ti." disse Joey. "E não é em amizade."
"Não me parece."
"Pois eu tenho a certeza absoluta."
"Não quero nada com ele, independentemente da maneira como ele se sente em relação a mim." disse Seto.
"Não percebes que o Duke Devlin não é pessoa de desistir facilmente de nada? Ele já namorou com imensa gente e desta vez tens os olhos postos em ti. Tens de te afastar dele e mesmo assim não me parece que te vá deixar em paz, pelo menos de imediato e…"
"Wheeler, vamos esclarecer uma coisa. Eu dei-te uma nova hipótese, mas também não tentes controlar-me. Eu posso dar-me com quem quiser e sei tomar conta de mim e também sei o que quero ou não quero." disse Seto. "Portanto, se eu digo que não quero nada com o Devlin, é isso mesmo. Só tens de confiar em mim e mais nada."
"Mas…"
"Confias ou não?"
"Eu confio em ti. Não confio no Duke Devlin."
"Se começamos já com cenas de ciúmes, então talvez seja melhor pararmos já por aqui e nem te voltares a aproximar de mim."
Joey ficou alarmado e abanou a cabeça negativamente.
"Não. Desculpa. Eu confio em ti." disse Joey. "Se tu dizes que não queres nada com o Duke, eu acredito. Não me afastes outra vez, por favor."
Seto abanou a cabeça, em assentimento e o assunto morreu por ali. Pouco depois, estavam os dois a sair da sala de aula e Joey tentou ter uma conversar normal, apesar de a sua mente estar inquieta.
"O Duke não vai desistir assim facilmente. Eu confio no Kaiba. Se ele me diz que não quer nada com o Duke, então é a verdade." pensou Joey. "Ele está a dar-me uma oportunidade a mim e eu vou aproveitá-la, obviamente. Mas também vou estar atento ao Duke. Vou sim."
Água Mole em Pedra Dura…
À hora de almoço, Joey, Téa, Tristan e Yugi sentaram-se para almoçarem no refeitório. Escolheram uma mesa a um canto e começaram a conversar enquanto comiam. Seto tinha ido comer à sua mansão. Joey estava bastante animado por poder voltar a estar junto de Seto novamente.
"Só é pena ele não estar aqui agora." disse Joey. "Mas digam-me lá, o que é que acham que eu devo fazer agora? Não quero precipitar-me outra vez."
"Acho que apenas tens de agir de forma natural, Joey." respondeu Téa. "Fala com ele e tenta arranjar algum programa que tanto ele como tu gostem."
"Para já, o importante é passarem mais tempo juntos. Tu já gostas dele e ele deu-te uma oportunidade, portanto também está receptivo." disse Yugi.
"O Kaiba é o tipo de pessoa que deve gostar de programas culturais, como ir a museus e assim." disse Tristan. "Aí tens uma ideia."
"Pois, mas eu não gosto de museus." disse Joey.
"Há que fazer sacrifícios em nome do amor." disse Tristan, abanando a cabeça.
Pouco depois, uma figura aproximou-se deles. Só quando já estava mesmo perto da mesa é que os quatro amigos repararam que era Duke Devlin. Quando olharam para ele, perceberam de imediato que não estava satisfeito. Duke não se deu ao trabalho de ser simpático e dizer olá a ninguém. Virou-se rapidamente para encarar Joey.
"Joey, porque é que andas outra vez à volta do Kaiba?" perguntou ele. "Vi-vos juntos no intervalo."
"Que eu saiba, eu posso passar o meu tempo com quem quiser." disse Joey. "Pois bem, decidi passá-lo com o Kaiba. Algum problema nisso?"
"Tu afastaste-te dele e agora lembraste-te de voltar a aproximar-te novamente? Acho isso muito estranho. Bom, de qualquer das maneiras, tens de te manter afastado, percebeste?"
"Não, não percebi e também não vou manter-me afastado dele só porque tu queres." disse Joey.
Duke ergueu o queixo em modo desafiador.
"Ai sim, Joey? Não queiras ir contra o que eu digo, porque senão acabas por te arrepender." disse ele.
"Ei, não ameaces o Joey!" exclamou Tristan, zangado. "Senão és tu que te arrependes e ficas sem uns quantos dentes na boca."
"Nós bem vimos que tu estás interessado no Kaiba, mas ele não quer nada contigo, Duke." disse Téa.
"Isso é mentira. Quer dizer, a segunda parte é mentira. Eu estou interessado nele, sim e o Kaiba também está interessado em mim." disse Duke, olhando de seguida Joey nos olhos. "Joey, tu não tens nada que o Kaiba goste. És um pobre diabo, que não tem onde cair morto. Ele nunca se iria interessar por ti."
"Ai sim? Ao menos eu já o beijei. Mais do que uma vez. Devo pelo menos estar à tua frente na corrida pelo coração do Kaiba." disse Joey. "E tu deixa o Kaiba em paz, ouviste? Agora sou eu que o digo. Ele não gosta de ti e tu andas com todos. Não vais magoar o Kaiba, porque eu não deixo. Arranja outra vítima."
"Pois, só que eu não quero. Quero o Kaiba. E o que eu quero, eu consigo ter." disse Duke. "Vais acabar por perceber isso em breve."
De seguida, Duke virou costas e afastou-se rapidamente, enquanto os quatro amigos se entreolhavam e abanavam a cabeça.
"Ele não quer desistir do Kaiba." disse Yugi. "Mas tu és capaz de o conseguir conquistar, Joey. O Kaiba vai querer saber só de ti e não do Duke."
"O Kaiba disse-me que não estava interessado nele e eu acredito nisso." disse Joey. "E também não tenho medo das ameaças dele. Não vai afastar-me do Kaiba. Por nada deste mundo."
Água Mole em Pedra Dura…
No dia seguinte, depois de sair de uma aula, Duke foi rapidamente até à sala de aula onde Seto e a sua turma tinham estado a ter aula também e pediu-lhe para falarem. Seto acedeu. Joey viu-os afastarem-se e ficou um pouco aborrecido, mas decidiu não os seguir, pois tinha prometido a Seto que confiava nele. Duke e Seto foram até à biblioteca da escola e sentaram-se num dos lugares ao fundo da mesma.
"De que queres falar, Devlin?" perguntou Seto.
"Quero dar-te um conselho." disse Duke. "Devias afastar-te do Joey Wheeler. Achei que não seria necessário dizer-te isto, mas parece que afinal é, porque tens estado junto dele. O Joey não é uma boa companhia."
"Parece-me que eu próprio sei avaliar se alguém é boa companhia ou não." disse Seto, de modo frio. "E no meu entender, o Wheeler não é má companhia."
"Pois estás enganado. Ele já foi um delinquente e não tem maneiras nenhumas. Nem sequer é bom duelista nem nada. Provavelmente anda a aproximar-se de ti pelo teu dinheiro. É melhor que o afastes já."
"Devlin, penso que a conversa fica por aqui." disse Seto, levantando-se. "Não quero saber a tua opinião sobre o Wheeler. Eu é que sei da minha vida."
"Mas…"
"Adeus."
Seto virou costas e afastou-se, enquanto Duke cerrava os punhos, furioso com a situação.
"O Kaiba não me ouviu. Fui ingénuo demais ao pensar que lhe podia dar a volta assim. Afinal, o Kaiba não é nada burro." pensou Duke. "Mas não desisto tão facilmente. Tenho de arranjar maneira do Joey se afastar dele… hum… agora lembrei-me novamente que o Joey já o fez uma vez. Afastou-se. Mas porquê, se está interessado no Kaiba? Algo se deve ter passado. Vou descobrir o que foi e talvez seja algo que me ajude."
Água Mole em Pedra Dura…
Ainda nesse dia, Duke foi seguindo discretamente Joey sempre que podia. Viu-o a falar com Seto algumas vezes e outras vezes a falar com os seus amigos, mas isso nas salas de aula ou corredores, onde não havia maneira de se aproximar muito. Encontrou a oportunidade de ouvir uma conversa quando Joey, Téa, Tristan e Yugi tinham ido para a parte detrás da escola e se tinham sentado a conversar, no intervalo grande da tarde. A parte detrás da escola possuía algumas árvores e bastantes arbustos. Duke escondeu-se atrás de alguns deles.
"O Kaiba teve de ir requisitar alguns livros à biblioteca." disse Joey, suspirando. "Queria ir com ele, mas depois lembrei-me que também não posso andar sempre colado a ele, como antigamente. Prometi-lhe que seria moderado e é o que estou a fazer."
"E o Duke voltou a aborrecer-te?" perguntou Tristan.
"Até agora, não me voltou a aborrecer a mim." respondeu Joey. "Mas o Kaiba contou-me no intervalo anterior que o Duke lhe tinha dito para ele se afastar de mim."
"O Duke está a ser bastante malvado. Não tem hipóteses com o Kaiba e mesmo assim não vos deixa em paz." disse Yugi.
"Espero que o Kaiba o tenha mandado dar uma volta." disse Téa.
Joey sorriu e explicou aos amigos que Seto não quisera saber o que Duke pensara. Duke cerrou os dentes, furioso e conteve-se para não sair detrás dos arbustos e arranjar confusão com Joey e os outros.
"Estou a pensar convidar o Kaiba para irmos ao museu." disse Joey. "Não aprecio muito, mas o Kaiba há-de gostar."
"Sim, foi o que eu disse." disse Tristan, abanando a cabeça.
"Não quero exagerar desta vez e vou ter cuidado com tudo o que faço. Depois de tudo o que fiz, sempre a andar atrás do Kaiba, a beijá-lo e aquela cena na casa de banho, não vou exagerar novamente. Ele pediu-me para me afastar e agora deu-me uma segunda hipótese. Se exagero novamente, ele nunca mais me quererá ver e deixa de haver alguma hipótese de ficarmos juntos." disse Joey. "Portanto, vou convidá-lo para ir ao museu, espero que ele aceite e que nos acabemos por divertir. Depois, logo se vê. Ainda é muito cedo para pensar em algo mais sério, mas espero que as coisas corram bem."
Os amigos de Joey encorajaram-no na ideia de convidar Seto para irem ao museu. Por seu lado, Duke encaixou as peças do puzzle na sua cabeça e sorriu maliciosamente.
"Com que então o Kaiba pediu ao Joey para se afastar, porque ele o andava a beijar e andava sempre atrás dele. Agora o Kaiba voltou a aceitá-lo de volta, mas parece que há ali falta de confiança. O Kaiba é reservado e uma vez o Joey beijou-o à frente de toda a gente, na biblioteca. Hum… parece-me que o Kaiba lhe deu uma oportunidade, mas se o Joey o expuser novamente, o Kaiba não o vai perdoar. Aha! Já estou a ter uma ideia fabulosa para os separar."
Água Mole em Pedra Dura…
No dia seguinte de manhã, mal a primeira aula tinha terminado, Joey pediu para falar com Seto a sós. Os dois fecharam a porta da sala.
"Queria perguntar-se se não gostarias de vir comigo a uma visita ao museu da cidade." disse Joey. "Gostava que viesses comigo e podias divertir-nos. Não achas que seja demasiado ou será?"
"Não me parece que haja nenhum mal em irmos ao museu." respondeu Seto. "Mas não me parece que tu sejas um apreciador de museus."
"Bem… hum… se estiveres lá, eu vou divertir-me, seja onde for." disse Joey.
Seto abanou a cabeça e sentiu que um pequeno sorriso se formava nos seus lábios.
"Penso que seria melhor irmos ao cinema." sugeriu Seto. "Eu gosto de filmes e com certeza que tu também."
"Claro que sim! Acho uma óptima ideia." disse Joey. "Podes escolher tu o filme, por mim não tem problema. Só é pena que… hum, esquece."
"É pena o quê?" perguntou Seto, erguendo uma sobrancelha.
"É melhor eu não dizer. Não ias gostar de ouvir. Já estaria a exagerar outra vez."
"Agora quero saber como ias concluir a frase." disse Kaiba. "Desembucha de uma vez."
"Pronto, eu ia dizer que só era pena que, como muitos casais que vão ao cinema, não aproveitássemos o escuro para trocar uns beijos." disse Joey, muito depressa.
De seguida, calou-se, mas continuou a olhar para Seto. Seto ficou alguns segundos sem reagir e depois simplesmente encolheu os ombros.
"Não se pode ter tudo." disse Seto. "Portanto, tens de te contentar com a minha companhia, sem beijos."
Joey acenou afirmativamente.
"Marcamos para sexta-feira à noite? Estou livre na sexta." disse Seto.
"Claro. Sim, pode ser."
"Óptimo." disse Seto, caminhando para a porta da sala. Antes de sair, virou-se e encarou Joey. "Quem sabe, no futuro, a tua ideia de nós a beijarmo-nos no cinema não seja assim tão descabida."
De seguida, saiu da sala, enquanto Joey sorria abertamente.
Água Mole em Pedra Dura…
A tarde chegou rapidamente e Duke já tinha colocado o seu plano em prática. A escola tinha uma rádio, que passava músicas, anúncios e mensagens nos intervalos. Duke, com o dinheiro que tinha, decidiu colocar um anúncio e pagar para ter a certeza de que não ligavam o anúncio a si próprio. Nesse momento, Duke estava na biblioteca e olhou para o seu relógio. Sorriu maliciosamente.
"Está quase na hora. Isto vai acabar de vez com o que o Kaiba e o Wheeler têm ou poderiam vir a ter." pensou Duke.
Por essa altura, Seto, Joey, Téa, Tristan e Yugi estavam a entrar na sala de aula onde iriam ter a aula seguinte. Tinham decidido ir directamente para lá, uma vez que o intervalo não era muito grande. Mal tinham pousado as coisas, quando a música que estava a passar vinda da rádio da escola parou de tocar e foi substituída pela voz do aluno responsável pela rádio.
"Agora, trago uma mensagem romântica." disse o aluno. "É do Joey Wheeler, para o Seto Kaiba."
Os amigos de Joey e o próprio Seto olharam para Joey, sem compreenderem o que aquilo significava. Joey devolveu-lhes o olhar, também ele confuso. Não pedira para colocarem nenhuma mensagem na rádio da escola. Na biblioteca, Duke continuava a sorrir.
"O Joey deixou a mensagem de, utilizando as suas palavras, amo-te Seto Kaiba e não consigo imaginar a minha vida sem ti. Deste-me uma nova oportunidade para estar contigo e irei agarrá-la para que possamos estar eternamente juntos. És o amor da minha vida e quero que toda a gente o saiba. O Seto Kaiba é meu e só meu! Amo-te muito. A todos os que querem ficar com ele, deixem-no em paz. Ele é meu." disse o aluno da rádio. "E era esta a mensagem romântica. Agora, vamos a uma última música antes do intervalo terminar."
Uma nova música começou a tocar, mas na sala de aula, ninguém lhe prestava atenção. Yugi, Téa e Tristan entreolharam-se, sem quererem acreditar que Joey tinha cometido aquela loucura. Era o maior excesso que podia ter feito. Joey olhou para Seto e viu que ele ficara com uma postura ainda mais rígida do que o normal. Podia ver que estava furioso. Seto deu um passo em direcção a Joey.
"Qual é que foi a tua ideia?" perguntou Seto, irritado. "Tu disseste que não irias cometer exageros e agora isto! Uma mensagem na rádio da escola, para toda a gente ouvir! O que é que te passou pela cabeça, Wheeler?"
Continua…
