Sumário: Percebeu o erro que cometera no exato instante que Pansy se levantou do chão e sentou-se no banco à sua frente.

Harry Potter pertence a JK Rowling.

Presente para Swan e Miih.

Fanfic betada por Narcisa Le Fay, mais uma vez.


Till death do us apart


Projeto Império Violeta.
Música: What about now? (Daughtry)


- Não, ela não o conhece. Mas ela está lá por uma única razão. Ela vai acompanhá-lo por uma única razão.

- Qual?

- Uma chance.


Capítulo II – What if our love never went away?

Percebeu o erro que cometera no exato instante que Pansy se levantou do chão e sentou-se no banco à sua frente. De alguma forma, sabia que não deveria ter perguntado, porque a acuou emocionalmente. Não que Harry fosse perspicaz para uma coisa tão delicada quanto emoções, mas sentia que a jovem à frente estava abalada.

Viu-a respirar fundo, tentando não gritar novamente com ele, e preferiu ficar de boca fechada. Era melhor assim, pois sabia que ela gostava mais do silêncio do que de perguntas ridículas sobre ela estar bem ou não.

Parou diante desse pensamento. Ele sabia? Simples assim? Sabia o que a menina que conhecera há tão pouco tempo e depois da morte, sentia? Olhou para suas mãos, como se elas tivessem a resposta, mas não obteve nada do que a simples constatação que estava conectado à Pansy de alguma forma. Como se, naquele instante, pudesse ler as sensações dela tão bem quanto poderia ler as de Hermione, e sabia que isso era porque ela era sua companhia.

Será mais fácil de entender, uma voz lhe respondeu, assustando-o porquê era sua voz; seu subconsciente. Será mais fácil de entender, e se deixar sentir.

O quê, porém, ele ainda não sabia.

X

O silêncio atravessou o vagão quando Pansy não lhe respondeu. Estava mais calma, mas ainda não lhe ousava dirigir a palavra ou o olhar. Simplesmente encarava o chão, sem saber o que lhe dizer, com medo de deixar escapar alguma coisa que não queria expor. Harry preferiu permanecer quieto – se alguém deveria mudar de assunto, era ela.

Por fim, ela falou. E sua resposta evasiva não o surpreendeu nem um pouco.

- Não quero e não vou falar sobre isso, Potter. – havia um tom trêmulo em sua voz, tentando se controlar em vão – Não agora, pelo menos.

Harry apenas concordou com a cabeça e olhou para fora. Bem, pelo menos ela o respondeu; não foi embora como da última vez, deixando-o inapto de impedir que suas emoções fossem embora.

Mas aquilo, murmurou para si mesmo, foi muito estranho. Era como se eu não pudesse mais sentir nada senão estivesse próximo à Pansy. Será que a morte será assim para sempre? Será que vou ficar dependente dela para sempre, sem poder me afastar ou deixar de pensar nela como alguém necessário a mim? Será que devo tê-la sempre por perto? Será que...

Um chute fraco o tirou dos pensamentos. Sobressaltou-se encarando a menina que tinha uma das sobrancelhas erguidas.

- Voltou, Potter?

- O quê?

Ela revirou os olhos.

- Perguntei uma coisa e você não respondeu, continuou a olhar à janela. E então conclui que ou você estava morto, ou estava sonhando acordado. Que bom que só dá para fazer uma coisa, agora, não? – e deu uma risada cínica – Afinal, morrer na morte é algo improvável, – até mesmo para você.

Franziu o cenho, concluindo que ter aquela garota como companhia – como dependência para sentir alguma coisa – para sempre seria um problema. Tinha um tom muito petulante e desagradável para tão pouca idade. Não seria na morte que mudaria.

- Em quem você estava pensando? – ela perguntou, trazendo-o de volta à realidade. Encarou-a nos olhos, sem saber como dizer que estava pensando na nova condição dele em relação à ela.

- Estava pensando em meus amigos. Como eles estão.

Pansy encarou-o com um olhar levemente surpreso, para então responder:

- É verdade. Nós morremos. – não havia pesar em sua voz, só desconforto por pensar assim – E deixamos uma guerra toda para trás. Como será que as coisas estão indo?

Essa pergunta desarmou Harry completamente. Ficou sem voz e sem conseguir formar um pensamento coerente. Pensou apenas em como era egoísta e mesquinho. Decidiu por continuar morto, livrar o mundo de sua existência e da de Voldemort, mas não pensou em quem deixaria para trás – Hermione, Ron, Ginny, Ted. Simplesmente foi em frente para seu próprio conforto.

- Potter? – a voz de Pansy estava mais perto. Quando virou os olhos em sua direção, percebeu que ela estava sentada ao seu lado, a expressão tão lívida quanto, provavelmente, a sua.

Estava preocupada.

- Não sei como as coisas estão indo. – respondeu com um tom de desespero na voz – Não sei como as coisas estão indo porque deixei todos para trás. Pensei em mim mesmo de novo, e acabei não pensando nas conseqüências do que isso levaria. Não estarei lá para ajudar ninguém, e, por mais que Voldemort esteja morto, isso não quer dizer que Bellatrix e os Malfoy estejam! Eles vão continuar. A guerra vai continuar. E meus amigos, eles... Eles...

- Fique calmo. Respire fundo e fique calmo.

Harry não a escutou.

- Depois de tudo o que fiz, desisti tão fácil... Fui embora sem pensar. Fechei os olhos e não vi meus amigos. Não vi ninguém. Pansy, que foi que eu fiz?

A garota levou a mão ao seu ombro, apertando-o levemente, como se isso o fizesse se acalmar. Não adiantou. Harry pôde sentir o desespero dela; a parte dela que não sabia o que fazer. Sentiu o desespero, o medo, a pena. E foi inevitável a pergunta seguinte.

- O que foi que você fez?

Continuou encarando o chão. E antes que pudesse perceber, já estava contando.

X

Contou-lhe tudo, não reconhecendo sua voz cansada, nem o coração apertado. Contou-lhe sobre os planos que falharam, a ingenuidade diante do impensável, o medo e a raiva por erros que nunca poderiam ser impedidos. Contou de seu rancor por Dumbledore, sobre a desconfiança de Ron (e de como não conseguiu encará-lo nos olhos depois da destruição da Horcrux, simplesmente por perceber que não o conhecia tão bem quanto pensava) e a tristeza infinita de Hermione.

Contou sobre as mentiras, as verdades, as memórias compartilhadas com Voldemort. Contou sobre a Casa dos Malfoy, a morte de Dobby e sua falta de escolhas ao optar por invadir Gringotes. Contou sobre Snape, sobre seus pais, sobre o abro quando fecho, sobre quatro pessoas lhe acompanhando para a morte. Contou também sobre as pessoas que viu morrer, sobre as mortes que pôde e não conseguiu evitar e sobre como ele sentia-se fraco ao perceber que nunca se lembraria dos nomes de todos eles.

Simplesmente contou, sem esperar perguntas ou exclamações ou olhares de pena. Retirou tudo o que devia ter retirado de seu coração, e não esperou que Pansy, uma estranha, o compreendesse. Aliás, não esperava compreensão. Esperava apenas que seu coração estivesse mais leve.

Quando terminou, sabia que parecia mais velho do que jamais seria, e como não agüentava mais tanto sofrimento. Sempre esperou que não passasse isso na morte, mas obviamente estava errado.

Pansy não disse de imediato. Continuou a ter a mão apoiada em seu ombro, olhando-o fixamente. Harry sabia que não havia mais o que lhe dizer; que não havia como dizer alguma coisa.

Então ela fez o impensável: fez-lhe uma pergunta. Outra.

- Você disse que imaginou King's Cross?

Harry a observou, sem entender.

- Sim.

- Então quer dizer que esse trem é seu?

- Eu... Creio que é.

Pansy sorriu como uma criança, animada e excitada.

- Então quer dizer que você pode transformar isso em qualquer tipo de meio de transporte?

- Como é?

- Você sabe. – e gesticulou com as mãos, levantando-se para postar à sua frente – Se você criou um trem, então quer dizer que você pode criar uma carruagem também? Ou uma lareira? Ou...

-... Ou algum meio de transporte trouxa. – completou.

Ela se afastou um pouco, séria por um momento.

- Não conheço nenhum meio de transporte trouxa.

Foi a vez de Harry se levantar. Estava próximo à ela que seus os hálitos se misturando. Pansy se assustou com a proximidade. Ele ignorou.

Deu um sorriso infantil, sem mostrar os dentes. Pegou sua mão e respirou fundo.

- Então vou te mostrar os que eu conheço.

Antes que ela pudesse objetar, fechou os olhos e pensou no primeiro transporte que veio em sua mente. Num impulso, correu e puxou Pansy para fora do vagão.

Sentiu uma pressão estranha no corpo, como se estivesse aparatando.

E então abriu os olhos.

X

- Isso é impossível.

Harry deu uma risada alta, achando cômica a falta de palavras de Pansy diante do que ela via.

- Não é. Os trouxas tornaram isso possível. Bem impressionante, hã?

Pansy o encarou boquiaberta.

- Impressionante? Harry – e o jovem se sentiu estranho diante da intimidade, mas não achou ruim – nós estamos voando.

Sim, de fato, estavam. A mente de Harry trabalhou em pensar em um avião – coisa que ele nunca viajou na vida – e, assim que atravessaram a porta do vagão, depararam-se com um objeto voador, transparente como o trem, mas voando. Não que o ambiente totalmente branco indicava isso; simplesmente sabiam, como todas as outras coisas.

Podia sentir o avião mover-se diante dos ventos, às vezes tendo turbulências que faziam Pansy olhar tudo assustada. Isso era engraçado e divertido e o fazia quase se esquecer de tudo o que confessara à outra. Quase.

Outra turbulência, mais forte que as demais, fez com que Pansy caísse sentada no chão do transporte. Harry não pôde conter a risada, nem quando recebeu um olhar constrangido e bravo da companheira.

- Não tem graça. Quero mudar de transporte, Harry.

- Eu mudo se você me chamar de Harry de novo.

O rosto dela ficou escarlate, e antes que ela re-apreendesse a falar, fechou os olhos.

X

Foi a vez de Pansy rir. A brisa do mar bateu em seus cabelos curtos e a deixou mais bonita do que realmente aparentava, talvez porque estivesse alegre. Harry, entretanto, não pôde pensar muito nisso porque estava muito ocupada sentindo enjôo marítimo por causa do balanço do navio.

- Não é tão bom quando é conosco, não? – ela perguntou com um tom risonho na voz.

- Oh, fique quieta. – ele murmurou, um pouco zangado, enquanto se apoiava nas grades do navio para que a tontura não o levasse ao chão.

- Você está emburrado porque nunca andou de navio! – ela disse, o sotaque inglês sobrecarregando ainda mais o comentário, algo que, pôde perceber rápido, era o que ocorria quando achava alguma coisa muito engraçado.

Afastou-se da grade, subitamente, e segurou a mão dela de novo. Pansy o acompanhou, sem entender – e Harry sentiu um misto de emoções estranhas, que não pôde diferir muito, então chamou de felicidade. Estava parcialmente certo – até que ele fechasse os olhos.

- Potter, isso não tem um limite? Você não vai ficar mal, doente, qualquer coisa do tipo?

Virou-se para trás, ainda se dirigindo à primeira porta que viu.

- Já não disse para me chamar de Harry?

Antes que respondesse, abriu porta.

X

A mão de Pansy quase esmagou a de Harry por boa parte do percurso. Talvez tenha sido uma ideia ruim levá-la para andar de ônibus: ela não parecia muito confortável. Tinha quase certeza de que ela nunca andara com o Nôitibus Andante, e a má fama dele pode ter piorado um pouco seu medo.

- Nós vamos bater. – ela murmurou, aflita.

- Não vamos bater porque já estamos mortos, Pansy. E bateríamos em quê?

- Não sei. – a voz dela estava fina e fraca – Mas vamos bater.

Harry revirou os olhos.

- Quer mudar de transporte ou...?

- Não, eu vou ficar bem. Eu vou estar bem daqui a pouco.

E, de fato, isso ocorreu. Passado alguns minutos, ela libertou sua mão do esmagamento e pousou-a em seu colo, observando a rua inexistente. Seus olhos estavam concentrados, profundos, e Harry percebeu que era a vez dela de estar pensando em alguma coisa ou alguém.

- Pansy...?

Não respondeu. Simplesmente continuou a observar o lado de fora, imersa em qualquer que fosse o pensamento. Vez ou outra seus dedos tamborilavam em sua... Roupa de dormir. Harry franziu o cenho, sem ter notado que ela estava usando uma camisola rosa, com detalhes rendados em preto. Combinava com ela. Na verdade, deixava-a muito bonita.

Sentiu seu rosto esquentar quando percebeu que estava observando o corpo da garota em uma roupa de dormir. Não era muito perspicaz para certas coisas, mas isso era um pouco pervertido. Pensou imediatamente em Ginny, como se isso o afastasse de pensar em Pansy.

Bem, deveria ter afastado. Afinal, havia a culpa de observar uma mulher que não fosse a ruiva, não? Porque Ginny era a garota da sua vida; amou-a tanto quanto amou Cho Chang – e para um coração de treze ou catorze anos, isso era bastante – e gostaria de passar o resto de sua vida ao lado dela, se já não estivesse morto.

O que o fez pensar, novamente, na razão de ter Pansy como companhia. Por que logo ela e não todos os outros? Claro, Dumbledore havia lhe dito que ela possuía certos sentimentos por ele que não eram cheios de ódio, mas isso era o suficiente para prendê-la a ele até mesmo depois da morte?

Prendê-la a ele, ecoou em sua mente, e não gostou de como colocou sua relação com Pansy. Não gostou mesmo.

Subitamente, levantou os olhos, cansado do ônibus, do olhar distante de Pansy ao nada, e de suas próprias questões. Segurou a mão da garota que, soltando um pequeno grito de surpresa, perguntou-lhe o que estava acontecendo.

Puxou-a até uma das portas e ordenou que elas abrissem.

- Ainda estamos andando, Potter!

Ignorando a observação de Pansy, puxou-a para pular, junto dele, para fora do ônibus, sem nem pensar duas vezes. Fechou os olhos.

X

O vento bateu em seu rosto e Harry fechou os olhos, deliciado. Ouviu Pansy dar uma risada gostosa, atrás de si, e apertar ainda mais sua cintura, achando tudo aquilo muito divertido. O cavalo branco quase se confundia com o ambiente e trotava sem perder o ritmo e o fôlego. Lembrava um pouco a estátua do xadrez de Ron, porém muito mais majestoso. Com as rédeas, puxou o cavalo mais para o lado, para que eles fizessem uma espécie de curva, apenas para sentir a sensação.

Sem hesitar ou temer, o animal fez como foi mandado, e Harry não conseguiu parar de sorrir diante disso. Aquela cavalgada tirou todos os pesares e pensamentos ruins de sua cabeça, e parecia ter feito o mesmo em Pansy. A menina, ainda sorrindo, encostou o queixo em seu ombro para saber para onde estava indo.

- Isso é bem mais divertido que aquela coisa que voa. – comentou, fechando os olhos e sentindo o vento batendo em seus cabelos curtos.

- Se chama avião. – retrucou – E concordo. Nunca havia andado de cavalo, e você?

- Acho que não há cavalos em meu mundo, Harry¹.

Uma risada.

- Você acabou de me chamar pelo primeiro nome?

- Claro que não! Você está ficando surdo na morte, Potter?

Soltou uma das rédeas e aproximou a mão das que estavam em sua cintura, pousando sobre uma delas. Percebeu que Pansy ficou desconfortável – ele também estava, na verdade –, mas não a retirou. Virou a cabeça para o lado, para que os olhares se encontrassem e murmurou, sorrindo.

- Eu acho que você me chamou de Harry sim, Pansy.

A menina ficou sem palavras; apenas escondeu os lábios no ombro do menino, os olhos perdendo-se em algum ponto da crina do cavalo branco. Estava embaraçada, envergonhada, assim como o menino.

Naquele silêncio confortável e até romântico – romântico demais para alguém que se dizia ainda apaixonado por Ginny Weasley – continuaram a cavalgar, em direção ao que deveria ser sua morte completa.

X

O caminho poderia ser confundido com asfalto branco, se não fosse pelo fato de que Harry havia pedido por uma estrada de terra. Havia o cheiro de terra e um pouco de sol batendo em seus rostos – mas sem queimá-los ou cansá-los. Pansy andava atrás de si; as mãos atrás das costas, andando de um lado e de outro, como se estivesse dançando, e murmurava uma melodia qualquer.

Harry, que nunca gostou de ficar em silêncio – nem quando estudava – virou-se para a menina.

- Pansy, quanto tempo você acha que se passou na, er, Terra?

Ela o encarou diretamente e um raio de luz passou por seu rosto e iluminou ainda mais seus olhos. Naquele ângulo, ela ficava realmente bonita.

- Não sei. Deve fazer um bom tempo, porque parece uma eternidade aqui.

- Aqui é a eternidade, Pansy.

- Você entendeu o que eu quis dizer, Po– Harry.

- Bem melhor. – ele murmurou, um sorriso em seu rosto.

Ela arqueou as sobrancelhas de um jeito que o fez lembrar-se da primeira vez que a viu. Primeiro ano, rosto entediado, a primeira menina a ser chamada para sentar no chapéu seletor. Não parecia nervosa, nem assustada. Não ficou envergonhada por sentar-se na frente de muitas pessoas, nem fez uma careta quando o Chapéu Seletor cobriu seus olhos. Quando foi selecionada para a Slytherin; simplesmente levantou-se e saiu, com toda a sua graça infantil, sem falar em sua boa-educação. Não gritou de felicidade, nem sorriu como uma boba. Parecia incrivelmente madura aos olhos surpresos com o mundo mágico de Harry.

Piscou os olhos, sem saber porque estava se lembrando de algo assim.

- Algum problema, Harry? Parece até que saiu de um transe! – e uma risada maldosa.

- Pare com isso, Pansy. – Haryr revirou os olhos – Estava só pensando em uma coisa.

- No quê?

- Em quando nos conhecemos. No primeiro ano. Quando você foi escolhida para a Slytherin, sabe?

- Ah sim. – ela respondeu, um pouco sem saber o que dizer – Eu lembro disso.

O silêncio atingiu os dois – algo que, Harry pôde notar, era recorrente naquele relacionamento – e ambos olharam para o chão, sem saber o que dizer. Até que, por fim, uma pergunta apareceu na cabeça do jovem, e ele não pensou duas vezes em fazê-la à Pansy. Como sempre.

- Pansy, por que você me odiou tanto no passado?

A reação da garota foi estranha. Ela o olhou como se ele a tivesse perguntado se ela possuía pintas rosas no corpo – algo completamente impossível de ser pensado. Isso o deixou curios: não esperava que ela ficasse tão assombrada por tão pouca coisa. Entretanto, quando o choque inicial passou, sua expressão se suavizou, e ela respondeu, com a voz tremendo, como se tivesse medo de falar algo que não devia:

- Não sei por que acha que eu o odiei.

Foi a vez dele de arquear as sobrancelhas.

- Sério? Sério mesmo? Nenhuma razão? Nenhum comentário desagradável, denúncia desnecessária, perseguição quase que paranóica?

Ela foi para trás por um momento, rindo um pouco.

- Acho que está andando demais comigo, mas entendi seu ponto. – engoliu em seco, mordendo seu lábio inferior – Eu andava muito com Draco naquela época. O que ele fazia, eu acabava fazendo por osmose. Nunca o odiei de verdade. É apenas aquela coisa de desgostar das pessoas que os amigos desgostam. Simples assim.

- Nossa. – Harry rebateu, seco – Você realmente teve bons amigos, hein?

Isso pareceu enfurecê-la e ofendê-la. Colocou uma das mãos na cintura e retrucou, de maneira irritada e ferina.

- Não fale dos meus amigos se não os conhece. E você não tem moral para me dizer qualquer coisa. Por que você não gostava de mim, Potter? Talvez por que a sua amiga castor não gostava?

- Não a chame assim! Ela não é um–

- Dane-se se ela não é um castor ou se é uma vadia dada! – Pansy explodiu – O fato é que você fez a mesma coisa que eu fiz, e realmente achou justo me passar sermão ou indiretas sobre meus amigos!

O moreno sentiu o sangue ferver, mas não falou nada. Lembrou-se do que ocorrera da última vez que havia se afastado, e de como estavam exaltados. Perder a cabeça por alguma coisa do passado – alguma coisa que ele trouxe à tona, não ela – não valia a pena. Respirou fundo apenas uma vez, antes de virar de costas e pensar que gostaria do trem novamente.

E então, aconteceu. Sem precisar imaginar, sem precisar fechar os olhos, o ambiente modificou-se. Como se estivesse descascando, o céu começou a cair em grandes pedaços, como se fossem cinza. Ouviu Pansy murmurar alguma coisa, assustada, e notou que o chão por si só também estava se tornando algo disforme. O cenário desintegrou aos seus olhos apenas para, sem aviso, congelar no tempo. Cinzas que não haviam chegado ao chão pararam no meio do ar. Harry prendeu a respiração, com medo do que estava acontecendo.

Até que, novamente sem aviso, o tempo voltou a caminhar normalmente e as cinzas voltaram a se unir em uma estranha, combinação que, aos olhos de Harry, se transformava no velho trem e eles se encontrassem no corredor.

Houve silêncio, novamente.

X

Continuaram parados até que um deles falou. Pansy, com sua voz magoada e um pouco irritada, chamou seu nome algumas vezes até que ele se virasse para ela. E, como esperado, ela não pediu desculpas, apenas mudou de assunto com uma pergunta:

- Se você tivesse voltado a viver, Harry, eu te esperaria? Você acha que... Que estávamos destinados a partir juntos?

Havia desconforto em sua voz, e medo também. Harry percebeu que ela estava encabulada, mas interessada em sua resposta. Se houvesse uma, claro, pois essa pergunta era tão difícil de se responder – tão improvável de se ter uma resposta concreta e correta – que o garoto ficou em silêncio.

Ainda assim, Pansy esperou ansiosamente pela resposta. Os olhos estavam presos no jovem à sua frente, e o trem não parava de andar. Harry olhou para as cabines, para o chão, para o teto, menos para a garota. E se ele não tivesse uma resposta? E se ele não quisesse ter uma resposta?

Então, ela veio. Depois de muitos minutos, ela veio. Não como uma certeza, mas como um desejo. Algo que ele queria que ocorresse, que fosse verdade. E num lugar onde havia apenas os dois, onde deus não os encontrava pessoalmente e Dumbledore não estava presente, sua resposta era lei. Tanto para ele, quanto para Pansy.

- Bem... É provável. – e os olhos dela brilharam, quase como se em felicidade – Se você está aqui para resolver um problema comigo, então é bem capaz que você continuasse aqui até que fosse a minha vez de partir. Digo, se você é ligada à mim mais que os outros, então nós iríamos sim juntos.

Pansy respirou aliviada. Não havia mais perguntas, nem respostas, apenas alívio. Como se fosse necessário que ela estivesse ali; acabasse com o que precisasse acabar. Como se seu acerto de contas com o jovem fosse a coisa mais importante ali.

Os olhos de Harry abriram-se violentamente e assustaram até mesmo a menina à sua frente. Ela deu um passo para trás, somente para voltar ao seu lugar de origem e chamar seu nome. Várias vezes. Mas ele não ouviria.

Não ouviria porque finalmente entendera. A demora em chegar ao lugar em que deviam chegar, a capacidade de não passar o tempo, de não haver fim para a viagem que os dois compartilhavam. Não era questão do meio de transporte ser lento – embora Harry nunca pensara nisso – e sim que um deles não queria, não podia chegar até que tudo estivesse terminado.

- Pansy... – Harry diz, os olhos tão surpresos quanto a entonação em cada palavra – Você é o caminho.


The sun is breaking in your eyes
To start a new day.
This broken heart can still survive
With a touch of your grace.
Shadows fade into the light.
I am by your side,
Where love will find you.


N/A.: Ahhhh, por essa vocês não esperavam, né? HAUHAUHAU! Espero que tenham gostado e que não tenham achado confuso. Lamentavelmente, não está tão bom quanto eu gostaria/poderia fazer, porque, quando o iniciei, estava meio doente e acabei tendo de deixar para o último dia de entrega e apressando as coisas.

Ainda bem que fiz um roteiro prévio para seguir, senão teria me ferrado! E agora vamos para o último capítulo, YAY!

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