Booth gelara só de ouvir a voz dela. Sete longos anos depois, ele ouvia-a outra vez. Ele nem sabia se o coração parara ou batia rápido, ele não sabia se respirar deixara de ter importância ou se precisava de um longo e fundo suspiro. Ela apareceu e parou. Os sete anos não pareciam ter passado para ela, que continuava a mesma. Com o mesmo olhar, o mesmo sorriso, a mesma maneira de ser. Sim, ela sorriu ao vê-lo, e ao ver a menininha, os olhos brilharam de uma forma especial. Da mesma forma que Booth via quando ainda Joy estava na barriga de Brennan. De alguma forma, Booth estava nervoso como nunca tinha estado.

Joy agarrou outra vez a mão do pai, desta vez com força. Agora confirmava aquilo que o pai dizia quando referia que o silêncio dizia mais do que as palavras mais belamente ditas. Mas agora, ela queria que alguém falasse. Algo se passava ali com aquele silêncio interminável e sereno, aquela troca de olhares, algo que Joy na sua inocência na entendia. Apenas com a sua espontaneidade e curiosidade de criança, sentia um nervoso miudinho e um certo receio. A expressão impávida de Joy pouco a pouco desvaneceu, sorrindo para Brennan, e ela retribuiu da mesma forma. Ela largou a mão de Booth, e deu um passo a frente, e depois outro, e outro, ficando frente a frente de Brennan, sob o olhar atento e de alguma forma nervoso de Booth. Brennan abaixou-se, ficando cara a cara com Joy que lhe deu um abraço retribuído e sentido que deixou Brennan a escorrer uma lágrima.

Joy levou a mão pequena ao rosto dela, e depois de lhe limpar a lágrima, deu-lhe um beijo na bochecha. Brennan sorriu, puxando Joy para mais perto dela, tendo os braços à volta da cintura da menina.

-Dás-me outro abraço? – Brennan pediu, o que Joy fez agora livre de nervos e medos, e visivelmente feliz. Brennan pegou em Joy ao colo e perguntou-lhe. – Como te chamas?

-Joy.

-Joy…É um nome muito bonito, e com muito significado para mim. - Brennan disse. Ela achava que era altura de enfrentar o passado e perder medos.

Joy, neste momento sentiu que o pai ainda não estava no seu estado normal. Olhou para trás, e viu-o com a mesma expressão que tinha. Ela caminhou para ele, e Booth ao vê-la abaixou-se, não tirando os olhos lá do fundo da sala, pensativo.

-Pai, - Ela sussurrou, chamando a atenção dele. – descontrai. Não estejas nervoso.

-Não consigo! – Booth murmurou também, um pouco embaraçado ao dizê-lo. Parecia um miúdo tímido ao ver uma rapariga.

-Consegues sim! Vá lá, és um homem ou um rato?

Booth engoliu em seco, e Joy ficou a vê-lo atarantado, coçando a parte de trás da cabeça.

-Booth? – Brennan disse de sorriso maroto ao vê-lo atrapalhado e vendo que agora ele a olhava. Mas ele nada proferiu. Emitiu uns sons, entre gaguejos, que ele achava que tivessem soado como palavras. – Tive saudades tuas. – Ela disse e aproximou-se, dando-lhe um abraço.

Joy fazia gestos frenéticos, vendo o pai de braços ao lado do corpo de ambos. Os dois comunicavam entre olhares, até que ele finalmente a abraçou. E o que ele sentira tanta falta daqueles abraços. Apoiou a cabeça no ombro dela e deu-lhe o abraço tão sentido e merecido entre os dois. Ela suspirou ao ouvido dele:

-Senti tanto a tua falta…

Booth despegou-se um pouco e deu-lhe um beijo na cabeça dizendo:

-Também eu…Pensei tantas vezes em passar por cá, mas tive medo…que já não te lembrasses de mim-

-Booth, - Ela olhou-o seriamente. – Foste, és e serás sempre alguém importante para mim. Como te poderia esquecer de ti?

-Não sei… - Ele murmurou, procurando um fundamente para o medo. – Da mesma forma que me deixaste com a Joy nos braços-

-Talvez se me tivesses pressionado, chamado a atenção…Pedido para tentar…

Booth, por mais que quisesse, não lhe conseguia atribuir culpas do que acontecera. De certa forma, ele sabia com que lidava, sabia que ela era racional, difícil de lidar, e ele não lhe deu a atenção necessária, não a incentivou. Ela reparou que o deixara outra vez pensativo, e disse cabisbaixa:

-Desculpa… - Mas ele continuou sem reacção, perdido nos pensamentos. – Não fiques tão triste, mas…Porque é que só vieste agora? Pensei que tivesses desistido de mim.

-Nunca desisti de nada ou alguém…Este foi o pedido de Natal da Joy, e sabia que se não o cumprisse, ela como é inteligente, iria encontrar-te…E eu queria estar aqui para a ajudar.

-Só vieste por ela?

Joy neste momento já vagueava pelo Jeffersonian; ela sabia distinguir as conversas de adultos onde as crianças podiam estar, e aquelas nas quais não eram tão bem-vindas.

-Queres saber a verdade?...Não. Ontem à noite quando vi as fotografias que tenho na mesa-de-cabeceira, vi que tinha todas as pessoas, excepto uma. E prometi a mim mesmo que hoje estaria levando a única que me falta e de quem eu gosto.

Brennan recuou; começava a mostrar sinais da mesma Brennan de há sete anos atrás.

-Bones, eu levo isto devagar, com calma. Tenho todo o tempo do mundo…Dá-me apenas uma hipótese, dá-nos uma oportunidade…Sabes que não te vou magoar como os outros, e involuntariamente te fizeram fechar em ti mesma.

-Podes ir embora… - Ela disse chorando. Aquilo era uma espécie de dejá vù para o qual ela já sabia a resposta. – Não vais ficar eternamente à minha espera…Sabes que não te posso dar o que queres.

-Podes sim Bones. Tu és capaz de fazer e dizer coisas extraordinárias sem que te apercebas.

-Eu desisti de tudo o que me pudesse ligar a relacionamentos.

-Desistis-te da vida? – Joy perguntou, aparecendo devagar.

-Assim que me deixaram sozinha. – Brennan respondeu limpando as lágrimas.

-Desistis-te de ti?

-Nunca…Sempre fui inteligente para conseguir o que quer que fosse.

-Imagina se o meu pai não existisse…Eu também iria desistir porque me teriam deixado sozinha.

-Tens alguma razão no que dizes, mas eu não fui ensinada assim-

-Os sentimentos não se ensinam…Quem desiste não vive-

-Interiormente, queres tu dizer.

-O que tens a perder?

-Vem cá. – Brennan disse abaixando-se. Ela pegou na menina ao colo, e depois respondeu voltando os olhos para Booth. – Não tenho nada a perder.

Deixo aqui mais um capítulo, e para mais desenvolvimentos...cá estarei. Espero que venham para ler. E já agora, muito obrigado por todos os comentários. Babo-me a ler cada um:D